Legião Urbana: Renato Russo morria há 20 anos

Renato Russo: 20 anos de morte.

Renato Russo: 20 anos de morte.

Desta vez, vou fazer um post diferente. A ocasião merece. Há vinte anos atrás, morria o cantor e compositor brasileiro Renato Russo, o mais importante de sua geração.

Em 1996, eu era estudante do Ensino Médio e estava no 3º Ano. Talvez como um modo de combater a loucura estressante dos estudos para o Vestibular (não existia ENEM naquela época), eu e meus colegas idealizávamos uma banda de rock, que era muito mais um sonho do que algo próximo à realidade. Compúnhamos algumas canções e escolhíamos as canções que iríamos fazer cover e, claro, entre elas estavam as da Legião Urbana. Por isso, ficamos muito preocupados quando, num dia, na hora do recreio, surgiu um boato de que o Renato Russo tinha morrido. Comentamos, especulamos… Mas naquela época, não havia internet massificada e tudo o que poderíamos fazer era esperar o Jornal do Meio-Dia ou no máximo algum plantão emergencial, que não veríamos porque estávamos em sala de aula. Mas no fim da aula, ao meio-dia, os próprios coordenadores da escola – talvez entendendo a importância daquela figura para nossas vidas – vieram até os estudantes e confirmaram: o líder da Legião Urbana estava morto. Eu e dois colegas da pretensa banda que tínhamos pegávamos o mesmo ônibus para ir para casa e fomos embora meio calados, meio chocados, meio comentando o que aquilo significava. Sem mídias de comunicação rápida além do telefone, do telégrafo e do pombo correio, tivemos que esperar até o Jornal Nacional para obter mais notícias e informações. (Sim, como se pode notar, também era um tempo em que a Rede Globo de Televisão exercia um controle e domínio ainda maior do que nos dias de hoje e seus jornais eram [quase a única] referência para um público [maciço] que não tinha acesso à TV à Cabo). No dia seguinte, todos os jornais do Brasil traziam a morte na capa.

A Legião Urbana em seus primeiros tempos.

A Legião Urbana em seus primeiros tempos.

Na minha parte, a morte do Renato Russo não foi uma surpresa (mesmo sendo muito triste), porque intuí que isso iria acontecer. Como alguém que cresceu nos anos 1980, vivenciei a Legião Urbana desde o início. Eu era apenas uma criança quando Será explodiu nas rádios, mas tinha irmãos mais velhos que estavam “antenados” no rock brasileiro que emergia triunfante no país, com uma sequência ininterrupta de artistas, sucessos e clássicos instantâneos. A Legião chegou até tarde – antes deles já haviam estourado nomes como Blitz, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Barão Vermelho (e Cazuza), Titãs e até o Biquíni Cavadão (!) – mas logo se mostrou um produto diferenciado. Assim, vi o sucesso que veio depois com Eduardo e Mônica e Tempo perdido; a virulência de Que país é este? e a inacreditável Faroeste caboclo; para, enfim, alguma calmaria com Pais e filhos e Quase sem querer. Isso tudo antes de eu completar dez anos de idade! Lembro que Que país é este? foi lançado um ano antes das Eleições Presidenciais de 1989 e o título da canção embalou as discussões políticas no colégio naquela época, com cartazes afixados nas paredes. E que Faroeste caboclo sofreu censura por causa dos palavrões e ofensas aos militares (a Ditadura só tinha acabado há poucos anos) e tocava uma versão editada (mudando as palavras) nas rádios! Após o sucesso absurdo de As Quatro Estações, em 1989, a imersão mais íntima e existencialista, de sonoridade mais calma e esparsa da banda, no início dos anos 1990, foi afastando a Legião dos holofotes e o lançamento de O Descobrimento do Brasil, em 1993, teve todo um ar de “retorno da banda”, com sucesso nas rádios (29, Vamos fazer um filme, Giz) e o clipe superproduzido de Perfeição aparecendo no Fantástico. Mas passou rápido. Nos meados da década, a Legião tinha sumido do mapa, Renato Russo lançou dois álbuns solo (The Stonewall Celebration Concert, em inglês, em 1994; e Equilíbrio Distante, em italiano, em 1995) e Dado Villa-Lobos tocava à frente o selo Rock It. A banda tinha acabado?

A Legião no auge do sucesso.

A Legião no auge do sucesso.

Renato Russo fez muito sucesso com Equilíbrio Distante e várias canções chegaram às rádios. Strani amori até ganhou um vídeoclipe! Foi aí que comecei a perceber que tinha algo errado. Minha geração tinha visto muitos ídolos morrerem: Raul Seixas, Cazuza, Freddie Mercury… E os dois últimos tinham em comum morrerem em decorrência da AIDS. No clipe mencionado, identifiquei aquela magreza típica da Síndrome da Imuno-Deficiência Adquirida já conhecida. Eu estava certo: Russo já tinha a doença há anos e havia descoberto por volta de 1990, mas novamente, numa era de comunicação não-digital isso era um segredo absoluto que quase ninguém no mundo conhecia à exceção do próprio Renato, seus médicos e do guitarrista Dado Villa-Lobos. Naquele 1996, começaram notícias de que a Legião Urbana “ia voltar” com um novo disco. A revista Bizz anunciou. A Contigo chegou a dar uma reportagem de capa para o vindouro álbum, com uma extensa entrevista com Dado Villa-Lobos. E novamente, achei aquilo estranho: “por que o Renato Russo não deu a entrevista?”. Duas semanas antes daquele fatídico dia, estava ouvindo rádio em casa, à tarde, enquanto estudava, e o locutor disse: “Agora, vamos ter um momento especial: vamos tocar pela primeira vez a nova canção da Legião Urbana! Segura aí: Via Láctea!” e a faixa seguiu! Eu ouvi aquelas palavras com atenção: “Quando tudo está perdido/ Sempre existe um caminho/ Quando tudo está perdido/ Sempre existe uma luz/ Mas não me diga isso/ Hoje a tristeza não é passageira/ Hoje fiquei com febre a tarde inteira/ E quando chegar a noite/ Cada estrela parecerá uma lágrima/ (…) Mas não me diga isso/ Não me dê atenção/ E obrigado por pensar em mim”. Eu pensei: “Isso é uma despedida!”.

Eu estava certo. 

No colégio, eu e alguns amigos editávamos um jornalzinho. Hoje seria chamado de Fanzine. Eu ficava responsável pela parte cultural e estava preparando uma resenha de A Tempestade (Ou o Livro dos Dias) para o número seguinte, mas abandonei o texto e fiz um artigo sobre a morte do Renato Russo e sua importância. Parecia mais certo naquele momento. Por outro lado, a música permanece. Fazem 20 anos que o compositor morreu, mas sua obra ainda é reverenciada por público e crítica. Suas letras ora políticas, críticas e reflexivas; ora apaixonadas, conflitantes, depressivas e existencialistas, continuam a ecoar na juventude do século XXI. O legado permanece.

A Legião Urbana a tudo vence!

***

Renato Manfredini Júnior nasceu no Rio de Janeiro, em 1960, filho de um funcionário do Banco do Brasil. Por causa do emprego do pai, passou parte da infância nos Estados Unidos, onde se tornou fluente em inglês, e terminou instalado em Brasília na adolescência. Sofrendo de uma doença nos ossos, o jovem terminou se aproximando da música e do rock, desenvolvendo uma paixão imensa pelo rock clássico, mas foi despertado com um algo mais quando da explosão do movimento punk a partir de 1976. Como em Brasília viviam muitos filhos de embaixadores, militares de alta patente e cargos de alto escalão, aquela juventude teve acesso privilegiado aos discos importados da Europa e dos Estados Unidos, nascendo uma cena punk muito forte antes mesmo do que no Rio de Janeiro e em São Paulo. A Turma da Colina, um grupo de jovens que morava próximo a UnB, terminou criando festinhas e eventos dentro dessa temática, de onde surgiu a banda Aborto Elétrico, fundada por Renato Russo (que adotou esse nome artístico a partir de então), em 1978, e foi a primeira banda punk da região. O grupo causou sensação na juventude do Planalto Central e na imprensa, sendo noticiada até mesmo nos jornais do eixo Rio-São Paulo, mesmo sem sequer ter qualquer material gravado. Desde o início, a banda era uma válvula de escape às composição de Russo. O compositor deixou o grupo em 1980 – que continuou sem ele e depois mudou de nome para Capital Inicial – e se apresentou como artista solo de estilo mais folk por algum tempo, adotando a alcunha de O Trovador Solitário até fundar a Legião Urbana.

A Legião Urbana se formou em Brasília em 1982 e lançou seu primeiro disco três anos depois, tornando-se o grupo de maior sucesso (e prestígio) do rock brasileiro em toda a sua história. Liderado pelo cantor e compositor Renato Russo, contava com Dado Villa-Lobos (guitarras) e Marcelo Bonfá (bateria). A banda lançou nove álbuns oficiais de estúdio  e encerrou as atividades por causa da morte de Russo, aos 36 anos, em 1996, em decorrência de complicações causadas pelos vírus HIV.

Conheça aqui a Discografia Completa da Legião Urbana.

About hqrock - Irapuan Peixoto

Doutor em Sociologia, professor universitário, músico e escritor amador. Nascido em 1979, já via quadrinhos antes de aprender a ler. Coleciona revistas desde 1990. É roqueiro de nascença. Toca em bandas de vez em quando, mas está gravando um disco com suas composições.

Posted on 11/10/2016, in Legião Urbana, Rock Brasileiro. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: