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Chuck Berry: o principal dos pioneiros do rock.

Faleceu ontem o guitarrista e compositor Chuck Berry, uma lenda viva e um dos criadores do rock and roll. Dono de hits imortais como Johnny B. Goode, Sweet little sixteen, Roll over Beethoven, Rock and roll music etc., Berry foi o mais importante musicalmente dos pioneiros do rock e seu estilo gravou marcas profundas no rock em geral e na influência que deixou para todas as grandes estrelas do gênero, em especial The Beatles e The Rolling Stones, cujas sonoridades devem demais ao guitarrista, além de terem gravado várias de suas composições ao longo de suas carreiras.

Charles Edward Anderson Berry nasceu em St. Louis, no Missouri, nos Estados Unidos, em 1926, filho de um empreiteiro local e uma diretora de escola. Chuck aprendeu a tocar guitarra na adolescência e foi um jovem rebelde, o que terminou por levá-lo à prisão por tentativa de assalto, com o qual passou três anos em um reformatório.

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Berry combinou o R&B com Country e chegou ao rock.

Influenciado pelo Blues de Muddy Waters, Berry terminou migrando para Chicago, onde trabalhou na linha de montagem da GM Motors, enquanto iniciava sua carreira musical pelos bares da periferia, onde montou uma banda. Contratado pela Chess Records, a casa das grandes lendas do blues, Berry passou a ser acompanhado por um trio com o compositor de blues Willie Dixon no baixo, o pianista Johnnie Johnson e o baterista Fred Bellow, que tocou em todos os seus clássicos.

Em uma famosa entrevista à revista Rollin’ Stone, Berry afirmou que, no início da carreira, queria tocar Blues, mas não tinha sofrido o suficiente na vida, pois advinha da classe média, ao contrário dos grandes nomes daquele gênero. Assim, terminou combinando os elementos do R&B (Rhythm and Blues – o blues elétrico) com o Country, dentro de uma leitura mais palatável às grandes plateias.

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Também era um performer no palco.

Como resultado, suas primeiras gravações, lançadas em 1954, como Nadine e Maybelle, já foram grande sucesso e traziam sua marca registrada: um vocal suave e bem afinado, uma guitarra agressiva (mas cheia de elegância), carregada de solos, um suingue típico e, principalmente, letras que retratavam com perfeição a vida juvenil em um ambiente algo idealizado povoado de carros possantes, garotas sensuais, adultos caretas, roqueiros se transformando em astros da música e escolas cheias de tédio. O músico dizia que seu vocal emulava o estilo de Nat King Cole, seu ídolo. Suas letras eram geniais em sua simplicidade e foram fundamentais para criar o estilo de vida roqueiro. Além disso, Berry foi um dos primeiros a assumir a autorreferência como um elemento forte de suas canções, fazendo com o rock tal qual o blues, que sempre fala do próprio gênero musical nas canções.

Assim, Chuck Berry se tornou mais importante do que os outros pioneiros do rock – como Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Fats Domino e Bill Harley – porque era um músico mais completo, com totais habilidade no canto, instrumento e composição. Outra coisa é que ele era um performer no palco, se mexendo o tempo inteiro, dançando com a guitarra, movendo-a para os lados e, claro, fazendo o seu típico walk duck, ou passo do ganço, no qual dobrava os joelhos e lançava uma das pernas à frente em passos curtos próximos ao chão.

Por isso mesmo, o guitarrista teve um papel fundamental na diminuição do público segregado dos Estados Unidos, pois na década de 1950, negros e brancos ainda não frequentavam os mesmos lugares. Mas a música de Berry tinha apelo para ambos e isso forçou situações de aproximação. Naquela década, Berry foi uma das maiores estrelas da música dos EUA e suas principais canções foram lançadas entre 1956 e 1958. 

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Nos anos 1970.

O fim da sua fase áurea é marcado por uma tragédia: em 1959, Berry foi acusado pelo crime de transportar uma garota menor de idade – uma indígena mexicana de 14 anos – pela fronteira estadual para trabalho de prostituição. O músico negou a acusação, afirmando que a jovem iria apenas trabalhar no clube que ele mantinha em St. Louis. De qualquer modo, Berry foi condenado a dois anos de prisão em 1961.

Quando saiu da cadeia, o cenário musical tinha mudado totalmente: o rock and roll dos anos 1950 tinha se pulverizado totalmente e a música americana era impactada pela Invasão Britânica de Beatles, Rolling Stones, Animals e outros. Para a sorte do pioneiro, esses grupos tinham na música dele um de seus alicerces, o que facilitou uma “volta aos holofotes” em 1964, fazendo sucesso com a canção No particular place to go. Pegando carona na visibilidade, Berry fez um álbum regravando seus maiores sucessos com uma tecnologia mais moderna, o que fez sucesso também: The Chuck Berry Golden Hit’s, de 1967.

Infelizmente, foi algo passageiro e Berry se recolheu para um circuito menor de apresentações pelo interior dos EUA e eventuais turnês por clubes em outros países. O compositor ainda ensaiou outro retorno em 1972, quando lançou The Chuck Berry London Sessions, no qual gravou acompanhado de músicos britânicos e terminou conseguindo outro hit com My ding-a-ling.

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Tocando sem parar.

Depois disso, o músico não conseguiu mais encontrar espaço no grande mercado, embora tenha permanecido como uma grande referência. Gradualmente, Berry desistiu de gravar material novo, preferindo viver das glórias do passado. Seu último álbum de inéditas foi Rock It, de 1979. Nesse mesmo ano, sofreu outro revez: acusado de evasão fiscal, passou mais 20 meses na prisão. 

A última vez que teve os holofotes para si foi em 1986, quando completou 60 anos e, além de ter sido incluído na premiação do Hall da Fama do Rock, teve um concerto homenagem organizado por Keith Richards (dos Rolling Stones) e com a participação de grandes astros, como Eric Clapton, show que virou o documentário Hail! Hail! Rick and Roll, também lançado em disco.

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No Brasil, em 2013.

Desde então, Berry continuava excursionando pelo mundo, inclusive, vindo ao Brasil em 1993, 2002, 2008 e 2013. Ironicamente, o músico tinha anunciado em seu aniversário do ano passado, quando completou 90 anos, de que lançaria seu último álbum em 2017 e, então, iria se aposentar e curtir o tempo com sua esposa, Themetta “Toddy” Suggs, com quem foi casado por 68 anos.

Chuck Berry morreu ontem, 18 de março, em sua residência em St. Charles, no Missouri. A polícia local recebeu uma chamada de emergência médica, mas quando chegaram à casa, o músico de 90 anos já estava sem vida e os esforços para reanimá-lo não surtiram efeito. Berry deixa a esposa e quatro filhos, Ingrid, Aloha, Charles Jr. e Melody.

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