Warner Brothers é vendida ao grupo AT&T: o que isso significa para o futuro da DC Comics e seus filmes?

DC Comics: parte do pacote da venda.

DC Comics: parte do pacote da venda.

Uma grande notícia correu os jornais de negócios na última semana: foi anunciada a compra do conglomerado Time-Warner pelo grupo de comunicação AT&T, numa das maiores movimentações financeiras dos últimos tempos: nada menos do que US$ 85,4 bilhões! O conglomerado vendido é dono da Warner Brothers, que por sua vez, é dona da DC Entertainment (DC Comics, DC Films e suas derivadas), além dos estúdios de cinema da Warner Bros. e os canais de TV The C.W., HBO, TNT e Cartoon Network. Também são proprietários da AOL (America On-Line) e do grupo Time, comandado pela revista de mesmo nome. O que tudo isso significa para os heróis da DC Comics e seus filmes?

Primeiro, é preciso pensar que vivemos uma época de rearranjo do capital financeiro internacional, que cruza barreiras intercontinentais e movimenta grandes fusões. Foi-se a época das grandes empresas associadas a um nome particular – como Henry Ford ou Walt Dinsey; ou mais recentemente, Donald Trump, Bill Gates e Steve Jobs – e entramos em uma era de superconglomerados multimídia e multitarefas. Conglomerados já existiam, mas no século XXI, viraram outra coisa: grandes guarda-chuvas de empresas de ramos diferentes, associados por sócios-proprietários comuns, com direcionamentos ao mesmo tempo comuns e dissociados, que se beneficiam da diversidade para atuar em ramos distintos (filmes, brinquedos, empresas de comunicação, vestuários, alimentação etc.) formando poderosas franquias.

A Warner Brothers agora vai para...

A Warner Brothers agora vai para…

Não é coincidência vivermos a era das franquias. Livros foram adaptados ao cinema desde o início desta mídia, mas agora, não apenas ocorre a adaptação, mas ela se torna uma franquia, associada a sequências (vários filmes em continuação, prelúdios e derivados, os spin-offs) e a uma série de produtos, como jogos, roupas, alimentos e mais incursos midiáticos (outros livros, séries de TV etc.). É o que alimenta a DC Comics (amparada até então no conglomerado Time-Warner) e ainda mais a Marvel Comics, ancorada no conglomerado da Disney Company desde 2012, quando foi vendida por US$ 4 bilhões à casa do Mickey Mouse. E a Disney não parou por aí: além de comprar a Marvel (hoje a usina de cinema mais poderosa do mundo) também comprou a Lucas Film, detentora da saga (e franquia) Star Wars, além da menor Indiana Jones.

Entretanto, o caso da DC Comics é ainda mais espetacular do que o da Marvel, porque esta era um pequeno conglomerado reunido em torno da Marvel Entertainment, que cuidava da adaptação e licenciamento dos personagens (os super-heróis) criados na editora homônima. Por mais gigante que fosse a Lucas Film, esta também era uma empresa que girava em torno basicamente de Star Wars.

É diferente da Time-Warner, que já era um superconglomerado por sim própria (leia de novo o primeiro parágrafo!). A fusão com a AT&T,. que será a empresa controladora, é um feito impressionante. Para entrar na história do mercado.

... a AT&T, dona da Sky.

… a AT&T, dona da Sky.

A AT&T é um grupo de comunicação poderosíssimo e outro superconglomerado. A empresa tem sua origem em 1876, quando o cientista Graham Bell criou o telefone e, juntamente com sócios milionários, criou a Bell Telephone Company, que na medida em que ampliou seus domínios territoriais nos EUA, cobrindo o país com um sistema telefônico, foi criando novas empresas e mudou de nome para American Bell Company. Em 1885, a American Bell comprou suas próprias subsidiárias e formou a American Telephone and Telegraph Company, a AT&T, que se tornou a principal fornecedora de redes telefônicas locais naquele país, enquanto a empresa-mãe cuidava dos sistema de longa distância. Mais tarde, ambas foram fundidas sob o nome da última.

Na década de 1990, a empresa ampliou suas ações para o ramo de internet (discada e à cabo) e também investiu no fornecimento de TV à cabo. Em 2014, a AT&T adquiriu a DirectTV, empresa de TV à cabo que também é dona da Sky, hoje a principal fornecedora desse serviço no Brasil.

O CEO da Time-Warner, Randall Stephenson, comunicou oficialmente a fusão das empresas, em 22 de outubro último. Uma movimentação desse tamanho levará tempo, claro, e a AT&T terá o controle sobre a primeira finalizado em 2017, quando o executivo sairá de cena e o CEO da última, Jeff Bewkes, assumirá o controle de tudo.

A Liga da Justiça é agora a última cartada da DC Films. Se não der certo, cabeças rolarão.

A Liga da Justiça é agora a última cartada da DC Films. Se não der certo, cabeças rolarão.

Uma troca desse tamanho, claro, terá consequências em médio prazo para a DC Comics e seus filmes. De imediato, nada deve mudar, mas obviamente, com o tempo, a AT&T começará a dar sua cara à empresa-filha, de modo similar ao que a Disney fez com a Marvel. Atualmente, a Warner/DC tem um cronograma de filmes planejados até 2020, que incluem os medalhões Mulher-Maravilha e Liga da Justiça (ambos em 2017), os novos filmes solo de Batman (2018) e Superman (2019), o filme solo de Flash (2018) e alguns planos ousados, com filmes de Aquaman, Ciborgue e da Tropa dos Lanternas Verdes, todos entre 2018 e 2020. Um segundo filme da Liga da Justiça também é esperado para 2019.

Como erro histórico, a Warner Bros. nunca soube aproveitar o potencial de “universo expandido” em seus filmes e, apesar da empresa ser dona da DC Comics desde 1969 (!), precisou ver a concorrente Marvel Comics se tornar a maior potência mundial do cinema ao criar um universo integrado entre seus heróis – culminando na franquia dos Vingadores – para reagir tardiamente, promovendo uma unificação de seu universo apenas neste ano de 2016 (!) com o lançamento de Batman vs. Superman – A Origem da Justiça e ainda ter que aguentar uma saraivada de críticas da imprensa e do público, ambos insatisfeitos com o resultado. Como Esquadrão Suicida (apesar das expectativas) falhou neste quesito, recaí a esperança do estúdio acertar em Mulher-Maravilha e Liga da Justiça no ano que vem.

E se isso não acontecer, se prepare, a AT&T fará cabeças rolarem. Mesmo.

Kevin Tsujihara: CEO da Warner Bros.

Kevin Tsujihara: CEO da Warner Bros.

Atualmente, o CEO da Warner Bros. é Kevin Tsujihara e quem comanda a DC Entertainment no campo empresarial é Diane Nelson, que também é presidenta da Warner Entertainment. No campo criativo, até pouco tempo atrás, o cargo de Diretor de Criação da DC Entertainment era dividido entre o escritor Geoff Johns e o desenhista Jim Lee (a mesma dupla que comandou a empreitada Os Novos 52 na DC Comics, promovendo uma reformulação editorial e cronológica dos heróis da editora). Mas recentemente, Johns foi encarregado de comandar a DC Films, para supervisionar os filmes mais de perto, cumprindo uma função que não existia na empresa, mas na Marvel é realizada desde o começo por Kevin Feige.

Geoff Johns é o novo chefão da DC Films.

Geoff Johns é o novo chefão da DC Films.

O primeiro produto sob o novo arranjo, na qual Geoff Johns é o manda-chuva em termos de filmes, é justamente Liga da Justiça. Entre as mudanças, apesar de se manter o diretor Zack Snyder (de Superman – O Homem de Aço e Batman vs Superman – A Origem da Justiça, ambos mal recebidos), foi encomendada uma mudança de tom (do sombrio e pesado para algo mais leve e divertido) e se colocou o ator-diretor-roteirista Ben Affleck como Produtor Executivo. Veremos o resultado no ano que vem.

Se os filmes continuarem fracassando – na recepção de crítica e público, pois as bilheterias estão em níveis bons, embora poderiam ser muito mais e nenhuma chegou perto de ultrapassar a vitoriosíssima barreira do US$ 1 Bilhão (que a Marvel, diga-se de passagem, ultrapassou quatro [!] vezes, com Os Vingadores, Homem de Ferro 3, Vingadores – Era de Ultron e Capitão América – Guerra Civil) – veremos, com certeza modificações (talvez radicais) nos planos da Warner/DC e seu universo.

Por fim, longe dos super-heróis, a compra da Time-Warner pela AT&T poderá ter grande impacto no mercado brasileiro. Isso porque, segundo o blog Notícias da TV, do Portal UOL, a fusão esbarra na Lei 12.485/2011, que impede a propriedade cruzada de empresas de produção e distribuidoras. Isso quer dizer que operadoras de TV à cabo não podem ter mais do que 30% da propriedade de um canal na TV fechada ou aberta; e o canal de TV, por sua vez, não pode ter mais do que 50% da propriedade de uma operadora.

Isso causa problemas, diz o blog, porque como a AT&T é dona da Sky, não poderá operar no Brasil canais como HBO ou TNT. O site afirma que ou a AT&T terá que abrir mão do braço latinoamericano da Sky ou reconfigurar todos os seus canais no Brasil, para se adequar a lei. Qualquer um dos dois será bastante trabalhoso, mas o primeiro significa perda de lucros.

De qualquer modo,  é bom ficar atento.

***

Os heróis da DC Comics.

Os heróis da DC Comics.

A DC Comics é uma editora de quadrinhos, famosa por publicar personagens como Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Flash e a Liga da Justiça. Ela nasceu na década de 1930, a partir da fusão de várias empresas. A primeira delas foi a National Allied Publications, fundada em 1934 pelo major Malcolm Wheeler-Nicholson, que começou a publicação da revista More Fun Comics (a primeira a publicar mais material original de quadrinhos do que republicações das tiras de jornal), seguida pela New Comics (em 1936) e a Detective Comics (1937). Pouco depois do lançamento desta última, Wheeler-Nicholson, que tinha problemas financeiros, aceitou sociedade com dois empresários vindos do ramo das revistas Pulp, Harry Donenfeld e Jack Liebowitz. Estes últimos fundaram a Detective Comics Inc. que atuava como empresa-irmã da National. Para diversificar os negócios, Liebowtiz ainda criou a All-American Publications.

Em 1938, o major terminou deixando sua empresa nas mãos de Donenfeld e Liebowtiz e saiu da sociedade. A National publicava as revistas More Fun Comics e obteve grande sucesso com a nova Action Comics, cujo primeiro número trouxe a estreia do Superman, que virou o maior sucesso da época. A DC Comics publicava a revista Detective Comics e mais algumas outras e obteve sucesso a partir de 1939, quando o Batman estreou no número 27 daquela revista. Por fim, em 1940, a All-American Publications atingiu grande sucesso com Flash Comics, que publicava as aventuras do Flash e do Gavião Negro. A All-American reuniu um grande panteão de personagens famosos (além dos dois, Sr. Destino, Espectro, Lanterna Verde), de modo que lançou o supergrupo de heróis, a Sociedade da Justiça, numa revista com o nome da editora. A Mulher-Maravilha também estreou na mesma revista, em 1941.

Em 1944, as três editoras foram reunidas em uma única empresa, chamada agora National Comics. Contudo, como a editora mantinha um selo com as palavras “Superman-DC” nas capas das revistas, passou desde então, a ser chamada pelos fãs de DC Comics. Este nome, porém, só foi adotado oficialmente nos anos 1950. Após um período de crise, a editora se reergueu a partir de 1954, com uma nova leva de personagens (novas versões dos heróis criados treze anos antes) e viveu uma boa fase de vendas na primeira metade dos anos 1960, a partir de quando passou a sofrer a concorrência da Marvel Comics, que terminou a década como a principal empresa do ramo.

Em 1969, a DC Comics foi comprada pelo grupo Warner Brothers, mas viveu momentos difíceis nas duas décadas seguintes. Foi apenas com uma total reformulação editorial, em 1986, que a DC se reergueu definitivamente e mantém uma concorrência cabeça à cabeça com a Marvel nas últimas décadas.

 

About hqrock - Irapuan Peixoto

Doutor em Sociologia, professor universitário, músico e escritor amador. Nascido em 1979, já via quadrinhos antes de aprender a ler. Coleciona revistas desde 1990. É roqueiro de nascença. Toca em bandas de vez em quando, mas está gravando um disco com suas composições.

Posted on 27/10/2016, in DC Comics. Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. Excelente matéria. Bem pesquisado e redigido. Com certeza não veremos nada parecido na grande imprensa sobre o “olhar” específico para a DC. Parabéns

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