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David Crosby, Gene Clark, Michael Clarke, Chris Hillman e Jim McGuinn: The Byrds.

A história do rock mostra que nem sempre ser o número 1 é o melhor. Embora chegar ao topo das paradas possa render fama e fortuna imediata, tal condição nem sempre é longeva, ao contrário do que pode ser a influência de um artista sobre aqueles que vieram depois. O legado é algo que fica. E o rock dos anos 1960 criou um mercado tão grande que foi permitido que existisse todo um movimento de rock para além do Top 10 que gerou grupos que, apesar de desconhecidos ou ignorados pelo grande público, terminaram por deixar uma marca duradoura na história da música e nos artistas que os seguiram.

Este definitivamente é o caso de The Byrds.

Se você não é um grande fã do rock clássico talvez nunca tenha ouvido falar deles. Mas veja, esta é a banda responsável por criar um dos mais importantes subgêneros do rock, o folk rock, tendo papel crucial na criação de mais um, o rock psicodélico, e sendo o grande difusor de mais outro, o country rock. Não, eles não estavam seguindo moda. Estavam criando moda! Esta é a banda que trocou sonoridades com Beatles, Rolling Stones e Jimi Hendrix; que fez a trilha sonora para o filme Easy Rider – Sem Destino; que influenciou de maneira determinante bandas como The Band, R.E.M., The Eagles, The Allman Brothers Band, Lynyrd Skynyrd; que abriu as portas para Neil Young e grupos como Crosby, Stills, Nash & Young; e como se tudo isso não fosse o bastante, foram os responsáveis por Bob Dylan deixar de ser um cantor folk para virar uma estrela do rock.

Se já conhece e quer lembrar, se conhece só um pouco e quer aprofundar ou se não sabe nada e quer saber, pegue sua guitarra Rickenbaker de 12 cordas e embarque nessa aventura pela quinta dimensão à 10 quilômetros de altura, seguindo o cara do pandeiro pela estrada tranquila rumo a se tornar uma estrela do rock and roll.  😉

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Sucesso mediano, influência enorme.

Os The Byrds criaram o folk rock. Foram músicos criados na cena folk da California (não tão forte ou famosa quanto aquela de Nova York, que gerou Joan Baez e Bob Dylan), mas que se apaixonaram pela música dos Beatles, quando o quarteto de Liverpool liderou a Invasão Britânica no início de 1964. Ao combinar as letras críticas e existencialistas da tradição folk com a sonoridade enérgica de rock, os Byrds criaram um som único que é a base da maior parte do rock mais calmo criado desde então.

 

TUDO O QUE EU QUERO DE VERDADE

Tudo começou no início do ano de 1964, quando os cantores folk Gene Clark e Jim (mais tarde Roger) McGuinn se conheceram no Troubador Club, onde se apresentavam. O que os uniu foi o fato de ambos serem grandes fãs dos Beatles. Clark e McGuinn começaram a se apresentar em dueto, com violões, gaita e interpretando canções dos Beatles em estilo folk e, ao mesmo tempo, transformando algumas das velhas canções folk em uma roupagem beatle; juntamente com algumas composições próprias. Certo dia, o duo estava ensaiando embaixo da escada e David Crosby os viu e começou a cantar com eles, sem conhecê-los. A combinação das vozes dos três foi incrível! A partir daí, passaram a se apresentar como um trio, chamado Jet Set, porque McGuinn era fascinado por aviação.

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McGuinn, Crosby e Clark gravam vocais: vindos do folk.

Os três já tinham considerável experiência musical nos clubes, apesar da pouca idade. Na época, a moda eram os coletivos de música folk, com duplas, trios ou quartetos e era daí que vinham: Gene Clark do The New Christy Minstrel; Crosby do Les Baxter’s Balladeers; e McGuinn do The Limeliters e do The Chad Mitchell Trio. Além disso, McGuinn também teve uma temporada no Brill Building, em Nova York, o centro de produção de música pop daqueles tempos, trabalhando como compositor de encomenda para o teen-idol Bobby Darin.

O trio conseguiu ensaiar e gravar algumas demos no World’s Pacific Studios, em Los Angeles, o que os levou a conseguir um contrato de um single com a Elektra Records (gravadora independente que ficaria famosa por revelar o The Doors): o compacto com Please let me love you e Don’t belong (duas composições da dupla Clark-McGuinn) foi lançado em outubro de 1964, mas a gravadora os convenceu a trocar de nome para The Beefeaders, porque soava mais britânico e parecido com Beatles. Essas canções (gravadas com o auxílio de Ray Pohlman no baixo e Earl Palmer na bateria, dois dos músicos “de elite” do circuito musical de L.A.) já tinham o germe da união entre folk e rock, mas não aconteceram nas paradas.

Ao mesmo tempo, o trio começou a evoluir para uma banda, convidando Michael Clarke (nenhum parentesco com Gene) para tocar bateria, embora o convite tenha vindo muito mais porque ele tinha uma aparência similar a de Brian Jones, dos Rolling Stones.

George e 12 cordas
George Harrison dos Beatles, com sua guitarra de 12 cordas.

Claro, os futuros Byrds não criavam do nada. Apesar do movimento folk detestar a música pop em geral, achando-a não-autêntica, Bob Dylan gostava de rock, embora não se aventurasse no gênero. Contudo, a música de Dylan fazia tanto sucesso na Grã-Bretanha quanto nos EUA (ou até mais) e isso influenciou bastante o rock inglês. O grande hit The house of rising sun (uma velha canção tradicional sem autor conhecido) foi gravado como um rock pelos Animals, porque estava no primeiro álbum de Dylan. E os tão amados Beatles foram muito impactados pela música de Dylan, o que levou John Lennon a gravar dois números de folk rock (I’m a loser e I don’t want to spoil the party) no álbum Beatles For Sale, lançado em dezembro de 1964. O uso da guitarra de 12 cordas da Rickenbaker, iniciado por George Harrison no álbum anterior (A Hard Day’s Night, de junho de 1964) combinado ao violão Gibson Jumbo de Lennon criava uma atmosfera muito particular.

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Bob Dylan (à frente), com os Byrds atrás de si: influência seminal.

Em agosto de 1964, o empresário dos Jet Set/ Beefeaters, Jim Dickson, conseguiu uma cópia da gravação (então inédita) de Mr. tambourine man de Bob Dylan, pensando que seria uma ótima oportunidade para o grupo, que mudou o tempo da canção de 2/2 para 4/4 e deu uma roupagem rock que combinou perfeitamente. Quando a banda pensou ter finalizado o arranjo para a faixa, Dickson levou o próprio Dylan para ouvir a banda interpretá-la e o compositor gostou muito, ficando entusiasmado com o resultado. Esta foi a semente para Dylan começar a pensar que podia transformar sua própria música em rock, o que faria pouco depois.

 

Com a autoestima aumentada, a banda decidiu investir em instrumentos novos iguais aos dos Beatles: McGuinn passou a usar uma Rickenbaker de 12 cordas e Gene Clark uma Gretsh Tennesean, ambas modelos usados por George Harrison na banda. Crosby usava um violão Gibson e Clarke comprou um kit de bateria Ludwing, o mesmo modelo de Ringo Starr. Claro que faltava um baixista! Dickson convidou Chris Hillman, um tocador de mandolim que, ao contrário dos colegas, vinha do country e bluegrass, e não folk, e de San Francisco e não de L.A.

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A formação básica da banda no palco: Crosby, Hillman, Clark, Clarke e McGuinn.

Com o quinteto formado e uma recomendação do jazzman Miles Davis, a banda conseguiu um contrato com a Columbia Records, a mesma gravadora de Dylan. Em comemoração, mudaram o nome para The Byrds, porque ainda evocava o tema do voo e soava britânico com a troca do “i” por “y” tal qual Beatles trocava o duplo “e” com a inclusão de um “a”. Outra mudança foi que, por algum motivo, Crosby assumiu a guitarra Gretsh, enquanto Clark passou a tocar apenas o pandeiro. Isso é curioso, pois Clark era um guitarrista mais habilidoso do que Crosby. Talvez, fosse uma maneira de compensar o fato de Clark ser aquele que compunha mais canções e dar um papel um pouco maior a Crosby. De qualquer modo, estava formado lineup original do grupo: Gene Clark (vocais e pandeiro), Jim McGuinn (vocais e guitarras), David Crosby (vocais e guitarra), Chris Hillman (baixo) e Michael Clarke (bateria). Porém, apesar dessa formação de palco, é importante frisar que Clark contribuía constantemente com guitarras e gaita nas gravações.

Os Byrds então consolidaram a grande marca de sua primeira fase, que era a combinação das vozes de Clark, McGuinn e Crosby. Clark tinha um vocal mais grave, cantado para dentro, num timbre que poderíamos chamar de “confortável de ouvir” e talvez fosse o melhor cantor do grupo; mas a gravadora parecia preferir a voz meio-grave de McGuinn, talvez porque seu timbre era ligeiramente similar ao de Bob Dylan; já Crosby tinha uma voz com duas impressões distintas, pois quando cantava em solo, podia imprimir um grau de agressividade que os outros dois não tinham, mas por outro lado, atingida notas muito agudas em seu falsete, de modo que contribuía para harmonizar a voz dos outros dois quando os três cantavam juntos, dando aquele tom cristalino típico dos Byrds: Clark e McGuinn cantando em uníssono e Crosby nas notas altas.

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Crosby, Hillman, McGuinn, Clarke e Clark.

 

ENTÃO VOCÊ QUER SER UMA ESTRELA DO ROCK’N’ROLL?

Em janeiro de 1965, os Byrds entraram nos estúdios da Columbia, em Hollywood, para gravar seu primeiro single, com o produtor Terry Melcher. Infelizmente, no típico arranjo da indústria musical de Los Angeles, Melcher preferiu usar seus músicos de estúdio “de elite” para fazer o registro. Assim, apesar de copiar à risca o arranjo da banda para Mr. tambourine man, Melcher pôs outra banda para executá-la: Jerry Cole (guitarra), Larry Knechtell (baixo), Leon Russell (piano) e Hal Blaine (bateria). Jim McGuinn tocou a guitarra de 12 cordas principal apenas porque tinha reconhecida experiência em gravação de estúdio de seu tempo de Nova York. McGuinn, Clark e Crosby gravaram seus vocais em cima dessa base instrumental tanto naquela faixa quanto em I’d knew I want you (de autoria de Clark), que seria o Lado B. Embora esse seja um fato estranho para os dias de hoje e até condenável eticamente, esta era uma prática muito comum no mercado musical dos EUA: armados de músicos de estúdio de primeira linha, as gravadoras preferiam pôs estes nos discos, enquanto os membros “reais” das bandas apenas se apresentavam ao vivo. Grupos como Beach Boys e The Monkees também apenas gravavam suas vozes em suas obras.

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Dylan se apresenta com os Byrds no Ciro’s.

Confiante no taco da banda, a Columbia conseguiu uma sequência de apresentações dos Byrds no Ciro’s Le Disc, a mais badalada das boates da Sunset Strip (a rua do agito em L.A.) naqueles tempos. Os concertos da banda foram um sucesso absoluto e viraram um fenômeno incrível, com hordas de jovens, proto-hippies, intelectuais e músicos fazendo filas quilométricas para entrar no clube. Ficou famosa uma noite de março na qual o próprio Bob Dylan subiu ao palco com os Byrds e eles tocaram Baby what you want me to do, uma composição do bluesman Jimmy Reed.

 

As apresentações também melhoraram a performance da banda, de modo que, quando iniciaram as gravações de seu primeiro álbum, em março, Terry Melcher dispensou os músicos de estúdio e os próprios Byrds passaram a tocar em suas músicas a partir de então. Quando Mr. tambourine man (o single) foi lançada em abril, claro, se tornou um fenômeno de vendas, atingindo o primeiro lugar das paradas dos EUA e também as do Reino Unido. Além da típica sonoridade da guitarra de 12 cordas, a forte impressão vocal da banda – com McGuinn e Clark cantando em uníssono e Crosby nas notas altas – produzindo um som cristalino e cheio de sentimento, geraram uma influência enorme. Não à toa, surgiram inúmeras bandas de folk rock da noite para o dia, como Lovin’ Spoonful; e artistas já existentes adotaram o som, como a dupla Sonny & Cher. Influenciado pelos Byrds, o produtor Tom Wilson pegou uma gravação acústica da dupla Simon & Garfunkel, cujo álbum fracassara no ano anterior, e colocou uma roupagem de instrumentos elétricos ao estilo dos Byrds em cima da gravação original, gerando o megahit The sound of silence.

E mais importante de tudo: influenciado pela leitura dos Byrds de sua própria música, Bob Dylan usou gravações elétricas em seu álbum Bring in it All Back Home, em 1965, e no mesmo ano, se eletrificou totalmente com Highway 61 Revisited, que insultou os tradicionais do folk, mas foi um grande sucesso, inclusive com o hit Like a rollin’ stone.

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Mr. Tambourine Man, 1965.

O primeiro álbum dos Byrds, também chamado Mr. Tambourine Man, foi lançado em junho e chegou ao 6º e 7º lugar das paradas dos EUA e da Inglaterra, respectivamente. O disco é um clássico dos anos 1960 e um dos melhores da banda. Além da faixa título, tem outras três composições de Bob Dylan: a já citada All I really want to do, Spanish Harlem incident e Chimes of freedom; e uma interpretação de material tipicamente folk em formato de rock, com The bells of rhymney (de Pete Seeger e Idris Davies), que ganha uma belíssima versão da banda. Mas também há material autoral, com I’ll feel a whole lot better, I’d knew I want it e Here without you (todas de autoria de Gene Clark) mais You won’t have to cry (de Gene Clark e Jim McGuinn).

 

À esta altura, a banda era um fenômeno de popularidade, ao ponto de nascer a expressão Reação Americana, como um tipo de “resposta” dos EUA à invasão dos Beatles e seus colegas britânicos. Além da música, a banda chamava a atenção por seu visual: o grupo usava roupas muito particulares, com jaquetas e colarinho alto, ao contrário da maioria dos grupos que ainda usavam ternos; enquanto Jim McGuinn usava um óculos de lentes azuis e armações quadradas e David Crosby uma manta de estilo medieval. Também eram interessantes pelo fato de nunca sorrirem nas fotos e terem áurea de banda “séria”.

Também naquele mês foi lançado o segundo compacto do grupo: All I really want to do, outra composição de Bob Dylan. Na verdade, os Byrds queriam lançar I’ll feel whole lot better, uma composição de Gene Clark que é de modo unânime aclamada pela crítica de hoje como uma das melhores canções de todo o repertório do grupo, mas a gravadora preferiu o caminho mais fácil e não deu certo: a música chegou apenas ao 40º lugar, embora tenha se saído melhor na Inglaterra, com o 4º lugar no Reino Unido.byrds-65 in colors faces 2

HÁ DEZ QUILÔMETROS DE ALTURA!

Para capitanear o sucesso, a banda contratou Derek Taylor como publicitário, um jornalista que havia trabalhado para os Beatles no ano anterior (e voltaria depois). Usando seus contatos na Inglaterra, Taylor conseguiu uma turnê dos Byrds para o Reino Unido no mês de agosto. Houve uma grande promoção em torno da excursão e os próprios Beatles falaram bastante sobre como os Byrds eram “sua banda favorita dos EUA” e Taylor criou a frase “A resposta americana para os Beatles”, o que de algum modo irritou bastante a imprensa britânica. As grandes quantidades de maconha fumada pela banda, junto à sua falta de presença no palco, equipamento de som de baixa qualidade e a grande expectativa criada pela promoção resultou que a turnê foi um grande fiasco, com o grupo sendo massacrado pela imprensa. Este primeiro ponto baixo alterou bastante a dinâmica interna da banda, aumentando a tensão entre os membros. Pelo menos, os Byrds travaram amizade com a cena musical britânica, socializando com Beatles e Rolling Stones

De volta para casa, os Byrds foram trabalhar em novo material ao mesmo tempo em que os Beatles vinham aos EUA fazer mais outra turnê e os convidaram para passar alguns dias em sua casa alugada em Los Angeles (onde tomaram LSD juntos) e Paul McCartney e George Harrison visitaram os amigos nos estúdios da Columbia enquanto gravavam. Novamente, a Columbia queria que o grupo gravasse um cover de Dylan para seu terceiro single, com It’s all over now, baby blue, mas embora a canção tenha sido gravada e tocada nas rádios, o grupo conseguiu persuadir a gravadora a investir em Turn! Turn! Turn!, uma adaptação do Livro de Eclesiastes da Bíblia, musicada por Pete Seeger. A incrível performance da banda resultou em outro Nº 1 nas paradas quando lançada em outubro.

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Turn! Turn! Turn!, 1965.

O compacto também batizou o segundo álbum dos Byrds, que foi novamente aclamado pela crítica e fez sucesso, chegando ao 17º lugar das paradas dos EUA e ao 11º do Reino Unido. Este disco ainda traz duas composições de Dylan (The times they are a-changin’ e a inédita Lay down you weary tune), mas investe muito mais no material original da banda, com novamente Gene Clark contribuindo com o melhor, em faixas como Set you free this time, The world turns all around her, If you’re gone e She’s don’t care about the time (lançada no Lado B do compacto de Turn! Turn! Turn!), e presente na maioria das coletâneas do grupo. Outra composição de Clark, The day walk (never before) ficou de fora do álbum e só seria lançada no Boxset dedicado ao grupo de 1990, desde então, também aclamada como uma das melhores gravações do conjunto. O álbum também traz It’s won’t be wrong (de Jim McGuinn e Harvey Gerst) e Wait and see (de McGuinn e David Crosby, com este recebendo seu primeiro crédito autoral).

 

Novamente, o som dos Byrds causou uma grande repercussão no mundo musical, influenciando bastante os roqueiros de então. Inclusive, o álbum dos Beatles Rubber Soul, também lançado em dezembro de 1965, trazia uma clara (e assumida) influência dos Byrds em faixas como Nowhere man (de John Lennon) e If I needed someone (de George Harrison), com esta última inclusive, se utilizando da guitarra de 12 cordas (cujo uso foi difundido por este músico) para emular o som da banda americana.

O CARA DO PANDEIRO

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O sucesso traz problemas.

Apesar do sucesso, as relações dentro do grupo iam ficando cada vez mais tensas, nascendo um tipo de oposição entre os membros contra Gene Clark, porque suas composições o deixavam bem mais rico do que os outros. Também havia uma clara disputa de poder entre o empresário Jim Dickson e o produtor Terry Melcher pelo controle da banda. De qualquer modo, pouco após o lançamento daquele álbum, Melcher foi demitido e substituído na função por Allan Staton.

 

Ainda em dezembro, a composição original de Gene Clark, Eigh miles high (que trata sobre seu medo de voar e a traumática experiência na Inglaterra) ganhou um arranjo ousado por Jim McGuinn e David Crosby (o que levou os dois a ganharem créditos de co-autores) na qual incluem a influência do free jazz e da música indiana de Ravi Shankar que Crosby era grande apreciador, fazendo os Byrds  contribuírem de modo decisivo para o nascimento do Acid rock e da psicodelia. A banda gravou a faixa nos estúdios da RCA em Hollywood, mas a Columbia se recusou a lançar uma canção que não fosse gravada em seu próprio estúdio, de modo que ela foi regravada em janeiro e lançada como single no fim de fevereiro de 1966.

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O tempo dos Byrds como quinteto estava acabando.

Eigh miles high causou um grande impacto no circuito musical, pois o modo errático como a guitarra de McGuinn toca ao longo da faixa, imitando a música indiana, impressionou roqueiros ao longo do mundo, de modo que nasceu a expressão raga rock para explicar o novo som. A adesão a este som psicodélico seria reforçado naquele mesmo ano por álbuns como Pet Sounds dos Beach Boys, Aftermath dos Rolling Stones e Revolver dos Beatles.

O compacto tinha no Lado B Why, uma composição de Jim McGuinn e David Crosby, que mantinha o clima psicodélico, mas ambas as canções sofreram boicote de inúmeras rádios e lojas de discos, por causa do conteúdo de suas letras, associado ao uso de drogas. Isto deve ter ajudado na posição modesta do compacto nas paradas, chegando ao 14º e ao 24º lugar nos EUA e Reino Unido, respectivamente. Felizmente, isto não influenciou o impacto das faixas entre outros músicos importantes.

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Gene Clark era o principal compositor dos Byrds.

Praticamente junto com o lançamento do compacto, veio o anúncio de que Gene Clark estava saindo da banda. Além das tensões já citadas, Clark tinha pavor de voar, pois presenciara um acidente aéreo quando criança. Naquele mês de fevereiro, o compositor teve um ataque de pânico dentro do avião que levaria a banda de Nova York para a Califórnia e terminou por desembarcar. Em resultado, os outros membros (especialmente McGuinn e Crosby) decidiram que ele não poderia mais seguir com o grupo, pois a insistência em não voar era um grande empecilho à carreira. Clark seria contratado como artista solo pela Columbia e produziria um trabalho aclamado pela crítica, embora nunca popular. Seu envolvimento com a banda continuaria no futuro, no entanto.

 

A QUINTA DIMENSÃO

Sem Clark e mantendo uma intensa agenda de shows, os Byrds optaram por continuar como um quarteto, formato que teriam para dali adiante. Ao mesmo tempo, também iniciaram as gravações de seu terceiro álbum, agora bem mais calcado no material original de McGuinn e Crosby, enquanto o baixista Chris Hillman dava um passo à frente no palco, passando a também contribuir com as harmonias vocais. Hillman tinha um vocal bonito e grave, o que serviu para manter exatamente a mesma dinâmica que a banda já tinha.

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Fifth Dimension, 1966.

O álbum Fifth Dimension foi lançado em junho de 1966 e abraçou por completo a sonoridade psicodélica sugerida por Eigh miles high, que está no disco. Com destaque as faixas escritas por Jim McGuinn, como 5D (Fifth dimension) e Mr. spaceman; que se tornaria duas das faixas mais conhecidas da banda; e à sensacional composição de David Crosby, What’s happening???; além de I see you, assinada por McGuinn-Crosby. Esta última, à exemplo daquela primeira, tem grande influência do free-jazz e um andamento bem diferente e a bela voz de Crosby no vocal principal. I see you seria alguns anos depois regravada pela banda de rock progressivo Yes em seu álbum de estreia. Também há a boa interpretação da tradicional John Riley e o cover de Hey Joe, canção lançada pela “banda de garagem” de Los Angeles, The Leaves, que é cantada por Crosby no arranjo mais pesado que a banda criara até ali. Esta composição virou célebre na cena musical de L.A. e seria também gravada por Jimi Hendrix em seu primeiro álbum, lançado no ano posterior. Apesar de demitido, Gene Clark ainda participa do álbum, cantando na faixa do compacto e tocando gaita em Captain soul.

 

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The Byrds como quarteto: Crosyby, Hillman, Clarke e McGuinn.

A recepção ao álbum, porém, dessa vez não foi tão bem sucedida como os dois anteriores, com muitas reações negativas da imprensa. O boicote as suas principais faixas também prejudicou as vendagens, atingindo apenas a 24ª e a 27ª posição das paradas dos EUA e da Inglaterra. A partir dali, os Byrds sairiam do mainstream do rock dos anos 1960 e passariam a habitar o nascente mercado alternativo, com artistas que mantinham suas carreiras ativas apesar de estarem longe do topo das paradas. Ainda assim, a influência da banda continuaria a ser sentida na efervescente cena musical da Califórnia, em grupos como The Jefferson Airplane, The Grateful Dead e The Buffalo Springfield (que revelaria Stephen Stills e Neil Young).

 

Enquanto mantinham uma ativa e bem sucedida carreira de apresentações ao vivo, a banda entrou de novo em estúdio ainda antes do fim do ano de 1966 para gravar seu quarto álbum, dessa vez com o produtor Gary Usher, que incentivou ainda mais os músicos a buscarem experimentações.

O álbum Younger Than Yesterday saiu em fevereiro de 1967 e é um álbum emblemático na carreira da banda, listado pela crítica como um dos melhores. Apesar de sua capa sem graça, o disco traz uma grande coleção de faixas que exploram temáticas mais ousadas nas letras, ampliam ainda mais a produção autoral do grupo e enchem de psicodelismo os resquícios de sua musicalidade folk rock. Além disso, influenciados pelo baixista Chris Hillman, que passa a ter um papel maior na banda, revelando-se um compositor sensacional, começam a flertar com a country music, num direcionamento que teria grandes implicações em breve.

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Younger than Yesterday, 1967.

O álbum é uma grande copilação de grandes canções dos Byrds em sua fase “alternativa”, abrindo com a ácida e irônica So you want to be a rock and roll star? (McGuinn-Hillman), que critica as bandas “de laboratório” lançadas pela indústria fonográfica dos EUA, como The Monkees, que virou uma febre no ano anterior com um grupo de atores-cantores que imitavam os Beatles em uma série de TV e lançavam discos nas quais não tocavam. Esta faixa foi lançada em single um mês antes do álbum, e chegou a 29ª posição da Billboard, o que não é mal. Em seguida vem Have you seen her face? (Hillman), primeira composição solo do baixista a integrar um disco dos Byrds e também a primeira vez que ele faz o vocal principal. A faixa é animada e possuí um solo de guitarra que rompe com o padrão guitarra de 12 cordas pelo qual o grupo era famoso. Outro destaque é Renaissance fair (Crosby-McGuinn) bela canção de toque folk psicodélico. Time between (Hillman) flerta diretamente com o country e é uma das melhores canções do disco, com a voz do baixista agora ainda mais em destaque. Esta faixa também contou com a participação especial do guitarrista de estúdio Clarence White para dar os toques necessários à sonoridade country e seria alguém com grande envolvimento com a banda no futuro. O Lado A fechava com Everybody been burned (Crosyby) uma canção madura e emocionante, também lançada no Lado B do primeiro single do álbum.

 

Após Words and thoughs (Hillman) e Mind gardens (Crosby), o álbum encontra a canção de onde tirou seu título: My back pages (Bob Dylan), única faixa não-autoral do disco inteiro e que foi lançada como segundo compacto (com Renaissance fair no Lado B) e chegou ao 30º lugar das paradas, permanecendo nos dias de hoje como uma conhecida faixa do repertório da banda. A letra de Dylan fala sobre “ser mais jovem hoje do que ontem” e isso inspirou o título do álbum. O destaque final cabe a The girl with no name (Hillman), uma elaborada composição de toques country e de novo com participação de Clarence White.

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Os Byrds psicodélicos de 1967: Hillman, Crosby, Clarke e McGuinn.

Younger Than Yesterday foi aclamado pela crítica e chegou ao 24º lugar das paradas dos EUA e ao 37º do Reino Unido, ainda dentro do Top40 (o que é considerado sucesso pela indústria fonográfica), mas já demonstrando que os Byrds agora ocupavam outra faixa de mercado, menos voltada aos hitmakers (e muitas vezes mais interessante). Houve ainda um terceiro compacto para promover o disco: Have your seen her face?, com a inédita Don’t make wave (Hillman-McGuinn) no Lado B, e o interessante caso de um single com o novo compositor ocupando os dois lados; mas infelizmente, chegou apenas ao 74º lugar.

 

Enquanto faziam a promoção do novo disco, McGuinn aprofundou o envolvimento que tinha com a religião Subud, da Indonésia, e adotou o novo nome de Roger. Os praticantes dessa religião adotam novos nomes como símbolo do renascimento espiritual e dali em diante, o guitarrista passou a ser conhecido como Roger McGuinn, nome artístico que usa desde então.

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David Crosby começou a querer mais controle na banda.

Ainda em busca do sucesso perdido, os Byrds entraram de novo em estúdio e gravaram um novo single – que não apareceria em nenhum álbum – para tentar movimentar o mercado de verão: Lady friend era uma composição de David Crosby e tinha musicalidade bem elaborada, tendo Old John Robertson (Hillman-McGuinn) no Lado B. O compacto, no entanto, chegou apenas a posição 82 da Billboard.

 

Em contrapartida, em agosto de 1967, a Columbia lançou a coletânea The Byrds’ Greatest Hits que foi um grande sucesso, chegando ao 6º lugar das paradas e ganhando Disco de Ouro. Além de colocar a banda de novo nos holofotes – o que era ótimo para sua carreira de shows – serviu também para tornar mais conhecidas faixas recentes como So you want to be a rock’n’roll star e My back pages. O lançamento da coletânea parece ter mostrado que a banda ainda tinha potencial comercial a ser explorado, o que só aumentou a insatisfação com seu staff particular, de modo que foi encerrada a parceria com o empresário Jim Dickson e Larry Spector ocupou o seu lugar.

O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

Em meio a isso, os Byrds voltaram outra vez ao estúdio para produzir seu próximo álbum, mas as coisas andavam mal como nunca. David Crosby se tornou um ponto de tensão dentro do grupo. Por um lado, o guitarrista se sentia sabotado pelo fracasso de Lady friend (talvez as altas doses de maconha e LSD tornassem sua relação com os outros mais difícil) e é provável que se sentisse enciumado com o crescimento de Chris Hillman dentro da banda, ocupando um lugar – como cantor e compositor – que poderia ter sido dele. Embora é de se considerar que Crosby continuava contribuindo ativamente como compositor à banda. Mas o estresse era bilateral: McGuinn e Hillman também tinham grandes problemas com Crosby.

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Jimi Hendrix incendeia a guitarra em Montorrey.

“Pegou mal” para os outros dois a ativa participação de Crosby no Monterrey Pop Festival, em agosto de 1967 e que foi o primeiro dos grandes festivais dos anos 1960, ocorrendo perto de San Francisco. Foi lá que Jimi Hendrix (que já fazia grande sucesso na Inglaterra) e Janis Joplin foram “apresentados” ao grande público dos EUA e houve também incendiárias apresentações de The Who e The Mamas and the Papas, publicizando toda a cena flower power da Califórnia. Os Byrds se apresentaram no evento, mas Crosby circulou como um tipo de embaixador do festival (assim como Brian Jones dos Rolling Stones) e fez vários discursos ao microfone (defendendo o LSD, por exemplo), enquanto apresentava as novas apresentações dos shows. Além disso, como Neil Young se demitiu do Buffalo Springfield, Crosby o substituiu na apresentação desta banda em Monterrey, iniciando de modo mais próximo a parceria com Stephen Stills.

Assim, as gravações do novo álbum dos Byrds foram marcadas por tensão e brigas. A primeira vítima foi o baterista Michael Clarke, que terminou demitido da banda por insatisfação dos membros com sua performance. Na maior parte das gravações, coube a bateristas profissionais de estúdio tomar o seu lugar, como Jim Gordon e Hal Blaine.

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McGuinn, Crosby e Hillman: ruptura.

A segunda vítima foi Crosby. Após gravar quatro composições suas para o álbum, o guitarrista entrou em choque direto com McGuinn e Hillman por dois motivos diretos. Em primeiro lugar, a relutância da dupla em colocar a canção de Crosby, Triad, no disco, porque era uma letra que tratava de ménage à tróis. Em segundo, porque a dupla queria gravar Goin’ back (da dupla de compositores profissionais Gerry Goffin e Carole King) como faixa de trabalho do álbum. Crosby não concordava com isso, pois julgava um retrocesso investir em covers com uma banda repleta de compositores. No fim, Crosby foi demitido da banda e Triad foi excluída do disco, mas chegou a ver a luz no álbum seguinte do Jefferson Airplane.

 

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Crosby, Stills and Nash: sucesso enorme.

David Crosby seguiria seu rumo e construiria uma carreira musical de sucesso e aclamação. Livre dos Byrds, ele se uniu a Stephen Stills (do Buffalo Springfield) e a Graham Nash (do britânico The Hollies) e formaram o “supergrupo” Crosby, Stills and Nash, cujo primeiro álbum, lançado em 1969, foi um sucesso estrondoso. Em seguida, o trio ganhou a adesão de Neil Young (também ex-Buffalo Springfield) e virou Crosby, Stills, Nash & Young, se apresentando em Woodstock e lançando dois álbuns (um de estúdio, outro ao vivo) de sucesso colossal. Depois de 1971, a banda se separou – e Crosby investiu em carreira solo – mas continuou retornando de vez em quando (a primeira vez em 1974 para uma grande turnê pelos EUA) às vezes como o trio original, outras como quarteto.

Reduzido a uma dupla, no fim de 1967, os Byrds tiveram que fazer um arranjo para continuar ativos. Quanto aos shows que precisavam realizar, o grupo contratou o recém-demitido Michael Clarke apenas temporariamente para fechar o calendário de apresentações pendentes, o que deve ter sido uma situação muito desconfortável. E convidou o ex-membro Gene Clark para retornar à banda.

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Gene Clark toca de novo com os Byrds, no programa de TV dos Smothers Brothers.

Clark tinha investido na sua carreira solo e foi aclamado pela crítica, mas não fez sucesso algum. Então, tinha abandonado o mundo da música e se dedicava a outras coisas. O compositor aceitou o convite, mas passou apenas três semanas na banda novamente, antes de ser novamente despedido, pois continuava com os problemas de paranoia e medo de voar. Ainda assim, Clark se apresentou com os Byrds em vários shows pelo Meio-Oeste dos EUA e fez uma famosa apresentação com a banda na TV, no The Smothers Brothers Shows; assim como contribuiu um pouco com as gravações do novo álbum. Aparentemente, Clark faz vocais em Goin’ back e Space Odyssey (de McGuinn e Robert Hippard), além de contribuir com uma composição ao lado de McGuinn, em Get to you.

A finalização do disco, no entanto, foi feita apenas por McGuinn e Hillman como membros, contando com o apoio de vários músicos de estúdio, entre eles, novamente o guitarrista Clarence White.

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The Notorious Byrds Brothers, 1968.

The Notorious Byrds Brothers foi lançado em janeiro de 1968 e também foi aclamado pela crítica e ficou na razoável posição Nº 47 das paradas da Billboard. É o disco mais experimental dos Byrds, repleto de efeitos sonoros construídos pelo produtor Gary Usher. Dentre as faixas, destaque para Goin’ back (Goffin-King), que também foi lançada em compacto (mas chegou apenas ao 89º lugar); e também para Wasn’t born to follow (também de Goffin-King) na qual novamente evidenciam o country e possui uma marcação distinta criada pelo baterista Jim Gordon. Pouco mais de um ano depois, essa faixa se tornaria bastante famosa por entrar na trilha sonora do filme Easy Rider – Sem Destino.

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Gram Parsons, o criador do country rock.

O MOTORISTA DO CAMINHÃO DA FARMÁCIA

Rapidamente, McGuinn e Hillman procuraram reestruturar a banda e o primo do baixista, Kevin Kelley, foi admitido como novo baterista. Os Byrds se apresentaram como trio algumas vezes, mas isso empobrecia os arranjos da banda, especialmente aqueles mais psicodélicos que tinham adotado recentemente. Assim, por meio da indicação do empresário Larry Spector, convidaram o músico Gram Parsons – vindo do The International Submarine Band – como guitarrista e pianista.

Gram Parsons era um músico country que tinha como missão tornar aquele gênero atrativo para a juventude. Por isso, há certa unanimidade entre os historiadores que ele foi o criador do country rock, um subgênero do rock que se tornaria em breve bastante popular nos EUA. Os Byrds já vinham flertando com o country, especialmente nas composições de Chris Hillman, então, Parsons parecia uma boa adesão.

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Os novos Byrds: Kelley, Parsons, McGuinn e Hillman.

Após uma rodada de apresentações para azeitar o novo grupo, a nova formação dos Byrds (Roger McGuinn na guitarra e vocais, Gram Parsons na guitarra, piano e vocais, Chris Hillman no baixo e vocais e Kevin Kelley na bateria) entrou em estúdio no início de março de 1968, dessa vez não em Los Angeles como sempre fizeram, mas nos estúdios da Columbia em Nashville. Era um movimento calculado: ao ganhar seu espaço na banda, Parsons começou a convencer McGuinn a gravar um disco inteiro baseado na sonoridade country, no que encontrou a adesão imediata de Hillman. O líder foi convencido e a banda começou a preparar um repertório de canções tradicionais de country em roupagem rock ao mesmo tempo em que investiam em seu próprio material autoral.

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Os Byrds (com Gram Parsons ao centro) se apresentam no Grand Ole Oprey.

Iniciaram as gravações com a banda e um time de músicos de apoio com mais experiência no country, incluindo o já veterano colaborador Clarence White. Enquanto transcorriam as gravações a banda fez dois movimentos para se apresentar à cena country, o que foi um grande erro. Quando os Byrds inventaram o folk rock não enfrentaram a comunidade folk tradicional, que não ligava para a música popular. Mas o country não era uma música de nicho de mercado tal qual o folk, era a expressão máxima da típica sociedade branca, cristã e conservadora do sul do país. Assim, quando os Byrds se apresentaram no Grand Ole Oprey, o mais tradicional evento de música country, foram massacrados pela plateia. Era a primeira vez que uma banda elétrica de jovens cabeludos tocava no evento e foram recebidos com vaias e insultos, do mesmo modo que Bob Dylan quando tocou com uma banda de rock no tradicional Newport Folk Festival, três anos antes.

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Rejeitados pela cena country.

O passo errado seguinte foi ir ao tradicional programa de rádio de DJ Ralph Emery, onde apresentaram uma versão prévia do que seria a principal canção de trabalho do futuro álbum: uma versão de You ain’t goin’ nowhere (de Bob Dylan) em roupagem country rock, na qual foram desdenhados pelo apresentador que criticou abertamente a “aventura” daqueles hippies. Chateados pelo ocorrido, McGuinn e Parsons compuseram a canção Drug store truck drivin’ man “homenageando” Emery e relatando o caso.

Claro que tudo isso acrescentou pressão às gravações. Não ajudou em nada o egoísmo de Gram Parsons, que quis transformar os Byrds em “sua” banda, querendo que o tocador de pedal steel guitar Sneaky Pete Kleinow fosse admitido na banda como membro fixo (algo que os outros não concordaram) e, depois, insistindo para que o grupo fosse apresentado como Gram Parsons and the Byrds.

Após algum tempo em Nashville, os Byrds voltaram para a Califórnia para trabalhar na pós-produção do disco e tudo só piorou. O ex-empresário de Parsons apareceu e ameaçou processar a banda porque ainda estaria preso por contrato. McGuinn e o produtor Gary Usher usaram isso como desculpa para diminuir o “peso” de Parsons no disco, pegando três canções nas quais fazia os vocais principais e regravando vocais de McGuinn e Hillman nelas. O guitarrista ficou bastante zangado por isso, mas terminou aceitando. No fim, Parsons ainda canta outras três canções na versão final do disco: You’re still on my mind (Luke McDonald), Hickory wind (Parsons, Bob Buchanan) e Life in prison (Merle Haggard, Jelly Sanders), enquanto McGuinn faz a voz em cinco e Hillman em duas, com a dupla cantando outra em dueto.

Em abril o single You ain’t goin’ nowhere foi lançado e chegou ao respeitável 45º lugar das paradas.  Em seguida, após alguns concertos pelos EUA, a banda seguiu para a Inglaterra para uma pequena turnê no país, com uma apresentação no Royal Albert Hall e uma sequência pelos clubes de Londres, como o Middle Earth. No primeiro concerto, a banda se encontrou com Mick Jagger e Keith Richards e este último desenvolveu uma imediata vinculação com Parsons e os dois se tornando muito amigos. O passo seguinte da banda era uma turnê na África do Sul, país que vivia sob o regime do Aparthaid, a total segregação entre brancos e negros e que duraria até 1994. Jagger aconselhou o grupo a não fazer isso, mas McGuinn pensava que seria uma forma de protestar contra aquilo.

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Gram Parsons e Keith Richards: inseparáveis.

Às vésperas de partir para a excursão, Gram Parsons anunciou sua demissão, alegando que não podia concordar com os shows na África do Sul, o que o restante da banda interpretou como uma mera desculpa para permanecer na Inglaterra farreando com Keith Richards. Parsons ficaria um tempo na casa do rolling stone antes de voltar aos EUA para uma nova empreitada musical.

Sem um segundo guitarrista na hora de entrar no avião, os Byrds usaram o roadie da banda Carlos Bernal como substituto na segunda guitarra. A turnê na África do Sul foi um fiasco total, com o grupo pouco entrosado e plateias segregadas que detestaram a banda. Para piorar, a imprensa menos conservadora atacou furiosamente o grupo por ter feito aquela excursão.

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Sweetheart of the Rodeo, 1968.

Com a moral baixa e um membro a menos, os Byrds voltaram a Los Angeles para o lançamento do novo álbum, que saiu ainda no fim de agosto. Sweetheart of the Rodeo foi bem recebido pela crítica, mas chegou apenas a colocação N.º 77, tornando-se o disco menos vendido da carreira dos Byrds. Os grandes destaques do álbum são o compacto You ain’t goin’ nowhere e You’re still on my mind, esta última cantada por Gram Parsons. Apesar das vendas baixas, o disco causou um grande impacto na cena musical de rock, pois era a primeira vez que um grupo internacionalmente famoso gravava um disco daquele jeito. A empreitada dos Byrds foi a ponta de lança de todo um movimento de músicos norteamericanos procurando reencontrar suas raízes country, o que resultou no sucesso de bandas como The Band e Creedence Clearwater Revival, além da adesão de Bob Dylan com Nashville Skyline, todos lançados naquele mesmo ano. Muito em breve, o country rock se transformaria num firme subgênero do rock, revelando grupos como The Eagles, The Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd.

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Clarence White.

JÁ VIU O ROSTO DELE?

Ao mesmo tempo, Chris Hillman sugeriu que a banda contratasse o guitarrista Clarence White como membro fixo dos Byrds, já que ele tinha tocado nos últimos três álbuns da banda como músico convidado. White aceitou de bom grado o convite, mas solicitou que a banda mudasse de baterista, algo que os outros acataram. White indicou o amigo Gene Parsons (nenhum parentesco com Gram), um baterista com quem havia tocado numa banda country de curta duração chamada Nashville West.

A nova formação não durou um mês. Chris Hillman reencontrou Gram Parsons em Los Angeles e os dois se reconciliaram, apostando no amor que ambos compartilhavam pelo country. Desanimado com a declinante carreira dos Byrds, Hillman começou a cogitar montar uma nova banda com Parsons. No fim das contas, em setembro de 1968, após um concerto em Pasadena, Hillman teve uma briga com o empresário Larry Spector e se demitiu.

Hillman e Parsons montaram o The Flying Burrito’s Brothers, uma banda que nunca fez muito sucesso, mas foi bastante apreciada no circuito musical. Após o lançamento do primeiro álbum The Gilded Palace of Sin, em 1969, o grupo ainda adicionou outro ex-byrd: o baterista Michael Clarke. Como curiosidade, na nova banda, Hillman deixou de tocar o baixo e passou à guitarra.

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Michael Clarke, Chris Hillman e Gram Parsons: três ex-Byrds no The Flying Burrito’s brothers.

O The Flying Burrito’s Brothers lançou apenas dois álbuns, mas foi uma banda muito influente no circuito musical, servindo para dar ainda mais holofotes ao talento de Gram Parsons.

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John York, Clarence White, Gene Parsons e Roger McGuinn: novos Byrds.

Sem Hillman, Roger McGuinn se tornou o último dos membros originais dos Byrds a permanecer na banda e contratou o baixista de estúdio John York (que vinha trabalhando com The Mamas and the Papas). Assim ficou a nova formação do grupo: Roger McGuinn e Clarence White (guitarra e vocais), John York (baixo e vocais) e Gene Parsons (bateria e vocais); que entrou em estúdio imediatamente, em outubro, para gravação do álbum seguinte.

Apesar do pouquíssimo tempo para se entrosarem antes das gravações, as gravações fluíram muito bem, porque White, York e Parsons eram experientes músicos de estúdio. Além disso, todos eram capazes de cantar muito bem. York também tocava piano e Gene Parsons era um multi-instrumentista, o que fazia com que, apesar de ser oficialmente o baterista, pudesse facilmente contribuir com piano, guitarra, bandolim ou banjo às gravações. Isso contribuiu para a sonoridade do disco fosse muito bem resolvida, apesar da opção do grupo em mesclar a nova sonoridade country rock com o psicodelismo de sua fase anterior. White era um grande guitarrista e criou uma técnica na qual, em um instrumento comum, conseguia emular a sonoridade do steel guitar, algo que tornou muito usado na fase final da banda. Na parte vocal, McGuinn decidiu assumir todos os vocais principais do álbum, porque todos os outros membros eram recém-ingressos. Assim, os outros fizeram apenas backing vocals, sendo este o único álbum da carreira dos Byrds na qual McGuinn faz todos os vocais.

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Dr. Byrds and Mr. Hyde, 1969.

Dr. Byrds and Mr. Hyde foi lançado em março de 1969 e novamente foi bem recebido pela crítica, mas dessa vez, teve uma posição nas paradas ainda pior, chegando apenas ao 153º lugar nos EUA, embora o disco tenha sido – curiosamente – muito admirado na Inglaterra, chegando ao 15º lugar. O produtor do disco foi Bob Johnson, que já tinha trabalhado com Bob Dylan e Simon & Garfunkel, mas seu trabalho rendeu muita dor de cabeça para a banda. Isto porque foi decidido que a faixa de trabalho seria uma canção que não estava no disco – uma versão para Lay lady lay, de Bob Dylan – mas Johnson acrescentou um forte coro de vozes femininas na gravação sem que a banda soubesse, o que os deixou muito chateados. Para piorar, o compacto só chegou ao 132º lugar das paradas, causando para sempre a impressão de que a versão original dos Byrds poderia ter se saído melhor. (A versão original seria lançada nos anos 1990 na reedição em CD dos discos e realmente é melhor).

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White, York, Parsons e McGuinn.

Quanto ao álbum em si, os grandes destaques são This wheel’s on fire (Bob Dylan, Rick Danko), Drug store truck drivin’ man (McGuinn, Gram Parsons – que não tinha sido gravada ainda), King Apathy III (McGuinn) e Candy (McGuinn, York). Como curiosidade, um concerto dos Byrds poucos dias antes do lançamento do álbum – onde tocam várias faixas do disco e do anterior – seria lançado em 1999: The Byrds Live at Filmore West, February 1969, que é um registro sensacional. Algumas faixas – como Drug store truck drivin’ man e King Apathy III são ainda melhores ao vivo do que em estúdio. Também há algumas faixas inéditas, como a ótima Close up the honky tonks.

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Preflyte, 1971.

Enquanto os Byrds corriam os EUA promovendo o disco novo, o ex-produtor da banda, Gary Usher comprou (do ex-empresário Jim Dickson) a série de demos da banda gravada no Pacific World’s Studios em 1964, antes do contrato com a Columbia, e os lançou como o álbum Preflyte, por sua gravadora Together, com autorização da banda, em julho de 1969. A capa trazia uma infame imagem da cabeça dos cinco membros originais dos Byrds em meio a um ninho de pássaros e trazia o grupo bem em seu início executando prioritariamente suas primeiras composições, trazendo assim, sete faixas totalmente inéditas, das quais cinco eram de autoria de Gene Clark. Também havia uma versão prévia de Mr. tambourine man. Mostrando que a banda original ainda tinha algum apelo, Preflyte teve um desempenho nas paradas ainda melhor do que Dr. Byrds and Mr. Hyde, chegando ao 84º lugar e ainda rendendo um hit quando a faixa You showed me (de Jim McGuinn e Gene Clark) foi regravada pela banda californiana The Turtles e chegou ao 6º lugar das paradas dos EUA.

Encerrada a turnê de divulgação, os Byrds decidiram ir ao estúdio para lançar outro álbum para as vendas de Natal, aproveitando também o envolvimento de Roger McGuinn com o vindouro filme-símbolo da contracultura Easy Rider – Sem Destino. Para produzir o disco, Bob Johnson foi dispensado por sua conduta no disco anterior e McGuinn decidiu trazer de volta Terry Melcher – que tinha feito os dois primeiros da banda – e este aceitou com a condição de também empresariar o grupo. Proposta aceita, a banda passou os meses de junho e agosto no estúdio.

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Ballad of Easy Rider, 1969.

Ballad of Easy Rider foi lançado em novembro de 1969, chamando a atenção pela faixa-título que foi usada no filme. (Sem Destino também trouxe a canção Wasn’t born to follow, de Notorious Byrds Brothers). A vinculação com o filme, que fez bastante sucesso, e talvez a exposição de Preflyte, ajudaram nas vendas e o novo álbum chegou ao ótimo 36º lugar das paradas dos EUA e ao 41º no Reino Unido. O single com a faixa-título chegou ao 65º lugar e o segundo compacto, com Jesus is just all right (esta canção seria anos mais tarde regravada pelos The Doobie Brothers com grande sucesso), ficou em 97º. Estas duas canções terminam sendo o grande destaque do álbum, pois a maior parte do repertório foi formada por covers de canções tradicionais, embora as canções reforçaram a sonoridade country rock da banda. McGuinn só assina a faixa-título, enquanto John York contribui com Fido e Gene Parsons com Gunga din, cada um fazendo o vocal principal nelas. Há ainda uma versão de It’s all over now baby blue (Bob Dylan), mas o andamento excessivamente lento a deixou estranha. Voltando à tradição, nesse álbum não apenas McGuinn faz os vocais, mas todos os outros membros assumem alguma faixa como cantor principal.

Todavia, quando o álbum chegou às lojas, o baixista John York já tinha sido demitido da banda há dois meses. York parecia não estar muito feliz com seu papel no grupo e era sempre relutante em tocar o (farto) material do grupo anterior à sua entrada. De comum acordo, os demais membros acharam que era melhor que ele saísse. Assim como no caso do próprio demitido, novamente foram White e Parsons quem indicaram o substituto: Skip Battin, um músico que tocava ao vivo com vários artistas.

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A mais longeva formação: Gene Parsons, Skip Battin, Roger McGuinn (embaixo) e Clarence White.

Assim, a nova formação dos Byrds ficou a seguinte: Roger McGuinn e Clarence White (guitarras e vocais), Skip Battin (baixo e vocais) e Gene Parsons (bateria e vocais); e por incrível que pareça, essa seria a formação mais duradoura da banda em toda a sua história, tocando ao vivo por três anos!

A banda iniciou o ano de 1970 fazendo mais shows e, apesar do ingresso recente de Battin, todos concordavam que estavam suficientemente azeitados para finalmente realizar uma gravação ao vivo. De fato, diferente dos tempos do inícios, agora, os Byrds eram formados apenas por músicos de alto calibre em termos de execução, o que fazia com que os concertos do grupo fossem muito apreciados. Isso ajuda a explicar, também, porque apesar de ter uma carreira fonográfica apenas mediana em termos de sucesso, os Byrds se mantiveram vivos e ativos aquele tempo todo, pois eram um dos grupos com maior sucesso em uma carreira de apresentações pelo país.

Então, a banda gravou dois shows em Nova York, em fevereiro e março de 1970 (um no Queens College e outro no Felt Forum), com produção de Terry Melcher para transformar em um álbum. O produtor, inclusive, convidou o ex-empresário da banda, Jim Dickson, para ajudar na mixagem dos tapes. Os Byrds passaram a maior parte do ano excursionando pelos EUA, aproveitando o surto de popularidade causado pelo álbum anterior, parando apenas um pouco em maio e junho para gravar novas canções. Roger McGuinn tinha trabalhado em um projeto de musical para a Broadway com o letrista Jacques Levy, mas como o projeto não foi adiante, decidiu usar algumas das canções para compor o novo disco. Como as faixas foram consideradas boas, a banda decidiu – à moda do que tinha feito o Cream dois anos antes – lançar um disco que misturasse faixas ao vivo e em estúdio, embora num formato duplo.

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Untitled, 1970.

(Untitled) foi lançado em setembro de 1970 e causou uma ótima impressão aos críticos (como de costume), mas também atingiu o gosto popular, chegando ao 40º lugar das paradas dos EUA e, melhor ainda, ao 11º lugar no Reino Unido. Com isso, a popularidade alcançada com os discos anteriores aumentou mais ainda e a banda se aproximou novamente do mainstream depois de muito tempo. O single extraído do disco foi Chesnut mare (McGuinn-Levy), que chegou ao 121º lugar das paradas dos EUA, mas se deu bem melhor no Reino Unido, onde ficou na posição 19 do ranking. A canção seria um grande hit no rádio nos EUA ao longo dos anos 1970.

No álbum duplo, o primeiro disco era de material ao vivo, com novas rendições de So you want to be a rock’n’roll star, Mr. tambourine man e Mr. spaceman, além de Lover of the bayou (de Ballad of Easy Rider) e Nashville west (de Dr. Byrds and Mr. Hyde) e a inédita versão de Possibility 4th street (de Bob Dylan). Todo o Lado B do disco ao vivo era ocupado por uma impressionante versão de 16 minutos de Eight miles high. No disco de estúdio, além de Chesnut mare, merece destaque Yesterday’s train (de Gene Parsons e Skip Battin). O baixista, inclusive, assina um grande número de faixas, como Hungry planet (Battin, Kim Fowley e Roger McGuinn), You all look alike (Battin-Fowley) e Well come back home (Battin).

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O disco ao vivo, de 2008.

Os Byrds aproveitaram o boom de popularidade e conseguiram agendar uma turnê pela Europa e Reino Unido no mês de maio de 1971. A excursão foi um grande sucesso, com ingressos esgotados e a crítica europeia rendida ao talento da banda ao vivo. Em 2008, um dos concertos na Inglaterra foi lançado como disco em The Byrds Live at Royal Albert Hall 1971, que é um ótimo exemplo do que foi aquele momento.

VOCÊ NÃO VAI A LUGAR NENHUM

Infelizmente, a banda cometeu um erro de cálculo: em vez de se dedicar para produzir um disco ainda melhor, realizou uma série de gravações avulsas intermediadas por concertos. Assim, do mesmo modo que Bob Johnson antes dele, o produtor Terry Melcher pegou as canções gravadas e acrescentou sequências de orquestra e coro feminino à revelia da banda. Quando os Byrds viram o material, solicitaram à gravadora que as adições fossem retiradas, mas a Columbia não aceitou, alegando que isso aumentaria os custos.

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Byrdmaniax, 1971.

Byrdmaniax foi lançado meio às pressas em junho de 1971 e embora tenha se beneficiado da popularidade da banda, foi massacrado pela crítica dos EUA, que até então elogiara quase todos os álbuns do grupo. A banda foi declarada “morta” pela revista Rolling Stone. Em contrapartida, a imprensa do Reino Unido foi mais condescendente. Ainda assim, atingiu o 46º lugar das paradas dos EUA, mas não apareceu na Inglaterra de jeito nenhum. O compacto com I trust (McGuinn-Levy) também não apareceu em nenhuma das duas paradas. Um segundo compacto com Glory, glory (Arthur Reynolds) foi lançado e chegou ao 110º lugar nos EUA. Novamente, Skip Battin e Gene Parsons contribuíram com composições, mas os poucos destaques cabem a I wanna grow up to be a polititian e Katheen’s song (ambas de McGuinn-Levy), a primeira (apesar de ser um pastiche) porque saiu em algumas coletâneas posteriores da banda; a segunda porque era uma canção que vinha “bolando” pelos últimos discos do grupo e finalmente viu a luz do dia. Durante as sessões, a banda ainda gravou uma versão para Just like a woman (de Bob Dylan), mas ela não saiu no disco, sendo lançada mais tarde nas versões bônus dos anos 2000.

NÃO NASCI PARA SEGUIR

O grupo ficou tão chateado com o resultado de Byrdmaniax que decidiu não só produzir o próximo álbum sozinhos, como também, fazê-lo imediatamente. Aproveitando que iam para a Inglaterra se apresentar no fim de julho de 1971, os Byrds aproveitaram para gravar nos estúdios londrinos da Columbia, longe de seu staff tradicional. Além disso, a banda também decidiu gravar um disco majoritariamente de seu próprio material autoral.

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A icônica imagem usada em várias coletâneas.

Ao mesmo tempo, a subsidiária britânica da Columbia resolveu aproveitar a passagem do grupo pelo país e preparou uma coletânea chamada The Byrds’ Greatest Hits Vol. II, em outubro de 1971, como se fosse um tipo de sequência da copilação de 1967. O disco trazia um set-list de 12 faixas entre as principais lançadas desde aquele ano, mas ao contrário de seu predecessor, simplesmente não aconteceu nas paradas. O disco ganharia uma versão nos EUA em 1972, com o título de The Best of The Byrds: Greatest Hits Vol. 2 (e chegaria ao 114º lugar). Este disco traria a famosa fotografia do quarteto McGuinn, White, Battin e Parsons em perfil, que se transformaria em uma das imagens mais famosas da banda, repetida em vários outros lançamentos posteriores.

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Farther Along, 1971.

Em novembro de 1971, Farther Along chegou às lojas e recebeu críticas melhores do que o anterior, embora também não tenham sido entusiasmadas. A imprensa dos EUA achou que o disco foi gravado rápido demais e poderia ter sido melhor trabalhado, enquanto a do Reino Unido apreciou o tipo de produção mais simples. O disco chegou apenas ao 152º lugar das paradas dos EUA e não aconteceu no Reino Unido. O compacto America’s great national pastime (Battin-Fowley) também não aconteceu em nenhuma das duas paradas. O disco apresenta uma sonoridade agradável, que começa a se distanciar do country rock rumo a um som que mescla várias das influências da banda para uma sonoridade mais rock e tem alguns destaques, como Get down on line (Gene Parsons), a faixa título (uma canção tradicional, cantada com emoção por Clarence White) e Bugled (de Larry Murray), também cantada por White. Há ainda Precious Kate (Battin-Fowley), que apesar da autoria, é cantada por McGuinn, talvez revelando a ausência de material próprio do líder da banda.

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White, Parsons, McGuinn e Battin: fim de era.

ENERGIA ARTIFICIAL

A má recepção em geral do álbum só serviu para diminuir a moral da banda, criando a clara impressão de que o fim da linha estava próximo. Embora a banda tenha se apresentado ostensivamente no primeiro semestre de 1972, a tensão estava intensa dentro do grupo. Como resultado, em junho o baterista Gene Parsons foi demitido por Roger McGuinn, dando fim à estabilidade que o grupo tivera por três anos mantendo a mesma formação. Os Byrds nunca mais tiveram um baterista oficial, mas contrataram o baterista de estúdio John Guerin como um músico de apoio. A formação McGuinn, White, Battin e Guerin gravou versões ao vivo de Mr. tambourine man e Roll over Beethoven (de Chuck Berry) que aparecem no filme Banjoman e em sua trilha sonora, em 1972.

Curiosamente, Roger McGuinn vinha articulando nos bastidores uma reunião dos cinco membros originais dos Byrds. Em julho de 1972, o produtor David Geffen, da Asylum Records, ofereceu uma grande quantidade de dinheiro ao quinteto para assinar com seu selo. Deu certo. Enquanto os Byrds “oficiais” (McGuinn, White e Battin, mais Guerin) faziam seus shows pelo país, o quinteto original (Roger McGuinn, Gene Clark, David Crosby, Chris Hillman e Michael Clarke) se reuniu para ensaiar faixas novas em outubro e seguiu para um estúdio em Los Angeles, onde gravaram o material em pouco mais de um mês.

Terminada a aventura, ficou a promessa de que o quinteto se reuniria novamente quando o álbum fosse lançado na primavera. Enquanto isso, McGuinn permaneceu tocando ao vivo com os “outros” Byrds, mas talvez o guitarrista já soubesse que o fim estava próximo. Em janeiro de 1973, o baterista contratado John Guerin decidiu voltar para o mais rentável trabalho nos estúdios e outros músicos itinerantes tocaram com a banda no mês seguinte.

No início de fevereiro, McGuinn demitiu o baixista Skip Battin, após um show em Ithaca, em Nova York, e convidou Chris Hillman para ocupar o posto momentaneamente para dois concertos em Nova Jersey nos dias 23 e 24 de fevereiro. Hillman concordou desde que pudesse levar o baterista Joe Lala, seu parceiro de composições e membro da banda Manassas, na qual Hillman também tocava naqueles tempos. Foi essa formação temporária, com Roger McGuinn, Clarence White, Chris Hillman e Joe Lala que fez o último concerto dos Byrds, no dia 24 fevereiro de 1973.

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Clark, Hillman, Clarke, Crosby e McGuinn: a velha turma.

VINDO DE VOLTA

McGuinn cancelou todos os shows seguintes dos Byrds, preparando o terreno para o lançamento do disco da reunião do quinteto original e os concertos que viriam em seguida.

O álbum Byrds foi lançado em março de 1973, trazendo a formação original da banda, com Roger McGuinn (guitarra e vocais), Gene Clark (guitarra, gaita e vocais), David Crosby (guitarra e vocais), Chris Hillman (baixo, bandolim e vocais) e Michael Clarke (bateria). A intenção do disco era capitanear no nome que a banda ainda tinha (especialmente em sua incarnação inicial) e na ideia de um “supergrupo“, seguindo o sucesso de David Crosby no Crosby, Stills, Nash & Young e de Chris Hillman no The Flying Burrito Brothers (ao lado de Gram Parsons) e do Manassas (ao lado de Stephen Stills). Por isso, o disco tem o nome de todos os integrantes na capa.

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Byrds, 1973.

Byrds tem uma sonoridade agradável, mais calcada no folk do que no country que acompanhou as últimas encarnações do grupo e canções interessantes, mas não agradou a crítica. O disco foi incrivelmente bom nas paradas, atingindo o 20º lugar das paradas dos EUA e o 31º do Reino Unido, mas a crítica parece ter criado uma expectativa diferente do trabalho. Talvez todos pensavam que iria ver de novo a guitarra de 12 cordas estridente e os covers de Bob Dylan do início. Ao contrário, o disco traz uma sonoridade mais calma, pontuada muito mais em timbres acústicos e um acento folk, embora permanecessem as harmonias vocais cristalinas de outrora. Ao invés de olharem para o passado, os Byrds preferiram investir no ponto em que estavam em suas carreiras, o que faz o disco soar mais parecido com Crosby, Stills, Nash & Young do que com Mr. tambourine man.

Curiosamente, o resultado final do álbum também parece um certo acerto de contas dos demais com Roger McGuinn, o único que permaneceu levando o nome da banda adiante. Em primeiro lugar, o cargo de produtor do álbum coube a David Crosby, de todos, o que teve a carreira mais exitosa até ali. Para evitar conflitos e disputas, o combinado foi que cada membro compositor teria direito a duas faixas do disco e depois veriam o que fazer com o espaço sobrante. Assim, cada um cumpriu sua meta, mas o fato de McGuinn também estar ocupado fazendo shows com os “outros” Byrds na época das gravações, o deixou ausente de muitas sessões, então, além do par combinado, Crosyby canta um cover de Joni Mitchel e Clark dois covers de Neil Young. Este último ponto também foi alvo de críticas, porque a imprensa esperava canções de Dylan e não de Young, mas Crosby foi eloquente e certeiro em uma resposta que ficou famosa: se Dylan tinha sido o maior compositor dos anos 1960, Young era o maior dos 1970. Outra vez olhando para frente. McGuinn só faz o vocal principal em duas faixas.

Byrds abre com Full circle – que quase foi o título do álbum – uma composição de Gene Clark e talvez a melhor faixa do disco. Ela foi lançada em compacto, mas chegou apenas ao 109º lugar. Depois, vem Sweet Mary (McGuinn-Levy), em contrapartida a pior faixa do disco. O álbum levanta de novo com Changin’ heart (Clark) e continua com For free (Mitchel), cantada por Crosby. O primeiro lado fechava com Born to rock’n’roll (McGuinn), uma boa composição do ex-líder. O Lado B começa com Things will be better (Hillman, Dallas Taylor), primeiro vocal principal do baixista no disco e uma ótima faixa. Segue Cowgirl in the sand (Young) numa ótima versão cantada por Clark; Long live the king (Crosby); Borrowing time (Hillman, Joe Lala); Laughing (Crosby), outra ótima; e (See the sky) About to rain (Young), também cantada por Clark. Além da dominância de Clark ao longo do álbum, nota-se curiosamente que a participação vocal de destaque de McGuinn se encerra já no Lado A.

ESTÁ TUDO ACABADO, NEGRO AMOR

Infelizmente, a má recepção da crítica ao disco encerrou qualquer possibilidade dos Byrds originais seguirem em turnê ou manter outras reuniões como planejado. Assim, o lançamento do disco marca, também, o fim oficial da banda, fechando seu círculo com a mesma formação que começou após tantos anos.

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Gram Parsons: lenda e fim.

Seguindo-se ao fim do grupo, os ex-membros seguiram suas carreiras, mas nem tudo foram rosas. Clarence White morreu em 14 de julho de 1973, aos 26 anos, atropelado por um motorista de caminhão bêbado, enquanto descarregava seu equipamento de uma van. No funeral do guitarrista, o também ex-byrds Gram Parsons cantou (ao lado do membro do Eagles, Bernie Leadon) a canção Farther along, que White havia cantado no álbum homônimo dos Byrds.

Gram Parsons tinha sido expulso do The Flying Burrito Brothers no início de 1971, por causa de seu abuso de drogas (e de novo por preferir acompanhar as farras de Keith Richards do que se manter com sua banda), e passou um tempo inativo (quando se mudou para a França e viveu com os Rolling Stones numa roda viva de farras), mas tinha reencontrado o caminho ao lançar no início de 1973 o álbum G.P., que não fez sucesso, mas foi aclamadíssimo pela crítica. Antes do lançamento do seu segundo disco solo (Gravies Angel), Parsons terminou morrendo de overdose de morfina e álcool em 19 de setembro de 1973, também aos 26 anos.

Enquanto isso, os ex-membros originais experimentaram doses variáveis de sucesso: Roger McGuinn lançou seu primeiro álbum solo, autointitulado; Clark retomou para sua carreira solo sempre bem avaliada pela crítica e nunca popular; Crosby se reuniu ao CSN&Y para uma grande turnê, em 1974; Hillman também se lançou em carreira solo; e Clarke ingressou na banda Firefall, que fez algum sucesso.

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CSN 80s
O CSN em ação nos anos 1980.

Em 1977, enquanto Crosby se reunia de novo ao CSN e lançava o álbum homônimo de grandíssimo sucesso, McGuinn, Clark e Hillman se reuniram como um tipo de supergrupo que lançou dois discos: McGuinn, Clark & Hillman e City, com o segundo, em 1979, ainda rendendo o hit Did you write her off?; seguida por mais uma reunião, agora com apenas McGuinn-Hillman.

Nos anos 1980, os ex-membros originais do grupo se envolveram em várias disputas judiciais sobre a propriedade do nome The Byrds, especialmente depois que o baterista Michael Clarke montou uma banda “tributo” ao grupo e registrou o nome para si. (McGuinn havia registrado a propriedade do nome para si nos anos 1970, mas a Justiça desconsiderou isso). Enquanto corria um processo judicial, McGuinn, Crosby e Hillman se reuniram para uma mini-turnê de celebração da banda, em 1989, mas no fim, a Justiça deu ganho de causa a Clarke. Ainda assim, no lançamento da The Byrds Box Set – uma coleção com os maiores sucessos e muito material inédito do grupo – o trio McGuinn, Crosby e Hillman gravou quatro novas canções que foram incluídas na coleção como uma “reunião” dos Byrds, com Path of victory e From the distance.

MINHAS VELHAS IMPRESSÕES 

byrds original lineup hall of fame
O quinteto original se reúne pela última vez, em 1991.

Apesar dos problemas, os cinco membros originais (McGuinn, Clark, Crosby, Hillman e Clarke) puseram as rusgas de lado em janeiro de 1991 quando os Byrds foram introduzidos no Hall da Fama do Rock and Roll. O quinteto compareceu à cerimônia e tocou três canções: Turn! Turn! Turn!, Mr. tambourine man e I’ll feel a whole lot better, sendo a primeira vez que tocavam juntos desde 1973. E infelizmente, a última! Logo depois, em 24 de maio de 1991, Gene Clark morreu pela hemorragia de uma úlcera, causada por anos de abuso de álcool. Não tão depois, foi a vez de Michael Clarke, que morreu em 19 de dezembro de 1993, vítima de uma doença no fígado, também fruto de excesso de álcool.

Os Byrds tiveram uma última reunião informal em agosto de 2000, em um concerto beneficente em que David Crosby e Chris Hillman iriam tocar separadamente, mas a aparição de Roger McGuinn os incentivou a se reunirem de improviso no palco e tocarem Turn! Turn! Turn! e Mr. tambourine man. Em 2002, Crosby conseguiu comprar os direitos do nome da banda da família de Michael Clarke e passou a ser o proprietário do espólio.

Em 2002 e 2003 outros dois ex-membros da banda faleceram: o baterista Kevin Kelley morreu de causas naturais e Skip Battin morreu vítima de Alzheimer.

A banda se foi e o legado ficou. A sonoridade folk do grupo teve grande influência em todo o movimento pós-punk, especialmente naquilo que viria a ser chamado de indie rock, com sua sonoridade refletida em bandas como U2, R.E.M., The Smiths, Stone Roses e muitas outras.

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Clarke, Hillman, McGuinn, Crosby e Clark.

 

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