Dias de Um Futuro Esquecido: união dos dois elencos de X-Men em um bom filme.
Dias de Um Futuro Esquecido: união dos dois elencos de X-Men em um bom filme.

Estreia hoje no Brasil X-Men – Dias de um Futuro Esquecido, sequência de X-Men – Primeira Classe, que mostra as origens do supergrupo de heróis mutantes da Marvel Comics levado aos cinemas pela 20th Century Fox. E os fãs vão aos cinemas com um pé atrás: apesar de ter acertado a mão em X-Men – Primeira Classe e Wolverine – Imortal, a franquia da Fox já cometeu erros demais em seus 14 anos e os problemas de adaptação de personagens, ausências de uniformes e descaracterização de personagens. Dias de um Futuro Esquecido muda tudo isso? A resposta é: sim. E não!

Em primeiro lugar, vamos ao “não”. Dias de Um Futuro Esquecido mantém os cacoetes da série: pela primeira vez na franquia há uniformes de verdade para os heróis, mas isso só acontece no futuro, presumivelmente, no ano de 2023. Além disso, o filme não pode se furtar de manter o que foi feito lá atrás, mantendo algumas questões que irritam os fãs que leram as histórias dos X-Men nos quadrinhos: Wolverine é sempre o centro de tudo. As consequências do que foi feito antes também têm que ser mantidas, o que exclui personagens como Ciclope e Jean Grey das cenas do futuro, por exemplo. Tempestade – que nos quadrinhos já foi a líder da equipe, substituindo Ciclope – continua como uma figura secundária, apagada e quase sem propósito.

Passado e presente unidos: os dois Magnetos.
Passado e presente unidos: os dois Magnetos.

Mas o pior nem é isso. É como a Fox é incapaz de lidar com seus próprios atos. Charles Xavier morreu em X-Men – O Confronto Final, de 2007, fecho da trilogia inicial dos mutantes. Ela foi mostrado vivo de novo na cena pós-créditos de Wolverine – Imortal. Sim, mas como? Como Xavier sobreviveu? Talvez, o diretor Bryan Singer saiba…

(Parentese: uma das cenas pós-créditos de O Confronto Final mostrava Xavier “vivo”, despertando sua consciência no corpo de um homem que teve morte cerebral. Certo. Mas é outro corpo. Porque ele continua sendo o mesmo Xavier de antes? Simon Kinberg sabe… [ele é roteirista dos dois filmes]).

Wolverine perdeu suas garras de adamantium em Imortal. Em 2023 ele aparece de novo com as garras. Como? Pergunte a Singer e Kinberg…

Outro ponto interessante: passam-se 50 anos entre o passado (1973) e o futuro (2023) e, puxa, Xavier e Magneto estão muito bem com 100 anos de idade cada um, viu? Isso é que é saúde… E não deixa de ser cômico o fato de que o Wolverine do futuro está meio grisalho (exatamente como na HQ): ora, o único ali que não envelhece (por causa do fator de cura) é o que mais parece ter envelhecido da Trilogia para cá.

Wolverine, Magneto e Xavier nos anos 1970: a tensão entre os amigos move o filme.
Wolverine, Magneto e Xavier nos anos 1970: a tensão entre os amigos move o filme.

Porém, há a resposta “sim” para a pergunta “o filme muda tudo”. Em parte, sim. O grande trunfo de Dias de Um Futuro Esquecido não é o clima sombrio e brutal do futuro – que diga-se de passagem é brutal mesmo, algo não usado na franquia até agora – mas justamente se pautar como sequência de Primeira Classe. Apesar do lapso de 11 anos cronológicos entre o primeiro filme e este – que no passado se passa em 1973 (tempo este que faz falta, porque muita coisa poderia ter se desenvolvido neste período) – o elenco matador da parcela “do passado” da trama rende um espetáculo.

Bryan Singer é um diretor que sabe explorar seus atores – desde a época de Kevin Spacey em Os Suspeitos – e usou isso em X-Men – O Filme e X-Men 2 com os atores do “presente” (Patrick Stewart como Xavier; Ian McKellen como Magneto e Hugh Jackman como Wolverine); mas verdade seja dita, o trio do “passado” formado por James McAvoy como Xavier, Michael Fassbender como Magneto e Jennifer Lawrence como Mística é melhor ainda. Talvez, esses atores tenham histórias senão melhores pelo menos mais humanas do que as da Trilogia original.

A passionalidade dos jovens Xavier e Magneto junto ao dilema moral da jovem Mística entre os dois preenchem o filme de sentido e dão a ele conteúdo para se somar à ação – brutal e magnífica – do segmento do futuro.

Kitty Pryde e Homem de Gelo: personagens conhecidos de volta. Por pouco tempo.
Kitty Pryde e Homem de Gelo: personagens conhecidos de volta. Por pouco tempo.

Outro ponto à favor de Singer é que ele sabe mesmo trabalhar com um elenco grande, aproveitando personagens não apenas por seu caráter, mas pela situação em que estão envolvidos. Um uso utilitário, mas competente dos personagens. Assim, apesar de haver mais de uma dezena (talvez duas…) de mutantes correndo de um lado para o outro no filme inteiro; tudo faz sentido e em nenhum momento sentimos uma presença “forçada”, porque cada um deles cumpre uma função no filme. Em termos de drama e caracterização, apenas poucos personagens são desenvolvidos: as versões jovens e idosas de Xavier e Magneto; Wolverine; Mística. Em segundo plano, têm algum tipo de desenvolvimento o cientista Bolivar Trask (excepcional nas mãos de Peter Dinklage, fantástico mesmo, brilha em cada segundo que aparece na tela) e o jovem Hank “Fera” McCoy vivido por Nicholas Hoult.

Peter Dinklage como Bolivar Trask: brilha na tela.
Peter Dinklage como Bolivar Trask: brilha na tela.

O restante do numeroso elenco faz apenas figuração – e isso inclui Tempestade, Colossus, Kitty Pryde, Homem de Gelo e os vários novos mutantes apresentados, como Blink, Bishop, Mancha Solar e Apache. Contudo, como já dito, todos funcionam em tela pelo uso que têm no filme, especialmente cenas de ação contra os imbatíveis Sentinelas do futuro, talvez os oponentes mais assustadores que os X-Men já combateram no cinema. O fato de conhecermos alguns dos heróis mutantes dos filmes anteriores nos dá empatia pelas cenas e os personagens, mesmo que a maioria tenha poucas falas; investindo mais em belas cenas de batalha.

Mercúrio tem destaque em uma ótima cena do filme.
Mercúrio tem destaque em uma ótima cena do filme.

E um destaque nesse plano é a aparição de Mercúrio. Nos quadrinhos, Pietro Maximoff (chamado no filme de Peter mesmo) é nada menos do que filho de Magneto (e irmão da Feiticeira Escarlate, que não aparece no filme). Ausente da Trilogia dos X-Men, todo mundo sabe que Mercúrio só aparece neste filme porque o personagem aparecerá também em Os Vingadores 2 – A Era de Ultron, que não é da Fox, mas do Marvel Studios. (Explicando: Mercúrio surgiu nas histórias dos X-Men, mas depois se tornou membro dos Vingadores. Essa característica singular o coloca em um limbo contratual no qual pode ser usado tanto pela Fox quanto pela Marvel).

Mas apesar de ter sido “empurrado” dentro do filme – como uma maneira da Fox garantir a propriedade do personagem – sua participação no filme é excelente. A caracterização do personagem – transformando a arrogância e chatice de Pietro em petulância juvenil (ele é só um adolescente no filme) – é ótima e a cena de ação envolvendo Mercúrio correndo dentro de uma cozinha é simplesmente a mais bela cena do filme inteiro. É um efeito fantástico!

Mais uma vez, Bryan Singer mostra que sabe construir belas cenas matadoras em seus filmes, como o ataque de Noturno à Casa Branca, em X-Men 2. Memorável.

Outro ponto forte do filme é o roteiro, que une de maneira coerente os segmentos de 1973 e 2023. Cada um tem sua fotografia – escura e sombria no futuro; luminosa e colorida como os anos 1970 devem ser, no passado; o que ajuda a distingui-las. É curioso, inclusive, como o segmento do futuro parece com a antiga Trilogia (especialmente o clima escuro dos dois primeiros filmes); e o segmento do passado tem mais a cara de Primeira Classe. A explicação para a viagem no tempo é satisfatória, embora o filme não faça esforço em explicá-la demais.

Já a explicação para que o jovem professor Xavier volte a andar no começo do filme não é tão boa. Parece meio fora de propósito.

Dias de um Futuro Esquecido: clássico imortal dos quadrinhos.
Dias de um Futuro Esquecido: clássico imortal dos quadrinhos.

Em termos de adaptação, Dias de Um Futuro Esquecido é relativamente fiel ao material original. Na verdade, é até mais fiel do que eu esperava. Contudo, o filme explora melhor a ambientação da ameaça, trocando o Senador Robert Kelly da HQ (personagem que já foi usado nos dois primeiros X-Men, portanto, em nosso presente) pelo industrialista Bolivar Trask (o criador dos Sentinelas) e colocando o palco inicial da ação na Conferência de Paris, que realizou o tratado de paz da Guerra do Vietnã, em 1973.

A Mística de Jennifer Lawrence.
A Mística de Jennifer Lawrence.

Isso dá aquele caráter histórico ao filme – como tinha Primeira Classe, embora neste novo seja ainda melhor neste quesito – e funciona muito bem. Outra liberdade da trama é duplicar a ameaça. Em vez de um atentado (na HQ Mística tenta matar o Sen. Kelly no Congresso dos EUA, em Washington-DC), aqui há duas ações nesse sentido, em Paris e em Washington. Mas o desenvolvimento da trama é relativamente similar à HQ original, inclusive, na alternância entre passado e futuro. Mudam os personagens e o futuro do filme é mais espetaculoso do que o dos quadrinhos. Mas funciona.

Então, como fica a franquia depois de Dias de Um Futuro Esquecido? O HQRock não vai entregar nenhum spoiler, mas pense bem: é um filme que trata de uma viagem no tempo para mudar o futuro. Imagine as consequências disso em uma franquia cinematográfica…

Magneto usa seu uniforme pela primeira vez.
Magneto usa seu uniforme pela primeira vez.

O final do filme nos mostra um lampejo do futuro: Wolverine desperta em 2023. Os X-Men estão lá. Mesmo aqueles que talvez você não esperasse.

E não esqueça: há uma cena pós-créditos que dá um pouco do clima do próximo capítulo dos mutantes: X-Men – Apocalipse, já confirmado para 2016. Apresentará o vilão homônimo.

Primeira Classe se passou nos anos 1960; Dias de Um Futuro Esquecido nos anos 1970; e Apocalipse se passará nos anos 1980, mostrando as origens dos X-Men tais quais os conhecemos na Trilogia.

Para encerrar: Dias de Um Futuro Esquecido é um bom filme? Sim. Vale à pena? Sim. É um dos melhores da franquia da Fox, por incrível que pareça. Ainda tem seus problemas, mas pelo menos explora de modo competente uma história e traz como trunfo um elenco muito afiado.

Dias de um Futuro Esquecido traz a união dos dois elencos da franquia X-Men na Fox: a equipe da Trilogia e a equipe mais jovem de Primeira Classe. Na trama, dez anos no futuro, a maioria dos X-Men está morta e os sobreviventes lutam contra os Sentinelas, robôs terríveis criados para exterminar mutantes. Num ato desesperado, apostam numa saída impossível: usar os poderes de Kitty Pryde para lançar a consciência de Wolverine de volta no tempo até 1973 para impedir que Mística mate uma determinada pessoa e, com isso, mudar o fluxo temporal, alterando o futuro.

Nos quadrinhosDias de Futuro Esquecido, é uma história escrita por Chris Claremont e John Byrne e desenhado por este último, publicada em Uncanny X-Men 141 e 142, de 1981.

X-Men – Days of Future Past tem história de Matthew Vaughn (de Kick-Ass), Jane Goldman (X-Men – Primeira Classe) e Bryan Singer; tem roteiro de Simon Kinberg (de X-Men – O Confronto Final) e ; e dirigido por Bryan Singer. O elenco traz Hugh Jackman (Wolverine), James McAvoy (Charles Xavier), Michael Fassbender (Erik Lehnsherr/ Magneto), Jennifer Lawrence (Raven/ Mística), Patrick Stewart (Xavier velho), Ian McKellen (Magneto velho), Nicolas Hoult (Hank McCoy/ Fera), Halle Berry (Tempestade), Anna Paquin (Vampira), Ellen Page (Kitty Pryde), Shawn Ashmore (Homem de Gelo), Lucas Till (Alex Summers/Destrutor), Daniel Cudmore (Colossus), Fang Bingbing (Blink), Peter Dinklage (Bolivar Trask), Omar Sy (Bishop), Adam Canto (Mancha Solar), Booboo Stewart (Apache), Evans Peters (Mercúrio) e Josh Helman (William Stryker). O lançamento no Brasil será em 22 de maio de 2014, um dia antes do que nos EUA.

Os X-Men foram criados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby, mas só foram bem-sucedidos comercialmente nos anos 1970, a partir da reformulação idealizada pelo escritor Len Wein e tocada à frente por Chris Claremont, Dave Cockrum e John Byrne. Daí em diante, se tornaram uma das revistas de maior sucesso da Marvel Comics.

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