54 anos após irromper no cenário do nascente rock britânico, o The Who finalmente posou no Brasil pela primeira vez. A banda que fez história no rock, criou o rock pesado, cultivou uma linguagem tipicamente britânica, fez letras contundentes sobre a realidade dos anos 1960, criou a Ópera Rock, tocou em Woodstock e representou os anseios da juventude.

O show no Allianz Parque é não somente o primeiro no Brasil, mas também em toda a América do Sul. É uma pena a banda ter estado ausente tanto tempo, mas o The Who compensou isso com um show espetacular.

O grupo mostrou toda a energia que lhe é peculiar, com Pete Townshend dando saltos e girando o braço como um moinho para tocar sua guitarra, enquanto Roger Daltrey exibia seu vozeirão ao mesmo tempo em que lançava o microfone de um lado para o outro e parecia querer laçar um boi.

A dupla é o The Who de hoje, já que os outros dois membros originais da banda já morreram: o baterista Keith Moon, em 1978; e o baixista John Entwistle, em 2002; ambos de overdose.

É curioso notar a força da dupla. É óbvio que para apresentar as canções com fidelidade, o duo sobe ao palco acompanhado por um grupo de apoiadores porém, ao contrário do que é muito comum nesses casos, os outros músicos (um guitarrista, um baixista e dois tecladistas) são realmente meros complementos que fazem “sala” para dupla principal; com uma única (e célebre) exceção: o baterista Zak Starkey.

Filho do ex-Beatles Ringo Starr, Starkey desenvolveu uma carreira de mérito próprio e fez fama de bom baterista. Você provavelmente já o ouviu antes: ele foi baterista do Oasis em seus dois últimos álbuns (de 2005 e 2008), mas tocar no The Who lhe permite explorar suas habilidades em outro nível! Keith Moon foi um dos maiores bateristas da história do rock, dono de um estilo único, enérgico, caótico e agressivo. Starkey não o imita: toma o estilo para si e o faz como se fosse seu. É simplesmente inacreditável! Ele deve ser o maior baterista em atividade no rock hoje. Sentado atrás de Daltrey e Townshend, Starkey é uma atração à parte e mantém a pulsação característica do The Who ao vivo, necessária à sua musicalidade peculiar.

Vale à pena anotar que Ringo Starr e Keith Moon eram grandes amigos e Moon foi um tipo de padrinho para o jovem Zak e foi Moon quem lhe deu seu primeiro kit de bateria.

Numa lição inacreditável aos músicos e produtores brasileiros, o The Who subiu ao palco do Allianz Parque exatamente às 21h30min., nem um minuto a mais (!). Abriu o show com I can’t explain, de 1965, o primeiro hit da banda, seguindo com The seeker (1970), chegando a Who are You (1978), canção que hoje é internacionalmente conhecida como trilha sonora da série de TV CSI.

O grupo continuou destilando seu repertório básico, como a obrigatória My generation (1965); e a também obrigatória Behind blues eyes (1971), duas canções da fase dos anos 1980, com You better You bet (1981) e Enemy front (1982); incluindo surpresas, como a relativamente desconhecida Bargain (1971), a pop The kids are all right (1965) e três faixas de ópera rock Quadrophennia (1974), com The One, 5:15 e Love reign over me, que foi um momento de virada para a voz de Roger Daltrey.

Sinceramente, quando o show começou, achei a voz de Daltrey cansada. Abaixo do padrão esperado. O próprio cantor parecia cansado também, mas talvez estivesse apenas nervoso e se contendo, pois na última canção mencionada, soltou sua voz com toda a potência conhecida e daí para o fim do concerto, ela só fez melhorar.

Mas Quadrophennia não parece ser muito conhecida do público brasileiro, pois a sequência foi recebida meio friamente, o que mudou totalmente no Medley da outra ópera rock da banda, Tommy (1969). Partindo de Amazing journey, o grupo destilou pequenos enxertos do disco, inclusive, a instrumental Spark, que foi o grande momento do baterista Zak Starkey no show, numa noite em que ele foi só grandes momentos.

Contudo, não ficou aí, de Tommy ainda vieram Pinball Wizard – o grande hit do disco – e a obrigatória “oração” do personagem principal, See me, feel me, touch me, que garantiu mais um momento de catarse.

Para encerrar o show, a banda investiu numa sequência matadora com Baba O’Riley e We won’t get fooled again, as duas canções irmãs de Who’s Next (1971). Na primeira, um momento “lágrimas nos olhos” ao ouvirmos 40 mil vozes entoando a “paradinha” da canção: “don’t cry, don’t raise your eye, it’s only teenage wastleland…”. De arrepiar! E os músicos também ficaram visivelmente emocionados.

Era para ser o fim, mas a aclamação foi muita e a banda voltou para um bis de três músicas, das quais uma foi a clássica Substitute.

A plateia ainda pedia por mais e Daltrey e Townshend estavam emocionados e cansados. O guitarrista precisou ir até o microfone e, com bom humor, pedir: “vão pra casa!”.

E o público foi, feliz da vida por ter presenciado um momento histórico e curtindo uma noite incrível, com uma banda sensacional e um show espetacular.

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