Poster de Rogue One.
Poster de Rogue One.

Uau! Essa foi a palavra que consegui dizer ao fim de Rogue One – Uma História de Star Wars, filme derivado da saga Star Wars, criada pela LucasFilm e controlada agora pela Disney Pictures. O primeiro dos filmes derivados da mítica saga espacial estava envolto em mistérios e polêmicas – com rumores preocupantes de que a produção foi problemática, que 60% do filme teria sido refilmado depois de pronto e que o diretor teria sido até afastado do cargo (uma situação muito similar a Quarteto Fantástico da Fox, que foi um grande fracasso), mas nada disso parece ser verdade – e sua estreia mostra um acerto em cheio da LucasFilm nesse novo direcionamento.

Alguns críticos estão dizendo que Rogue One é o melhor filme de Star Wars já feito. Eu não diria tanto – ainda acho O Império Contra-Ataca o melhor de todos, por sua força narrativa e sua iconografia – mas com certeza alguns acharão o spin-off melhor do que O Despertar da Força, que saiu no ano passado.

Filme de guerra.
Filme de guerra.

Mas vamos lá! Em primeiro lugar, Rogue One é um filme de guerra. De verdade. Nesse sentido, guarda muito mais semelhança com O Resgate do Soldado Ryan do que com O Retorno de Jedi. O diretor Gareth Edwards investiu até naqueles típicos enquadramentos de filmes de guerra, com a câmera próxima, combinação de planos abertos e fechados nas batalhas e muito uso do recurso do fundo em movimento, com aquelas imagens de naves decolando ou passando em rasante por trás de personagens humanos em primeiro plano. Visualmente é um espetáculo, embora, como quase sempre, o 3D não adicione praticamente nada. (Na verdade, ele faz diferença mesmo apenas nos créditos, com as letras saltadas das estrelas e nada mais).

Essa abordagem de guerra dá a Rogue One um peso e dureza ausentes nos outros filmes de Star Wars. Na Trilogia Clássica, principalmente Uma Nova Esperança (Episódio IV) e O Retorno de Jedi (Episódio VI) são filmes ambientados em meio de uma acirrada guerra entre a Aliança Rebelde e o Império Galático, no entanto, apesar de muitas cenas de batalha, o clima de guerra não é áspero e violento como em Rogue One e a guerra em si está em segundo plano, por trás do drama de Luke Skywalker e sua complicada relação com o vilão Darth Vader.

Cassian Andor e K2SO: ambíguos.
Cassian Andor e K2SO: ambíguos.

Em Rogue One estamos dentro daquela guerra e vemos como esta é uma guerra como qualquer outra: os dois lados jogam sujo, há mortes (algumas descabidas), inocentes perdem a vida, um lado ganha, o outro perde, ambos com baixas. Por isso, sem dúvida, este é o filme mais violento de Star Wars e não traz nada de infantil. Até mesmo o humor – muito típico na saga (mesmo que por vezes irônico) – que talvez seja um pouco carregado nos filmes da Disney (a qual a LucasFilm agora pertence), como aqueles da Marvel Comics, agora está pouquíssimo presente. A maior parte do humor do filme fica a cargo do ótimo robô K2SO, com voz de Alan Tudyk, que funciona como uma versão sombria de C3PO.

Neste ponto destaco uma coisa curiosa que me ocorreu. Não é spoiler, pois está no trailer. Em uma determinada cena, um AT-AT (um daqueles veículos gigantescos com quatro patas) é atingido pela bazuca de um rebelde, seu “rosto” desvia e volta a encarar a “presa”. No trailer, essa cena tem um acento cômico. No filme não. Ali a cena é carregada de dramaticidade e até desespero, pois está no meio do contexto de uma grande batalha entre os dois lados, no qual os heróis estão drasticamente em desvantagem.

Jyn Erso: heroína de fibra.
Jyn Erso: heroína de fibra.

Outro ponto positivo de Rogue One a forma como amarra os personagens que irão formar o esquadrão especial encarregado da missão maior da Aliança: evitar sua extinção ao roubar os planos da Estrela da Morte, a maior arma imperial já construída em todos os tempos. O modo como os personagens se vinculam não é acidental – nem todos fazem parte da Aliança inicialmente – mas há um bom motivo para que terminem juntos. As tensões entre os personagens também é interessante, particularmente, entre a dupla de protagonistas, Jyn Erso (a britânica Felicity Jones) e o Capitão Cassian Andor (o mexicano Diego Luna), este último uma figura bem mais ambígua do que os trailers fazem parecer. Jones e Luna mandam bem na interpretação e enchem seus personagens de convicção e dilemas, dando-lhes profundidade por meio de poucas palavras e expressões.

É curioso como este é um filme muito diverso em termos étnicos, no qual praticamente nenhum dos protagonistas é um típico estadunidense branco. A maior parte da equipe é formada por asiáticos (de vários tipos) e o vilão Diretor Krennic, de Ben Mendelsohn é caucasiano, mas também britânico.

Diretor Krennic: ótimo vilão.
Diretor Krennic: ótimo vilão.

A este último vale um elogio por seu vilão não exatamente maligno, mas convicto de sua crença no Império e movido por bastante ambição, disposto a subir na hierarquia e assumir o controle da Estrela da Morte, pois sua equipe é a responsável pela construção da arma.

Rogue One também lida com lacunas na trama da saga Star Wars e as responde de modo direto e sem rodeios: se os planos da Estrela da Morte já existiam ao fim das Guerras Clônicas, como mostra A Vingança dos Sith (Episódio III), por que ela demorou 20 anos para ser inaugurada em Uma Nova Esperança (Episódio IV)? Como uma arma tão poderosa tem um ponto fraco (difícil de ser encontrado, mas ainda existente) passível de destruí-la, como o fez Luke Skywalker neste último filme?

Outro atrativo de Rogue One é o modo como se coloca dentro do cânone de Star Wars. Com sua trama passada poucos dias antes de Uma Nova Esperança, consegue mesclar a nova tecnologia com o visual retrô e do “futuro usado” criado por George Lucas nos anos 1970. E funciona muito bem! As velhas naves, veículos e Stormtroopers estão de volta, mas também mesclados a elementos novos. Também é interessante a forma como dialoga com outras criações do Universo da saga, como os desenhos The Clone Wars e Rebels. Do primeiro, por exemplo, herda o personagem Saw Guerrera, vivido com competência por Forest Whitaker. Velho Rebelde, agora é um extremista que serve como contraponto entre a Aliança e o Império e cumpre papel fundamental na trama.

Saw Guerrera: contraponto.
Saw Guerrera: contraponto.

E embora em algum momento a divulgação de Rogue One tenha dito que esse seria um filme de Star Wars sem os Cavaleiros Jedi, este não é bem o caso. Os Jedi estão presentes como uma lembrança, como uma relíquia de tempos idos, que lembra que tempos mais honrados e gloriosos já existiram, ao mesmo tempo em que a crença na Força serve como alento e religião para as populações reprimidas pelo Império. E aqui outro adendo: não só o filme explora o aspecto sujo da guerra entre Rebeldes e Império, mas também mostra – em um par de cenas – o lado sujo, pobre e oprimido das “pessoas comuns” que vivem sob o julgo do Imperador Palpatine.

DArth Vader: participação pequena, mas marcante.
DArth Vader: participação pequena, mas marcante.

Por fim, claro, não podíamos deixar de falar, agora diretamente, das conexões diretas de Rogue One com Uma Nova Esperança. Embora não seja o único, Darth Vader é um grande destaque dessa ligação e os fãs, claro, querem vê-lo. A participação do Lorde Negro de Sith não é extensa, mas vale cada segundo. Sua primeira aparição lança um olhar algo inovador em sua pessoa (talvez para lembrar que há um homem por baixo daquela armadura), mas a segunda vez em que entra em cena está em toda a sua glória: em meio à fumaça de vapor, sua silhueta emerge de modo assustador e intimidador. O Diretor Krennic, o real vilão do filme, até então mostrado como implacável, treme diante da figura do vilão mais famoso da história do cinema. E é sensacional. Para o fã mais ardoroso de Star Wars ainda há outra cena simplesmente espetacular com Darth Vader, que não duvido fazer muito marmanjo gritar e chorar. Sem palavras!

Rogue One é, assim, um passo adiante na saga Star Wars. Se por um lado, a trama “principal” mostrada nas trilogias (as duas passadas e a atual) é mais calcada na fantasia e no drama da família Skywalker, este novo filme mostra um lado mais sujo, realista, duro, adulto e violento daquele universo. Um filme que apesar da chancela da Disney não se nega a romper esteriótipos (protagonista feminina, elenco étnico) e ousar numa trama de um modo que não é muito comum nas produções blockbusters dos dias de hoje, especialmente no final. Talvez não seja o melhor filme de Star Wars. Mas pode ser o segundo ou terceiro melhor com certeza.

A trupe diversificada de Rogue One.
A trupe diversificada de Rogue One.

Um espetáculo de filme.

Rogue One – A Star Wars Story é o primeiro filme da série chamada Star Wars Anthology, com produtos derivativos da saga sem estarem relacionados aos personagens principais. A trama envolve a arriscada ação da Aliança Rebelde que resulta no roubo dos planos da Estrela da Morte, a mais letal arma do Império Galático, fato que desencadeia as ações de Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança.

A Estrela da Morte.
A Estrela da Morte.

Rogue One foi escrito por Gary Whitta e Chris Weitz e é dirigido por Gareth Edwards (de Godzilla) e tem no elenco Felicity Jones (Jyn Erso), Diego Luna (Capitão Cassian Andor), Mads Mikkelsen (Galen Erso), Ben Mendelsohn (Diretor Orson Krennic), Forest Whitaker (Saw Guerrera), Donnie Yen (Chirrut Imwe), Jiang Wen (Baze Malbus), Riz Ahmed(Bohdi Rook), Alan Tudyk (K-2SO), Genevieve O’Reilly (Senadora Mon Mothma), com participação especial de James Earls Jones (voz de Darth Vader).. O lançamento será em 16 de dezembro de 2016.

Star Wars é uma série de filmes criada, escrita e dirigida por George Lucas. Foram produzidos primeiro os Episódios IV – Uma Nova Esperança, V – O Império Contra-Ataca e VI – O Retorno de Jedi (em 1977, 1980 e 1983) e depois os Episódios I, II e III (em 1999, 2002 e 2005), além de diversas outras produções para outras mídias, como quadrinhos, livros, games e as séries animadas Star Wars – Clone Wars e Star Wars – Rebels. A saga voltou aos cinemas em 2015 com o lançamento de Episódio VI – O Despertar da Força.

Stormtroopers.
Stormtroopers.

 

 

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