O logo de Gotham, a série de TV.
O logo de Gotham, a série de TV.

Já há algum tempo, vários pedidos chegam ao HQRock para que produzamos uma resenha sobre Gotham, nova série de TV baseada no universo de personagens de Batman, da DC Comics, a ser levada ao ar pelo conglomerado Warner Bros. e a ser exibido pelo canal Fox, trazendo a história do jovem detetive James Gordon em paralelo às consequências das mortes dos pais de Bruce Wayne. Então, a pedidos, aí vai!

Para objetivar nossa análise, diferentemente do que fazemos com os filmes, vamos resenhar os três primeiros episódios da série e tecer alguns comentários gerais.

O detetive James Gordon: como ser incorruptível em uma cidade corrupta?
O detetive James Gordon: como ser incorruptível em uma cidade corrupta?

Comecemos pelo Episódio 1 – Piloto.

O primeiro episódio de Gotham sofre um pouco do mal da maioria dos pilotos, na urgência de mostrar “o que é” a série, termina despejando informação demais no telespectador, inclusive, apresentando personagens totalmente desnecessários apenas para “apresentá-los” aos capítulos seguintes. A trama de Piloto é bem elaborada e densa, o que é positivo, mas por outro lado, os 40 min do capítulo terminam sendo pouco para desenvolvê-la, então, alguns pontos ficam apressados.

Dito isso, é importante salientar que, no cômpito geral, Piloto é um episódio extremamente promissor. A premissa da série é excelente e os personagens principais são muito bons. E até algumas surpresas no meio do caminho impressionam.

A morte dos pais de Bruce Wayne: foco da série em seu início.
A morte dos pais de Bruce Wayne: foco da série em seu início.

A trama básica é aquela já pré-definida no cânone do Batman: os milionários Thomas e Martha Wayne são assassinados na saída de um cinema, aparentemente em um assalto banal, na frente do filho Bruce, que tem algo em torno de 10 ou 12 anos. A partir daqui, Gotham começa a amarrar novas pontas e relacionar personagens de modo inédito, mas com um bom resultado. A polícia precisa, então, investigar o crime e a bomba cai em cima da dupla de detetives James Gordon e Harvey Bullock.

Gordon é um novato na corporação; herói de guerra que ingressou na polícia há pouco tempo e, diferentemente da maior parte da força, é um homem honesto e corajoso. Bullock, ao contrário, é um veterano da polícia e, por isso, tem todas as manhas, ligações com o crime organizado e uma visão muito própria do que é certo ou errado. Um tira corrupto e omisso. É interessante essa abordagem por ela não difere muito do personagem original dos quadrinhos, onde Bullock surgiu como um policial corrupto e, depois, ficou honesto. Quem sabe este é o arco do personagem na série? Não está claro. Ele é justamente a maior incógnita do programa.

O Pinguim é um dos destaques.
O Pinguim é um dos destaques.

Os outros personagens são bastante interessantes: Bruce Wayne aparece como um garoto obviamente perturbado após o crime; Alfred tem uma presença de tela interessantíssima; Fish Mooney combina arrogância e ambição; Selina Kyle é uma típica “menina de rua”; e Oswald Cobblepot tem um arco bem promissor.

A série cria uma ligação entre Gordon e o jovem Wayne, que inexiste nas HQs originais (na origem oficial, Batman: Ano Um, Gordon só chega à cidade quando Wayne é adulto e se torna o Batman); mas é insinuada em outra versões, como por exemplo, na Trilogia Cavaleiro das Trevas (em que o jovem policial Gordon conforta o pequeno Bruce logo após o crime; mesmo que esse contato tenha sido meramente pontual, já que no segundo filme, ao encontrar Gordon, Bruce Wayne age como se não o conhecesse e o policial lhe pergunta: “você é Bruce Wayne, não é?”).

O confronto entre Gordon e o Pinguim define a jornada de ambos.
O confronto entre Gordon e o Pinguim define a jornada de ambos.

O assassinato dos Wayne é o primeiro grande caso que Gordon investiga como Detetive do DPGC em Gotham, então, lhe dá muita importância. O policial também é cativado pela situação de Bruce, revelando ao jovem que também ficou órfão cedo. Assim, se cria uma conexão entre os dois e Gordon promete desvendar o caso, algo que não consegue fazer de imediato. Ele se sente em dívida com o garoto e isso aumenta seu desejo de solucionar o caso.

Piloto impressiona ao desenvolver a trama que corre por trás do assassinato dos Wayne: foi um crime acidental ou há algo mais? Esta parece ser a grande questão da Primeira Temporada e vai ser interessante vê-la sendo desenvolvida. A investigação serve para revelar o bandidinho Mario Pepper e sua filha Ivy Pepper, que fica claro será a Hera Venenosa no futuro.

É impactante a aparição de Carmine Falcone no fim do episódio. Cheio de presença de tela, o chefe máximo do crime organizado de Gotham City vem mostrar que o assassinato dos Wayne “não foi bom para os negócios” e também quer saber quem o cometeu.

Piloto resolve alguns pontos básico da trama – para servir como capítulo isolado – mas, apesar dos “senões” do início do texto, deixa uma série de boas promessas ao fim.

Episódio 2 – Selina Kyle

Selina Kyle: peça chave na investigação.
Selina Kyle: peça chave na investigação.

O segundo episódio tem uma linha principal mais banal – um casal de malucos que sequestra crianças de rua para vendê-las a um tal de “sr. dos bonecos” (gancho para algo no futuro parece. Para mim tem cheiro de Ra’s Al Ghul e a Liga das Sombras no ar, mas deixe isso para depois, né?). Contudo, as tramas paralelas são bem mais interessantes, mostrando um pouco de quem é Selina Kyle (que presenciou o assassinato dos Wayne), do crescimento de Oswald Cobblepot, das ligações do crime organizado e da vida íntima de James Gordon e sua noiva, Barbara Kean.

Os detetives Allen e Montoya: ela tem uma história com a noiva de Gordon.
Os detetives Allen e Montoya: ela tem uma história com a noiva de Gordon.

Se no Piloto havia sido apenas insinuado um tipo de “ligação” entre Barbara e a detetive Renee Montoya; este segundo episódio deixa tudo claro e explícito: as duas foram amantes e há até um beijo entre elas. (Fazendo inveja à hipócrita TV brasileira) Gotham toma uma decisão arriscada e bem-vinda, pois dá toda uma sensação de mundo real à trama e, claro, adiciona toneladas de drama em cima do personagem Jim Gordon, que não sabe, nem suspeita de nada do que houve no passado dela.

É interessante que Montoya é realmente lésbica nos quadrinhos, mas a ligação com Barbara Kean, futura esposa de Gordon (e mãe de James Gordon Jr. e – dependendo da versão – de Barbara Gordon, a futura Batgirl), é totalmente nova, criada pela série.

Fish Mooney quer crescer na hierarquia do crime.
Fish Mooney quer crescer na hierarquia do crime.

Episódio 3 – The Balloom-Man

O terceiro episódio tem mais “cara de HQ” do que os demais por trazer um assassino em série que usa um método totalmente bizarro de matar suas vítimas. Na trama, a abordagem do “homem-balão” desperta a curiosidade (e dá várias ideias) a Bruce Wayne.

Selina Kyle continua a ser desenvolvida e se mostra importante para a polícia por ter visto o rosto do assassino dos Wayne. Ao mesmo tempo, vemos se desenvolver uma pequena guerra de poder no submundo de Gotham, que vai ganhando novos peões importantes: Sal Maroni vem se juntar à complexa rede de relações entre Falcone e Fish Mooney; bem como Oswald Cobblepot vai desempenhar um papel importante em tudo isso.

O episódio também deixa claro que, como não confiam no DPGC, a Unidade de Crimes Especiais – representada por Renee Montoya e Crispus Allen – desenvolve uma investigação paralela do crime dos Wayne.

Oswald cresce como personagem.
Oswald cresce como personagem.

Panorama Geral

Gotham tem até agora vários trunfos. A fotografia da série é diferenciada, dando relevo aos tons sujos e sombrios, porém, sem abusar da escuridão, que aparentemente é um elemento que não funciona muito bem na TV. Gotham City deve ir ganhando cada vez mais identidade visual ao longo dos episódio, mas desde o início tenta não ser uma mera “imitação” de Nova York. É curiosa a abordagem estética do programa: não é uma cidade gótica, mas sombria.

Ao mesmo tempo, a Direção de Arte faz uma brincadeira com o tempo. A lógica é que a série se passaria por volta dos anos 1980, para que o Batman fosse adulto nos dias de hoje; desse modo, muitos elementos da série refletem esse período (sem as cores berrantes daquela década, contudo), que aparecem em móveis, objetos de cena, roupas e carros. Entretanto, os personagens usam telefones celulares e, mais raramente, computadores. Desse modo, Gotham fica localizada em um tipo de limbo temporal que mistura os anos 1980 – o jovem Bruce Wayne sempre aparece usando suéteres bem ao estilo antigo – com o mundo contemporâneo. Tomando a premissa de que a história se passa nos dias atuais, o uso dos elementos vintage dá um tom de decadência à cidade que cai muito bem com a trama.

Outro trunfo são os personagens. Embora alguns ainda precisem ser desenvolvidos no futuro – como a Capitã Sarah Essen, a chefe de Gordon e Bullock, ou o perito (que ocupação genial para ele) Edward Nyga, que todos sabem será o Charada no futuro – o núcleo principal e o de apoio é muito bom.

Gordon e Bullock: tira bom e tira mal.
Gordon e Bullock: tira bom e tira mal.

Destaque ao Pinguim que, embora escrito com muita pressa no Piloto, cresce bem mais lentamente (e melhor) nos outros dois episódios, que vão construindo um arco no qual o jovem Oswald deixa de ser um filhinho da mamãe mimado e covarde para um psicopata em desenvolvimento, cheio de ambição e com uma “visão” do que Gotham será no futuro. Bruce Wayne e Alfred são, curiosamente, pouco atrativos no Piloto, mas também crescem bastante nos episódios seguintes, garantindo elementos interessantes à dinâmica da dupla com o detetive Gordon.

O personagem Bruce Wayne será o grande desafio da série, afinal, será complicado manter a audiência preocupada com ele com o restante das tramas se desenvolvendo. Mas talvez, a série mostre ele se aliando com Selina Kyle na busca pelo assassino e, provavelmente, essa busca levará a uma série de novos personagens.

Gordon e Wayne: relação deve crescer ao longo da série.
Gordon e Wayne: relação deve crescer ao longo da série.

A trama da máfia é um prato cheio e a dinâmica Falcone-Mooney-Maroni-Cobblepot pode render uma temporada cheia de grandes emoções. No campo pessoal e dramático, o triângulo entre Gordon, Barbara e Montoya também pode ir a caminhos surpreendentes, inclusive, porque – se seguir a linha de Batman: Ano Um – é esperado o detetive se envolver com Sarah Essen. Talvez no futuro, tipo na Segunda Temporada?

Após um começo promissor, Gotham tem pela frente um grande desafio: manter-se fiel às promessas. O meio de temporada é a parte mais difícil, já que os produtores se preocupam demais com o início e o fim e deixam a metade meio solta. Veremos…

Gotham tem produção executiva de Bruno Heller (de The Mentalist) e é produzida pela DC Entertainment, Primrose Hill e Warner Bros. Television, sendo exibida no canal Fox. A estreia do programa foi em 22 de setembro de 2014. Os episódios 1 e 2 foram escritos por Bruno Heller e dirigidos por Danny Cannon; enquanto o 3 foi escrito por Dermott Downs e dirigido por John Sthephens.

Bruce Wayne é claramente perturbado nessa versão.
Bruce Wayne é claramente perturbado nessa versão.

O elenco fixo traz: Ben Mckenzie (Detetive James Gordon), Donal Logue (Detetive Harvey Bullock), David Mazouz (Bruce Wayne aos 12 anos), Robin Lord Taylor (Oswald Cobblepot, o Pinguim), Jada Pinkett Smith (Fish Mooney), Erin Richards (Barbara Kean), Sean Pertwee (Alfred Pennyworth),  Camren Bicondova (Selina Kyle aos 12 anos), Zabrina Guevara (Sarah Essen), Victoria Cartagena (detetive Renee Montoya), Andrew Stewart-Jones (detetive Crispus Allen), John Doman (Carmine Falcone), Cory Michael Smith (Edward Nyga).

Saiba mais sobre a cidade de Gotham City nos quadrinhos clicando aqui.

O Comissário James Gordon é o mais antigo personagem coadjuvante das histórias do Batman, tendo surgido junto com o herói em Detective Comics 27, de 1939, pelas mãos de Bob Kane e Bill Finger. Na trilogia Cavaleiro das Trevas foi vivido com extrema competência por Gary Oldman.

Batman foi criado pelo cartunista Bob Kane em 1939 e desde então é publicado pela DC Comics.

 

 

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