Quem é o Punho de Ferro?

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Punho de Ferro: dos quadrinhos para as telinhas.

Com a chegada de sua própria série de TV, muitos estão perguntando: quem é o Punho de Ferro? Não se aflija! É um personagem que é obscuro até para os leitores de quadrinhos em geral. O que também não é nada ruim, tendo em vista que, poucos anos atrás, os Guardiões da Galáxia gozava do mesmo status.

 

No início dos anos 1970, a Marvel finalmente tomava conta do mercado de HQs dos EUA, desbancando a até então poderosa DC Comics. Contudo, o então publisher da Marvel Comics, Stan Lee, nunca foi conhecido por ser um cara acomodado: ele sugeriu a seus editores que criassem novas linhas de histórias além das tradicionais que já existiam, com Homem-Aranha, Vingadores, Quarteto Fantástico etc. Daí, surgiram três novas “alas” da Marvel: o lado cósmico, encampado por heróis como Capitão Marvel, Adam Warlock e, mais tarde, Nova; o bloco blackexpotetion, influenciado para emergência da cultura do black power, com Luke Cage, Hero for Hire e Black Panther (além da participação do Falcão nas histórias do Capitão América); e a ala das artes marciais, influenciada pela febre lançada pelos filmes de Bruce Lee, daí, vieram personagens como o Punho de Ferro e O Mestre do King-Fu.

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Visual clássico do Punho de Ferro nas HQs.

O Punho de Ferro foi criado por Roy Thomas e Gil Kane e estreou na revista Marvel Premiere 15, de 1974, uma publicação destinada a histórias avulsas e testes de mercado. Thomas era um dos principais escritores e editores da Marvel (era o Editor-Chefe até alguns meses antes) e foi quem teve a ideia original do personagem e seu nome, enquanto Kane era um artista veterano, ainda advindo da Era de Ouro, mas com um traço muito marcante, e passagens famosas por Lanterna Verde (como cocriador) e Batman (na DC Comics) e Hulk, Namor e Homem-Aranha na Marvel. Naquele ponto dos anos 1970, Kane também era um dos principais capistas da editora.

 

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Capa da estreia do herói em Marvel Premiere. Arte de Gil Kane.

Thomas e Kane criaram a origem do Punho de Ferro: este é um título dado para o maior mestre de uma arte secreta que permite energizar todo o seu Chi para a mão, dando-lhe uma força sobrehumana por alguns instantes. Esta arte é ensinada na cidade mística de K’un L’und, que fica localizada nas frias montanhas do Oriente, no Himalaia, e só se torna visível e acessível a cada 10 anos.

 

Na complexa trama, apresentada em Marvel Premiere 15 a 18, Daniel Rand é filho de Wendell e Heather Rand. Seu pai havia visitado K’un L’und quando criança e tinha sido adotado por Lord Tuan, o chefe da cidade. Na juventude, Wendell regressou aos EUA e se tornou um rico empresário, casando com Heather e tendo Daniel. Quando o garoto tinha nove anos de idade, Wendell levou a família para visitar K’un L’und, que iria novamente aparecer à nossa realidade, mas também levou seu sócio Harold Meachum.

Enquanto atravessavam a neve em busca da cidade, o grupo sofre um acidente e Meachum, que é apaixonado por Heather, termina matando Wendell. Mas mãe e filho conseguem se safar e correr por uma ponte até serem atacados por uma matilha de lobos. Heather se sacrifica para salvar o filho e arqueiros de K’un L’und conseguem salvar Daniel. A criança é adotada por Lei Kung, que vai lhe ensinar as artes maciais da cidade mística.

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Daniel Rand enfrenta o dragão, por Thomas e Kane.

Quando chega ao final da adolescência, Daniel é o melhor discípulo de Lei Kung e lhe é dado o desafio de obter os poderes do Punho de Ferro combatendo o dragão Shou-Lao, o imortal. Daniel luta contra a fera e deduz que a fonte de poder dele advém de seu coração, que é marcado pela imagem estilizada em dragão no peito do animal. Estrangulando o dragão, Daniel tem o símbolo gravado em fogo no seu peito também e, depois, utiliza o coração de Shou-Lao para obter o lendário poder.

 

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Capa de Marvel Premiere 18, por Gil Kane.

Aos 19 anos, Daniel está pronto para partir de K’un L’und para obter a vingança contra Harold Meachum e volta à Nova York. Usando o uniforme do Punho de Ferro, Daniel enfrenta vários desafios, mas termina descobrindo que Meachum é agora um homem sem pernas: ele as perdeu congeladas na montanha antes de ser resgatado. Diante disso, Rand perdoa o velho e vai embora. Mas um ninja misterioso (mais tarde revelado como um capanga de Master Khan) mata Meachum, fazendo a filha dele, Joy, pensar que o Punho de Ferro foi o assassino.

 

Depois disso, Daniel consegue reaver a fortuna de seu pai e passa a agir como um super-herói ao lado de Colleen Wing (surgida em Marvel Premiere 19) e da detetive Misty Knight, futura namorada do herói (surgida na edição 21).

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A capa de Gil Kane, mas a arte interna era de John Byrne.

Thomas e Kane escreveram as duas primeiras histórias em Marvel Premiere 15 e 16, mas em seguida, o bastão foi passado para outras equipes artísticas, na busca por quem acertasse o tom: Doug Moench e Larry Hama fizeram as edições 17 e 18; Tony Isabella e Arvell Jones cuidaram das 19 (em que inicia um novo arco, com o Culto de Kara-Kai), em 1975, até a 22; o escritor Chris Claremont assumiu as histórias na edição 23, tendo o desenhista Pat Broderick nesta e na 24, e o artista John Byrne no número 25, de 1975. A capa de quase todas as edições, contudo, continuou a ser feita por Gil Kane.

 

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A fantástica arte de John Byrne.

John Byrne seria no futuro uma dos maiores das maiores estrelas das histórias em quadrinhos, mas naquele momento, era apenas um iniciante, fazendo o seu primeiro trabalho para a Marvel Comics. Apesar disso, sua belíssima arte e a elegância de sua narrativa já estavam lá presentes desde sempre. O bom retorno das aventuras do Punho de Ferro na Marvel Premiere e a forte colaboração Claremont-Byrne incentivou a Marvel a dar uma revista própria ao personagem.

 

Assim, em novembro de 1975, estreava Iron Fist, por Claremont e Byrne. Na típica estratégia da Marvel, a editora colocou outro herói na capa do Nº 1, o Homem de Ferro, para chamar a atenção dos leitores para a nova publicação. A revista do herói dava continuidade às suas aventuras, continuando a batalha com Master Khan e apresentando, no primeiro número, o Serpente de Aço, que seria um dos principais vilões do herói.

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Capa de Iron Fist 01, ainda por Gil Kane.

O Serpente de Aço era Davos, filho de Lei Kung e que tinha tentado derrotar o dragão Shao-Lao e falhara, caindo em desgraça. Depois, tramara a morte de Daniel Rand, quando este foi bem-sucedido, mas foi descoberto e expulso de K’un L’und. Agora de volta, o grande objetivo de Davos era roubar o poder do Punho de Ferro.

Outra ameaça que surgiu na revista foi o vilão Dentes de Sabre, que anos mais tarde se transformaria no arqui-inimigo de Wolverine. Dentes de Sabre apareceu em Iron Fist 14, de 1976.

Neste momento, a Marvel estava insatisfeita com as vendagens de Iron Fist e decidiu cancelar a revista. O último número foi o 15, que trouxe o início de uma nova batalha contra o Serpente de Aço.

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Punho de Ferro versus Dentes de Sabre: arte de John Byrne e texto de Chris Claremont.

Como a trama ficou incompleta, a Marvel permitiu à dupla Claremont e Byrne contar o fim da história em Marvel Team-Up 63 e 64, uma revista que sempre trazia o Homem-Aranha ao lado de um herói convidado. No fim, o Serpente de Aço consegue absorver o poder do Punho de Ferro, mas termina, de volta, sendo absorvido pelo herói, dando a impressão de ter morrido. (A Marvel gostou tanto do resultado da revista que colocou Claremont e Byrne à frente de Marvel Team-Up por mais alguns meses. Nesse tempo, Claremont já escrevia a revista dos X-Men e quando o desenhista saiu, Byrne foi para lá substituí-lo, em 1977, dando origem à mais célebre de todas as fases dos mutantes).

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O final da história, na revista do Homem-Aranha.

Como as vendas da revista de Luke Cage, the Power-Man, também não estavam boas, a Marvel decidiu unir os dois heróis. Assim, Luke Cage, the Power-Man 48 deu início a uma aventura em que ele e Punho de Ferro se unem contra um vilão, novamente sob a batuta de Chris Claremont e John Byrne. A história prosseguiu e na edição 50, de 1978, a revista mudou o título para Power-Man & Iron Fist. Infelizmente, essa também foi a última edição com a explosiva dupla criativa.

Claremont continuou nos roteiros com outros desenhistas, como Mike Zeck e Sal Buscema, mas logou passou os roteiros para Ed Hannigan. Power-Man & Iron Fist 54, com desenhos de Lee Elias, trouxe a criação da empresa Heros for Hire (Heróis de Aluguel), na qual Luke Cage, Punho de Ferro, Colleen Wing e Misty Knight vendiam seus esforços por um bem maior. No fim das contas, o conceito deu certo e a revista continuou sendo publicada até a edição 125, de 1986! No último número, Daniel Rand é morto.

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Power-Man & Iron Fist 50. Arte de John Byrne.

Mas como ninguém fica morto nos quadrinhos por muito tempo, quando John Byrne assumiu os roteiros e desenhos da revista Namor, the Submariner, logo criou uma trama em que Daniel Rand reaparece vivo (num arco publicado entre as edições 21 e 25, de 1991 e 1992), explicando que quem morreu foi um impostor.

Reintroduzido no Universo Marvel, o Punho de Ferro ganhou uma série de minisséries, a mais famosa em 1997, por Dan Jurgens e Jackson Guice (artistas que tinham trabalhado no Superman da DC). Ele também fez parte de uma nova revista chamada Heros for Hire, que teve 19 números publicados entre 1997 e 1999. Outra leva de minisséries foram publicadas depois até o personagem voltar a ter uma revista mensal com The Immortal Iron Fist, com roteiros de Ed Brubaker (de Capitão América – O Soldado Invernal) e Matt Fraction e desenhos de David Aja. Esta série foi bastante aclamada pela crítica e fez sucesso entre os fãs de HQs.

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A fase de Brubaker, Fraction e Aja fez sucesso.

 

Ao mesmo tempo, o Punho de Ferro se tornou um membro dos Vingadores após o evento chamado Guerra Civil, na revista New Avengers, de Brian Michael Bendis, em 2007. E também fez uma participação especial na revista do Demolidor, onde passa a agir com o uniforme deste herói para proteger a identidade exposta de Matt Murdock. O Punho de Ferro continuou sendo publicado regularmente em New Avengers até 2013 e em 2014 ganhou outra revista mensal: Iron Fist: the Living Weapon, com texto e arte de Kaare Andrews.

Quais serão os caminhos do Punho de Ferro a partir de agora, na TV?

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About hqrock - Irapuan Peixoto

Doutor em Sociologia, professor universitário, músico e escritor amador. Nascido em 1979, já via quadrinhos antes de aprender a ler. Coleciona revistas desde 1990. É roqueiro de nascença. Toca em bandas de vez em quando, e já gravou um disco com suas composições.

Posted on 20/03/2017, in Desenhistas, Dossiês de Personagens, Escritores, Marvel Comics, Revistas. Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. Ótima matéria Irapuan! Iron Fist era um dos meus favoritos nos 70s, tinha conseguido uns raros numeros da Marvel Premiere e já era fã, gostava da arte de Larry Hama e especialmente do Pat Broderick, mas qdo entrou o Byrne entao ficou demais. Depois fui lendo na Bloch (com as cores trocadas mesmo e o título de ‘Punho de Aço’, mas na epoca era o que tinha), e uns anos atrás consegui finalmente os Masterworks do personagem. E ai, tá gostando da série da Netflix? To achando bem melhor do que as críticas anunciavam e curtindo bastante, e vc? Abs!

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    • Pois é, Jorge. Eu li as histórias do Punho de Ferro ainda antes da abril, não lembro se era a Globo ou a Ebal que publicavam na revista Mestre do Kung Fu. Eram muito legais aquelas tramas, principalmente a fase Thomas-Kane-Moench-Hama e, claro, de Claremont e Byrne. Mais tarde, li as histórias com o Luke Cage, acho que na Heróis da TV. Eu acho que nada foi mais ousado e estranho do que a Marvel nos anos 70. É impressionante essas aventuras. O Mestre do Kung Fu, por exemplo, tinha histórias cheias de filosofia e foi a primeira HQ que vi ter um final de verdade. Uma resolução de suas tramas quando a revista foi cancelada.
      Um abração!

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