Rolling Stones: Gravação do álbum Exile on Main Street virará filme

Rolling Stones: cinebiografia.

Rolling Stones: cinebiografia.

Uma notícia interessante saiu esses dias sobre os Rolling Stones, a lendária banda britânica de rock. Segundo o site Deadline Hollywood, as gravações do clássico álbum Exile on Main Street serão transformadas em filme. Não um documentário (pois a banda já lançou um sobre isso), mas um longametragem com atores. A direção caberá a Andy Goddard, que tem no currículos vasto trabalho para a TV, em séries como Downtown Abbey, Law & Order: UK, Doctor Who?, Once Upon a Time e Demolidor.

Segundo a notícia, o filme irá se basear no livro Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones: Exile on Main Street, de Robert Greenfield, lançado no Brasil pela editora Zahar. O livro narra (a partir do ponto de vista jornalístico) as gravações do citado disco e trazem à tona os bastidores mais obscuros de todo o processo, especialmente, a ligação com as drogas, traficantes e o impacto do vício na vida dos personagens envolvidos. Vale à pena a leitura.

Versão nacional do livro de Greenfield: tortuante processo de gravação gera um clássico.

Versão nacional do livro de Greenfield: tortuante processo de gravação gera um clássico.

Exile on Main Street é considerado por muitos como o melhor álbum da carreira dos Rolling Stones. Foi lançado como um álbum duplo em 1972 e foi um grande sucesso, gerando a primeira grande turnê da banda nos anos 1970. O disco também é o fechamento da fase áurea da banda, que transcorreu a partir do fim dos anos 1960 e envolveu os lançamentos de The Beggars Banquett (1968), Let it Bleed (1969) e Sticky Fingers (1971).

A história por trás do disco realmente rende um filme: tendo sérios problemas com o fisco britânico – o que os levaria à falência – os Rolling Stones decidiram se exilar do próprio país em 1971, indo se refugiar na França. A banda decidiu montar base no daquele país, na Riviera Francesa, numa grande mansão alugada pelo guitarrista Keith Richards (e que depois descobririam: a casa pertencera a um oficial Nazista na II Guerra Mundial!), chamada de Nellcôte e próxima à cidade de Nice. O casarão tinha um grande porão com sala, quartos e cozinha e Richards decidiu usar esse espaço para gravar o novo disco da banda. Isso foi feito porque não encontraram nenhum estúdio de gravação que satisfizesse suas exigências nas proximidades. O grupo tinha um moderno equipamento de gravação móvel, acoplado a um caminhão (e que constantemente alugavam para outros artistas fazerem gravações, como Led Zeppelin e The Who) e o encostaram nos fundos da casa, mediante quilômetros de fiações em situação precária.

A coisa começou bem, mas logo vieram os problemas: Keith Richards vivia o início de sua fase mais pesada quanto ao uso de drogas e estava começando o uso de heroína com a esposa Anita Pallenberg. Não fosse o suficiente, o guitarrista convidada constantemente os amigos barra pesada do meio musical para visitá-lo, de modo que gente como o ex-beatle John Lennon e o guitarrista Gram Parsons (das bandas The Byrds e The Flying Burrito’s Brothers) aportaram lá carregados de álcool, drogas e disposição para noitadas. O séquito em torno da banda – que incluía músicos acompanhantes, técnicos, auxiliares, amigos, esposas, garotas, aproveitadores, traficantes, conhecidos de conhecidos etc. – fez o mesmo e a casa virou um Templo da Perdição. Uma ilha de rock and roll em plena França!

A capa de Exile on Main Street, de 1972: para muitos, o melhor dos Rolling Stones.

A capa de Exile on Main Street, de 1972: para muitos, o melhor dos Rolling Stones.

Isso teve impactos: Mick Jagger havia acabado de casar (com Bianca Perez) e a esposa não queria viver no ambiente de perdição da casa de Keith, então, o vocalista se fixou em Paris (centenas de quilômetros de distância!) e ia esporadicamente à casa para fazer alguns ensaios ou gravações. O baterista Charles Watts também não tinha interesse em ficar por ali e alugou uma casa há uma hora de distância, o que diminuía bastante seu ânimo em comparecer às gravações. Pior ainda foi o baixista Bill Wyman, que de todos foi o que menos apareceu – e por isso, toca pouquíssimo no disco, sendo substituído por outros como Richards e o guitarrista Mick Taylor.

Assim, Exile é um disco de metodologia não-usual: normalmente, Keith e Taylor desciam ao porão acompanhados do baterista Jimmy Miller (que foi o produtor do álbum), do engenheiro de som Andy Johns e, às vezes, dos músicos acompanhantes (notoriamente Bobby Keys no saxofone) e faziam extensas jam-sessions que varavam a madrugada e da qual extraíam o núcleo do que seriam as canções. Raramente Jagger estava presente e quando aparecia improvisava algum pedaço de letra ou melodia.

Clima informal nas gravações de Exile, no porão francês.

Clima informal nas gravações de Exile, no porão francês.

O clima na mansão azedou com brigas; o risco de serem cercados (e mortos) por traficantes; o cerco policial que queria mandar todos para a cadeia (o que valeria um incidente internacional e a possibilidade de – por terem um problema desse tipo – nunca mais poderem entrar nos Estados Unidos); e um assalto que resultou na perda de várias guitarras e milhares de dólares em equipamento.

Jagger e Richards compõem em Nellcote, na França.

Jagger e Richards compõem em Nellcote, na França.

Depois de produzirem dezenas de faixas, Richards deu o trabalho como “quase finalizado” e entregou as fitas para Jagger, que foi para Los Angeles mixar as canções, acrescentar os vocais definitivos e fazer overdubs de alguns instrumentos, particularmente de piano (com o genial Nick Hopkins na maioria das faixas) e de outros teclados (Billy Preston toca órgão em Shine a light). Richards também apareceu e refez algumas guitarras.

No fim, Exile é um caos: o som é bagunçado, as músicas trazem climas diversos, mas ainda assim é um disco sensacional, cheio de grandes canções e com muita energia. Sem dúvidas, não tem nenhum dos grandes hits pelos quais os Stones são lembrados, mas trazem aquelas faixas que permanecem sendo tocadas ao vivo nos concertos do grupo e que mostram uma faceta menos popular e mais suja da banda, como Rock off, Tumbling Dice, Happy, Rip this joint, All down the line, Sweet Virgina e Shine a light.

Saiba mais sobre a Discografia dos Rolling Stones neste post especial do HQRock!

Os Stones ao vivo em 1971.

Os Stones ao vivo em 1971.

Como reconheceu o site UOL, um filme sobre as gravações de Exile on Main Street se insere dentro de uma nova tendência de cinebiografias mais concisas, que se prendem em aspectos mais específicos da vida (e da obra) dos artistas, em vez de tentar cobrir toda vida (ou a parte mais significativa dela) de obras como Johnny & June, Ray, Piaf etc. Embora todos estes sejam filmes muito bons, todos carecem do mesmo problema: tentar sintetizar uma vida inteira (cheia de grandes fatos) em menos de duas horas. Sempre falta demais e isso prejudica contar uma história linear. A nova tendência encontra eco em filmes como Nowhere Boy (sobre a adolescência de John Lennon) e Love and Mercy (sobre o líder dos Beach Boys, Brian Wilson em dois momentos específicos de sua vida, com 20 anos de diferença).

Não há detalhes sobre como será a produção do filme dos Stones, nem quem serão os atores que interpretarão Mick Jagger e Keith Richards, mas novidades devem vir em breve.

***

Os Rolling Stones se formaram em Londres em 1962, dentro do circuito de R&B da cidade. Lançaram seus primeiros discos no ano seguinte e em 1964 alçaram o sucesso nacional. Em seguida, em 1965, veio o superhit (I can’t get no) Satisfaction e a aclamação mundial. Desde então, é uma das principais e mais influentes bandas de rock ainda em atividade.

Formado originalmente por Mick Jagger (vocais), Keith Richards (guitarra), Brian Jones (guitarra), Bill Wyman (baixo) e Charles Watts (bateria), a banda perdeu Jones em 1969, que foi substituído por Mick Taylor;que por sua vez deixou o grupo em 1975, cedendo lugar a Ron Wood. Com a saída de Wyman em 1993, desde então, os Stones mantém-se como um quarteto com Jagger, Richards, Wood e Watts.

About hqrock - Irapuan Peixoto

Doutor em Sociologia, professor universitário, músico e escritor amador. Nascido em 1979, já via quadrinhos antes de aprender a ler. Coleciona revistas desde 1990. É roqueiro de nascença. Toca em bandas de vez em quando, mas está gravando um disco com suas composições.

Posted on 16/06/2016, in Álbum, Filmes, Rock Clássico, Rolling Stones. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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