Demolidor: A Trajetória do homem sem medo nos quadrinhos (parte 2)

Demolidor: grandes histórias.

Demolidor: grandes histórias.

O HQRock já publicou a primeira parte do Dossiê sobre o Demolidor, agora, entregamos a segunda parte.

Enquanto faz sucesso com sua primeira série de TV, o Demolidor, personagem publicado pela editora Marvel Comics, se torna cada vez mais famoso. Então, vamos conhecer como o homem sem medo foi desenvolvido em sua mídia original: as histórias em quadrinhos.

Na primeira parte, cobrimos os anos de 1964 a 1983, trazendo a criação do personagem na aurora da Marvel Comics; a sucessão de artistas que desenharam sua revista nas primeiras edições, como Bill Everett, Jack Kirby, Steve Ditko, Joe Orlando, Wally Wood, John Romita, Gene Colan, Marie Severin, Gil Kane, Bob Brown e outros; a introdução dos personagens coadjuvantes básicos, como Foggy Nelson e Karen Page; os vilões clássicos; as sucessivas temporadas de escritores como Stan Lee, Dennis O’Neil, Roy Thomas, Gerry Conway, Steve Gerber, Tony Isabella, Marv Wolfman, Jim Shooter, Roger McKensie; e, finalmente, a bombástica fase na qual o personagem foi escrito e desenhado por Frank Miller, que criou uma das sequências mais avassaladoras, importantes e revolucionárias da história dos quadrinhos sequenciais em todos os tempos.

A saída de Miller

Ultima edição de Miller... por um tempo.

Ultima edição de Miller… por um tempo.

Estamos em 1983 e Frank Miller (com a colaboração do artista Klaus Janson) encerra sua longa temporada na revista Daredevil na edição 191. O que fazer depois do altíssimo nível ao qual Miller imprimiu à revista? Era a grande questão para a Marvel. Desde sua criação, o Demolidor havia sido um personagem secundário da Marvel, jamais importante no grande esquema das coisas. Em pelo menos duas ocasiões a Marvel cogitou cancelar a revista Daredevil (antes de Gerry Conway assumi-la em 1971 e no meio da fase de Roger McKensie em 1979).

Frank Miller mudou tudo! A partir de Daredevil 168, de 1981, revista se tornou um dos pontos mais altos da Marvel em termos de criatividade. E as vendas também corresponderam: Daredevil se tornou uma das revistas mais vendidas da Marvel, disputando mercado com os arrasa-quarteirões de Amazing Spider-Man (do Homem-Aranha) e Uncanny X-Men. Miller virou uma celebridade na indústria das HQs e a aclamação da crítica veio rápido e intensa.

Quando o escritor/desenhista decide ir para outras paragens, o que resta à fazer? O Editor-Chefe da Marvel na época, Jim Shooter (que já tinha escrito a revista), achou que o único que poderia dar continuidade ao trabalho de Miller era Dennis O’Neil, que era o editor da revista Daredevil e fora o grande responsável por colocar não apenas Miller dentro da revista (primeiro como desenhista de Roger McKensie), mas fundamentalmente, por ter se arriscado a colocar aquele jovem e inexperiente artista no comando total de Daredevil.

Uma das edições escritas por Dennis O'Neil.

Uma das edições escritas por Dennis O’Neil.

Dennis O’Neil era, então, um veterano e consagrado escritor de quadrinhos, mas vinha de um momento difícil. Como já visto lá atrás na Parte 1 deste post, O’Neil começou sua carreira na Marvel Comics, como assistente de redação de Stan Lee ao lado de Roy Thomas. E apesar de ter escrito algumas revistas na Marvel em 1965 e 1966, como aventuras do Dr. Estranho e do próprio Demolidor; o jovem escritor terminou encontrando mais espaço na concorrente DC Comics, para onde migrou em seguida.

Na DC, O’Neil se tornou rapidamente um dos principais escritores da casa e revolucionou vários personagens no fim dos anos 1960, como Batman, Mulher-Maravilha, Liga da Justiça e o Superman. O escritor é mais famoso por sua longa e profícua fase no comando do Batman, a partir de 1970, quando ao lado do desenhista Neal Adams, criou uma série de personagens novos e aventuras que trouxeram o cavaleiro das trevas de volta para sua abordagem urbana e sombria (depois de alguns anos mais propenso à fanfarra influenciado por aquele seriado de TV). Outro grande trabalho de O’Neil foram as aventuras conjuntas do Lanterna Verde e do Arqueiro Verde, no qual os dois heróis tinham que lidar com problemas do mundo real, como desigualdade social, preconceito racial e consumo de drogas.

Porém, em meados dos anos 1970, a DC Comics passava por sérios problemas e Dennis O’Neil também não conseguia mais alçar a glória daqueles dias passados. Então, acabou se mudando de volta para a Marvel, onde foi trabalhar como editor. Entre as obrigações de O’Neil estava justamente cuidar das revistas do Homem-Aranha e do Demolidor. Ele supervisionou o trabalho de Marv Wolfman na primeira e de Miller na segunda e chegou, a partir de 1979, a ele próprio escrever as aventuras do cabeça de teia mais famoso dos quadrinhos.

Como editor, com a saída de Miller de Daredevil, O’Neil ainda encomendou duas edições a escritores avulsos como Alan Brennert e Larry Hama, mas terminou – à pedido de Jim Shooter – assumindo ele mesmo a revista, a partir da edição 194, em 1983.

A Fase de Dennis O’Neil

Demolidor, Mercenário e Yuriko na capa da edição 197.

Demolidor, Mercenário e Yuriko na capa da edição 197.

A temporada de Dennis O’Neil à frente do Demolidor como escritor não foi tão marcante, até porque veio na ressaca do trabalho de Miller. Porém, ele manteve o alto tom da revista e produziu algumas histórias muito boas. O artista Klaus Janson manteve-se como desenhista nas primeiras edições da nova fase, mas foi substituído por William Johnson.

Em primeiro lugar, O’Neil manteve o clima noir que vinha tanto da fase de Miller quanto da anterior, de McKensie, mas investiu em dar um pouco mais de humanidade a Matt Murdock. Assim, enquanto o Demolidor de Miller era praticamente um anti-herói, O’Neil faz Murdock se arrepender de suas atitudes extremas com o Mercenário (veja a parte 1) e lidar com as consequências. O escritor também trouxe Heather Glenn de volta à vida do advogado, como interesse amoroso.

Só que dessa vez, Heather têm que lidar com as consequências de saber que Matt é o Demolidor e do passado envolvendo a morte de seu pai: ela se tornou alcoólatra e sem-propósito.

Também amarrou algumas das consequências do arco de Miller, envolvendo o Rei do Crime, o Tentáculo e criando personagens como Yuriko Oyama (na edição 197), que teria maiores vinculações com Wolverine e os X-Men no futuro ao ser transformada na vilã Lady Letal. A trama deste arco mostrava Yuriko como filha do Lorde Vento Negro, um cientista que criou o processo de fundir o metal adamantium nos ossos humanos. O mesmo processo seria usado no Mercenário, fazendo o vilão poder voltar a andar e ser uma ameaça ao Demolidor.

Capa por David Mazzucchelli.

Capa por David Mazzucchelli.

No arco que se inicia na edição 196 e se encerra na comemorativa Daredevil 200, de 1983, por O’Neil e Johnson, vemos o Mercenário trair o Lorde Vento Negro e voltar a Nova York para se vingar do Demolidor (que lhe dá uma surra), enquanto Yuriko mata o próprio pai por não aceitar que ele seja um criminoso.

Pouco depois, a revista ganha um novo e grande ilustrador: David Mazzucchelli desenha a edição 206, depois algumas outras, até se tornar fixo a partir do número 210, de 1984. Com uma arte mais estilizada, de traços retos e expressivos, logo, marcaria seu nome na indústria dos quadrinhos. O’Neil e Mazzucchelli produziram arcos como The War on Micah Synn (edições 210 a 214) e The Second Secret (números 216 e 217).

Beliíssima capa de Daredevil 220, por Mazzucchelli.

Beliíssima capa de Daredevil 220, por Mazzucchelli.

Todavia, a história mais marcante da dupla foi Fog, publicada em Daredevil 220 e 221, de 1985, na qual Heather Glenn comete suicídio. O episódio tem grande efeito psicológico no Demolidor, que se sente culpado por não tê-la amado como ela precisava.

A fase de Dennis O’Neil se encerra em Daredevil 226, mas no número seguinte, ele e Frank Miller assinam uma história única chamada Warriors. Era a deixa para Miller voltar à revista por mais um tempo.

A morte de Heather Glenn, por O'Neil e Mazzucchelli.

A morte de Heather Glenn, por O’Neil e Mazzucchelli.

O’Neil, por sua vez, mudou-se novamente para a DC Comics, onde iria se tornar o editor das revistas do Batman, o personagem que revolucionara no passado. Seriam mais de dez anos na função na qual o escritor-editor continuaria a incrementar a vida do cavaleiro das trevas e ajudar na publicação de suas melhores histórias em todos os tempos.

A Queda de Murdock

Capa do encadernado "A Queda de Murdock" editado pela Panini.

Capa do encadernado “A Queda de Murdock” editado pela Panini.

O que fazer depois que você revoluciona os quadrinhos em uma revista mensal de super-herói? Voltar a ela dois anos depois e fazer ainda melhor!

Foi isso o que Frank Miller fez. Entre Daredevil 227 e 233, de 1986, o escritor voltou à revista – com desenhos de David Mazzucchelli – e produziu a clássica história Born Again, conhecida no Brasil como A Queda de Murdock. É a melhor história que escreveu sobre o Demolidor e uma das melhores histórias em quadrinhos em todos os tempos. Qualquer ranking com “as melhores HQs de todos os tempos” tem que ter esta no Top5. Pelo menos. Uma grande história.

Desesperado, Murdock investe contra o Rei do Crime.

Desesperado, Murdock investe contra o Rei do Crime.

A trama é fantástica: Karen Page retorna – depois de uma década desaparecida – e é agora uma ex-atriz de Hollywood, viciada em cocaína e que faz filmes pornôs ou programas como maneira de sustentar o vício. Em troca de mais uma dose, ela vende a identidade secreta do Demolidor! A informação irá parar nas mãos do Rei do Crime, que mata todos os que tiveram contato com tal dado.

Armando um plano meticuloso, Wilson Fisk consegue destruir a vida pessoal de Matt Murdock, caçando sua licença para advogar e todos os pedaços de sua vida. O herói sequer percebe o que está acontecendo e a decadência vai levando-o simplesmente à loucura! Murdock só percebe que o Rei do Crime está por trás de tudo quando este explode sua casa. Ainda assim, sem ter nada, o que resta a Murdock é ir ao escritório de Fisk e lutar com ele, mas debilitado e fora de si, o que resta ao homem sem medo é levar uma surra!

Cena icônica de "A Queda de Murdock" por Miller e Mazzucchelli.

Cena icônica de “A Queda de Murdock” por Miller e Mazzucchelli.

Na total sarjeta, Matt termina abrigado numa casa de repouso comandado por freiras, Matt conhece a irmã Maggie, alguém que ele suspeitará que seja sua mãe. Por fim, com o apoio de uma arrependida Karen Page, Matt vai se recuperando física e mentalmente, ao mesmo tempo em que o Rei do Crime contrata um louco psicótico chamado Bazuca para matá-lo, o que gera uma batalha enlouquecida e destruidora no meio da Cozinha do Inferno.

Frank Miller sempre criou uma psiquê profunda para Matt Murdock, mas Born Again explora suas nuances à perfeição. E ainda há o bônus da arte simplesmente sensacional de David Mazzuccelli, que realiza o melhor trabalho de sua vida, com linhas retas, expressivas e belíssimas. O arco de histórias foi um sucesso estrondoso e colocou o nome de Miller de novo na estratosfera.

Em breve, o escritor iria à DC Comics e, convidado pelo amigo Dennis O’Neil, produziria duas das melhores e mais famosas histórias do Batman: a minissérie O Cavaleiro das Trevas e o arco de histórias Ano Um (este com desenhos de Mazzucchelli) no qual reconta a origem do homem-morcego, publicadas em 1986 e 1987.

Pequeno Interlúdio

Capa de Klaus Janson para edição 235.

Capa de Klaus Janson para edição 235.

saída de Frank Miller do título desta vez foi abrupta. Talvez, sua saída esteja relacionada com a saída também de Dennis O’Neil, que voltou à DC Comics, permanecendo na função de editor e assumindo o controle do Batman, sendo o grande motivador da fortíssima fase que o personagem teria no fim dos anos 1980 e ao longo dos 90. Não deve ser coincidência Miller e Mazzuchelli terem migrado juntos para a DC e produzido Batman: Ano Um logo em seguida.

Assim, apesar de terem encerrado o arco A Queda de Murdock, Miller havia planejado outro arco em três partes que teria desenhos de Walt Simonson, na época um dos mais célebres desenhistas da Marvel, responsável por um grande trabalho na revista do Thor e também do X-Factor. Mas Miller não chegou a terminar o roteiro e a história nunca foi publicada.

Bela capa de Keith Pollard para Daredevil 242.

Bela capa de Keith Pollard para Daredevil 242.

Assim, a saída da Marvel foi arranjar rapidamente um substituto, mas ela não conseguiu. A editoria de Daredevil ficou nas mãos de Ralph Machio, mas ele  não conseguiu encontrar um roteirista disponível (ou disposto) a assumir a revista. Assim, uma série de roteiristas, começando com Mark Gruenwald, produziram histórias tapa-buracos com desenhistas também provisórios.

Macchio ainda conseguiu que Steve Englehart assumisse a revista, mas terminou não dando certo. Englehart tinha sido um dos mais célebres roteiristas da Marvel nos anos 1970, produzindo fases clássicas de Vingadores, Capitão América, Dr. Estranho e mais. O escritor estava, na época, de volta à Marvel após uma década afastado e poderia ter feito um bom trabalho no personagem. Contudo, enfrentou problemas com a editoria da Marvel e terminou assinando apenas uma edição e ainda com o pseudônimo de John Harkness.

Ann Nocenti e John Romita Jr.

Demolidor versus Wolverine na edição 249.

Demolidor versus Wolverine na edição 249.

Daredevil encontrou uma escritora fixa a partir da edição 238, de 1987, com Ann Nocenti. Ela terminaria sendo a pessoa que por mais tempo escreveu a revista em todos os tempos, permanecendo por mais de quatro anos à frente do homem sem medo. Contudo, seu primeiro ano ainda contou com desenhistas não fixos.

Nocenti chegou na revista também como tapa-buraco, mas terminou ficando. Sua primeira edição criou uma conexão com a saga dos X-Men Massacre de Mutantes, pondo o homem sem medo numa luta contra Dentes de Sabre, o vilão que se tornaria o arquiinimigo de Wolverine em breve.

Aliás, a Marvel deve ter pensado que era uma boa ideia aproximar o Demolidor de outros personagens, para compensar a perda de popularidade causada pela saída de Frank Miller. Assim, o personagem foi uma das atrações da saga Guerra de Gangues do Homem-Aranha publicada na revista Amazing Spider-Man 284 a 289, de 1987. A trama reflete vários eventos referentes à revista do Demolidor – especificamente quanto ao Rei do Crime – e mostra o homem sem medo como um canalha: enganando o aracnídeo para garantir que Wilson Fisk tenha uma volta tranquila a Nova York. Por outro lado, a saga define que Matt Murdock e Peter Parker são grandes amigos desde que descobriram a identidade secreta um do outro (o que aconteceu em Spectacular Spider-Man 107, de 1985). (Saiba mais sobre as histórias do Aranha neste período clicando aqui).

Aproximações com os X-Men também continuaram, havendo uma luta entre o Demolidor e Wolverine em Daredevil 249, de 1987, por Ann Nocenti e Rick Leonardi.

John Romita Jr. chega à revista em Daredevil 250.

John Romita Jr. chega à revista em Daredevil 250.

O desenhista fixo de Daredevil viria na figura de John Romita Jr., o filho do lendário desenhista da Marvel que, coincidentemente, começara sua carreira na Marvel justamente no Demoldior. Romita, o pai, foi um dos artistas mais importantes da história da editora e seu Editor de Arte até o início dos anos 1990, tendo sido o criador visual de um sem-número de personagens, inclusive o vilão Mercenário.

Romita, o filho, começou a desenhar para a Marvel no fim dos anos 1970, ganhando destaque inicialmente nas histórias do Homem de Ferro, onde produziu o maior clássico da história daquele personagem: o arco Demônio na Garrafa. Depois, Romita Jr. produziu uma célebre passagem pela revista Amazing Spider-Man, ao lado do roteirista Roger Stern, entre 1982 e 1984, naquela que é uma das temporadas mais queridas dos fãs do cabeça de teia. Por fim, ele estava desenhando os X-Men quando achou que era hora de uma mudança de ares e assumiu a arte do Demolidor.

O Rei do Crime na arte de John Romita Jr.

O Rei do Crime na arte de John Romita Jr.

Outro ponto interessante é que a chegada no Demolidor coincide com o momento em que John Romita Jr. reformula o próprio traço. Ele iniciara sua arte com uma linha mais aredondada de tipo clássico não tão distante do que seu pai consagrara, mas ao longo do trabalho com os X-Men, o artista começou a experimentar usar linhas mais quadradas e obter um resultado totalmente diferente de expressão. Na revista Daredevil, ele radicalizou essa decisão e produziu uma arte arrebatadora, diferente e inovadora.

A estreia de Romita Jr. em Daredevil se deu na edição 250, de 1988, e dali iniciou uma profícua fase em que ele e Nocenti trataram de uma série de temas relevantes socialmente, como feminismo, meio ambiente e abuso de drogas.

Mary Typhoid: amante e assassina.

Mary Typhoid: amante e assassina.

A história ao qual a dupla é mais vinculada é ao arco Typhoid Mary or A Love Story, que traz a estreia de Mary Typhoid, uma vilã assassina e esquizofrênica, que é contratada pelo Rei do Crime para se “apaixonar” por Matt Murdock e, em seguida, destruir sua vida pessoal. A história foi publicada em Daredevil 254 a 263, de 1988 e 1989, e foi um grande sucesso, se tornando uma das mais célebres histórias do personagem pós-Miller.

Outra curiosidade é que o arco transcorre durante os eventos da saga Inferno dos X-Men, mais uma vez vinculando o homem sem medo ao universo mutante, mesmo que apenas de modo indireto.

Mefisto e o Demolidor: dois demônios.

Mefisto e o Demolidor: dois demônios.

A temporada de Nocenti e Romita Jr. também envolveu o bizarro envolvimento do Demolidor (sempre apelidado de demônio nas histórias) com o demônio de verdade da Marvel: Mefisto, produzindo tramas bizarras (pelo aspecto sobrenatural incomum ao personagem), mas também muito interessantes. Romita aproveitou seu novo estilo de arte para redesenhar o visual de Mefisto (criado pelo artista John Buscema nas histórias do Surfista Prateado no fim dos anos 1960) e lhe deu um aspecto muito mais assustador e demoníaco, que ficou sensacional, mas não foi usado por outros artistas da Marvel.

A dupla também criou Coração Negro, o “filho” de Mefisto, contra qual o Demolidor une forças ao Homem-Aranha numa batalha em Daredevil 270 e 271, de 1989. O personagem apareceu nos cinemas no filme Motoqueiro Fantasma – O Espírito da Vingança, de 2011.

Demolidor e Homem-Aranha contra o Coração Negro. Arte de John Romita Jr.

Demolidor e Homem-Aranha contra o Coração Negro. Arte de John Romita Jr.

Nocenti e Romita encerraram sua temporada em Daredevil 282, de 1990, numa trama na qual Matt Murdock se reconcilia com Foggy Nelson e decide ir atrás de Karen Page, que o abandonou por causa do romance dele com Mary Walker.

Aparecendo na TV

Hulk e o Demolidor: juntos na TV.

Hulk e o Demolidor: juntos na TV.

Após a tentativa frustrada dos anos 1970, a Marvel continuou tentando levar o Demolidor à TV. Quando as séries live action do Incrível Hulk e Homem-Aranha fizeram sucesso na ABC em 1977, a emissora logo encomendou outros produtos da editora: Capitão América chegou a ter dois telefilmes lançados, mas foram um fracasso; Doutor Estranho também teve um telefilme, mas não foi bem; e a Mulher-Hulk chegou a ter um piloto em produção, antes de tudo ir pelo ralo.

Em 1983, a ABC iniciou a pré-produção de uma série de TV do Demolidor, com o premiado roteirista Stirlling Silliphant produzindo até um roteiro, mas o projeto não foi adiante. Mas o homem sem medo terminou chegando às telas ainda assim: com o fim da série do Hulk, o ator e produtor Bill Bixby conseguiu encampar três telefilmes do gigante verde: A Volta do Incrível Hulk (1988), O Julgamento do Incrível Hulk (1989) e A Morte do Incrível Hulk (1990). E o homem sem medo aparece no segundo.

Na trama de O Julgamento do Incrível Hulk, o tal julgamento, na verdade, é um sonho de David Banner (vivido por Bixby – lembrem que na TV seu nome não era Bruce), mas a trama leva o personagem a uma grande metrópole (virtualmente, Nova York), onde se vê às voltas da batalha do advogado Matt Murdock contra Wilson Fisk, secretamente, o Rei do Crime. Infelizmente, o homem sem medo não veste seu uniforme vermelho, mas uma malha preta no estilo ninja, e é vivido pelo ator Rex Smith.

A ideia da ABC era depois do telefilme produzir uma série solo do Demolidor, mas apesar da boa audiência do filme, a série nunca saiu do papel.

Herói Urbano

A vitória sobre o Rei do Crime na edição 300.

A vitória sobre o Rei do Crime na edição 300.

De volta aos quadrinhos, quem assumiu o lugar de Ann Nocenti na escrita da revista foi D. G. Chichester, um escritor pouco conhecido, mas que fez um trabalho bem competente no personagem, mantendo o aspecto urbano forte do Demolidor. Assim como Miller, ele explorou bastante as conexões de Murdock com Nova York e a Cozinha do Inferno, inclusive, produzindo algumas histórias em que não há vilões propriamente ditos, mas o homem sem medo se lançando contra bandidos comuns ou ajudando pessoas em acidentes.

Chichester também fez Matt Murdock conseguir de volta sua licença de advocacia (perdida ainda lá trás em A Queda de Murdock), retomar a parceria com Foggy Nelson e voltar a namorar Karen Page por um tempo.

Sua temporada se estenderia por quase quatro anos, dividida em duas partes. A primeira com o desenhista Lee Weeks, na qual o grande destaque foi o arco Last Rites, publicado em Daredevil 297 a 300, de 1992, na qual produzem o “fim” da longa disputa do herói com o Rei do Crime. Finalmente, Murdock consegue acumular provas contra Wilson Fisk e prendê-lo, representando a vitória sobre o maior de seus vilões.

Frank Miller pela Terceira Vez

Nova origem por Frank Miller e John Romita Jr.

Nova origem por Frank Miller e John Romita Jr.

Para sorte dos fãs, em 1993, para iniciar as comemorações dos 30 anos do personagem, o escritor Frank Miller retornou ao Demolidor pela terceira vez. Agora, aliando-se ao desenhista John Romita Jr., ele escreveu a minissérie Demolidor – O Homem Sem Medo, na qual contou (pela primeira vez de modo expandido e totalmente conectado) sua versão da origem do herói. Assim, criou uma narrativa amarrando todas as adesões que colocou na vaga origem do Demolidor ao longo de seus trabalhos, particularmente, o envolvimento com Elektra e o treinamento com Stick.

É uma boa história e um dos últimos trabalhos relevantes de Miller com os super-heróis, antes do autor desbundar em uma fase de posicionamento fascista.

Era Sombria

O Demolidor de armadura, na arte de Scott McDaniel.

O Demolidor de armadura, na arte de Scott McDaniel.

Enquanto isso, na revista mensal do personagem, iniciava-se a segunda fase de D. G. Chichester, coincidindo com o advento do Demolidor com os dois pés na Era Sombria dos Quadrinhos. Esta fase na verdade vinha se delineando desde a primeira temporada de Frank Miller e envolveu toda a indústria dos quadrinhos, que adotou nos anos 1990 uma áurea muito mais pesada e violenta e os heróis mais sombrios (como Justiceiro, Motoqueiro Fantasma e Wolverine) se tornaram extremamente populares, obrigando até os não tão sombrios a adotarem também uma postura mais “pesada”.

No caso do Demolidor, isso transcorreu com Chichester e o desenhista Scott McDaniel adotando um tom muito mais sombrio, dark e violento às histórias do homem sem medo. Essa etapa coincidiu, também, com a volta de Elektra: a personagem já havia sido ressuscitada pelo próprio Frank Miller lá atrás em Daredevil 190 e até aparecido na graphic novel Elektra Vive, mas permanecia inexplorada pela Marvel até então. A grega retornou à vida do Demolidor – de um modo menos impactante do que se esperava, contudo – e até ganhou uma série de histórias solo, na qual foi desenhada pelo brasileiro Mike Deodato Jr., que se tornou um dos principais artistas da Marvel naqueles tempos.

Na revista Daredevil, após ser seriamente machucado em uma aventura, o Demolidor adota um novo uniforme no arco Caindo em Desgraça (Fall From Grace), publicado nas edições 319 a 325, de 1993 e 1994, por Chicester e McDaniel. O Demolidor de armadura causou estranheza nos fãs, mas promovia uma imagem mais ameaçadora do herói, condizente com a Era Sombria. Além disso, a trama explorava o fato da identidade secreta do herói se tornar pública! Como saída, Murdock finge sua própria morte e adota a identidade de Jack Batlin (numa referência a seu pai, claro). Mais tarde, com o uso de um embuste, consegue convencer o mundo de que não era o Demolidor.

O recurso da identidade pública seria reutilizado no futuro distante.

A Era Sombria contaminou as HQs da Marvel e da DC Comics (além da Image Comics), mas nem todo mundo concordava com ela. Alguns artistas se levantaram contra os excessos e produziram obras que serviam como manifestos contra a sandice ultrasombria (como são célebres os casos de Marvels, por Kurt Busiek e Alex Ross, na Marvel ou O Reino do Amanhã, por Mark Waid e Alex Ross, na DC).

Ruptura com a Era Sombria.

Ruptura com a Era Sombria.

O Demolidor contribuiu com o arco Além do Limite (Over the Edge), escrito por J.M. DeMatteis e desenhado por Ron Wagner, publicado em Daredevil 343 a 347, de 1995. Na trama, enquanto luta contra um novo vilão superforte, o Demolidor descobre que existe um outro herói usando sua identidade por aí, só que usando o velho uniforme amarelo do início da carreira. Na busca desenfreada pelo imitador, Murdock termina descobrindo – spoilers à frente – que na verdade se trata dele mesmo, que está agindo com uma dupla personalidade por causa de um estresse pós-traumático.

No fim das contas, Foggy Nelson termina (finalmente!) descobrindo que Murdock é o Demolidor e o herói resolve deixar de lado a armadura e o lado mais carrancudo dos últimos tempo, por uma versão de si mesmo mais leve e até divertida, como fora no início da carreira (dentro da caracterização que Stan Lee atribuiu ao personagem quando o criou em 1964): um “demônio atrevido”, que usa de algum humor.

Era a deixa para uma fase mais leve e jovial do personagem, deixando de lado os excessos da Era Sombria, o que lhe fez muito bem à época.

Uma Fase Mais Leve

O Demolidor mais leve de Kesel e Nord.

O Demolidor mais leve de Kesel e Nord.

A chegada do escritor Karl Kesel (famoso por suas histórias do Superman) e do desenhista Cary Nord trouxe um tom de leveza e diversão à revista Daredevil, que se refletia, inclusive, na arte e nas cores, com tons realmente mais leves, deixando de lado os tons escuros predominantes até então. Iniciando em Daredevil 353, de 1996, a trama mostra Matt Murdock mais “feliz”, já que resolveu seus problemas de identidade e retomando a parceria com Foggy Nelson no escritório, tudo mais fácil agora que seu amigo sabe sua identidade. Também é introduzida Rosalind Sharpe, uma das mais poderosas advogadas dos EUA que insiste para que a dupla passe a trabalhar para ela, no que terminam não tendo outra opção. O detalhe é que a maldosa senhora é revelada como sendo a mãe de Foggy Nelson.

Matt continua envolvido com Karen Page, ao mesmo tempo em que Foggy passa a namorar Liz Osborn, uma personagem advinda das histórias do Homem-Aranha. (Ela era Lizz Allen, uma colega de escola de Peter Parker, que mais tarde se envolveria e casaria com Harry Osborn, o melhor amigo de Peter, mas também, o filho do poderoso Norman Osborn, o vilão Duende Verde. Após a aparente morte de Norman – que voltaria mais tarde – Harry chegou a substituir o pai como o vilão, mas esqueceu de tudo após uma hipnose. Harry e Liz tiveram um filho, que batizaram de Normie. Na época em que se passam essas histórias do Demolidor, Harry havia lembrado de seu passado criminoso e voltou a ser o Duende Verde, terminando por morrer num confronto com o Homem-Aranha. Liz se tornou a herdeira do império Osborn e era uma jovem viúva quando começou a se envolver com Foggy).

A edição contra Mysterio.

A edição contra Mysterio.

O grande chamariz de trama de Kesel e Nord é Matt e Foggy serem obrigados por Rosalind a defender no juri o vilão Mr. Hyde, um dos mais antigos oponentes do Demolidor. O arco se encerra em Daredevil 357, de 1996.

Na edição seguinte, assume a dupla Joe Kelly (famoso pelas histórias cômicas do Deadpool) e Pascual Ferry, cujo primeiro capítulo envolve uma batalha contra o vilão Mysterio (do Homem-Aranha), que teria grandes implicações no futuro próximo.

Foi só um pequeno interlúdio para continuar a temporada de Kesel e Nord, agora explorando a situação da Marvel pós-saga Massacre (na qual a maioria dos grandes heróis foi dada como morta, o que incluía os Vingadores e o Quarteto Fantástico). Karen Page arruma um trabalho como locutora de rádio em um programa noturno, uma maneira de não ficar sozinha enquanto seu namorado sai para combater o crime.

Arte de Gene Colan de volta ao Demolidor.

Arte de Gene Colan de volta ao Demolidor.

Um ponto interessante dessa fase foi o retorno do lendário desenhista Gene Colan à revista do Demolidor. Como mostramos na Parte 1, Colan foi o mais clássico dos desenhistas do personagem, ficando à frente da revista por sete anos e 80 edições, entre 1966 e 1973, retornando ainda algumas outras vezes até 1979.

Colan retornou em Daredevil 363, de 1997, como um tipo de teste, tornando-se realmente o desenhista da revista na edição 366, de 1998, ficando até o número 271, em meio a uma saga envolvendo o Sr. Medo e a Viúva Negra, escrita por Joe Kelly.

Kelly continuou no comando da revista até o número 380 de Daredevil, quando a Marvel decidiu cancelar a revista e zerar sua numeração.

Marvel Knights

A horrenda armadura do Homem de Ferro de Heróis Renascem: Efeito Muscular.

A horrenda armadura do Homem de Ferro de Heróis Renascem: Efeito Muscular.

Em termos comerciais, os meados dos anos 1990 foram dificílimos para a Marvel. Tudo começou em 1992, quando numa jogada genial, os principais desenhistas da Casa das Ideias (Todd McFarlane, Jim Lee, Rob Liedfeld, Mark Silvestri, dentre outros), insatisfeitos com a política de royalities da empresa, pediram demissão juntos e montaram sua própria editora, a Image Comics. Foi um grande sucesso, que lançou personagens como Spawn, WildCATs, Gene 13, Wildstorm e Savage Dragon, cujas revistas passaram a rivalizar “pau a pau” com as da Marvel e DC.

Ao mesmo tempo, o mercado viveu a explosão da prática especulativa, na qual colecionadores compravam várias edições da mesma revista para depois revendê-la a preços exorbitantes aos fãs. Isso resultou que as vendas das revistas dispararam totalmente (algumas ultrapassando a marca de 1 milhão de cópias vendidas – número não atingido desde o boom da década de 1940!), mas como a jogada não deu o retorno esperado em médio prazo, os especuladores desistiram.

Arte de Rob Liefeld para o Capitão América: terrível exemplo de Efeito Muscular.

Arte de Rob Liefeld para o Capitão América: terrível exemplo de Efeito Muscular.

Isso e os excessos da Era Sombria e do Efeito Muscular (a tendência de produzir desenhos anatomicamente exagerados para dar mais robustez, macheza e violência típica de artistas como Rob Liedfeld) terminaram afastando toda uma horda de velhos leitores, que não reconheciam mais seus queridos personagens favoritos. Como resultado, após a bonança do início dos anos 1990, o mercado de HQs dos EUA simplesmente despencou por volta de 1995. A coisa foi tão séria que a Marvel chegou a pedir concordata (o antecessor da falência) em 1997!

Como medida desesperada, a Marvel tentou várias coisas, uma delas foi a já citada saga Massacre que, ao “matar” os Vingadores e o Quarteto Fantástico, abriu a empreitada Heróis Renascem, de 1996, na qual os velhos desenhistas da Image voltavam à Marvel com carta branca para fazerem o que quiserem com aqueles personagens, resultando em uma das piores coisas que a editora já realizou em toda a sua história e um fiasco completo do ponto de vista comercial também.

Com isso, a Marvel colocou ao novo Editor-Chefe Bob Haras a árdua missão de buscar uma alternativa. A saída foi a óbvia: investir em histórias melhores. Ao mesmo tempo, o desenhista Joe Quesada teve a ideia de criar um selo chamado Marvel Knights, destinado aos personagens mais urbanos (e realistas) da editora, para que tivessem histórias mais sérias e de maior qualidade. O Marvel Knights terminou gerando uma série de histórias de altíssima qualidade, com personagens como Justiceiro e Homem-Aranha. E o Demolidor foi uma das cerejas do bolo.

O reinício da revista Daredevil com Demônio da Guarda. Para adultos.

O reinício da revista Daredevil com Demônio da Guarda. Para adultos.

Para marcar a inclusão do homem sem medo no selo Marvel Knights, a revista Daredevil teve a numeração zerada e iniciou de novo no número 01, em 1998. O arco inaugural foi Demônio da Guarda, escrito pelo cineasta Kevin Smith (de Barrados no Shopping, Procurando Amy e Dogma) com desenhos do próprio Joe Quesada, que era o editor do selo.

Publicado entre os números 01 e 08 da nova Daredevil, em 1998, Demônio da Guarda é uma das melhores histórias do Demolidor, explorando a religiosidade católica do personagem de modo exemplar. Na trama, depois de salvar uma mãe adolescente de ser morta por agentes misteriosos, o herói se vê envolvido em uma grande conspiração na qual um grupo de seres celestiais está querendo matar o bebê porque ele seria o Anti-Cristo em pessoa. A dúvida entre salvá-la ou não consome Murdock que se vê em meio a uma crise de fé quando descobre que Karen Page é vítima do vírus da AIDS, em decorrência dos anos de excesso com drogas e sexo no passado (exibidos em A Queda de Murdock).

Em meio a uma trama muito bem construída e com uma arte excepcional de Quesada, Demônio da Guarda segura o leitor em suspense até sua resolução – spoilers à frente – em que descobrimos que tudo (inclusive a AIDS) não passa de um embuste criado pelo vilão Mysterio como uma despedida de sua carreira criminosa, já que está com câncer em estágio terminal. Mas não há final feliz: Karen Page é morta pelo Mercenário, do mesmo modo como havia sido Elektra no passado.

Fase de Transição

A exuberante arte de David Mack no Demolidor.

A exuberante arte de David Mack no Demolidor.

A revista Daredevil continuou com uma boa qualidade nos anos seguintes. O escritor-desenhista David Mack assumiu o título, criando o arco Parts of a Hole, entre as edições 09 e 15, na qual introduziu a personagem Eco (Maya Lopez). Depois, Mack continuou nos desenhos, mas passou a dividir os roteiros com Brian Michael Bendis, advindo dos quadrinhos independentes – especialmente Powers – que produziram Wake Up entre as edições 16 e 19. Vem um pequeno interlúdio com Bob Gale (o roteirista dos filmes De Volta para o Futuro) assumindo Daredevil com o desenhista Phil Winslade o arco Playing to the Camera, nas edições 20 a 25, de 2001.

Ao mesmo tempo, fez bastante sucesso a minissérie Demolidor: Amarelo, com textos de Jeph Loeb e arte de Tim Sale. Era parte da “coleção das cores” que a dupla produziu para a Marvel (com Homem-Aranha: Azul e Hulk: Cinza) na qual exploram o passado dos personagens com um tom nostálgico e modernizante. No caso de Amarelo, há uma revisão dos primeiros meses de Matt Murdock como o Demolidor, numa trama que envolve os vilões Coruja e Homem-Púrpura. De grande carga emocional, a trama é narrada pelo próprio Matt numa carta abstrata à recém-falecida Karen Page.

Estreia nos Cinemas

Ben Affleck foi o Demolidor na primeira versão dos cinemas, em 2003.

Ben Affleck foi o Demolidor na primeira versão dos cinemas, em 2003.

Até os anos 2000, o gênero de super-heróis nunca emplacou nos cinemas, mesmo com algumas boas produções, como Superman – O Filme (1978) e Batman – O Filme (1989). Mas tudo mudou a partir de X-Men – O Filme (2000), que deu partida a uma série de produções de heróis da Marvel às telonas, a maioria bem recebida. Com o supersucesso de Homem-Aranha (2002), vários estúdios de Hollywood tiraram da gaveta seus velhos projetos de longametragens de personagens da casa das ideias.

Michael Clarke Ducan emprestou seu talento ao rei do Crime Wilson Fisk em Demolidor.

Michael Clarke Ducan emprestou seu talento ao rei do Crime Wilson Fisk em Demolidor.

Um deles foi a 20th Century Fox, que também tinha levado os mutantes às telonas. O estúdio lançou o filme Demolidor – O Homem Sem Medo em 2003, estrelado por Ben Affleck (de Gênio Indomável, Dogma, Armagedon e Pearl Habor) como Matt Murdock, e um elenco estrelado com Jennifer Gardner (Elektra), Colin Farrell (Mercenário), Jon Favreau (Foggy Nelson), Michael Clark Ducan (Wilson Fisk) e John Pantoliano (Ben Ulrich).

A trama do longametragem é até interessante, misturando elementos da origem do personagem com trechos de A Saga de Elektra: Matt Murdock secretamente passa as noites defendendo a Cozinha do Inferno como o Demolidor, que é tomado como uma lenda urbana pelo público, enquanto age como um advogado idealista de dia, ao lado do parceiro Foggy Nelson. Mas ao se apaixonar pela bela Elektra Natchios termina se envolvendo em uma grande trama de crimes, lideradas pelo chefão Wilson Fisk, que irão tornar sua vida bem mais difícil.

Demolidor: ponto baixo da carreira de Ben Affleck.

Demolidor: ponto baixo da carreira de Ben Affleck.

O maior problema de Demolidor é a sua realização: o diretor Mark Steven Johnson não soube condensar tanta informação em um filme só e os personagens terminam não sendo bem resolvidos, com algumas tramas correndo muito rápido. A maneira como o filme se encerra também é forçada, com uma ação desequilibrada entre o exagero (na luta com o Mercenário) e cena apressada (na luta com Fisk). Apresentar e matar Elektra (tal qual nos quadrinhos) no meio do filme também não dá ao público suficiente tempo para se envolver com ela.

Demolidor não foi muito bem nas bilheterias, mas ainda gerou um spin-off, com o filme Elektra, um dos piores já realizados no gênero. À longo prazo, a rejeição a Demolidor só cresceu, o que prejudicou bastante a carreira de Ben Affleck. Durante anos, a Fox acalentou produzir uma sequência, mas não foi adiante.

Fase de Brian Michael Bendis

Brian Michael Bendis: principal escritor da Marvel nos anos 2000.

Brian Michael Bendis: principal escritor da Marvel nos anos 2000.

Brian Michael Bendis é um escritor que veio do mercado independente de HQs, chamando a atenção a partir de 1996 na Calibian Comics na série Jinx, o que o levou à Image Comics, onde produziu a revista Sam and Twitch, sobre uma dupla de detetives surgidos previamente na revista Spawn. Aquela criação revelou o talento do escritor para séries policiais e o bom manejo do diálogo. Em 1999, também pela Image, Bendis lançou a série autoral Powers, sobre um grupo de detetives em um mundo povoado por heróis poderosos, numa trama que foi aclamada pela crítica e ganhou vários prêmios Eisner no ano seguinte. (Mais tarde, a série seria transferida para a Marvel por meio do selo Icon, em 2004).

O sucesso de Bendis chamou a atenção da Marvel Comics e, rapidamente, o escritor ganhou abrigo no selo Marvel Knights, inicialmente como um tipo de consultor e chegou a criar um projeto de uma série de Nick Fury que nunca chegou a ser publicada. mas gerou as já mencionadas participações especiais como coautor em Daredevil, uma das principais revista do selo. Em seguida, ele foi o escolhido para criar a versão Ultimate do Homem-Aranha, inaugurando este outro selo que traria versões mais modernas e adultas dos personagens da editora, num tipo de universo paralelo ao tradicional.

O primeiro arco do Homem-Aranha Ultimate, Poderes e Responsabilidades, inaugurou o selo em 2000, e foi um grande sucesso de público e crítica, dando origem a uma série de outras revistas Ultimate, como os X-Men, o Quarteto Fantástico e os Vingadores (chamados de The Ultimates, ou os Supremos, no Brasil), todos por Mark Millar, nos anos seguintes.

Identidade Secreta revelada ao mundo.

Identidade Secreta revelada ao mundo.

No Universo Marvel tradicional, Bendis inaugurou outro selo: Marvel Max, destinado ao público adulto, cuja primeira revista foi Alias, em que criou a personagem Jessica Jones, uma detetive particular que tinha sido uma heroína no passado, mas abandonou a carreira após ser violentada pelo vilão Killgrave, o Homem-Púrpura, um velho vilão do Demolidor. Por meio de Alias, Bendis também trouxe de volta à tona o personagem Luke Cage, que terminou virando marido de Jessica e pai da filha dela. Alias foi um grande sucesso e ganhou uma nova fase a partir de 2003 por meio da revista The Pulse.

Portanto, embora tudo isso tenha ocorrido muito rápido, Brian Michael Bendis já era um escritor consagrado quando chegou a revista Daredevil e não perdeu tempo: a edição 26, de 2002, já começava com um atentado mortal ao Rei do Crime no melhor estilo Julio Cesar. A partir daí voltamos três meses no tempo e vemos o desenrolar de uma trama complexa que terá graves consequências para o Demolidor: sua identidade é revelada ao público!

O arco Out (Revelado, no Brasil) é simplesmente espetacular e durou nada menos do que 14 edições (!), desenvolvendo-se até a edição 40. Na trama, o Rei do Crime está cego – consequência de histórias anteriores – e muitos vêem isso como um sinal de fraqueza e o momento de derrubá-lo (de novo!). Um mafioso de segunda categoria, chamado Tommy Silke, é incorporado à organização do Rei, mas se vê frustrado ao não ter seu único pedido atendido: a morte do advogado Matt Murdock. Silke termina descobrindo – por meio do filho do Rei, Richard Fisk – que Murdock é o Demolidor e o Rei não quer que ninguém mexa nele. Silke decide usar o fato de Wilson Fisk saber a identidade secreta do homem sem medo e não compartilhar com os demais mafiosos (e nem matá-lo) como um elemento para enfraquecê-lo e articula o plano para matá-lo.

Trama densa, diálogos e investigação, por Bendis e Lark.

Trama densa, diálogos e investigação, por Bendis e Maleev.

Wilson Fisk termina sobrevivendo e há um revide contra Silke e seus homens, então, ele busca abrigo no FBI (a polícia federal dos EUA) e como barganha entrega a eles a identidade secreta do Demolidor. A cabeça da agência (em concluo com a SHIELD) decide não fazer nada a respeito dessa informação, mas um dos agentes do FBI vende a informação ao Globo Diário, que a publica na primeira página com estardalho.

Agora, Matt Murdock precisa lidar com o fato de que todos sabem que ele é o Demolidor e encontrar uma maneira de não ser preso e negar tudo.

Brian Bendis desenvolve a trama devagar – e não há muita ação em todo o arco, nada de lutas grandiosas – mas compensa isso com diálogos afiados, tramas paralelas complementares, boa caracterização dos personagens e uma história muito interessante. Também é preciso dar méritos ao desenhista Alex Maleev, que imprime uma arte expressiva, cheia de rabiscos e muito dark, o que combina sobremaneira com o tom da trama. Bendis é tão talentoso que faz com que uma cena de tribunal – daquelas típicas dos filmes sérios de Hollywood – se arraste por duas edições inteiras (!) e isso seja simplesmente ótimo.

Murdock and Milla por Bendis e Maleev.

Murdock and Milla por Bendis e Maleev.

A temporada de Bendis durou quase quatro anos e só se encerrou na edição 81, de 2006. Ele levou às últimas consequências o fato de Murdock tentar provar ao mundo que não é o Demolidor, a reação do jornal Globo Diário à sua negação e a reorganização da quadrilha do Rei do Crime, Também introduziu um novo interesse romântico na figura de Milla Donovan, uma garota cega como ele, que surgiu na edição 41. O romance, como sempre, será bastante turbulento; Milla (como as outras antes dela) termina descobrindo que ele é o Demolidor e ela é quase morta tanto por Mary Typhoid quanto pelo Mercenário.

Bela capa de Daredevil 50 por Alex Maleev.

Bela capa de Daredevil 50 por Alex Maleev.

No arco Hardcore (Barra Pesada, no Brasil), entre Daredevil 46 a 50, de 2004, o Rei do Crime retorna a Nova York e arma um plano de ataque a Matt Murdock, que remete à velha estratégia de A Queda de Murdock de desestabilizar sua vida. No fim, o herói descobre o plano e ataca violentamente Wilson Fisk, declarando-se o novo “rei do crime” da Cozinha do Inferno.

Depois, as histórias sofrem um salto temporal de um ano, no qual a Cozinha do Inferno é um paraíso sem crimes e Matt Murdock está casado com Milla Donovan. Mas claro que nada permanecerá assim: um velho chefão do crime retorna e seguem várias aventuras de tom policial. Por fim, vem a saga The Murdock Papers (Dossiê Murdock, no Brasil), publicada entre Daredevil 76 e 81, de 2005 e 2006, na qual o FBI reativa a investigação sobre a identidade secreta do Demolidor e termina encontrando provas de que o herói é mesmo Matt Murdock, que é preso na edição final, deixando um gancho aberto para o escritor seguinte.

Após deixar a revista Daredevil, Brian Bendis assumiu a revista The Avengers, dos Vingadores e entre 2005 e 2012 transformou “os maiores heróis da Terra” na franquia de maior sucesso da editora, com várias revistas paralelas (Avengers, New Avengers, Dark Avengers e Secrets Avengers, cada uma há um tempo e com um propósito), além de ter escrito grandes arcos como Motim, Invasão Secreta e Reinado Sombrio, que transformaram Bendis, definitivamente, no principal escritor da Marvel no século XXI. Posto que ainda ocupa nos dias de hoje.

A fase de Ed Brubaker

A fase de Brubaker e Lark: fantástica!

A fase de Brubaker e Lark: fantástica!

Assim como Bendis, Ed Brubaker construiu uma carreira baseada em grandes histórias, boas caracterizações de personagens e diálogos espertos. Outro ponto comum eram as histórias de crime e detetives. Brubaker era romancista, o que lhe valeu muito de timing e narrativa, o que se revelou vantajoso aos quadrinhos desde sua estreia em 1991 por meio da Dark Horse Comics (a editora de Hellboy). Depois, foi acolhido pelo selo Vertigo da DC Comics, onde alcançou sucesso com Scenes of the Crime, de 1999, uma série de detetives.

Impressionada com a qualidade dos textos de Brubaker, a DC não vacilou e colocou o escritor para assumir a revista do Batman, a partir de 2000, onde fez uma dobradinha com o também escritor Greg Rucka, e produziu uma profícua fase, marcada pelo arco Bruce Wayne: Assassino/ Fugitivo, entre 2002 e 2003. Ele também assumiu a revista Catwoman, com a Mulher-Gato e criou, com Rucka, a fantástica Gotham Central, desenhada por Michael Lark, que mostrada as aventuras dos policiais de Gotham City, nas beiradas das aventuras do cavaleiro das trevas e seu universo, numa série que foi bastante premiada. Brubaker também foi bem sucedido em outro selo da DC: Wildstorm, no qual desenvolveu Sleepers e The Authority, sobre uma equipe adulta e violenta de heróis. Mais prêmios.

Claro, que era previsível que Brubaker acabaria na Marvel Comics, o que aconteceu em 2005, quando assumiu a revista Captain America e deu início a uma incrível passagem de oito anos no título, produzindo a mais famosa (e melhor) dentre as histórias mais recentes do personagem, O Soldado Invernal, que foi adaptada ao cinema. O sucesso de público e crítica com o Capitão América abriu vários caminhos na Marvel, que vão dos X-Men à série Aniquilação, além dos Vingadores Secretos; bem como as séries especiais como Projeto Marvels e Livros do Destino, ambos excelentes. Mas foi no Demolidor que o escritor realmente fez seu outro trabalho célebre na editora.

Fantástica arte de Michael Lark no Demolidor.

Fantástica arte de Michael Lark no Demolidor.

Ed Brubaker trouxe o desenhista Michael Lark consigo e estreou em Daredevil 82, de 2006, com o arco O Demônio no Pavilhão D, no qual vemos as consequências da prisão de Matt Murdock: preso na Ilha Ryker, o mesmo lugar para onde o homem sem medo (e o advogado) mandou uma dezena de criminosos violentos e poderosos. Enquanto continua negando que é o herói, Murdock vê sua vida desmoronar outra vez.

Esse primeiro arco tem reflexos óbvios de outra história de Brubaker (Bruce Wayne: Fugitivo, do Batman, na DC Comics), na qual Murdock luta com vários criminosos e termina fugindo da prisão. Ainda assim, é uma grande história, que mostra a incrível habilidade desse escritor.

Punho de Ferro ajuda a inocentar o Demolidor.

Punho de Ferro ajuda a inocentar o Demolidor.

Em seguida, o Demolidor percebe que há um outro vigilante usando seu nome e uniforme na Cozinha do Inferno, enquanto ele estava na cadeia. Claro que, no velho estilo Marvel Comics, os dois saem na porrada primeiro, até o homem sem medo perceber que o novo Demolidor é seu amigo Danny Rand, o herói conhecido como Punho de Ferro. Isso o ajuda a mostrar que ele é “inocente” perante o grande público, a justiça e a imprensa.

Em sua longa passagem no título explorou bastante a personalidade do herói, mostrando uma crise em seu casamento (Milla pensava que ele a usava para superar a morte de Karen Page) e, depois, a dolorosa história em que a garota é drogada pelo Sr. Medo e fica completamente louca, o que leva ao fim de seu casamento com Matt, em Daredevil 105.

Alguns outros personagens foram introduzidos por Brubaker, como os vilões Tarântula Negra e Lady Bullseye; um novo interesse amoroso chamada Dakota North, além do Mestre Izo, que teria sido o mestre de Stick.

Assim como Bendis antes dele, Brubaker também deixa o título – em Daredevil 119, de 2009 – com um gancho para uma nova história: o Demolidor se tornando o líder do Tentáculo, a antiga organização criminosa de Elektra.

O Fim da Fase Sombria

Após uma sequência ininterrupta de grandes histórias desde 1998 (!) a fase excelente do Demolidor encerrou-se em Brubaker, 11 anos depois, pois o escritor seguinte Andy Diggle simplesmente não conseguiu desenvolver a trama em aberto. A liderança do Tentáculo ficou uma coisa totalmente sem sentido e a saga seguinte – Shadowland – foi ao fundo do poço: mostrou que as últimas ações do Demolidor foram questionáveis porque o herói havia sido possuído por um demônio!

Por isso, ele mata o Mercenário e é detido por Homem-Aranha e Luke Cage. Chocado com os eventos, Matt Murdock desiste de ser o Demolidor e vai viajar pelo mundo, encerrando a revista Daredevil (vol 2) após 13 anos.

A Fase light de Mark Waid

Eu não sou o Demolidor: início da fase de Mark Waid.

Eu não sou o Demolidor: início da fase de Mark Waid.

Desde a primeira temporada de Frank Miller no Demolidor, a partir de 1981, o homem sem medo foi retratado majoritariamente como um personagem sombrio, embora não fosse assim quando criado por Stan Lee em 1964, nem na abordagem dos muitos artistas que lhe seguiram. Entretanto, a partir de 1998, com o relançamento do herói dentro do selo Marvel Knights, Matt Murdock viveu uma longa fase totalmente sombria que coincidiu com algumas das melhores histórias já lançadas em sua longa trajetória editorial. Esse longeva fase sombria se encerrou após Shadowland.

Cena de luta por Paolo Riviera: traço light.

Cena de luta por Paolo Riviera: traço light.

No início de 2011 foi lançada a revista Daredevil (vol. 3) 01 dando largada a uma fase totalmente nova para o personagem. O aclamado escritor Mark Waid criou uma ambientação mais leve e divertida para o Demolidor, embalado em aventuras inteligentes, descompromissadas e com um visual arrebatador. Algo totalmente diferente dos tons pesados da última década.

Mark Waid é o responsável por grandes HQs tanto da Marvel quanto na DC Comics. Nesta última, criou sagas memoráveis como O Reino do Amanhã, em 1996; além de uma cultuadíssima temporada no Flash (entre 1991 e 2000) e do derivado Impulso (1995-1997); da origem da Liga da Justiça pós-Crise nas Infinitas Terras, Ano Um, de 1998; de uma boa temporada na revista JLA, da Liga, entre 1998 e 2000, que incluiu o arco Torre de Babel; e da releitura da origem do Superman em Legado das Estrelas (2003-2004).

Na Marvel, produziu a aclamada fase no Quarteto Fantástico (ao lado do desenhista Mike Weringo) entre 2002 e 2005; arcos no Capitão América como Operação Renascimento e Terra da Liberdade (entre 1995 e 1999), além da minissérie O Homem Fora do Tempo (The Man Out of Time), em 2011.

Os poderes do herói na prática, por Waid e Marcos Martins.

Os poderes do herói na prática, por Waid e Marcos Martins.

Quando houve o apogeu da Era Sombria dos Quadrinhos, nos anos 1990, Mark Waid se notabilizou por O Reino do Amanhã, uma história que serve como um tipo de manifesto contra aquele movimento em prol de uma abordagem mais heroica e icônica dos super-heróis. Não deve ser coincidência, portanto, o escritor chegar ao Demolidor justamente para uma abordagem mais light.

No volume 3 da revista Daredevil, Waid criou uma sequência incrível de histórias, inovando especialmente no modo como são retratados os poderes do herói. Vemos nos quadros do artista Paolo Riviera mais ou menos como uma manifestação visual dos sentidos de Matt Murdock, o que cria efeitos muito bonitos. Depois que o artista saiu da revista, pouco depois do primeiro arco, coube ao aclamado Chris Samne continuar o trabalho, apostando em linhas finas e cores vivas e um visual muito interessante.

Nas trevas, Paolo Riviera mostra como os poderes de modo gráfico.

Nas trevas, Paolo Riviera mostra como os poderes de modo gráfico.

Na comemorativa edição 01 da nova revista, inclusive, há uma história extra com uma longa conversa entre Matt Murdock e Foggy Nelson na qual o herói explica ao amigo como seus poderes funcionam. O diálogo é acompanhado por uma série de ilustrações interessantíssimas de autoria do convidado Marcos Martins, mostrando “na prática” os efeitos de seus sentidos.

Na trama, chega às mãos do Demolidor um disco rígido criado por Reed Richards (do Quarteto Fantástico), que guarda algumas das informações mais importantes já produzidas, de modo que este megadrive logo chama a atenção de todas as grandes organizações criminosas do Universo Marvel, como Hidra, IMA, Império Secreto, Tentáculo e outras. Como consequência, o homem sem medo precisa se defender de todos eles e ainda evitar uma guerra devastadora entre as organizações.

Também ainda temos as velhas consequências de que as pessoas ainda vinculam o nome do advogado ao Demolidor e (em um tom humorístico) ele precisa dizer o tempo todo “eu não sou o Demolidor”. Inclusive, em uma sacada hilária, Matt usa um suéter com essa inscrição em uma festa de Natal! Outra forma inteligente de Mark Waid explorar tal trama é o fato da carreira de advogado de Murdock estar simplesmente destruída após tudo o que se passou, de modo que os tribunais não aceitam mais seus serviços. Assim, Nelson e Murdock abrem uma Consultoria para que as pessoas defendam a si mesmas no tribunal.

Entre as histórias mais sequenciadas Waid também promove alguns contos isolados arrebatadores, como aquele em que o vilão Topeira ataca um cemitério e o Demolidor descobre estupefato os motivos do criminoso; ou a assustadora história em que Matt Murdock leva uma turma de órfãos para um passeio de Natal, mas uma nevasca e um acidente no ônibus o obrigam a lutar pela sobrevivência de si mesmo (o que são seus sentidos ampliados em meio a uma nevasca?) e das crianças.

O fim da identidade secreta?

O fim da identidade secreta? Arte de Chris Samne.

Após as primeiras histórias, Waid mudou de novo o status quo do Demolidor, fazendo o homem sem medo se mudar para San Francisco (como tinha feito nos anos 1970, lembra?) e termina, finalmente, assumindo publicamente que é mesmo o Demolidor, encerrando de vez as dúvidas sobre sua identidade secreta após uma década de histórias em torno do tema.

O Demolidor com uniforme negro ao lado de Blindspot. Arte de Ron Garney.

O Demolidor com uniforme negro ao lado de Blindspot. Arte de Ron Garney.

Em dezembro de 2015, a revista Daredevil ganhou um novo volume e uma nova fase, agora, sob as mãos do escritor Charles Soule (da saga A Morte de Wolverine) e do desenhista Ron Garney (das revistas do Capitão América e com uma passagem anterior no Demolidor).

A nova Daredevil (vol. 4)  01 deu início a uma fase que se passa nas consequências da megassaga Guerras Secretas, que abalou a cronologia da Marvel. Nela, o homem sem medo retorna a Nova York (após passar um tempo em San Francisco), passa a usar um uniforme preto e ter um parceiro mirim: um novo combatente ao crime chamado Blindspot.

O Filme que Não Veio

Demolidor na TV.

Demolidor na TV.

Os direitos de adaptação do Demolidor ao cinema pertenciam à 20th Century Fox, mas o fracasso da dupla Demolidor – O Homem Sem Medo e Elektra, esfriou totalmente os ânimos. O estúdio deixou o projeto de uma sequência anos na “geladeira”, então, se deu conta de um “pequeno” detalhe: seu contrato com a Marvel previa que se não fosse produzida uma obra no prazo de 10 anos, os royalities retornaram à editora. Em 2009, na esteira do incrível sucesso de público e crítica das revistas do homem sem medo, a Fox “acordou” e começou a trabalhar intensamente em um novo filme do personagem.

Mas era tarde demais.

O estúdio perdeu tempo demais encontrando roteiristas e diretores adequados e não houve tempo. A virada ocorreu após o sucesso estrondoso de Batman – O Cavaleiro das Trevas, em 2008, que foi o primeiro filme de super-heróis a romper a barreira de US$ 1 bilhão em bilheterias. A Fox percebeu que tinha ouro nas mãos, pois o Demolidor seria o personagem da Marvel mais próximo do clima sombrio, urbano e violento do homem-morcego.

Brad Caleb Kane foi contratado para escrever o roteiro e David Slade ganhou o cargo de diretor. Uma nova versão do roteiro foi produzida por David James Kelly. A ideia era adaptar a saga A Queda de Murdock, de Frank Miller e David Mazzuccheli. Era um modo de continuar a trama do filme de 2003, mas ao mesmo tempo dar uma cara de “reboot”, pois teria novo elenco e nova estética. Mas entre idas e vindas de texto e contratações, chegou-se ao ano de 2012! O fim do prazo estava à beira da porta. Por motivos ignorados, Slade caiu fora do projeto e a Fox ainda contratou Joe Carnahan (de A Perseguição) para comandar tudo.

Os Vingadores no cinema: batendo 1,5 bilhões em bilheteria.

Os Vingadores no cinema: batendo 1,5 bilhões em bilheteria.

O novo diretor trouxe uma ideia sensacional ao projeto: iria fazer do novo Demolidor uma versão de Sérpico, clássico filme dos anos 1970. Assim, a trama se passaria na década de 1970, com toda a violência e sujeira real que inspiraram as histórias mais célebres do personagem, que eram realidade naquele tempo e não mais em 2012. Mas não havia mais tempo. Era impossível produzir um filme àquela altura e lançá-lo no ano de 2013. Provavelmente, o estúdio contava com a empolgação sobre a nova abordagem e ganhar um adiantamento do prazo.

Mas eram outros tempos. Quando vendeu os direitos para a Fox, a Marvel era uma empresa que tinha acabado de sair de um processo de falência. Nada mais diferente de 2012: a companhia tinha dado a volta por cima; havia emplacado uma década de grandes sucessos nas HQs (incluindo as fases de Bendis e Brubaker); e tinha criado o seu próprio universo cinematográfico, com os filmes Homem de Ferro, O Incrível Hulk, Homem de Ferro 2, Capitão América – O Primeiro Vingador e Thor, lançados entre 2008 e 2011, estavam todos interconectados, de modo que todos esses personagens se reuniram em Os Vingadores, lançado em 2012, e atingindo US$ 1,5 bilhões nas bilheterias mundiais, virando o terceiro maior sucesso da história do cinema!

Agora, a Marvel levava aos cinemas a interconexão e a ideia de um universo integrado das páginas das histórias em quadrinhos. E queria mais. O Demolidor era uma oportunidade de explorar os heróis urbanos, aqueles “street level“, que não teriam tanto espaço nos filmes-evento do Marvel Studios.

Segundo rumores da época, a Marvel ainda cogitou dar o prolongamento do prazo à Fox sob uma condição: que o estúdio abrisse mão de dois personagens específicos – Galactus e o Surfista Prateado – para que a Marvel pudesse usá-los em seus filmes dos Vingadores. A Fox era a detentoras deles também, dentro do pacote do Quarteto Fantástico. O estúdio negou. Então, não houve acordo: em agosto de 2012 foi anunciado o cancelamento do projeto do filme do Demolidor, pois não poderia ser feito até o ano seguinte. O resultado seria óbvio: os direitos retornaram à Marvel.

Demônio na TV

O herói em seu uniforme negro.

O herói em seu uniforme negro.

Com uma agenda superlotada de filmes (planejados até 2020), a Marvel optou por não lançar um novo filme do Demolidor. Em vez disso, agrupou o homem sem medo e outros personagens street level dentro de uma ousada e original empreitada: lançar séries de TV por meio da plataforma streaming do Netflix, que vinha crescendo em popularidade com uma série de projetos bem executados e elogiados pela crítica, como House of Cards e Orange is the New Black. O pacote da Marvel foi anunciado em 2014: seriam quatro séries e uma minissérie-evento, a saber, Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro, com todos reunidos em Os Defensores.

Era a mesma estratégia dos cinemas adaptadas à telinha. A única ressalva é que os Defensores nas HQs eram um grupo com a qual nenhum dos personagens citados praticamente tinha qualquer envolvimento. O grupo original era a reunião de Dr. Estranho, Hulk e Surfista Prateado (mais tarde com adesões de Valquíria e Águia Noturna, dentre outros) que funcionava como um tipo de Vingadores de 2ª divisão, com histórias mais calcadas na magia. A presença de Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro aproximava o conceito dos Heróis de Aluguel, uma empresa que os dois últimos tiveram para agir como detetives particulares ou mercenários “do bem”.  De qualquer modo, a Marvel deve ter achado que o novo título era mais adequado à sua proposta.

O trio Matt Murdock, Karen Page e Foggy Nelson: elenco ótimo.

O trio Matt Murdock, Karen Page e Foggy Nelson: elenco ótimo.

Deu ainda mais certo do que o esperado.

A série do Demolidor foi a primeira a estrear, em 2015, e foi um sucesso absoluto de público e crítica, virando a maior audiência na história do Netflix. Protagonizada por Charlie Cox, o programa adaptava o clima sombrio e pesado das fases de Miller, Bendis e Brubaker, adaptando as origens do personagem à abordagem de tais autores. O elenco de apoio – Vincent D’Onofrio (Wilson Fisk/ Rei do Crime), Rosario Dawson (Claire Temple), Deborah Ann Wolf (Karen Page), Elden Henson (Foggy Nelson), Aylet Zurer (Vanessa Marianna), Bob Gunton (Leland Owlsley), Toby Leonard Moore (Wesley), Vondie Curtis-Hall (Ben Urich), Scott Glenn (Stick) e Peter Shinkoda (Nobu) – bastante afiado e com ótimas caracterizações. A ambientação da série era “pé no chão” evitando referências excessivas à fantasia dos Vingadores, com as vidas dos personagens envoltas no crime organizado.

O Demolidor à mercê do Justiceiro.

O Demolidor à mercê do Justiceiro.

A trama mostrava os primeiros dias de Matt Murdock como advogado (abrindo a Nelson & Murdock e contratando Karen Page como sua secretária) ao mesmo tempo em que o Demolidor (usando um uniforme preto igual ao da minissérie O Homem Sem Medo de Miller e Romita Jr.) também começava sua campanha para manter seguras as ruas da Cozinha do Inferno em Nova York. A série se colocava exatamente dentro do contexto dos filmes do Marvel Studios, pois a invasão alienígena de Os Vingadores era a causa de uma iniciativa de reconstrução da Cozinha do Inferno liderada por Wilson Fisk, que os heróis descobririam ser secretamente o Rei do Crime.

Com ótimo texto, cenas impactantes de ação, muito drama e um clima sombrio e violento, Demolidor – Temporada 1 é um grande filme de super-heróis com 13 horas de duração! Algo simplesmente sensacional. E a peteca não caiu, após a primeira temporada de Jessica Jones (que também fez sucesso e foi bem recebida) a Temporada 2 do homem sem medo estreou em 2016 e manteve a pegada anterior, agora adicionando Justiceiro e Elektra (vividos por Jon Bernthal e Élodi Yung, respectivamente) ao caldo, com uma trama recheada pelo Tentáculo.

É agora esperar pelas próximas séries, a reunião nos Defensores e Temporada 3, que talvez adapte A Queda de Murdock. Quem sabe?

Os fãs também têm esperanças de ver o Demolidor interagir com os Vingadores diretamente em filmes como Vingadores – Guerra Infinita Parte 1 e 2, a serem lançados em 2018 e 2019. É pouco provável, mas nunca se sabe. De qualquer modo, o tratamento do homem sem medo nas telinhas tem algo de revolucionário, mesmo com a mais de dezena de personagens das HQs adaptados a esta mídia atualmente.

***

O Demolidor foi criado em 1964 por Stan Lee e Bill Everett e surgiu em sua própria revista, Daredevil 01. Desde então, é publicado pela Marvel Comics.

About hqrock - Irapuan Peixoto

Doutor em Sociologia, professor universitário, músico e escritor amador. Nascido em 1979, já via quadrinhos antes de aprender a ler. Coleciona revistas desde 1990. É roqueiro de nascença. Toca em bandas de vez em quando, mas está gravando um disco com suas composições.

Posted on 29/05/2016, in Demolidor, Desenhistas, Dossiês de Personagens, Escritores, Marvel Comics, Revistas. Bookmark the permalink. 3 comentários.

  1. Biano Reeves

    Fala Peixoto,quanto tempo. como sempre,um puta post digno de elogios. diferentes dos sites supostamente especializados,se prostituem e já perderam a graça em nao saber mais lhe dá com qualidade sobre um assunto que hoje virou modisse,os quadrinhos. mas aqui e em outros bons blogs independentes livres de certas situações,podemos desfrutar de ótimas materiais como essas. continue assim e vida longa ao HQROCK

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