O HomemAranha volta de novo aos cinemas. Mais uma vez. O que trazer de novo a um personagem que já teve duas franquias (5 filmes) em apenas 15 anos? Por incrível que seja, a resposta é bem simples: manter-se ao básico! Ah, e não repetir os velhos erros. Essa é a grande atração de Homem-Aranha – De Volta ao Lar: o filme é espetacular como o herói deve ser. 
Resistindo à ideia de analisar os filmes anteriores, De Volta ao Lar traz um título que faz referência não apenas ao Baile de retorno às aulas, mas também uma indicação de Peter Parker retomando sua vida “normal” após sua grande aventura com os Vingadores, vista em Capitão América – Guerra Civil. E é uma metáfora da “reinvenção” do personagem no cinema.

O grande trunfo do filme, bastante ressaltado nos trailers, não é apenas a vinculação de Parker ao Universo Marvel dos Cinemas; mas fundamentalmente, tratar o Homem-Aranha como um adolescente de verdade, tal qual foi concebido por Stan Lee e Steve Ditko nas HQs originais. Mas estamos no século XXI e não mais em 1962 ou 1963 e o longa entende isso e faz essa transição de modo muito competente.
O início do filme define claramente qual o tom de De Volta ao Lar: por um lado, as consequências reais que uma batalha como a dos Vingadores contra os Chitauri no primeiro filme da equipe teria e isto está relacionado ao surgimento do vilão Abutre, de um modo criativo e contido, sem o aspecto histérico que envolve muitos dos vilões do cinema; e por outro, vemos como um adolescente dos dias de hoje agiria se fosse o Homem-Aranha, com seus selfies e vídeos particulares.

A capacidade de se comunicar com essa Juventude será um dos grandes trunfos do longa, resgatando aquela característica que marcou as histórias do personagem em seus primeiros anos. Peter continua nerd, tímido e deslocado, mas agora vive num mundo conectado via internet e redes sociais.
Também como nas HQs de Stan Lee, Peter quer aprovação, quer ser aceito, quer mostrar o que pode fazer (numa metáfora do crescer) apenas o alvo dessa carência é direcionado aos Vingadores e Tony Stark, o que é algo muito lógico. (Podemos até pensar que as primeiras HQs tinham um pouco disso, mas direcionado ao Quarteto Fantástico). Em alguns momentos o modo como Peter faz isso soa bobo, porém, é um adolescente que acabou de fazer 15 anos e está confuso e fascinado com os rumos que sua vida ganhou. 

Nisto o filme acerta muito, pois o universo mundano ao redor de Peter deixa de ser decorativo, como em outros filmes, para se tornar algo central e realista, dando a De Volta ao Lar um tom de estudo de personagem que nenhum outro filme do Marvel Studios tem. 

Daí provém duas questões importantes. A mais polêmica é a diversidade étnica que irrita os fãs puristas e raivosos. Mas retratar uma escola pública (mesmo que diferenciada) dos EUA de hoje com um elenco totalmente caucasiano seria acintoso. Porque não Ned Leeds ser de ascendência havaiana, Flash ser indiano ou Liz ser mestiça? Este é o mundo e funciona no filme.

A outra questão são os atores. Tom Holland está sensacional, retratando um jovem inteligente e com superpoderes, mas ainda adolescente, errando nas escolhas e aprendendo a usar seus fantásticos poderes e habilidades. Em certo momento do filme, alguém diz que ele “fala como uma garota” e é isso: Holland é mesmo um menino, tem apenas 19 anos e não está distante de seu personagem. O resto do elenco jovem também se saí muito bem, lembrando de verdade os filmes de John Hughes que a Marvel sempre afirmou na qual De Volta ao Lar se inspira. Ned, Liz, Flash e Michelle são carismáticos, tem funções claras na trama e são humanos e reais.

No lado Fantástico, Robert Downey Jr. sempre rouba a cena com seu Tony Stark e, de novo, aproveita seu pouco tempo de tela – muito bem usado e encaixado na trama – para entregar uma interpretação sanguínea, tal qual já fizeram em Guerra Civil. Acertadamente, o Homem de Ferro praticamente não é um elemento de ação (com uma exceção já vista nos trailers), mas uma referência do que os Vingadores representam nesse mundo. Uma porta que leva ao mundo fantástico estranho e exóticos àquele que Parker vive. 

Também é uma representação da luta de classes explicitamente atribuída entre Stark e o vilão Adrian Toomes, vivido de modo excelente por Michael Keaton. Ter sido o Batman de 1989 o levou a representar com competência e realismo um ator fracassado em Birdman, pelo qual foi indicado ao Oscar. Porém, a soma desses papeis vinculado ao Abutre em De Volta ao Lar preocupou a crítica pelo risco de repetição e foi em vão: Keaton está sensacional, longe da caricatura do vilão, exibindo uma vida comum paralela e encarnando o elemento da identidade secreta tão associada aos Heróis. O ator também imprime um tom de ameaça muito bom, tornando o Abutre um vilão memorável e um destaque e acerto, quando a Marvel é sempre criticada pelos vilões fracos. 

No fim das contas, De Volta ao Lar é divertido e colorido, mas não deixa de ter profundidade, servindo como um destaque (mais um) no impressionante catálogo do Marvel Studios. Muitos dirão que é o melhor filme do Homem-Aranha. E talvez seja mesmo, principalmente se você pensa nele como um órfão nerd do Queens, que ainda está no Ensino Médio e, por causa disso, é um herói muito diferente de todos os outros.

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