Resenha de X-Men – Apocalipse

X-Men.

X-Men.

Com a missão de manter a qualidade conseguida em suas duas entregas anteriores, chega aos cinemas X-Men – Apocalipse, sequência de X-Men – Dias de um Futuro Esquecido, terceiro filme da série que mostra as origens do supergrupo de heróis mutantes da Marvel Comics levado aos cinemas pela 20th Century Fox. O que dizer do filme? Vejamos a Resenha do HQRock!

Apocalipse é um grande filme de ação e é até melhor do que o esperado, mas não possui a mesma qualidade de Dias de Um Futuro Esquecido ou Primeira Classe. Novamente, o diretor Bryan Singer se mostra talentoso em lidar com um elenco extenso e consegue criar alguns arcos de história bem interessantes, alguns até surpreendentes; mas desta vez, a trama geral é bem mais simples, com aquela ideia do vilão louco que quer dominar o mundo. O fato da história se passar em 1983 e termos o visual e figurino daquela época também é muito interessante e mesmo engraçado em alguns momentos, particularmente com as roupas usadas por Jean Grey ou Moira McTagger, o cabelo esvoaçante de Xavier e o visual de Jubileu, que é idêntico aquele dos quadrinhos originais (ou seja: sobretudo amarelo [!], grandes óculos escuros no topo da cabeça e brincos de argolas enormes).

Os anos 80 chegaram. Moira, Hank, Alex e Raven.

Os anos 80 chegaram. Moira, Hank, Alex e Raven.

Por um lado, é bom rever a velha turma e continuar a ver o desenrolar de suas aventuras: Charles Xavier, Raven, Erik Lensherr e Hank McCoy estão todos em pontos bem interessantes de suas jornadas pessoais. E o lapso de tempo (dez anos exatos) entre Dias de Um Futuro e Apocalipse é bem aproveitado para montar suas histórias. É bom ressaltar que esse elemento é bem melhor explorado do que o lapso entre Primeira Classe e Dias de Um Futuro, no qual a conexão entre os pontos não batia bem: Mística perdida, Magneto preso, Fera usando um soro para continuar humano e (o pior de tudo) Professor X voltando a andar (graças a um soro especial também, que em contrapartida impedia de usar seus poderes [???]) e relutante com o seu papel de líder, tendo fechado a Escola que tinha acabado de abrir. Tudo era artifício para simplesmente deixar a trama no mesmo ponto em que o filme anterior parou, mesmo tendo passado dez anos entre um e outro.

... Os Quatro Cavaleiros de Apocalipse.

… Os Quatro Cavaleiros de Apocalipse.

Agora, este gap temporal é bem melhor resolvido. Magneto foi atrás de reconstruir sua vida e viver como um homem normal (apesar de ser o criminoso mais procurado do mundo, porque atacou a Casa Branca no fim de Dias de Um Futuro). McCoy permanecendo ao lado de Xavier, mas mostrando em uma cena que discorda do aspecto totalmente pacífico de seu mentor e, por isso, se preparando para algo mais. Xavier aceitando seu papel de líder e professor, tendo criado sua Escola para Jovens Superdotados e agindo como o líder que deveria ser. Raven sendo vista como uma heroína por todos – porque impediu Magneto na ação referida – , mas relutante em aceitar esse papel e vivendo foragida.

O filme também dá espaço ao drama dentro dessa nova configuração. Magneto precisa encarar as consequências do que fez no passado, enquanto Xavier não seguiu exatamente as instruções que sua versão mais velha – o ator Patrick Stewart – lhe deu em Dias… de montar os X-Men. Este é um ponto original da trama: o conflito nos jardins da Casa Branca em 1973 terminou por gerar um clima pacífico entre humanos e mutantes, porque apesar do ataque furioso de Magneto, compreendeu-se que era uma reação à perseguição desumana de Bolivar Trask (que matou vários dos ex-alunos de Xavier vistos em Primeira Classe) e quem salvou o dia foi Mística, que também é mutante. Assim, ela vira uma heroína (misteriosa) admirada por todos e os mutantes não chegam a ser perseguidos. Neste clima de paz, Xavier opta por não formar os X-Men, prosseguindo apenas no plano de ensinar jovens mutantes a lidar com seus poderes.

Este ponto serve para explicar várias coisas do filme e do novo status do Universo Mutante nos Cinemas. As ações de Dias… serviram para impedir que Mística se tornasse a vilã fria e sem coração que é vista na Trilogia dos X-Men dos anos 2000 (X-Men – O Filme, X-Men 2, X-Men – O Confronto Final), ao mesmo tempo em que a trama de Apocalipse encontra os meios de eliminar todas as dúvidas que ela tinha (desde Primeira Classe) e se tornar, ao contrário de sua versão do outro futuro, não só uma heroína, mas uma líder dentro dos X-Men. Quando vemos o arco da personagem nesses três filmes da Trilogia do Passado, isto é compreensível. O único senão é que tudo isso parece muito menos um favor à personagem e seu desenvolvimento e muito mais um serviço à atriz Jennifer Lawrence, que se tornou uma das mais famosas e prestigiadas da atualidade (indicada ao Oscar três vezes nos últimos anos e já ganhadora de uma estatueta).

Novo trio: Jean Grey, Noturno e Ciclope. Ótimos!

Novo trio: Jean Grey, Noturno e Ciclope. Ótimos!

Mas falamos de “por um lado”. Por outro, é ainda mais empolgante vermos a jornada dos “novos” personagens introduzidos no filme. O trio Ciclope, Jean Grey e Noturno não é o “coração” do filme (seria o trio Xavier, Magneto, Mística), mas é talvez sua parte mais interessante. A história em torno desses novos personagens se desenvolve bem na trama, fazendo com que o espectador queira ver mais deles.

É simplesmente ótimo vermos Ciclope como um personagem pela primeira vez no cinema. Apesar de interpretado com competência por James Mardsen em X-Men – O Filme e X-Men 2 (mais uma pequena ponta em X-Men – O Confronto Final) e aparecer rapidamente em uma jovem versão em X-Men Origens – Wolverine, Scott Summers nunca foi um personagem de verdade no cinema. Os roteiros nunca o privilegiaram nem lhe desenvolveram arcos elaborados, sempre para dar mais espaço a Wolverine. Agora, Scott emerge como um jovem meio rebelde e um pouco atormentado, tendo que lidar com seus poderes recém-descobertos, com um arco que traz uma boa dose de drama (e não vamos dizer porquê para não cair em spoilers), tornando alguém realmente de destaque no filme. Um bom potencial para o futuro, onde poderá ser visto como o líder dos X-Men e grande personagem que é nas HQs.

Mercúrio (ao lado de Mística): mais espaço.

Mercúrio (ao lado de Mística): mais espaço.

Ao seu lado no filme está Jean Grey. A personagem é de cara descrita como uma das mutantes mais poderosas que existem e, portanto, sendo atemorizada pelo poder que sente crescer dentro de si, com claras referências (isso não é spoiler) à Fênix que deverá se tornar no futuro (breve?). Seu arco gira em torno do controle e é interessante o modo como ela é vista como freak (esquisita) mesmo entre seus pares de estudantes mutantes da Escola para Jovens Superdotados, o que cria um vínculo imediato com Scott, que sempre foi visto como um tipo em sua própria escola.

Noturno não tem um arco propriamente dito, mas é um bom personagem de ação e quem lê os quadrinhos sabe o que poderá ser desenvolvido no futuro.

Entre o trio veterano e o trio novato há Peter Maximoff, o Mercúrio. O jovem velocista que roubou a cena em Dias… por causa de uma sequência espetacular de alta velocidade está de volta, dessa vez menos como um fan service e mais como um personagem real com um drama real na história. Ainda que sirva de alívio cômico em vários momentos, também tem seu drama e sua história que (também não é spoiler) envolve o fato de ser filho de Magneto, sem que este saiba. Desta vez, Mercúrio tem não uma, mas duas “grandes cenas” de ação em alta velocidade e integra o time como um dos X-Men.

O vilão com Mística em mãos. Potencial para mais.

O vilão com Mística em mãos. Potencial para mais.

O personagem título do filme é um dos pontos controversos da trama. Em muitos aspectos, En Sabbar Nur é bastante fiel à sua contraparte dos quadrinhos – sua origem como divindade do Egito Antigo, o fato de trocar de corpos de tempos em tempos, a ideia darwinista de que “só os fortes sobreviverão”, ter vários tipos de superpoderes (a maioria sequer explicada direito) – mas o filme explora o aspecto religioso de sua figura. Apocalipse age como se fosse um deus, pensa que é um deus, e isso é um detalhe muito sensacional. Contudo, não há muito espaço na trama para desenvolver isso em profundidade. É apenas alisada a superfície.

Neste ponto, é uma pena ter um ator do altíssimo calibre como Oscar Isaac interpretando o vilão, mas de certo modo desperdiçá-lo sob quilos de maquiagem. A fotografia tenta compensar isso com closes em seu rosto, que permitem mostrar suas expressões faciais com um pouco mais de facilidade e muito destaque aos olhos e seus movimentos, mas poderia haver mais mobilidade com um pouco menos de próteses em seu rosto.

Wolverine: aparição gratuita.

Wolverine: aparição gratuita.

Um ponto negativo é a aparição gratuita de Wolverine. O filme se esforça para mostrar um motivo crível para isso, criando uma vinculação entre os eventos de Apocalipse e aquela velha trama já conhecida de X-Men 2 e X-Men Origens – Wolverine sobre Logan. Claro que isso cria problemas também, pois não fica nem um pouco claro como essa aparição está relacionada ao fim de Dias… e o destino do personagem naquele filme. Como história, a participação de Wolverine é totalmente descartável dentro de Apocalipse e menos do que um fan service parece mostrar simplesmente que a Fox não tem culhões para fazer um filme dos X-Men sem Logan ou Hugh Jackman. Talvez os espectadores gostem de ver um vislumbre de Wolverine, inclusive com uma abordagem ligeiramente mais violenta do que de costume (talvez antevendo o que veremos em breve em Wolverine 3, que é prometido como Censura 18 anos), mas é cansativo do ponto de vista crítico e criativo. Apocalipse poderia ficar sem essa.

Tempestade, Apocalipse e Psylocke.

Tempestade, Apocalipse e Psylocke.

Como filme, Apocalipse se equilibra entre esses arcos de histórias pessoais e uma grande trama de destruição desenfreada. O vilão-título tem um nível de poder acima do que foi visto nos filmes anteriores e tem o dom de amplificar os poderes de outros mutantes, o que torna seus Quatro Cavaleiros extremamente poderosos: Magneto, Tempestade, Psylocke e Anjo. É interessante como o filme procura construir (embora muito rapidamente) o porquê de cada um se tornar aliado do vilão e, por isso, também justificar o modo como cada um termina o filme, que não é equitativo. Esses microarcos de história não são bem resolvidos – particularmente o de Tempestade, que é uma personagem mais importante que Psylocke e Anjo – mas pelo menos tentar dar alguma dignidade a eles como mais do que peões em ação.

Michael Fassbender: interpretação excepcional.

Michael Fassbender: interpretação excepcional.

Vale um destaque, contudo, ao arco de Magneto, talvez o mais impressionante dentro da história e o mais dramático (ao lado do de Ciclope). Ainda bem isso dá a oportunidade de Michael Fassbender mostrar o excelente ator que é, com uma interpretação fortíssima. Muito distante da dicotomia “herói-vilão” seu personagem é o melhor construído ao longo da Trilogia do Passado e o mais interessante. Talvez por isso, o fim do filme ainda o coloca em termos dúbios, guardando mistérios do que ele será no futuro.

No material de divulgação do filme, o diretor Bryan Singer chegou a dizer que Fassbender o fez chorar durante a gravação de uma cena e que isso foi a única vez que isso aconteceu em toda a sua carreira. Vendo o filme é possível entender porquê. Claro que o drama do personagem é mais um dentro de um filme carregado de muitos personagens e tramas e isso faz perder um pouco de força, mas não há como negar a força da interpretação do ator, que é algo mesmo muito acima da média.

Xavier de McAvoy: também destaque.

Xavier de McAvoy: também destaque.

Também é importante ressaltar a interpretação de James McAvoy e seu (não mais tão jovem) Charles Xavier. Mais do que Dias… o ator tem a oportunidade de explorar os seus grandes dotes de interpretação e, como personagem, mutante superpoderoso, também finalmente tem uma função como membro dos X-Men mais do que o mentor. O cinema reprisou até aqui a mesma condição do Professor X das HQs: na impossibilidade dos roteiristas lidarem com um ser tão poderoso, encontram esquivas para “tirá-lo da jogada”, às vezes, com escusas estapafúrdias. Tínhamos um pouco disso em Dias… (o tal do soro que lhe fazia andar e tirava seus poderes…), mas não em Apocalipse. Agora, vemos Xavier em ação e sua batalha contra o vilão-título é um dos pontos marcantes da trama, mostrando o plano psíquico tão comum às HQs, mas quase inexplorado no cinema.

É interessante, também, como McAvoy e Fassbender têm uma química muito boa entre si, o que faz todas as cenas em que estão juntos sejam poderosas em termos emocionais e convincentes de dois amigos separados por ideologias diferentes demais.

Ciclope aponta para o futuro.

Ciclope aponta para o futuro.

Podemos dizer, então, que Apocalipse é um bom filme. Não é melhor do que Dias de Um Futuro Esquecido ou Primeira Classe – cumprindo a promessa dita por Jean Grey no filme, quando os jovens mutantes saem do cinema após terem visto Star Wars – Episódio VI: O Retorno de Jedi, de que “pelo menos concordamos que o terceiro filme é sempre pior”, numa clara piada interna a X-Men – O Confronto final, que tem Grey como elemento central e é realmente o pior momento entre todos da longa saga dos mutantes no cinema. Porém, visto assim friamente, Apocalipse não foge à sina também. E a piada serve para ele também.

Todavia, é importante salientar que Apocalipse não é um filme ruim. Longe disso. Mas não tem a densidade de história que seus outros pares da Trilogia do Passado, sendo um grande espetáculo de ação que deixa algumas pontas de potencial que poderiam ter sido melhor utilizados. Ainda assim, aponta um (novo) futuro para franquia ao (re)apresentar os personagens pelos quais os fãs dos quadrinhos são apaixonados e constituem o real foco da equipe. Vê-los ganhar uma nova chance no cinema, melhor interpretados, é muito promissor.

Apocalipse traz mesmo a fundação dos X-Men, que passam a existir como equipe pela primeira vez em 1983, fechando o longo ciclo iniciado com a semente da ideia lá atrás em 1962 em Primeira Classe. A franquia deve seguir em frente com um novo filme situado nos anos 1990 em breve.

***

Apocalipse se passará em 1983 e traz a ameaça do vilão homônimo, um dos maiores das HQs originais, e mostra Charles Xavier reunir o time formado por Ciclope, Jean Grey e Fera para atuarem como uma equipe paramilitar que luta pela causa mutante. A história também envolve uma trama familiar entre o vilão Magneto e o heroico Mercúrio, que está em busca de seu pai. Apocalipse encerra a “trilogia do passado”, que se iniciou com X-Men – Primeira Classe.

X-Men – Apocalypse tem história de Bryan Singer e Simon Kinberg (de X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido); com roteiro de Kinberg, Dan Harris e Michael Dougherty (de X-Men 2 e Superman – O Retorno); e é dirigido por Bryan Singer. O elenco traz James McAvoy (Charles Xavier/ Professor X), Michael Fassbender (Erik Lehnsherr/ Magneto), Jennifer Lawrence (Raven/ Mística), Oscar Isaac (En-Sabar-Nur/ Apocalipse), Nicolas Hoult (Hank McCoy/ Fera), Evans Peters (Peter Maximoff/ Mercúrio), Tye Sheridan (Scott Summers/ Ciclope), Sophie Turner (Jean Grey), Alexandra Shipp (Ororo Monroe/ Tempestade), Ben Hardy (Warren Worthington III/ Anjo), Kodi Smit-McPhee (Kurt Wagner/ Noturno), Lana Condor (Jubileu), Olivia Munn (Betsy Braddock/ Psylocke), Lucas Till (Alex Summers/Destrutor), Rose Byrne (Moira MacTargget) e Josh Helman (Coronel William Stryker), além da participação de Hugh Jackman (Wolverine). O lançamento foi em 19 de maio de 2016 no Brasil, uma semana antes do que nos EUA.

Os X-Men foram criados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby, mas só foram bem-sucedidos comercialmente nos anos 1970, a partir da reformulação idealizada pelo escritor Len Wein e tocada à frente por Chris Claremont, Dave Cockrum e John Byrne. Daí em diante, se tornaram uma das revistas de maior sucesso da Marvel Comics.

About hqrock - Irapuan Peixoto

Doutor em Sociologia, professor universitário, músico e escritor amador. Nascido em 1979, já via quadrinhos antes de aprender a ler. Coleciona revistas desde 1990. É roqueiro de nascença. Toca em bandas de vez em quando, mas está gravando um disco com suas composições.

Posted on 22/05/2016, in Filmes, Marvel Comics, Resenhas, Wolverine, X-Men. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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