Syd Barrett: homenagem na terra natal.
Syd Barrett: homenagem na terra natal.

Uma queixa comum aos fãs da lendária banda britânica Pink Floyd, uma das mais importantes da história do rock, que visitam a cidade de Cambridge é a ausência de qualquer marco ou lembrança na cidade de que a banda nasceu lá. Isso vai mudar. O Conselho Municipal de Cambridge aprovou um orçamento de 10 mil Libras para a construção de um monumento à banda e à Syd Barrett, seu fundador.

Segundo o jornal Cambridge News, a decisão foi discutida a partir de outubro e aprovada no início desse mês. O memorial a Barrett será executada pela Cambridge Live, a organização de caridade responsável por esse tipo de obra cultural na cidade e será exposta no Corner Exchange, o mesmo local onde o compositor realizou o seu último concerto, em 1972, já anos após ter saído do Pink Floyd. A homenagem não foi definida enquanto forma, o que será discutido à posteriori. Pode ser uma escultura, monumento, pintura, painel ou mesmo uma plaquinha azul do National Trust (a organização que faz tombamento cultural de edifícios particulares) a ser colocada na casa em que o compositor nasceu.

Syd Barrett (dir.) ao lado do Pink Floyd em 1967: heróis da era psicodélica.
Syd Barrett (dir.) ao lado do Pink Floyd em 1967: heróis da era psicodélica.

O público foi questionado sobre que tipo de monumento deveria ser erguido e surgiram várias sugestões, dentre as quais, uma estátua da banda em uma praça ou parque públicos; um busto de Syd Barrett; uma estátua de uma bicicleta na localidade de Greatchester Meadows (em homenagem à canção Bike, de autoria de Barrett, presente no primeiro álbum da banda); a instalação de um porco inflável gigante acima da cidade (para referenciar o álbum Animals, de 1977); e uma escultura com tijolos de um muro (para referendar o álbum The Wall, de 1979). Estes dois últimos não teriam ligação com a figura de Barrett, pois são de obras posteriores à sua saída da banda, e portanto, não serão realizados.

Neil Jones, Diretor de Operações do Cambridge Live disse à revista Uncut:

Syd Barrett é uma parte importante da herança musical da cidade. Sua contribuição ao som inicial psicodélico do Pink Floyd é imensa e nós desejamos celebrar sua vida e seu trabalho e lembrar o fato de que ele tocou ao vivo pela última vez aqui no Cambridge Corn Exchange.

A profusão de cores do Pink Floyd ao vivo.
A profusão de cores do Pink Floyd ao vivo.

Ainda segundo a Uncut, Rosemary Been, a irmã de Barrett e representante legal de seu espólio, irá supervisionar os trabalhos.

Syd Barrett é uma figura mítica não apenas pela riqueza de sua (curta) carreira musical, mas também, pelas lendas (e verdades) de sua biografia.

Roger “Syd” Barrett nasceu em Cambridge em 1946, filho de um renomado médico, estudioso de doenças tropicais. Ainda criança, conheceu o vizinho Roger Waters, com quem ia à escola, apesar de deste ser dois anos mais velho. Os dois ficaram muito amigos e descobriram a música e o rock and roll juntos, compraram violões e passaram a sonhar em montar uma banda quando terminassem os estudos. Na turma da adolescência dos dois, também se incluiu David Gilmour, alguém que ajudou bastante Barrett a aprender a tocar guitarra. Com o fim da adolescência, Water e Barrett foram para Londres, estudarem em colégios de Belas Artes e do reencontro realmente surgiu uma banda, em 1965, que passou por vários nomes até adotar o título de Pink Floyd, com Syd Barrett (vocais e guitarra), Roger Waters (baixo), Richard Wright (teclados e vocais) e Nick Mason (bateria).

O primeiro álbum da banda.
O primeiro álbum da banda.

Inicialmente, tocavam R&B, porém, as composições de Barrett levaram o grupo a uma sonoridade mais experimental e abstrata. Em 1966, a banda se tornou conhecida no circuito de bares de Londres, onde aderiu ao movimento psicodélico que surgia na época e se tornou o seu principal expoente no underground londrino. O renome levou a uma procura de gravadoras pelo conjunto, até assinarem com a EMI (a gravadora dos Beatles). Lançado no início de 1967, o primeiro single, Arnold Layne, causou um grande impacto por sua sonoridade e pela letra arrebatadora sobre um esquisito que roubava roupas íntimas femininas em um varal para vesti-las diante de um espelho! O segundo compacto, See Emily play, fez ainda mais sucesso e chegou ao 6º lugar das paradas; o que abriu caminho para que o primeiro álbum do grupo, The Piper at the Gates of Dawn, fosse um grande sucesso de público e crítica.

O Pink Floyd na época de seu estouro, em 1967: Barrett, Mason, Wright e Waters.
O Pink Floyd na época de seu estouro, em 1967: Barrett, Mason, Wright e Waters.

Porém, a engrenagem do sucesso afetou Syd Barrett profundamente. A pressão do estrelato, a vontade de ser mais livre artisticamente e o uso incrivelmente abusivo de drogas psicotrópicas, em especial do LSD, transformaram a psiquê do compositor, que simplesmente ficou louco. O Pink Floyd ainda fez um esforço para manter o guitarrista no grupo, mas seu comportamento errático e imprevisível arruinou tudo. No início de 1968, a banda decidiu afastar Barrett das apresentações ao vivo, mas dispostos a mantê-lo como compositor e músico de estúdio, numa posição semelhante àquela então ocupada por Brian Wilson nos Beach Boys. Para substituí-lo nos palcos foi trazido o velho amigo David Gilmour, agora um experiente guitarrista em Cambridge. O Pink Floyd ainda se apresentou ao vivo como um quinteto e fez algumas gravações neste formato, mas logo, a loucura de Barrett se tornou impossível e ele foi definitivamente expulso da banda.

O Pink Floyd como um quinteto (com David Gilmour abaixo).
O Pink Floyd como um quinteto (com David Gilmour abaixo).

Sair da roda viva do Pink Floyd foi benéfico para o guitarrista e Barrett até enfrentou alguma melhora. Após algum tempo, começou a trabalhar em um disco solo, mas novamente seu comportamento inviabilizou tudo. Num esforço de reparação, Waters e Gilmour assumiram um compromisso com a EMI e se dedicaram a finalizar o disco do ex-líder, lançando no início de 1970 o álbum The Madcap Laugh, que não fez sucesso comercial, mas foi aclamado pela crítica. Barrett até se apresentou ao vivo na rádio BBC e, logo, Gilmour voltou à mesa de produtor para gravar o segundo álbum solo do compositor, chamado apenas Barrett e lançado ainda em 1970, novamente sem sucesso, mas aclamado.

The Madcap Laugh: clássico absoluto.
The Madcap Laugh: clássico absoluto.

Daí para frente, o comportamento de Barrett se tornou cada vez mais excêntrico e impossível de lidar. O músico voltou para Cambridge e tentou montar uma nova banda, chamada All-Star, que promoveu alguns ensaios e até se apresentou ao vivo algumas vezes, culminando com seu último show no Cambridge Corner Exchange, em 1972. O guitarrista ainda tentou gravar um terceiro disco, mas estava tão alterado mentalmente que não foi possível.

Barrett voltou a viver em Londres, pintando constantemente, mas sem nenhuma atividade propriamente dita. No início dos anos 1980, retornou novamente a Cambridge, onde viveu de modo recluso até sua morte vítima de câncer em 2006, aos 59 anos.

Barrett em 1971: loucura e reclusão.
Barrett em 1971: loucura e reclusão.

Sua loucura e reclusão ajudaram Syd Barrett se tornar uma lenda. Um herói caído do rock. Alguém que poderia ter sido, mas não foi. Contudo, sua carreira é brilhante. Suas composições com o Pink Floyd são grandes clássicos da Era Psicodélica, enquanto suas canções da carreira solo (mais afetadas por seu estado mental) são irregulares, mas guardando uma beleza estranha, não convencional e, simplesmente, sensacionais. Seu legado – especialmente a banda que fundou e inspirou – também são enormes, com o músico sendo uma influência marcante para artistas como David Bowie, REM e todo o movimento Punk. O próprio Pink Floyd foi incrivelmente tocado por sua música e biografia, criando vários momentos-homenagem ao seu velho líder, como o álbum Wish You Were Here, as canções Shine on you crazy diamond e Have a cigar, além do conceito do roqueiro louco por trás da ópera-rock The Wall.

A cidade de Cambridge reconhecer essa rica herança musical seria muito bom. É um grande legado. E explorar as raízes do Pink Floyd nesta cidade poderia criar um polo de turismo especializado bastante rentável, como o é aquele dedicado aos Beatles em Liverpool.

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Sem Barrett, o Pink Floyd permaneceu no circuito alternativo por alguns anos, porém, se tornou uma das bandas de maior sucesso do mundo em 1973, com o lançamento do álbum Darkside of the Moon. A carreira de sucesso prosseguiu ao longo dos anos 1970, com discos como Wish You Were Here (1975) e The Wall (1979). Após uma série de brigas e crises, Roger Waters deixou a banda em 1985, mas Gilmour, Wright e Mason continuaram com a banda sem ele até 1996. Depois disso, ocorreram apenas algumas reuniões rápidas e o lançamento do álbum The Endless River, ano passado, formado a partir de sessões de gravação dos anos 1990.

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