Coringa: Saiba tudo sobre o palhaço do crime nos quadrinhos (e mais)

O Coringa de Jared Leto: o maior vilão em todas as mídias?

O Coringa de Jared Leto: o maior vilão em todas as mídias?

Ninguém tem dúvidas: o Coringa será uma das grandes atrações de Esquadrão Suicida, filme que adaptará as aventuras do grupo de vilões forçados a trabalhar para o Governo dos EUA em troca da redução de pena, publicado nas revistas da DC Comics e levado aos cinemas pela Warner Bros. dentro do mesmo universo ficcional de Batman e Superman, que estreia em breve. E aproveitando o lançamento do filme, o HQRock produz um Dossiê Especial sobre o vilão predileto de muita gente.

Então, vista seu sobretudo roxo, esconda uma pistola automática, arme-se com um charuto-bomba e uma flor que burrifica ácida, abra um grande sorriso e… venha conhecer a mente mais insana dos quadrinhos e um dos personagens mais famosos do mundo!

A carta do curinga criada por Jerry Robinson.

A carta do curinga criada por Jerry Robinson.

Coringa ou Curinga?

O personagem é intrigante até no seu nome. No original em inglês, The Joker significa “piadista, gozador, enganador”, mas também a famosa carta de baralho que “vale tudo” em determinados jogos. Entretanto, no Brasil, o nome da carta é curinga – isso mesmo, com “u”! A palavra coringa com “o” existe, mas significa “garoto mirrado ou feio“. Por algum motivo qualquer, em terras tupiniquins, o nome que pegou foi Coringa e não Curinga, que seria o certo.

Isso não quer dizer que a terminologia ainda não cause algumas confusões de vez em quando. Pouca gente lembra, mas quando Batman – O Filme saiu nos cinemas brasileiros, em 1989, o vilão aparecia nas legendas como Curinga, algo que só foi corrigido bem mais tarde, nas versões homevideo.

Origem Controversa

Bob Kane, o manda-chuva.

Bob Kane, o manda-chuva.

Como quase tudo relacionado a grandes personagens do entretenimento, há muitas controversas sobre a criação do Coringa nos quadrinhos. Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson disputaram os méritos da criação do vilão – e todos já estão mortos. Na verdade, o papel de Finger é mais consensual, como o cara que escreveu a primeira história (que ajuda a definir a personalidade do vilão), mas Kane e Robinson garantiam que cada qual trouxe a ideia original.

Jerry Robinson nos anos 1940 e o Coringa desenhado por ele.

Jerry Robinson nos anos 1940 e o Coringa desenhado por ele.

Para aqueles não muito versados no mundo do homem-morcego, é preciso explicar algumas coisas antes. O cartunista Bob Kane foi a força motriz por trás da criação do Batman. Em 1939, aos 24 anos de idade, ele já era um cartunista ligeiramente bem-sucedido, fazendo HQs de detetive para a editora National Periodicals, que mais tarde seria conhecida como DC Comics. Quando o Superman foi um estouro de sucesso no ano anterior, na revista Action Comics, os editores da National convidaram Kane a criar um personagem similar, para incrementar as vendas da revista Detective Comics, que como o nome dizia, trazia histórias de detetive.

A primeira imagem do Batman, na capa de "Detective Comics 27", de 1939.

A primeira imagem do Batman, na capa de “Detective Comics 27”, de 1939.

Kane teve a ideia de um homem-morcego e levou ao seu principal colaborador: o escritor Bill Finger. Juntos deram os toques finais no personagem, que estreou com sucesso em Detective Comics 27, de 1939. As altas vendas criaram grande demanda de material e Kane não era um artista muito rápido e nem muito bom: seu traço era duro, rígido, sem vigor, e tendia à repetição. Então, com a grana entrando, ele fez o que todos os grandes artistas da época faziam: montou um estúdio, no qual contratava “por fora” outros artistas e terceirizava o serviço, embora só ele mesmo ganhasse os créditos. (Nem o nome de Finger, como escritor, aparecia, apenas o de Kane).

O primeiro assistente de Kane foi justamente Jerry Robinson, um desenhista de traço bem mais refinado, inteligente e com veia política, que tinha apenas 19 anos.

Conrad Veidt em O Homem que Ri.

Conrad Veidt em O Homem que Ri.

E aí as coisas embaralham. Kane afirma que assistiu ao filme O Homem Que Ri, estrelado por Conrad Veidt e teve a ideia de criar um vilão a partir daquele visual, com Finger contribuindo com a ideia do vínculo às cartas de baralho. Por sua vez, Jerry Robinson era um grande amante do carteado e vinha realmente de uma família de campeões em jogos de carta. Ele afirma que mostrou uma carta com um curinga a Kane com a proposta visual de um novo vilão.

(Esta não é a única disputa Kane-Robinson. O último também alega ter criado o visual do Robin, o parceiro mirim do Batman, que estreou em Detective Comics 38, de 1940).

Capa de Batman 01, de 1940: primeiras aparições do Coringa e da Mulher-Gato.

Capa de Batman 01, de 1940: primeiras aparições do Coringa e da Mulher-Gato.

Polêmicas à parte, o fato é que o trio criou a primeira história em que o vilão aparece: Kane lançou a ideia e fez os esboços e parte da arte, Finger escreveu o roteiro e Robinson completou a arte, refinou os esboços e realizou a arte-final. Àquela altura, a National já tinha decidido premiar o Batman com uma segunda revista: chamada apenas Batman, seria um volume especial, publicado trimestralmente (uma edição para cada estação do ano), com um número maior de páginas e mais histórias. O editor Whitney Ellsworth gostou o suficiente da história do Coringa para que ela se tornasse a primeira da revista Batman 01, publicada na primavera de 1940. Porém, Finger criou uma história em que – à moda da época – o vilão morria ao fim da história, e vendo o potencial disposto ali, Ellsworth obrigou o trio a refazer a última página e garantir que o vilão permanecesse vivo para voltar nas edições seguintes.

O Homem Que Ri

Primeira página da história com a primeia aparição do Coringa em "Batman 01". Texto de Finger, arte de Kane e Robinson.

Primeira página da história com a primeia aparição do Coringa em “Batman 01”. Texto de Finger, arte de Kane e Robinson.

A primeira história do Coringa, publicada em Batman 01, de 1940, é um clássico absoluto da Era de Ouro dos quadrinhos. Na trama, o vilão se apresenta à imprensa – via rádio! – afirmando que irá matar pessoas ilustres da cidade – o nome Gotham City iria demorar um ano para surgir ainda – e mesmo dizendo a hora e o local onde os crimes aconteceriam, ainda assim, conseguia realizá-los. A principal marca do vilão já estava ali presente: suas vítimas eram assassinadas com um gás do riso terrível, que deixava emoldurado em suas vítimas um sorriso macabro. O vilão também já é o que conhecemos: com sua pele branca, os cabelos verdes e um sorriso enorme em lábios muito vermelhos, embora a razão desse visual não fosse explicada (e nem seria até 11 anos depois!).

O Coringa em Batman 01, de 1940.

O Coringa em Batman 01, de 1940.

Como era típico das histórias iniciais do Batman, é uma trama sombria, violenta e com algo de complexo, muito longe de qualquer inclinação infantil, jovial ou humorística que as HQs pudessem ter no futuro (ou hoje!). A polícia de um lado e Batman e Robin de outro correm feito baratas tontas em busca de ficar um passo à frente do criminoso. O palhaço do crime chega a sequestrar Robin e está prestes a matá-lo quando o homem-morcego interrompe, para ser derrubado por um gás paralisante. Na última investida, o Batman consegue derrubar o vilão com um soco e ele cai de um edifício, mas o herói o segura com o braço.

Aparentemente, a editoria da National Comics (ou o próprio Ellsworth) gostou tanto do personagem que encomendou logo outra história. Talvez Kane, Finger e Robinson a tenham produzido para uma edição de Detective Comics ou para o número seguinte de Batman, mas a editora não quis esperar: O Retorno do Coringa já foi publicada na própria Batman 01, como a quarta história da revista.

O Coringa termina sua primeira história atrás das grades.

O Coringa termina sua primeira história atrás das grades.

Na trama, novamente violenta, o Coringa foge da prisão explodindo sua cela – com um explosivo escondido em um dente falso! – e retoma seu plano original. Novamente, anunciando roubos pelo rádio e cometendo os crimes mesmo com a polícia esperando. Um aspecto curioso da trama é sua violência: o Coringa mata mais de dez policiais a sangue-frio ao longo da curta história, além de jogar Robin de cima de um edifício (e o menino prodígio não morre por se segurar em um mastro de bandeira).

A história também mostra Batman sendo nocauteado pelo Coringa, mas o criminoso precisa fugir logo em seguida, pois a polícia chega. Um dos policiais decide desmascarar o cavaleiro das trevas, que ainda jaz no chão, mas o herói desperta, luta com os tiras e sai fugindo com tiros atrás de si. Esta cena é importante para ilustrar como, nesta época, o homem-morcego era um fora da lei, perseguido pela polícia.

Lua entre Batman e Coringa na faca!

Lua entre Batman e Coringa na faca!

No fim, há uma luta de faca entre Batman e o Coringa e o herói consegue fazer o vilão esfaquear a si mesmo. A dupla dinâmica foge da cena do crime achando que o Coringa está morto, mas o último quadro mostra o médico na ambulância dizendo que o criminoso estava vivo e ia sobreviver. O Coringa retornaria em breve!

É recomendável que o leitor procure por essa história, já republicada diversas vezes e possível de encontrar nas livrarias brasileiras. Mas também há uma versão moderna da primeira parte: ela ganhou uma “refilmagem” nas mãos do escritor Ed Brubaker, com desenhos de Doug Mahnke, em 2005, na graphic novel O Homem que Ri, adaptando a trama original com muita fidelidade, mas adequando-a à cronologia do Batman pós-Crise nas Infinitas Terras.

A Mulher-Gato é surpreendida pelo Coringa em Batman 02, de 1940.

A Mulher-Gato é surpreendida pelo Coringa em Batman 02, de 1940.

O Coringa retornaria logo em Batman 02, publicada três meses depois, no verão de 1940. A história se chamava The Joker vs. The Cat, trazendo o primeiro encontro entre o palhaço e a Mulher-Gato, ainda uma criminosa não-uniformizada, que também tinha estreado no número 1. Na trama, vemos o Coringa se refugiando em um castelo atrás de antiguidades, Batman e ele em uma luta de espadas e a Mulher-Gato se aliando à dupla dinâmica para derrotar o vilão.

O Coringa não esteve em Batman 03, publicada no outono daquele ano, mas fez sua estreia em Detective Comics, na edição 45, ainda antes do fim do ano de 1940. Na história, ainda nas mãos de Kane, Finger e Robinson, mas adicionando um novo artista como assistente, George Roussos, o Coringa está à solta de novo e agora se disfarça de um vendedor de discos que usa a combinação agulha e vinil para emitir o gás do riso letal que deforma o rosto das vítimas. Nessa trama, o vilão ainda é um típico ladrão de joias e antiguidades como nas aparições anteriores e termina em um navio em alto mar atrás de um artefato. Batman vai em seu encalço e o palhaço do crime termina despencando da embarcação e desaparecendo em alto mar. Estaria morto?

Claro que não!

Os Primeiros Anos de um Assassino

A famosa capa de Detective Comics 69, por Jerry Robinson.

A famosa capa de Detective Comics 69, por Jerry Robinson.

O sucesso do Coringa com o público (e o corpo editorial da National) foi imediato e, logo, o vilão virou um tipo de atração fixa da revista Batman. Assim, a cada três meses, os leitores liam novos contos macabros do vilão combatendo o Batman e o Robin. Isso não quer dizer que o palhaço do crime não aparecesse também na revista mensal Detective Comics.

Seu próximo retorno já se deu em Batman 05, de 1941, na história O Mistério da Carta Faltante, ainda por Kane, Finger e Robinson, com este último já executando praticamente a arte inteira, com Kane apenas “dirigindo” os trabalhos. Num típico roteiro ardiloso de Finger, o Coringa é encontrado nadando na baía (de Gotham?) – o que serve também para explicar como pôde ter sobrevivido à história anterior – por uma quadrilha que rouba diamantes. Imediatamente, o vilão se alia à trupe e partem em busca de seu alvo. O conto traz a líder da quadrilha numa figura feminina fatal chamada Queenie, que se enamora de Bruce Wayne e, depois, percebe que ele é o Batman por causa de um pequeno corte no queixo causado pelo barbear. No fim, ela trai seus comparsas para salvar o homem-morcego, sendo baleada e pedindo um beijo antes de morrer.

Página de abertura de Batman 05.

Página de abertura de Batman 05.

Outro conto sensacional de Kane, Finger e Robinson veio pouco depois em Detective Comics 64, de 1942, onde o Coringa, subitamente, se apresenta à polícia para se entregar. Preso, confessa todos os seus crimes e vai à julgamento, sendo condenado à pena de morte. Ele é executado na cadeira elétrica, mas seu corpo é roubado por seus capangas, que usam um soro especial que traz o palhaço do crime de volta à vida. Pouco depois, o Coringa aparece na cidade e Batman e Robin tentam prendê-lo, mas o vilão faz um apelo na delegacia: um homem não pode ser condenado duas vezes por um mesmo crime. Ele já havia pagado sua sentença, por isso estava livre. Os heróis passam a vigiar o criminoso no hotel onde está hospedado, mas ele nem sai de lá: sem Batman e Robin perceberem, usa o letreiro para comunicar-se à distância com sua gangue.

A partir de então, o vilão passou a aparecer com frequência ainda maior na revista mensal, como em Detective Comics 67, de 1942, que traz uma bela capa ilustrada por Jerry Robinson.

Coringa, Pinguim e humor em Batman 25.

Coringa, Pinguim e humor em Batman 25.

É também daquele ano a primeira vez que o vilão ganhou uma abordagem cômica – fazendo jus ao seu nome – quando numa história de Batman 13, de 1943, Batman vence o Coringa ao lhe pagar com um cheque endereçado ao portador, que o criminoso não tem como tirar. Também é o caso de Batman 25, de 1944, escrita por Don Cameron e com arte de Jack Burnley e Jerry Robinson, no qual o Coringa une as forças com o Pinguim numa trama tipicamente infantil e leve, nada parecida com os contos de pouco tempo antes. Outro exemplo é Batman 32, de 1945, escrita por Cameron e com arte de Dick Sprang, ainda mais cômica, inclusive com o típico final fanfarrão, no qual o Batman acerta um tambor na cabeça no Coringa, que sai correndo com o instrumento enfiado na cabeça, às cegas, e bate em um poste.

Esse tipo de trama vinha por meio de pressão editorial da editora DC Comics, que queria que as histórias do cavaleiro das trevas fossem acessíveis às crianças – o Robin foi criado por isso – mas Kane e Finger insistiam em criar contos macabros e violentos. Contudo, era a DC quem pagava e a dupla tinha de ceder.

A arte de Dick Sprang para Batman 33.

A arte de Dick Sprang para Batman 33.

Outro detalhe sobre sobre esse período de 1943-1945 é que a edição marca o momento em que Bob Kane se afasta definitivamente da arte nas revistas do homem-morcego, para se dedicar às tiras diárias de jornal do personagem. Na época, as tiras tinham mais prestígio do que as revistas e fazê-las era a grande ambição de Kane. Assim, embora continuasse coordenando à distância a produção das revistas, deixou mais espaço para seus colaboradores, bem como para a interferência editorial.

Assim, enquanto nomes como Jerry Robinson e Sheldon Moldoff cuidavam de Detective Comics, a arte em Batman passou a nomes como Jack Burnley e World Finest passou a ser principalmente de Dick Sprang, com seu traço mais quadrado e cartunesco. Os editores gostaram muito do seu estilo e o tornaram o padrão em relação ao Batman, com os outros autores sendo incentivados a copiá-lo, como é claramente o caso de Moldoff. Aparentemente, Robinson ficou menos confortável com a situação, deixando a equipe criativa do personagem em 1945 e investindo em uma carreira como caricaturista político que lhe renderia fama e fortuna.

A Primeira Origem

Capuz Vermelho: história de Bill Finger.

Capuz Vermelho: história de Bill Finger e arte de Sheldon Moldoff.

Ao passar a década de 1940, as tramas envolvendo o Coringa  eram cada vez menos sombrias e mais humorísticas. Mas não somente com ele, mas com todo o universo do Batman. De certo modo, é um marco final desse período a célebre história Quem é o Capuz Vermelho?, publicada em Detective Comics 168, de 1951, com texto de Bill Finger e desenhos de Sheldon Moldoff. Para muitos este é o melhor conto do Batman na Era de Ouro. Pode parecer incrível aos dias de hoje, mas somente 11 anos após a criação do Coringa é que o vilão ganha uma origem!

A origem contada pela primeira vez.

A origem contada pela primeira vez.

Na trama, Batman vai dar um curso de Criminologia na Universidade de Gotham – é… eram os anos 1950 – e dá como desafio aos seus alunos desvendarem o caso do Capuz Vermelho, um criminoso que cometeu crimes dez anos antes e que nunca foi pego. Claro, a história afirmava que o homem-morcego estava há uma década em ação, correspondendo mais ou menos ao seu tempo de publicação. Então, o Capuz Vermelho volta a agir e Batman, Robin e seus alunos se unem para pegá-lo. No fim, uma surpresa: o Capuz Vermelho era ninguém menos do que o Coringa. Dez anos antes, ele era um criminoso comum, mas ao tentar escapar de Batman num assalto à Fábrica de Baralhos Monarca, caiu num tonel de produtos químicos que deixou sua pele branca, os cabelos verdes e os lábios vermelhos.

Um Comediante

Um Coringa mais comediante, em Batman 57.

Um Coringa mais comediante, em Batman 57.

No início dos anos 1950, dois movimentos paralelos afetaram a indústria de quadrinhos de modo muito forte. Em primeiro lugar, os super-heróis saíram de moda. De sucesso assustador à época do pré-Guerra e durante o conflito, o gênero simplesmente se esvaiu no pós-guerra, levando a maioria absoluta dos personagens a desaparecerem das bancas, como foi o caso dos companheiros de editora do homem-morcego: Flash, Lanterna Verde, Sr. Destino, Gavião Negro… todos desapareceram. Superman e Batman resistiram, mas suas vendas estavam cada vez mais se distanciando dos tempos de glória.

O outro movimento foi a perseguição de parte da mídia contra as HQs. O símbolo desse movimento foi o psiquiatra Fredric Wertham, que publicou o livro A Sedução do Inocente, no qual acusa os quadrinhos de corromperem a juventude norteamericana. Embora o alvo maior do cientista fossem as loucas histórias absurdamente violentas da EC Comics, em gêneros como terror e policial, sobrou bastante espaço para os super-heróis, com Batman acusado de homossexual e pedófilo (por causa do Robin), Mulher-Maravilha de lésbica e outras coisas. Como resultado da polêmica, que virou até tema de uma Comissão Especial no Congresso dos EUA (e observação atenta do Senador Joseph McCarthy, que perseguia comunistas em todo canto), as próprias editoras de quadrinhos se uniram e criaram o Comic Code of Authority, que era, na prática, um sistema de autocensura, que proibia as histórias de terem violência, sexo, mortes explícitas e coisas do tipo. Elas tinham que ser leves, inofensivas.

Para um personagem dado a histórias violentas e sombria, a fundação do CCA em 1954 foi um duro golpe. E o Batman sentiu de imediato. O resultado foi o Coringa se tornar um vilão cômico, que fazia trapalhadas. Um pastelão. Nada mais do assassino assustador de antes.

Coringa e Lex Luthor

Coringa e Lex Luthor unem as forças: histórias infantis.

Coringa e Lex Luthor unem as forças: histórias infantis.

Infelizmente, o Coringa se tornar um personagem inócuo ocorreu exatamente no momento em que, pela primeira vez desde que foram criados, Batman e Superman passaram a ter histórias em conjunto. Embora tenham surgido com apenas um ano de diferença e dentro da mesma editora, nunca haviam cruzado o caminho um do outro em uma história. O mais bizarro é que, em 1941, a DC Comics criou uma revista chamada World’s Finest que reunia contos inéditos de seus principais personagens. E como não podia deixar de ser, o cavaleiro das trevas e o homem de aço apareciam em praticamente todas as capas, mas nunca se encontravam no interior. Isso só mudou em 1952, quando a revista Superman 76 trouxe os dois interagindo pela primeira vez. Ainda assim, demorou outros dois anos para que a dupla de heróis passasse a ter aventuras conjuntas, a partir de World’s Finest 71, de 1954, em histórias em boa parte produzidas por Ed Hamilton (um dos principais escritores do Superman) e Dick Sprang (um dos principais desenhistas do Batman).

Uma vez que os heróis estavam juntos, não demorou muito e seus vilões também: Coringa e Lex Luthor unem as forças pela primeira vez em World’s Finest 88, de 1957, nas mãos da dupla Hamilton e Sprang. A história em si não é grande coisa: Luthor cria robôs de aparência humana superfortes e quer usá-los para roubar coisas, no que é ajudado pelo Coringa. Batman e Superman unem as forças para derrotá-los e levá-los à cadeia.

A partir de então, esse tipo de história era cada vez mais comum, embora com uma abordagem quase infantil.

Decadência

Infantino mudou o visual do Batman em 1964, criando a elipse amarela.

Infantino mudou o visual do Batman em 1964, criando a elipse amarela.

O Coringa infantil e trapalhão existiu por mais de 20 anos, mas isso só serviu para diminuir sua importância e desgastar sua imagem. Proibidos de fazer uma abordagem ao Batman como nos velhos tempos, Bob Kane e Bill Finger faziam o possível, mas terminavam envolvendo o homem-morcego em tramas sem pé nem cabeça, com temáticas que descaracterizavam o personagem: ficção científica, viagens no tempo, humor etc. Isso durou quase 10 anos.

No fim do ano de 1963, encerrou-se o contrato do Estúdio de Bob Kane com a DC Comics. Até ali, tinham sido 24 anos de histórias e, na iminência da editora não renovar o contrato, Kane decidiu se aposentar das histórias em quadrinhos e foi trabalhar com desenhos animados, onde fez algum sucesso. Bill Finger e os outros nomes do estúdio – Sheldon Moldoff, por exemplo – continuaram a trabalhar com a DC e o Batman, mas agora, diretamente. E outros também se aposentaram, como foi o caso de Dick Sprang.

As revistas do Batman passaram ao comando de Julius Schwartz, o editor-sensação que criou a Era de Prata dos Quadrinhos, ao impulsionar as vendas com novas versões de velhos heróis do passado, como Flash e Lanterna Verde, além de grandes renovações em outros, como a Mulher-Maravilha. Ao assumir o comando do cavaleiro das trevas, Schwartz colocou o escritor John Broome (criador do Lanterna Verde Hal Jordan e um dos principais escritores do Flash) como o principal roteirista, enquanto Carmine Infantino (o desenhista do Flash) se tornou o artista-chefe, responsável por uma ligeira modernização do visual do cruzado embuçado: abandonando a arte caricatural herdada de Kane e o estilo quadrado de Sprang para uma abordagem mais curvilínea e bonita, com um Batman mais delgado e ágil, com uma elipse amarela em torno do símbolo do morcego. O Coringa também foi ligeiramente repaginado, com um visual menos cartunesco.

Porém, Schwartz detestava o Coringa (e tinha motivos para isso, lendo as aventuras dos últimos dez anos), portanto, sua regra era: usar o vilão o mínimo possível. Portanto, entre 1964 e 1969, o palhaço do crime apareceu em somente um punhado de revistas. E mesmo com o sucesso da série de TV do Batman, ainda assim, o vilão não deu muito as caras e, após aparecer em Detective Comics 388, de 1969, passaria incríveis quatro anos sem ser publicado.

Estreia em Carne e Osso

O Coringa vivido por Cesar Romero, em 1966.

O Coringa vivido por Cesar Romero, em 1966.

No início de 1966 ia ao ar o primeiro episódio da série de TV Batman, levada ao ar pela CBS, estrelada por Adam West e Burt Ward, como o homem-morcego e Robin, respectivamente. Nada de cavaleiro das trevas: o tom da série era humorístico ao extremo, chegando praticamente ao pastelão, carregado de nonsense e, para compensar, um visual psicodélico que explodia em cores berrantes. O Coringa fez sua estreia em live action no programa, interpretado pelo ator Cesar Romero.

Romero era descendente de italianos e já era um ator “de segundo escalão” consagrado, com uma extensa carreira, na qual se destacavam os papeis de latin lover. O curioso é que Romero tinha como marca registrada um bigode e não permitiu de modo algum que ele fosse raspado para interpretar o vilão, então, era aplicada mais maquiagem para disfarçar. Embora estranho ao perfil que o palhaço do crime tem hoje, a interpretação de Cesar Romero fez jus ao tom da série, com um Coringa galhofeiro, mas que inaugurou a típica risada histérica que lhe é marca característica.

Robin e Batman na TV.

Robin e Batman na TV.

O Coringa também esteve no filme Batman, o homem-morcego, que estreou em 1966, como uma forma de divulgar a série para outros países do mundo, numa trama em que alia suas forças ao Pinguim, ao Charada e à Mulher-Gato.

Os vilões no filme da série.

Os vilões no filme da série.

Contudo, embora a série tenha feito um sucesso insano no início, rapidamente também esgotou sua fórmula e a audiência baixou. O programa foi cancelado na Terceira Temporada, em 1968.

Naquele ano, também estreou o desenho animado The Adventures of Batman, parte de um programa de TV chamado The Superman/Batman Hour (que tinha também um programa do homem de aço, cada um com 30 minutos) e o Coringa ganhou sua primeira versão em cartoon. Embora tivesse mais ou menos os trejeitos da série com atores, o visual do vilão era calcado na arte de Carmine Infantino.

A Volta do Assassino

O Coringa em sua última aparição antes do embargo.

O Coringa em sua última aparição antes do embargo.

O sucesso efêmero da série de TV do Batman causou um grande custo ao personagem. A visão abobalhada do herói e seu universo manchou sua imagem e sua reputação. Para piorar, a DC Comics se empolgou no início e decidiu levar o tom humorístico para as HQs, exatamente dois anos depois da editora ter percebido que essa rota não tinha dado certo e cancelar o contrato com o estúdio de Bob Kane, dando a Carmine Infantino e John Broome a missão de fazer histórias mais sérias e contundentes. A volta repentina do humor só levou a piorar mais ainda as vendas das revistas.

O Coringa de Cesar Romero virou um pouco o símbolo desse Batman barrigudo e engraçado, de modo que, como o editor Julius Schwartz já não gostava do personagem, tratou de limá-lo completamente da linha editorial. O Coringa apareceu em Justice League 77 e 78. de 1968, por Dennis O’Neil e Dick Dillin, como um oponente do grupo, em seguida, fez aquela já citada participação em Detective Comics 388, de 1969, e simplesmente sumiu do mapa e passou quatro anos sem aparecer.

Enquanto isso, foi realizada uma profunda mudança no universo do cavaleiro das trevas. Ao longo dos anos 1960, foi emergindo uma nova geração de escritores e desenhistas, que iria resultar no fim da Era de Prata e dar início à Era de Bronze dos quadrinhos. Na concorrente Marvel Comics, por exemplo, os clássicos Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko, Don Heck, foram dando lugar a garotos como Roy Thomas, Gerry Conway, Jim Steranko etc.

A DC Comics foi mais resistente no início. Trabalhava ainda na lógica antiga, com uma padronização mais forte de texto e arte e, por isso, tinha um visual mais “conservador” e menos arrebatador do que a concorrência. Mas contra números não há argumentos: naquela década a Marvel saltou de uma empresa minúscula para a campeã de vendas do mercado de HQs, deixando a poderosa DC para trás. Então, mudanças ocorreram.

Também é importante ressaltar que, em 1968, a DC Comics foi adquirida pelo conglomerado Warner Bros., e este império da mídia obviamente queria uma empresa mais lucrativa e ágil.

O Batman na arte de Neal Adams: de volta ao tom sombrio.

O Batman na arte de Neal Adams: de volta ao tom sombrio.

Assim, por volta de 1968, mudanças começaram a ser sentidas. Julius Shwartz começou a dar mais espaço a escritores mais jovens, como Dennis O’Neil – que tinha apenas 28 anos – e abriu as portas para toda uma nova geração de desenhistas: Neal Adams, Irv Novick, Jim Aparo etc. Com isso, a velha guarda foi sendo deixada de lado e as revistas da DC começaram a ter uma outra cara.

Dennis O’Neil foi o maior artífice da mudança, porque seus textos começaram a dar um ar mais adulto e sério à DC. Ele começou a transformação na revista da Mulher-Maravilha, que se desligou de suas raízes da mitologia grega e – como era típico da década de 1960 – se envolveu com misticismo oriental, artes marciais e aventuras de espionagem à lá 007. Em seguida, ele assumiu a revista da Liga da Justiça, tornando suas aventuras mais ameaçadoras. Em 1970, foi a vez do Superman, que sofreu uma pequena reformulação. E, em seguida, o Batman.

Batman, Coringa e um tubarão em "Batman 251" por O'Neil e Adams.

Batman, Coringa e um tubarão em “Batman 251” por O’Neil e Adams.

Na verdade, já em 1968, as coisas começaram a mudar para o Batman. A dupla Bob Haney e Neal Adams assumiu a revista The Brave and the Bold, dedicada a mostrar encontro entre heróis da DC, mas que desde o ano anterior, graças ao sucesso da série de TV, tinha o homem-morcego como convidado fixo. As histórias tinham um tom mais sério e relevante. Logo, esse clima começou a ser transportado para as revistas oficiais do cavaleiro das trevas: Detective Comics e Batman. Então, em 1970, Adams se mudou para essas duas revistas e, ao lado de Dennis O’Neil deram início a uma fase absolutamente genial do personagem, levando-o de volta às suas origens sombrias, de um herói noturno.

Mesmo assim, ainda demorou até 1973 para o Coringa retornar às HQs, atingindo o recorde de quatro anos longe das bancas. O palhaço do crime voltou na histórica edição A Vingança Quíntupla do Coringa, publicada em Batman 251, com uma trama simples de O’Neil e Adams: o vilão foge da cadeia e vai se vingar de seus ex-comparsas que o traíram. O destaque é o retrato psicótico, sem remorso e alucinado do vilão que dá o primeiro passo para a criação do personagem tal qual o conhecemos nos dias de hoje.

O Coringa por Englehart e Rogers.

O Coringa por Englehart e Rogers.

O segundo passo foi dado em Detective Comics 471 e 476, de 1977 a 1978, com a história Peixes Sorridentes, em que Steve Englehart e Marshall Rogers mostram um Coringa ainda mais alucinado, insano e psicótico. Na trama, inacreditável, o vilão envenena todos os peixes da baía de Gotham com seu sorriso característico, apenas para depois cobrar pelos direitos autorais de sua imagem! Por mais que esse plot tivesse algo de humor negro, o retrato do Coringa é sensacional. O visual do vilão, usando sobretudo e chapéu, também seria algo readotado definitivamente nesta história.

Aventuras Solo

Capa de The Joker 01, de 1975, por José Garcia Lopez.

Capa de The Joker 01, de 1975, por José Garcia Lopez.

Ainda antes da aventura de Englehart e Rogers, o Coringa foi o primeiro vilão da DC Comics a ganhar uma revista solo. The Joker foi publicada entre 1975 e 1976 e teve apenas 09 edições, indo muito mal nas vendas. Na época, a franquia do homem-morcego ganhou uma expansão – além de Detective Comics, Batman, World Finest e The Brave and the Bold, publicadas mensalmente (e sua participação em Justice League of America), havia a Batman Family, com aventuras de Robin, Batgirl e outros personagens relacionados – e o vilão foi contemplado com um título seu. Porém, o cavaleiro das trevas não aparece nas aventuras, mostrando-se o Coringa contra outros vilões da DC e a coisa não funcionou, mesmo com textos de Dennis O’Neil e a arte fantástica de José Garcia Lopez.

O Terror dos Anos 1980

Aquelas duas histórias de O’Neil-Adams e Englehart-Rogers foram o ponta-pé inicial de uma fase em que o Coringa se tornou o mais terrível vilão das HQs efetivamente. Na década de 1980, uma nova leva de escritores explorou de modo sistemático até onde iria a loucura do palhaço do crime. A primeira dessas histórias foi Batman: o Cavaleiro das Trevas, a lendária minissérie escrita e desenhada por Frank Miller e publicada em quatro partes em 1986. A complexa trama mostra o Batman aposentado há uma década e com mais de 50 anos de idade, obrigando-se a voltar à ativa como resposta de uma onda insana de violência em Gotham City. Perseguido pelas autoridades e ainda mais violento do que nunca, Batman precisa enfrentar uma série de adversidades: sua idade, adversários bem mais jovens, uma onda de caos e até o Superman! O conflito entre o homem-morcego e o homem de aço nesta história, inclusive, é a base do filme Batman vs. Superman – A Origem da Justiça.

Batman versus Coringa em O Cavaleiro das Trevas. Arte de Frank Miller.

Batman versus Coringa em O Cavaleiro das Trevas. Arte de Frank Miller.

Em meio à toda essa trama, há um subplot com o Coringa: o vilão é mostrado internado em um asilo e em estado catatônico, pois não tem razão de viver sem a presença do Batman. Mas no momento em que o cruzado embuçado volta à ação, ele volta a si e arma um plano incrível de provar que está curado e querer se reintegrar à sociedade, ao mesmo tempo em que procura matar todos na cidade. A luta entre os dois é uma das mais violentas das HQs.

Além de gerar A Origem da Justiça, existe uma adaptação bem mais fiel dessa história como um desenho animado em longametragem em duas partes, lançado em homevideo pela DC Comics e a Warner Bros. Animation.

Detalhe da capa de "A Piada Mortal": origem do Coringa.

Detalhe da capa de “A Piada Mortal”: origem do Coringa. Arte de Brian Bolland.

Pouco depois, foi publicada a graphic novel Batman: A Piada Mortal, em 1987, com textos de Alan Moore e desenhos de Brian Bolland. Na história, o Coringa arma um plano cruel, em que dá um tiro em Barbara Gordon, a filha do Comissário Gordon, e a deixa paralítica. Além disso, ele abusa fisicamente dela, tirando fotos, sequestrando seu pai e mostrando a ele as imagens e gravações sonoras das torturas. A ideia é mostrar que qualquer cidadão “normal” pode enlouquecer depois de um dia ruim.

Barbara Gordon é baleada pelo Coringa. Arte de Brian Bolland.

Barbara Gordon é baleada pelo Coringa. Arte de Brian Bolland.

A história é notável, também, por trazer a origem moderna do Coringa. As lembranças são contadas do ponto de vista do vilão e retomam a ideia de que ele foi o Capuz Vermelho antes de se tornar o Coringa, mas agora com mais detalhes: ele era um comediante de stand-up fracassado com uma esposa grávida, se esforçando para ganhar a vida, e é convencido por uma quadrilha criminosa a usar a identidade de Capuz Vermelho (que na verdade pertencia a outra pessoa, desconhecida) para ganhar uma grana fácil. O comediante cede e tudo dá errado: Batman aparece e ele cai no tanque de produtos químicos que o deixa com a aparência modificada; sua esposa é assassinada (ou sofreu um acidente?). Porém, o texto de Moore aprofunda vários detalhes, deixando-os confusos: o próprio vilão não parece ter certeza do que aconteceu e várias cenas têm mais de uma versão, cabendo ao leitor escolhê-las. Genial.

A brutal cena com Barbara Gordon...

A brutal cena com Barbara Gordon, por Moore e Bolland.

A Piada Mortal teve um impacto enorme nos quadrinhos e iniciou uma onda de ataques pessoais do Coringa ao homem-morcego. E também teve como consequência Barbara Gordon ficar paralítica, terminando sua carreira como Batgirl, fato que aparentemente, o Coringa até desconhecia. A moça, então, passou a usar suas habilidades de hacker sob a identidade de Óraculo, auxiliando os heróis e a Liga da Justiça, condição que durou até o reboot da DC em 2011.

A Piada Mortal foi recentemente adaptada como um desenho animado em longametragem com Censura 18 anos e fez um grande sucesso de público e crítica.

A cena brutal da morte de Robin na arte de Jim Aparo.

A cena brutal da morte de Robin na arte de Jim Aparo.

Em 1988, nas revistas mensais do cavaleiro das trevas, outra tragédia: Batman 426 a 429, trazem a saga Morte em Família, com texto de Jim Starlin e arte de Jim Aparo, na qual o Coringa assassina Jason Todd, o Robin II. Nas histórias daquela década, o Robin (Dick Greyson) havia abandonado essa identidade em 1984 para se tornar o Asa Noturna, uma forma de mostrar maturidade e se desvencilhar do Batman. Assim, o homem-morcego treinou Jason Todd para substituí-lo.

O personagem, porém, não agradou os leitores da DC e houve grande aversão ao segundo Robin. Por isso, a DC criou a história Morte em Família, na qual uma votação por telefone definiu se Todd deveria morrer ou não. O “sim” ganhou por uma margem pequena de votos e assim foi feito.

A morte do Robin II por Starlin e Aparo: clássico dos anos 1980.

A morte do Robin II por Starlin e Aparo: clássico dos anos 1980.

Na trama, Todd se tornou um adolescente arredio, violento e descuidado, o que leva a uma briga com o Batman. Ao mesmo tempo, o jovem descobre que sua verdadeira mãe está viva, pois pensava que era órfão (mas era adotado). Seguindo as pistas, o novo Robin vai parar no Oriente Médio, onde cruza o caminho com o Coringa e é assassinado violentamente pelo vilão: espancado com um pé de cabra e deixado à mercê de uma bomba relógio. O palhaço do crime estava vendendo armas na região e termina contratado pelo Irã para ser Delegado do país nas Nações Unidas (!), o que lhe dá imunidade diplomática e o impede de ser preso. O que não impede o Batman de persegui-lo, claro.

A morte de Jason Todd teve uma grande consequência nas HQs do Batman, com o herói atormentado por anos por essa falha em sua carreira. O retrato do Coringa também se tornava mais psicopata, migrando para as revistas mensais com esse comportamento. Infelizmente, o vilão é dado como morto ao fim da trama e passou alguns anos desaparecido ou sem grandes histórias nas revistas de linha.

Poderoso painel de Breyfoglem em Detective Comics 617.

Poderoso painel de Breyfogl em em Detective Comics 617.

Uma exceção curiosa foi em Detective Comics 617, de 1990, dentro da ótima fase de Alan Grant e Norm Breyfogle. Enquanto as revistas do homem-morcego rodavam uma trama em que o herói ia encontrando evidências de que o Coringa ainda estava vivo, a dupla decidiu criar uma trama na qual, enquanto persegue essas pistas, o cavaleiro das trevas relembra um confronto do passado com o vilão, a oportunidade para a dupla explorar rapidamente a relação dos dois personagens. É também oportunidade única de ver o palhaço do crime retratado na fantástica arte de Breyfogle, com suas linhas retas e tom sombrio.

A ausência nas revistas mensais não queria dizer que o vilão não continuasse a protagonizar contos de terror, como Batman: Asilo de Arkham, a graphic novel de Grant Morrison e Dave McKean, publicada em 1989, mostrando uma alucinada história em que os presos tomam conta do Asilo e Batman é obrigado a entrar sozinho e encarar seus piores inimigos, com destaque ao Coringa, claro. Não é uma aventura de ação, mas um terror psicológico muito bem escrito e com um visual aterrador, sendo a primeira obra magma de Morrison, que seria um dos grandes nomes das HQs nas décadas seguintes.

Claro, dá para notar que a premissa básica da história foi usada anos depois na série de videogames Arkham Asylum e Arkham City, embora as tramas não tenham praticamente nada a ver.

Aparição Triunfal nos Cinemas

Jack Nicholson como o Coringa.

Jack Nicholson como o Coringa.

A incrível sequência de histórias espetaculares do Batman no anos 1980 – como Cavaleiro das Trevas, Ano Um, A Piada Mortal etc. – tornaram o homem-morcego um dos personagens mais famosos do mundo e abriram o caminho para que chegasse finalmente aos cinemas, com bom orçamento e tratamento sério. Batman – O Filme, de 1989, foi dirigido por Tim Burton e protagonizado por Michael Keaton, e foi um sucesso enorme de bilheteria, dando início a uma verdadeira batmania.

Mas o grande destaque do filme é a interpretação impressionante de Jack Nicholson como o Coringa. À época, um dos atores mais bem sucedidos e bem pagos de Hollywood, com uma carreira longeva que incluía clássicos absolutos como Easy Rider – Sem Destino; e O Iluminado, de Stanley Kubrick, além de um Oscar de Melhor Ator por O Estranho no Ninho, Nicholson relutou bastante em pegar o papel, que passou pelas mãos de gente como David Bowie e Willem Dafoe, e quase foi aceito por Robin Williams, mas foi convencido pelos produtores. O ator emprestou toda a sua capacidade interpretativa e entregou uma versão psicótica do Coringa tal qual os quadrinhos da época, num retrato incrível. Não à toda, foi novamente indicado ao Oscar (de Melhor Ator Coadjuvante, mas não ganhou) e recebeu o maior cachê da história do cinema até então, por um acordo de participação na bilheteria.

O Batman de Tim Burton e Michael Keaton: sombrio e gótico.

O Batman de Tim Burton e Michael Keaton: sombrio e gótico.

A trama do filme usa ligeiramente a ideia por trás de Quem é o Capuz Vermelho e A Piada Mortal, mas o vilão ganha um nome pela primeira vez: Jack Napier é um gangster veterano comum que quer dar um golpe no seu chefe e cai no tanque de produtos químicos enquanto é perseguido pelo Batman. O filme também adotou uma medida polêmica, definindo que Napier também é o assassino dos pais de Bruce Wayne, e  não Joe Chill, como é nas HQs. Essa questão de fechamento de ciclo até funciona para o filme, mas tirou uma das características interessantes da origem do Batman que é a causalidade da tragédia causada por um bandido comum.

Aparição Triunfal nos Desenhos

O Coringa do desenho.

O Coringa do desenho, com voz de Mark Hamill.

Com o megassucesso de Batman – O Filme e com Batman – O Retorno prestes a estrear, a Warner Bros. decidiu fazer um novo desenho animado do homem-morcego. Porém, dessa vez, mirando no tom sério das HQs e dos filmes, embora mantendo a capacidade de ser assistido por crianças. O artista Bruce Timm e o escritor Paul Dini criaram a obra-prima chamada Batman – The Animated Series, em 1992, que fez bastante sucesso na TV e duraria quatro temporadas.

A Série Animada tomava de empréstimo a ambientação meio gótica dos filmes de Burton, mas numa atmosfera muito fiel aos quadrinhos, usando seus episódios para adaptar as grandes histórias do personagem nas décadas de 1970 e 80. O elenco também era um primor: Kevin Conroy fez um Batman sensacional, com uma voz forte e grave para o herói e outra mais suave para Bruce Wayne, enquanto Mark Hamill – mais conhecido como o Luke Skywalker de Star Wars – fez uma versão sensacional do Coringa em cartoon, misturando um toque de humor (o programa era livre), mas adicionando muitos elementos malévolos e sombrios. Sua risada histérica também ficou na história.

O vilão encontra sua cara metade: a Arlequina.

O vilão encontra sua cara metade: a Arlequina.

Para completar, a série criou uma parceira para o Coringa na figura da Arlequina: Harley Quinzel, (que passa a usar o nome de Harley Quinn, trocadilho com Harlequin ou Arlequina em português) uma psiquiatra do Asilo de Arkham que termina se apaixonando loucamente pelo vilão e vira sua namorada e companheira de crimes. A personagem estreou no episódio 22 da Primeira Temporada e ficou extremamente popular e, por isso, terminou depois adicionada às HQs.

A Máscara do Fantasma.

A Máscara do Fantasma.

A Série Animada também teve spin-offs na figura de longametragens lançados diretamente no mercado de homevideo, e um dos melhores é A Máscara do Fantasma, no qual o Batman precisa enfrentar o retorno de um criminoso mascarado que existiu 20 anos no passado. O Curioso é que há uma subtrama sobre a máfia que insinua importantes pistas sobre o passado do Coringa, aproximando-se da história de Batman – O Filme.

A Série animada teve duas temporadas de grande sucesso, entre 1992 e 1994, e depois, adotou um tom um pouco mais infantil (com um novo título The New Batman Adventures e um design ligeiramente diferente) por outras duas, encerrando em 1996, quando deu lugar a Superman – The Animated Series, produzida pela mesma equipe. O homem de aço não funcionou tão bem, mas em 2000 estreou Justice League – The Animated Series, que fez um sucesso estrondoso também em quatro temporadas. Conroy continuou sendo o Batman e Hamill fez algumas participações como o Coringa.

Os Anos 90

Advogado do Diabo: culpa ou inocente?

Advogado do Diabo: culpa ou inocente?

O Coringa continuou como um personagem muito popular na década de 1990, embora não tenha tido histórias tão bombásticas como da década anterior. Ainda assim, o vilão teve uma participação importante, mesmo breve, na saga A Queda do Morcego, de 1993, na qual Batman é vítima de um plano do vilão Bane, que liberta todos os presos do Asilo de Arkham, causando o total esgotamento físico do cavaleiro das trevas. O Coringa e o Espantalho dão o toque final ao sequestrarem o prefeito de Gotham City e obrigarem Batman a uma caçada desesperada contra o relógio.

Em 1994, Paul Dini e Bruce Timm adaptaram os episódios de A Série Animada na graphic novel Louco Amor, narrando a origem da Arlequina em quadrinhos pela primeira vez, uma história que fez bastante sucesso e foi premiada com o prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos, de melhor história.

O Coringa na arte de Graham Nolan.

O Coringa na arte de Graham Nolan.

Mas o grande destaque da época foi a graphic novel Advogado do Diabo, de Chuck Dixon e Graham Nolan, de 1996, que mostra uma trama inusitada: uma série de assassinatos é atribuída ao Coringa e quando Batman prende o vilão, um juiz consegue revogar o diagnóstico de insanidade do palhaço do crime, levando-o à execução na cadeira elétrica, porém, o cavaleiro das trevas termina descobrindo evidências de que o Coringa não é culpado dos crimes e, agora, precisa decidir se salva ou não seu maior inimigo.

Coringa e Arlequina... juntos agora nas HQs! Arte de Mike Deodato Jr.

Coringa e Arlequina… juntos agora nas HQs! Arte de Mike Deodato Jr.

Outro evento foi a transposição da Arlequina definitivamente para os quadrinhos: a personagem foi introduzida em Batman 570, de 1999, por textos de Bronwyn Charlton e arte do brasileiro Mike Deodato Jr., então, um dos artistas mais famosos das HQs, numa trama similar à do desenho animado. A vilã repetiria a fama e popularidade nesta mídia também.

Voltaremos a falar sobre o Coringa em Terra de Ninguém, contudo, não custa nada ressaltar que o sucesso da Arlequina foi tão grande que a personagem chegou a ter histórias próprias: sua revista teve 38 edições publicadas entre 2001 e 2003. Depois, ela seria integrada à revista Birds of Prey (Aves de Rapina), que mostrava um time de heroínas lideradas por Oráculo.

Anos 2000

Outra década com o vilão ganhando algumas histórias importantes. O primeiro destaque foi na conclusão da longa saga Terra de Ninguém, publicada em Detective Comics 741, em 2000, com textos de Greg Rucka e Devin Greyson e arte de Damion Scott, na qual o Coringa sequestra todos os bebês de Gotham City, levando a uma caça desesperada de Batman e da força policial da cidade. No fim das contas, a detetive Sarah Essen, esposa do Comissário Gordon já há alguns anos, descobre que as crianças estão no porão da delegacia da cidade e confronta sozinha o palhaço do crime.

A morte de Sarah Essen...

A morte de Sarah Essen…

Numa cena horripilante, o Coringa joga um dos bebês para o alto e Essen larga a arma e tenta salvá-lo. Depois disso, o Coringa simplesmente dá um tiro na cabeça dela. Porém, aparentemente, até o insano vilão percebeu o quanto cruel e vazio foi seu ato: o desenho mostra o palhaço não sorrindo, mas cabisbaixo ao deixar o cadáver para trás.

...parece que não teve graça nem para o Coringa.

…parece que não teve graça nem para o Coringa.

Também houve a história Dark Detective, de 2005, uma minissérie que resgata a histórica dupla Steve Englehart e Marshall Rogers de volta ao cenário que criaram nos anos 1970: em meio a uma eleição municipal conturbada em Gotham City, o Coringa tenta se candidatar a prefeito. O duo repete o magistral retrato do vilão ao mesmo tempo em que resgata também personagens clássicos da época que não foram usados por outros autores, especialmente o amor de Bruce Wayne, Silver St. Cloud.

O Coringa Definitivo?

A versão de Christopher Nolan e Christian Bale em "Batman Begins".

A versão de Christopher Nolan e Christian Bale em “Batman Begins”.

A franquia cinematográfica do cavaleiro das trevas começou superbem: Batman – O Filme (1989) fez um sucesso incrível; Batman – O Retorno (1992) fez um sucesso um pouco menor, mas a maioria concorda que é até um filme melhor. Porém, o clima sombrio e assustador do diretor Tim Burton estava preocupando a Warner Bros., que usou a desculpa da bilheteria menor para pressionar o cineasta a diluir o tom e fazer películas mais “família”. Burton não topou e o diretor Joel Schummacher assumiu o comando, produzindo os filmes Batman Eternamente (1995) e Batman & Robin (1997), que geraram um cenário colorido, alegre, fanfarrão para o mundo do homem-morcego, dando um resultado final muito, mas muito ruim, especialmente no último.

Cena entre Gordon e Batman em "Begins" replica o final de "Ano Um".

Cena entre Gordon e Batman em “Begins” replica o final de “Ano Um”.

Como resultado, a franquia entrou em hiato e o estúdio passou anos tentando produzir um novo filme ou um novo começo (leia um post sensacional do HQRock sobre essas tentativas, clicando aqui). Demorou, mas deu certo.

Em 2005, o diretor Christopher Nolan (de Amnésia) lançou Batman Begins, estrelado pelo ator galês Christian Bale apresentando uma versão magistral do homem-morcego: uma história de origem do herói (que nunca tinha sido mostrada no cinema, por incrível que pareça) em um tom realista e com uma cinematografia fantástica, cinema de verdade, arte! Foi sucesso de público e de crítica, todos encantados com essa abordagem.

E um bom detalhe: a cena final de Begins imita exatamente a mesma da clássica história Batman: Ano Um, de Frank Miller e David Mazzuchelli, publicada em 1987. Gordon (promovido a capitão na HQ e no filme) e Batman conversam no telhado e o policial lhe dá uma dica a seguir: uma carta de baralho, indicando que o Coringa vem a seguir.

A já icônica versão de Heath Ledger para o Coringa.

A já icônica versão de Heath Ledger para o Coringa.

E ainda ficaria melhor: a sequência veio em 2008, com Batman – O Cavaleiro das Trevas, provavelmente, o melhor filme de super-heróis já feito. Na trama, o Coringa lança um ataque devastador a Gotham City, mergulhando a cidade no caos. O palhaço do crime ganha uma interpretação avassaladora nas mãos de Heath Ledger, ator australiano que estava em ascensão na época, com uma indicação ao Oscar de Melhor Ator por O Segredo de Brokeback Montain. O roteiro entregava um vilão anárquico, assustador e incrivelmente astuto, criando um grande plano que envolve os principais personagens do longa (Batman, Comissário Gordon, Promotor Harvey Dent, a máfia…) em uma trama, lançando uns contra os outros e fazendo tudo parecer acaso. Ao mesmo tempo, Ledger criou uma voz própria, elaborou maneirismos (gestos com as mãos, a língua lambendo os lábios), resultando num personagem intenso e irresistível.

Coringa versus Batman em um filme excepcional.

Coringa versus Batman em um filme excepcional.

Ajustado ao tom realista do filme, este Coringa não tem a pele branca e os cabelos verdes tais quais nas HQs (e no filme de 1989), fruto de um banho em um tanque de produtos químicos. Nesta versão, o criminoso simplesmente usa maquiagem para assustar seus inimigos. Ele detém horríveis cicatrizes no rosto, que parecem formar um sorriso, mas nunca sabemos a origem delas. O filme não revela nada de seu passado e o Coringa conta versões diferentes para como ganhou as marcas.

Infelizmente, Ledger faleceu alguns meses antes do lançamento do filme, aparentemente de uma overdose de drogas. O mundo ficou embasbacado por sua performance em O Cavaleiro das Trevas, que lhe rendeu o póstumo Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, situação que ocorreu apenas duas vezes na história de Hollywood. É também o único Oscar das categorias principais a ter sido ganho por um filme de super-heróis até hoje!

Influências do Cinema

O Coringa de Lee Bermejo.

O Coringa de Lee Bermejo.

Claro que uma versão tão forte do personagem nos cinemas criou um grande impacto nas outras mídias. Nas HQs, o reflexo disso foi uma série de histórias que procuraram aproximar o vilão daquela versão das telonas, a mais célebre sendo a graphic novel Coringa, lançada também em 2008, com texto de Brian Azarello e arte de Lee Bermejo.

No ano seguinte, chegou o videogame Batman: Asilo de Arkham, trazendo outra grande versão do vilão, embora com visual mais calcado nas HQs mesmo.

Psicótico Extremo

As décadas de 1990 e 2000, trouxeram uma série de abordagens estonteantes do vilão, mas também, uma sensação de cansaço do personagem, que funcionava de modo excepcional em algumas situações, mas ruins na maioria das outras vezes. Na década atual, o vilão ganhou um número mais econômico de aparições, a maioria dentro de uma linha de trama única, que lhe beneficiou.

O Coringa horripilante de Greg Capullo, com a própria pele arrancada do rosto!

O Coringa horripilante de Greg Capullo, com a própria pele arrancada do rosto!

Em 2010, já na reta final de sua longa e aclamada temporada à frente do Batman nas HQs (que durou de 2006 até 2011), o escritor Grant Morrison criou uma “revanche” do Robin contra o Coringa. Na revista Batman and Robin 13, o novo Robin (Damian Wayne, filho do Batman com a vilã Talia Head) dá uma surra no vilão com um pé de cabra, tal qual a situação inversa de 22 anos antes.

Porém, o grande destaque mesmo foi a abordagem extrema criada pelo escritor Scott Snyder. Na revista Detective Comics 880, de 2011, Batman sofre um surto psicótico e dá uma grande surra no Coringa. O vilão, então, delira numa viagem que explora seus sentimentos de amor (!) e ódio pelo homem-morcego! Mas isso era só o começo. Ao assumir a revista Batman, naquele mesmo ano – mas já dentro da nova fase da DC Comics, Os Novos 52 – Snyder e o desenhista Greg Capullo criaram uma longa fase em que o criminoso vai às últimas consequências. Primeiro, numa trama mostrada em Detective Comics 01 (a revista teve a numeração zerada), o palhaço do crime simplesmente pede a outro vilão para arrancar a pele do próprio rosto!

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Coringa: visual repugnante.

Nas histórias, o vilão passa um ano desaparecido e, então, retorna com um visual ainda mais aterrador: o rosto completamente deformado, com os músculos à mostra, e usando a antiga pele do rosto como um tipo de máscara. E também tem um plano elaborado na qual pretende matar todos os aliados do Batman, como Asa Noturna, Robin, Robin Vermelho e Capuz Vermelho (este, Jason Todd), no arco Morte da Família, publicada em Batman 13 a 17, em 2012.

A trama de Scott Snyder traz um tipo de crítica subtendida: o Coringa quer matar os aliados do Batman porque estes o deixariam “molenga”, diferente dos “velhos tempos”, quando o cavaleiro das trevas agia sozinho e era mais durão, o que é um reflexo da própria opção de escritores e editora em investirem em um universo de personagens cada vez mais amplo ao redor do herói. A história também brinca com a possibilidade do Coringa saber a identidade secreta do Batman, algo que foi aventado pela primeira vez ainda na distante Morte em Família, de 1988. No fim, a resposta à pergunta parece caber mais ao leitor do que ao próprio homem-morcego.

Morte da Família é a melhor história do Batman pós-Os Novos 52 e traz um bom roteiro de Snyder, que faz o suspense aumentar cada vez mais, embora como de costume no seu caso, algumas vezes achamos que ele estica demais algumas coisas. A arte de Greg Capullo é intocável, repleta de expressividade. Também é incrível o efeito que ele gera ao mostrar a decomposição da pele do rosto do Coringa ao longo da história: de uma face meio rígida no início, vai se tornando mais flácida e rodeada de moscas ao longo da trama, passando uma imagem repugnante do Coringa como nunca antes.

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Ano Zero: Nova origem.

Em 2013, no arco de histórias Batman: Ano Zero (Batman 21 a 33), Snyder e Capullo exploram o passado do homem-morcego em uma grande batalha contra o Capuz Vermelho, numa trama que procura mostrar que, ao contrário do que vimos em A Piada Mortal, o Coringa era o Capuz Vermelho desde o início: um criminoso extremamente audaz e inteligente.

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A nova face do Coringa em Fim de Jogo.

Voltamos ao presente com o arco EndGame (Fim do Jogo),  publicado entre Batman 35 e 42, em 2015, o Coringa volta disposto a pôr um fim em sua longa história com o homem-morcego. Dessa vez, após mais um tempo desaparecido, o rosto do Coringa nasceu novamente, e agora, ele conta com um visual mais limpo, dotado até de alguma elegância.

A história brinca com a possibilidade do vilão ser, na verdade, um ser imortal (o que com certeza ajudaria a explicar como ele sobreviveu a todas as pretensas mortes que teve desde que surgiu nas HQs), pois teria sido “contaminado” por uma substância chamada Elisium, que lhe faria ter centenas de anos de idade, à moda de Rã’s Al Ghul, embora mais uma vez, Snyder e a DC prefiram deixar a coisa “no ar”, sem uma resposta definitiva.

No fim, Endgame termina com uma batalha épica entre herói e vilão, que culmina na aparente morte de ambos! (O cavaleiro das trevas, claro, passaria alguns meses desaparecido, mas retornou depois).

Contudo, Snyder e Capullo brinca com a possibilidade do Coringa também ter, claro, sobrevivido. Nas tramas que mostravam o Comissário Jim Gordon assumindo o lugar do Batman como um vigilante, Bruce Wayne reaparece, sem memórias de suas aventuras e barbado, estabelecendo um noivado com Julie Madison, uma antiga ex-namorada. Numa cena, o milionário está em um parque em Gotham City e é acompanhado em um banco por um sujeito aparentemente normal, mas que é a cara do Coringa.

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Batman pergunta o nome do Coringa e a resposta o surpreende.

Por fim, recentemente, a DC Comics moveu algumas peças em direção ao futuro, apontando para novas surpresas envolvendo o Coringa. Na primeira, em uma aventura da Liga da Justiça, escrita por Geoff Johns, e publicada em Justice League 42 (em meio ao arco The Darkseid War) o Batman toma posse da Poltrona Moebius, que pertencia a Metron, dos Novos Deuses. O artefato dá ao seu usuário acesso a todo o conhecimento que existe no Universo. A primeira coisa que o cavaleiro das trevas faz ao se apossar do instrumento é perguntar qual o nome verdadeiro do Coringa. O leitor não obtém a resposta, mas o herói exclama um “não é possível!”.

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Batman revela a resposta!

O mistério prosseguiu por alguns meses, mas Justice League 50 veio a resposta: numa conversa com o Lanterna Verde, Batman revela que, na verdade, não há um nome vinculado ao Coringa, mas que ele era na verdade três pessoas diferentes. O quê? Isso mesmo, é a mesma reação de todo mundo.

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Batman e os três Coringas. 

Por fim, a informação é confirmada na edição especial DC Rebirth, que abre uma nova fase da editora, encerrando Os Novos 52 após cinco anos. A edição que abre a empreitada revela que o Coringa na verdade, são três pessoas diferentes e os quadros revelam, aparentemente, estes sendo o Coringa original dos anos 1940 (de Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson); a versão mais psicótica de A Piada Mortal (de Alan Moore e Brian Bolland); e a versão de Os Novos 52,desenvolvida por Scott Snyder e Greg Capullo.

Se são três indivíduos agindo ao mesmo tempo ou três pessoas que se sucederam nesse papel não está claro. Também não sabemos qual a implicação disso e, principalmente, como Batman sendo o maior detetive do mundo nunca percebeu isso.

Retorno aos Cinemas

A Origem da Justiça reuniu Superman, Mulher-Maravilha e Batman.

A Origem da Justiça reuniu Superman, Mulher-Maravilha e Batman.

Após o fim da fase de Christopher Nolan com o Batman nos cinemas (com Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, de 2012), a DC Comics e a Warner Bros. se reuniram para tentar criar o Universo DC nos cinemas, algo que jamais fora feito, apesar do estúdio ser dono da editora desde 1969!

Enquanto isso, em 2008, a Marvel usou seu Marvel Studios para lançar ela mesma (com total controle criativo) seus heróis nas telonas, numa série de filmes bem sucedidos de público e crítica, como Homem de Ferro (2008) e Capitão América – O Primeiro Vingador (2011), com cada filme criando pequenas conexões uns com os outros. Por fim, em 2012, a Marvel lançou Os Vingadores, que unia os personagens que já tinham aparecido em filmes-solo: Homem de Ferro, Capitão América, Hulk e Thor. Resultado: um sucesso estrondoso e a terceira maior bilheteria da história até então.

O Coringa acompanhado de Arlequina em Esquadrão Suicida.

O Coringa acompanhado de Arlequina em Esquadrão Suicida.

A DC ficou para trás. Mas tentou revidar. Em 2013, lançou Superman – O Homem de Aço, filme controverso que não fazia nenhum esforço sério em criar um universo integrado. Porém, sua sequência veio com tudo em 2016: Batman vs. Superman – A Origem da Justiça não somente unia os dois heróis do título, como também trazia uma participação importante da Mulher-Maravilha e rápidas participações especiais de Flash e Aquaman. Pronto, um Universo DC nos Cinemas.

O passo seguinte foi ainda mais ousado: Esquadrão Suicida, um filme sobre o time de vilões, cujo um dos personagens principais é o Coringa, agora vivido por Jared Leto, o vocalista da banda de rock 30 Seconds to Mars, mas que é um ator de alto calibre, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por Clube de Compras Dallas, em 2015.

Harley Quinn de Margot Robbie parece ser um dos destaques.

Harley Quinn de Margot Robbie parece ser um dos destaques.

A trama parece promissora: Em Esquadrão Suicida, após os eventos de Superman – O Homem de Aço e Batman vs. Superman – A Origem da Justiça, o Governo dos EUA decide criar a Força-Tarefa X, uma operação secreta que envolve colocar supercriminosos em missões suicidas, em troca de diminuições de penas, contra ameaças impossíveis de combater. A ideia é da durona Amanda Waller, que põe como líder de campo o coronel Rick Flag, que seleciona um time com alguns dos mais habilidosos criminosos: Pistoleiro, Arlequina, Capitão Bumerangue, El Diablo, Crocodilo, Slipknot, e a heroína Katana. Aparentemente, a primeira missão do Esquadrão Suicida será deter a ameaça da arqueóloga June Moon, que foi possuída por uma força mística maligna, conhecida apenas como Magia. Enquanto isso, o Coringa elabora um plano de retomar o controle sobre Arlequina, sua ex-amante. Batman e Flash farão participações especiais.

Ficará para a história o Coringa de Jared Leto?

Ficará para a história o Coringa de Jared Leto?

Os vídeos mostram uma abordagem também psicótica do Coringa nas mãos de Leto, claro, procurando se distanciar do retrato anterior de Ledger. A nova versão é a cara do século XXI: com muitas tatuagens e próteses nos dentes, além de um visual mais próximo dos quadrinhos: com pele branca e cabelos verdes “naturais”. Os relatos das filmagens, e os trailers, mostram um vilão sádico e assustador, mas também um pouco mais sociável, que terá laços com o crime organizado. Por outro lado, tal qual seu antecessor, Leto incorporou o personagem de modo profundo nas gravações, com relatos como o de Will Smith (que faz o Pistoleiro) dizendo que passou seis meses com o Coringa e, por isso, ainda não conhece Leto (!) ou as assustadoras histórias de que ele presenteou a atriz Margot Robbie (a Arlequina) com um rato vivo no meio das filmagens. Como isso se reflete no longametragem veremos em breve.

Falando nisso, Esquadrão Suicida também traz a estreia da Arlequina no cinema, personagem que, mais uma vez, deve roubar a cena!

Será a primeira vez que o Coringa aparecerá em um filme que não seja do Batman – embora o cavaleiro das trevas faça uma participação (aparentemente pequena) especial – e será muito curioso ver como isso se desenvolve.

***

O Coringa foi criado por Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson, aparecendo pela primeira vez na revista especial Batman 01, de 1940, lançada um ano após a estreia do herói. Desde então, o personagem é o principal oponente do homem-morcego e um dos principais vilões do Universo da editora DC Comics. Nos dias atuais, é ainda um dos mais icônicos vilões multimídia, inclusive, no cinema.

Batman foi criado pelo cartunista Bob Kane e o roteirista Bill Finger,estreando na revista Detective Comics 27, de 1939 e desde então é publicado pela DC Comics.

 

 

About hqrock - Irapuan Peixoto

Doutor em Sociologia, professor universitário, músico e escritor amador. Nascido em 1979, já via quadrinhos antes de aprender a ler. Coleciona revistas desde 1990. É roqueiro de nascença. Toca em bandas de vez em quando, mas está gravando um disco com suas composições.

Posted on 02/08/2016, in Batman, DC Comics, Desenhistas, Dossiês de Personagens, Escritores, Esquadrão Suicida, Revistas. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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