George Martin: morte aos 90 anos.
George Martin: morte aos 90 anos.

Uma nota triste para a música. Morreu ontem o produtor musical George Martin, mais famoso por seu trabalho ao lado dos Beatles. Ele tinha 90 anos e a causa da morte não foi revelada ainda.

George Martin nasceu em 1926 em HighBury, Londres, na Inglaterra, filho de um marceneiro e de uma empregada doméstica, e se apaixonou pela música quando a The London Symphony Orchestra se apresentou em seu colégio. Ele aprendeu a tocar piano e oboé e passou a se apresentar de forma amadora na adolescência até se alistar no Exército em 1943 e se tornar piloto. Quando deu baixa, foi estudar no Guildhall School of Music e se tornou um maestro. Seu primeiro emprego profissional foi no setor de música clássica da rádio BBC, mas em 1955, aos 29 anos, conseguiu emprego na gravadora EMI, a maior do Reino Unido e proprietária de um dos melhores estúdios do mundo, o Abbey Road Studios, no norte de Londres. Em pouco tempo, Martin se tornou o responsável pelo selo Parlophone, uma das subdivisões da empresa.

Os primeiros destaques de sua carreira como produtor musical se deram através dos programas de comédia, que eram gravados no estúdio e transmitidos pela rádio BBC, dentre os quais The Goons, que lançou o ator Peter Sellers. No campo musical, propriamente dito, trabalhou na trilha sonora de Moscou Contra 007, o segundo filme da franquia de James Bond, e produziu a canção-tema do terceiro, 007 Contra Goldfinger, gravado pela cantora Shirley Basset, que foi um dos maiores sucessos da década.

Instruindo os Beatles na sala de controle de Abbey Road.
Instruindo os Beatles na sala de controle de Abbey Road.

Contudo, sua grande sorte veio com uma bandinha barulhenta de Liverpool, cidade industrial do norte da Inglaterra: The Beatles. O grupo tocava rock e fazia sucesso em sua cidade natal e arredores, além de serem adorados em Hamburgo, na Alemanha. Mas não tinham um contrato de gravação. O empresário Brian Epstein tentou a todo custo vender o grupo para as principais gravadoras, como EMI, Decca e Polydor, mas todas recusaram. De posse de uma fita demo do grupo, Epstein tentou George Martin na Parlophone, no segundo bimestre de 1962. O produtor nem se interessou tanto – para ele aquilo era “música pop” – mas agendou uma sessão teste do grupo.

Como disse em várias entrevistas, livros e programas de TV, Martin ficou impressionado com a energia e a personalidade do quarteto de Liverpool, muito mais do que com sua sonoridade. Aquilo era rock, algo barulhento e não exatamente a música bem tocada e afinada com a qual Martin estava acostumado a trabalhar no jazz ou no clássico. Mas decidiu apostar. Fez apenas uma condição: a troca de baterista, o que resultou na saída de Pete Best e sua substituição por Ringo Starr. A banda gravou Love me do (uma composição de autoria da dupla John Lennon e Paul McCartney, que lideravam o grupo) e o compacto chegou ao 17º lugar das paradas, marcando o início de um grande sucesso.

George Martin trabalhou em todos os 13 álbuns dos Beatles, lançados entre 1963 e 1970, e teve um papel importante na carreira e na música deles, o que lhe valeu o apelido de “o quinto beatle”. Lennon e McCartney não tinham vastos conhecimentos musicais no começo e Martin foi fundamental para traduzir as ideias do grupo em termos viáveis de gravação. Apesar de ser um músico mais conservador no início, Martin soube se abrir para a ânsia da banda em experimentar e, depois, terminou incentivando-os a isso, criando incríveis técnicas de gravação que mudaram a música dos Beatles e a música gravada para sempre.

Ouvindo as gravações ao lado de John Lennon nas sessões de Sgt. Peppers.
Ouvindo as gravações ao lado de John Lennon nas sessões de Sgt. Peppers.

Entre essas inovações estava incorporar à música gravada os ruídos típicos de concertos de rock, como microfonias e fade-outs; incorporar efeitos sonoros diversos (sons de carros, aviões, animais, sinos etc.); e combinar instrumentos elétricos com a tradicional formação erudita de instrumentos de orquestra. Martin e seus engenheiros de som também criaram uma ambiciosa técnica de gravação multitrack (ou multipista): como a EMI só dispunha de uma mesa de quatro canais até 1968, eles preenchiam os quatro canais, depois comprimiam tudo em um ou dois canais apenas, o que fazia sobrar outros dois canais, que podiam preencher com justaposições e gravações novas de overdubs. Assim, usavam bem mais canais do que tinham à disposição, uma técnica que tornou possível o festival de efeitos e inovação sonora do álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, de 1967, o disco mais importante dos Beatles e um dos mais inovadores da história da música.

Martin também desenvolveu o variespeed, uma técnica em que se mudava a velocidade de rotação da fita de gravação, que desacelerada ou mais acelerada rendia texturas diferenciadas aos instrumentos e às vozes. Na canção In my life – do álbum Rubber Soul, de 1965 – John Lennon queria um solo de cravo – um instrumento medieval antecessor do piano – mas como a EMI não tinha um, Martin gravou o solo em um piano com o tempo da canção reduzida; e em seguida, acelerou o registro, que ficou mais agudo e parece mesmo um cravo na versão final.

Capa de Sgt. Peppers, um dos discos mais importantes da história.
Capa de Sgt. Peppers, um dos discos mais importantes da história.

Essas técnicas de gravação tornam extremamente arrojadas canções dos Beatles como Strawberry fields forever, Penny Lane, I am the walrus, A day in the life, Lucy in the sky with diamonds etc.

George Martin também usou seu passado erudito a favor do rock dos Beatles, combinando instrumentos de ambos os mundos. Ele escreveu e conduziu inúmeras peças orquestrais que abrilhantaram gravações da banda, em canções como Yesterday, Eleanor Rigby, A day in the life, Hey Jude, Something e muitas outras.

Um único álbum dos Beatles não traz George Martin com o crédito de produtor: ele e a banda gravaram Let it Be em 1969 num projeto de ensaios para um concerto ao vivo que jamais aconteceu. O fato do álbum ter sido gravado ao vivo no estúdio, sem efeitos, deixou o grupo insatisfeito e outros produtores foram chamados para tentar encorpar mais o som. Glynn Johns fez uma tentativa, mas quem agradou aos Beatles foi o produtor norte-americano Phil Spector. Daí, que o disco Let it Be – lançado após o anúncio do fim da banda, em 1970 – tem nos créditos “produzido por George Martin e reproduzido por Phil Spector”.

Brian Epstein e Martin: parceria de negócios.
Brian Epstein e Martin: parceria de negócios.

Nos anos 1960, além dos Beatles, George Martin trabalhou com uma série de outros artistas, conseguindo vários sucessos. Ele e Brian Epstein foram responsáveis por lançar o rock britânico ao investirem em todo um conjunto de artistas advindos de Liverpool tal qual os Beatles, como Gary and the Peacemakers, Billy J. Kramer & The Dakotas, Cilla Black, The Fourmost, e vários outros. SE nenhum deles tem o apelo estético e importância musical dos Beatles, por outro lado, têm importância histórica ao criarem um mercado de rock que inexistia no Reino Unido e abriu as portas para outras bandas, como The Rolling Stones e The Who.

Em 1966, em vista do sucesso sem precedentes dos Beatles, George Martin se demitiu da EMI e passou a atuar como produtor autônomo, criando o Air Studios que, anos depois, passaria a contar com um dos melhores estúdios do mundo, construído em uma velha igreja.

Com o fim dos Beatles em 1970, George Martin continuou sua carreira de sucesso, produzindo vários artistas de sucesso, como o guitarrista Jeff Beck, a banda de jazz-rock Mahavishnu Orchestra, a banda America, o compositor de cinema John Williams, Paul Winter, Gary Brooker, Neil Sekada, Kenny Rogers, as bandas Ultrabox, Cheap Trick e UFO, Elton John e Celine Dion. No fim dos anos 1970, construiu uma segunda unidade do Air Studios na ilha de Montserrat, no Caribe, que se constitui em um dos mais avançados do mundo e que foi usado à profusão por alguns dos maiores artistas do mundo, como Rolling Stones, The Police, Dire Straits etc.

Com os remanescentes dos Beatles em 1994 para o projeto Anthology.
Com os remanescentes dos Beatles em 1994 para o projeto Anthology.

Martin também trabalhou com os ex-beatles Ringo Starr e, principalmente, com Paul McCartney, produzindo a canção-tema Live and let die para o filme 007 – Viva e Deixe Morrer, de 1973, e os álbuns Pipes of Peace, Tug of War e Give Back my Regards to Broad Street, lançados em 1982, 83 e 84, respectivamente. Também orquestrou algumas canções de outros discos do compositor, como Flaming Pie, de 1999.

Em 1992, quando Pete Townshend decidiu lançar a ópera-rock Tommy, que escreveu para o The Who, como um musical da Broadway, foi Martin quem assumiu o projeto e por ele ganhou um Grammy de Melhor Disco de Musical.

Nos anos 1990, Martin resgatou o catálogo dos Beatles e, em conjunto com os remanescentes do grupo e a gravadora Apple, produziu uma série de álbuns com sobras de gravações, como Live At BBC e a série Anthology, que teve três volumes.

Candle in the wind: maior sucesso da história.
Candle in the wind: maior sucesso da história.

Em 1997, produziu a nova versão de Candle in the wind, que Elton John gravou em homenagem à recém-falecida princesa Diana Spencer e o compacto se tornou o mais vendido da história da música. Dois anos depois, Martin se aposentou ao apresentar problemas de audição. Sua despedida foi o álbum In My Life, em que vários artistas e atores interpretam canções dos Beatles.

Ainda assim, ele supervisionou a criação do musical Love, do Cirque du Solail, com canções dos Beatles, com a qual trabalhou com o filho Giles Martin no papel de produtor propriamente dito.

Em reconhecimento à sua grande contribuição à música, George Martin foi sagrado Cavaleiro do Império Britânico e ostentava o título de Sir.

Anúncios