Deadpool: ótimo!
Deadpool: ótimo!

Nos últimos anos, os filmes de super-heróis se converteram em um gênero cinematográfico per si e enquanto os medalhões como Batman, Superman e os Vingadores continuam comandando o espetáculo, cada vez mais se abrem espaços para “azarões“, personagens bem menos famosos, mas que são competentemente adaptados ao ponto de fazerem tanta bilheteria quanto seus amigos mais conhecidos, como foi notadamente o caso de Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga, ambos pelo Marvel Studios. Chega agora aos cinemas outro exemplar destes: Deadpool, filme que leva aos cinemas o louco personagem do universo dos X-Men da Marvel Comics, e produzido pela 20th Century Fox.

Deadpool chega cheio de especificidades: não é um herói (tão pouco um vilão), não luta por uma causa nobre, é um mercenário que recebe dinheiro para matar ou caçar os outros, e seu filme é Censura 18 anos, porque é carregado de violência gráfica, palavrões e gestos de baixo calão. E o resultado?

A Fox acertou a mão. Acertou mesmo!

O rosto deformado de Wade sem a máscara.
O rosto deformado de Wade sem a máscara.

Deadpool é um ótimo filme: histericamente engraçado, cheio de ação e tão louco quanto seu protagonista. O personagem principal foi criado nas revistas secundárias dos X-Men pensado inicialmente como um vilão, mas logo seus criadores injetaram nele uma veia cômica interessantíssima, que foi melhorando com o passar do tempo. Logo, Wade Wilson estava “quebrando a quarta parede” e conversando diretamente com o leitor e deixando claro que sabia que estava em uma HQ, fazendo comentários esdrúxulos, como “ah, sim, a última vez que nos encontramos foi na edição 16”, em referência ao número da revista.

Humor constante.
Humor constante.

O filme vai pelo mesmo caminho, só que ainda mais exagerado, violento e boca-suja. Por mais que nas HQs Deadpool seja chamado de “o mercenário boca-suja”, esta mídia ainda é muito pudica e o comportamento do personagem foge do convencional, mas não vai tão longe. No cinema, o Wade Wilson de Ryan Reynolds é completamente louco, insano, sujo, imoral, mordaz, engraçado, cínico e irônico, não poupando ninguém, muito menos a si mesmo.

E não espere um humor politicamente correto, porque ele está em falta. O personagem de Reynolds é mordaz com todo mundo, e isso inclui os X-Men, Wolverine, a Fox e até o próprio ator: Reynolds é alvo de piada duas vezes (numa, aparece como capa de uma revista, como o homem mais sexy do mundo; noutra, Deadpool comenta que beleza é fundamental e cita o próprio exemplo: “você acha que um ator como Ryan Reynolds conseguiria o que conseguiu se não tivesse uma cara bonita?”.

Míssil Megasônico: uma "estagiária" dos X-Men.
Míssil Megasônico: uma “estagiária” dos X-Men.

Verdade seja dita: Reynolds segura o filme praticamente sozinho. Por mais que outros atores estejam bem – em particular Morena Baccarin como Vanessa – tudo gravita em torno dele e o ator dá conta do recado. De certo modo, é uma grande tentativa de “dar a volta por cima”, porque apesar de um início de carreira promissor, fracassos como Lanterna Verde (da concorrente DC Comics) colocaram sua carreira em uma ladeira abaixo nos últimos anos.

O filme não perdoa isso também: Deadpool praticamente narra o filme inteiro – como faz nos quadrinhos – e, num determinado momento, enquanto diz a frase “foi meu pior momento” (relacionada a um tema que vinha falando antes), a câmera foca “sem querer” em um boneco justamente com a versão de Deadpool no filme X-Men Origens – Wolverine.

Ryan Reynolds como Deadpool em "X-Men Origens - Wolverine".
Ryan Reynolds como Deadpool em “X-Men Origens – Wolverine”.

(Para aqueles que chegaram depois: Deadpool já apareceu em Origens e a ideia da Fox era fazer em seguida um filme solo para ele, porém, a trama desastrosa do filme em questão colocou o personagem como o vilão do final e praticamente inutilizou seu uso posterior. Com o passar do tempo, o mal estar em relação àquela versão de Deadpool fez a Fox desistir do filme, mas não Reynolds e a produtora Laura Shulen Donner, que passaram os últimos seis anos lutando firmemente para que o filme acontecesse, até o ponto em que a dupla patrocinou um curta metragem todo feito em CGI para dar uma ideia de como o filme seria, que bombou na internet e convenceu o estúdio a financiá-lo).

Wade e Vanessa: história de amor.
Wade e Vanessa: história de amor.

Em termos de trama, Deadpool, apesar de sua violência e palavrões, é um filme de amor. A relação Wade Wilson e Vanessa conduz a história de modo até convincente. Mas não é um filme de super-heróis – e a narração do protagonista deixa isso muito claro logo no começo – pois Deadpool não é um. E a trama usa isso a seu favor, contrapondo o X-Men Colossos como o “tipo herói” ao lado de sua treinee Míssil Megasônico. Sim, Deadpool é diretamente conectado aos filmes da equipe mutante e deixa isso muito claro.

Colossos: vínculo direto com os X-Men.
Colossos: vínculo direto com os X-Men.

O maior “senão” do filme é ser uma história de origem. Ele acerta ao entrar direto na ação e, após algum tempo, dar um passo atrás e explicar como a trama chegou até aquele ponto. Nas primeiras dezenas de minutos, vamos alternando o desenrolar da trama com a origem de Wade Wilson, mas após algum tempo, o passado ganha mais espaço e isso quebra o ritmo da história, embora o terceiro ato resolva isso e devolva o filme ao eixo.

Em resumo, Deadpool é um filme totalmente diferente dentro do gênero, pois não só investe na comédia, mas é histriônico ao extremo, com o politicamente incorreto e a violência. A Fox acertou ao manter a Censura 18 anos e poder mostrar o filme que deveria ser mostrado. Com isso, deve ir além do público extremamente restrito dos fãs de quadrinhos que leram as histórias do personagem e deve agradar ao grande público. Pode até repetir a história de grande sucesso daqueles outros dois filmes citados no começo.

Por outro lado, Deadpool também mostra à Fox que ousar faz bem. Um estúdio notadamente conservador, a Fox é dona dos direitos cinematográficos dos X-Men (e seu universo) e do Quarteto Fantástico (já tendo sido dona do Demolidor, que perdeu e este voltou para a Marvel). Ao longo dos anos, a Fox vêm errando constantemente em termos de adaptação de seus personagens, o que os obrigou a fazer um reboot disfarçado por meio da mudança da linha temporal causada pela trama de X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido (outro motivo de piada para o filme), por mais que esta obra seja boa.

Deadpool é um risco e precisamos verificar ainda como se sairá nas bilheterias, porém, é um acerto e esperamos que mostre à Fox que ela pode ousar mais e sair da zona de conforto gerada pelos filmes dos X-Men.

Por fim, não saia cedo do cinema: há uma cena pós-créditos hilária que vale à pena ver.

Deadpool nos quadrinhos.
Deadpool nos quadrinhos.

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Nos quadrinhos, Deadpool surgiu na revista dos Novos Mutantes, uma equipe derivada dos X-Men, classificado como “vilão“, mas logo o clima de comédia prevaleceu e ele virou um tipo de anti-herói cômico, adepto da violência gratuita e do humor negro. Uma de suas maiores características é o fato de saber que é um personagem de HQ e “conversar” com o leitor, sendo irônico com as situações absurdas que vive. Seu auge foi no fim dos anos 1990, quando sua popularidade garantiu uma revista-solo de sucesso, nas mãos do escritor Joe Kelly e do desenhista Ed McGuinness. Saiba mais sobre ele clicando aqui.

Deadpool, o filme, é produzido por Laura Shulen Donner, a mesma dos filmes dos X-Men e a direção é do estreante Tim Miller, com roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick. É um filme Censura 18 anos para não podar o personagem. O elenco tem : Ryan Reynolds (Wade Wilson/ Deadpool), Morena Baccarin (Vanessa Carlysle/ Copycat), Gina Carano (Angel Dust), Ed Skrein (Ajax), T.J. Miller (Weasel), Stefan KapicicAndre Tricoteaux (voz e corpo de Colossos, respectivamente), Brianna Hildebrand (Míssil Magasônico), Jed Reese (O recrutador), Leslie Uggams (Blind Al) e Karan Soni (Dopinder). A estreia será em 12 de fevereiro de 2016.

Deadpool foi criado na revista The New Mutants 98 por Fabian Nicieza Rob Liefeld, em 1991.

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