Bond e Oberhouser na capa da Empire: outro grande filme de 007.
Bond e Oberhouser na capa da Empire: outro grande filme de 007.

Após o sucesso estrondoso (de público e crítica) de seu antecessor, chegou aos cinemas 007 Contra Spectre, novo filme da série de cinema sobre James Bond, o agente secreto 007, da longeva franquia da EON Productions, levada ao cinema pela MGM Studios e Sony Pictures.

Há uma curiosidade de abordagem no novo filme. O diretor Sam Mendes (de Beleza Americana e Estrada para a Perdição) fez o antecessor, Operação Skyfall, um filme diferente de Bond: mais emocional, mais sério, mais carregado em cima dos personagens do que na ação (embora também tivesse seus momentos de ação desenfreada). Com 007 Contra Spectre, Mendes investiu em um filme de Bond à moda antiga: espalhafatoso, cheio de ação e humor, com um vilão megalomaníaco, um plano diabólico de dominação e ainda mantendo as qualidades emocionais do anterior.

Resultado? Se Spectre não é melhor do que Skyfall, com certeza, é um filme excelente e mais uma bela pérola na carreira do espião que todos adoram odiar.

Daniel Craig novamente entrega um James Bond mais profundo e emocional: tiro certeiro.
Daniel Craig novamente entrega um James Bond mais profundo e emocional: tiro certeiro.

Se a história de Spectre não tem a profundidade do antecessor, compensa isso com um roteiro interessante, cruzando duas tramas paralelas, dando sequência às pontas soltas de filmes anteriores, lidando com questões fundamentais do mundo contemporâneo e, o mais importante, investindo pesado na interpretação dos atores. O filme dá destaque ao rosto dos personagens de modo a captar suas expressões faciais e suas emoções, valendo-se, claro, da tecnologia de imagens de alta definição e da fotografia (voltaremos a ela mais tarde). É preciso elogiar, assim, os atores: Daniel Craig, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Léa Seydoux, Andrew Scott estão muito bem, emprestando profundidade e intensidade aos seus personagens; e até a afetação de Christoph Waltz cai bem à história. É só de lamentar que a participação da belíssima e competente Monica Bellucci seja tão curta, porém, é apenas o caso de uma célebre atriz no papel da típica Bond-girl de transição, aquela que apenas ajuda 007 a seguir de um ponto a outro da trama.

Falando em bond-girls, a Madelaine Swann de Seydoux tem a vantagem de realmente criar uma ligação emocional com Bond, cumprindo um papel raro que poucas de sua categoria conseguiram acessar.

Madelaine Swann: uma bond-girl diferente.
Madelaine Swann: uma bond-girl diferente.

A trama mostra Bond no encalço de um figurão italiano e, a partir dele, a descoberta de uma terrível organização secreta, a SPECTRE, que está por trás de uma série de atentados e um plano de dominação mundial; ao mesmo tempo em que seus colegas do MI-6 (M, Q e Moneypenny) enfrentam a iminência da extinção, quando o Governo Britânico considera encerrar definitivamente o Programa 00, dos agentes com permissão para matar. Na busca pela SPECTRE, Bond termina descobrindo que tem ligações estreitas com o cabeça da organização – que ligação é essa é revelada logo aos poucos minutos do filme – e que muito das tragédias de sua vida estão relacionadas à organização e a Franz Oberhauser, seu líder. Como maneira de chegar até ele, 007 recorre a um de seus antigos oponentes, Sr. White (de Quatum of Solace) e com a ajuda da Dra. Madelaine Swann encontra uma maneira de confrontar diretamente a organização e sua cabeça.

Monica Bellucci: pouco tempo.
Monica Bellucci: pouco tempo.

Spectre segue o padrão de filme de 007, mas novamente, com uma execução primorosa. As cenas de ação são espetaculares! E o confronto com o Oberhauser, carregado de velhos ressentimentos, tem algum “quê” de diferencial. O fato do MI-6 ter que lidar com um novo sistema global de troca de informações digitais pelas nove maiores potências econômicas do mundo (que incluem não somente a Grã-Bretanha, mas países como China e África do Sul, o que revela a inclusão dos BRICS dentro do panorama de defesa) também dá relevância ao filme, ao abordar questões bastante contemporâneas: vale à pena trocar o agente de campo por um drone? O elemento humano pode fazer a diferençar entre não matar e matar? São questões que M coloca a Denbigh, o defensor da mudança dentro do governo britânico.

Ralph Fiennes como M.
Ralph Fiennes como M.

Ao longo do filme, o diretor Sam Mendes também presta uma homenagem à franquia outra vez. Várias referências são feitas aos filmes antigos: o Austin Martin de Goldfinger; o terno branco de Viva e Deixe Morrer; a sequência no trem de Moscou Contra 007; o capanga silencioso Sr. Hinx em homenagem a Objob de Goldfinger; a estação de ski de À Serviço Secreto de Sua Majestade; a base da SPECTRE dentro da cratera de um meteorito, em referência à base no vulcão de Só Se Vive Duas Vezes; a bata chinesa e o gato branco e felpudo do vilão; e muitas outras coisas. Se por um lado isso conquista o coração dos fãs da série, por outro, não empata em nada ao público em geral a curtir o filme e entendê-lo sem problemas.

Por outro lado, ainda, como nenhum outro antes dele, Spectre vale-se mesmo de um filme que se assume como uma sequência. Ao longo da franquia de 007, embora houvesse certa continuidade dentro dos filmes, as referências sempre foram muito indiretas ou discretas. A morte da esposa de Bond em À Serviço Secreto de Sua Majestade (1969), por exemplo, só é referenciada na série duas vezes: em Somente para Seus Olhos (1981) e Permissão para Matar (1989).

Sr. Hinx: silencionso.
Sr. Hinx: silencionso.

Spectre faz diferente: assume-se como sequência. Assim, eventos e personagens de Cassino Royale, Quantum of Solace e Operação Skyfall – todos os filmes da Era Daniel Graig – são referenciados o tempo todo, como Vesper Lynd, a antiga M e os vilões Le Chiffre e Silva, além do já citado Sr. White. Também por isso, 007 Contra Spectre é o fechamento de uma história. Não há mais pontas soltas. Acho que não é um spoiler dizer que o filme poderia funcionar como um encerramento da saga do espião 007. Mas não se preocupe, os créditos no fim não deixam dúvidas: trazem a sempre presente frase “007 Retornará”.

A única desvantagem é que, caso o espectador não tenha assistido ou lembrado dos filmes anteriores, vai sentir falta de algum tipo de conexão emocional que é fundamental à história.

O anel da SPECTRE: ligações com o passado.
O anel da SPECTRE: ligações com o passado.

Mas ainda assim, sobra a emoção construída no próprio filme, que continua o papel de humanização de Bond. Spectre é memorável por mostrar o personagem se questionando sobre sua vida, sobre o serviço secreto e sobre o que mais ele pode fazer. Algo muito simbólico disso é que Spectre é o primeiro, dentre todos os 24 filmes de 007 (!) a mostrar o apartamento do espião! Algo que quase ocorreu em Skyfall e foi inclusive abordado em nossa resenha daquele filme (veja aqui).

Um ponto curioso quanto à Spectre é seu posicionamento dentro da franquia 007. Se Cassino Royale foi uma ruptura com os filmes do passado, na medida em que era um reboot; Skyfall foi uma reconciliação. Se Bond é um jovem agente secreto em Cassino Royale, é um veterano quase em fim de carreira em Skyfall. Este último dava a “impressão” de que entre Quantum of Solace e ele havia se passado toda a franquia de 007. Já Spectre rompe essa ilusão justamente porque traz a SPECTRE, que já foi alvo de vários filmes do passado, especialmente aqueles dos anos 1960.

Oberhouser e Swann: vilão megalomaníaco.
Oberhouser e Swann: vilão megalomaníaco.

Porém, não há como negar: Spectre é uma grande adesão à franquia e um filme de 007 muito bom, com tudo o que se espera dele e muito mais. É esperar que a franquia siga o bom rumo atual e continue trazendo boas películas e mostrando que o “dinossauro misógino” (como lhe chamou M certa vez) de James Bond ainda é relevante ao século XXI.

E isso fica ainda melhor no final, particularmente, no destino que é dado ao vilão principal. Não vamos revelar aqui o conteúdo da cena, porque seria um grande spoiler, mas a história opta por um caminho muito interessante na conclusão da última cena de ação, na ponte de Westminster, em Londres. Numa trama que aborda a democracia, a era da informação e o novo modo de fazer guerra ou combater inimigos na contemporaneidade, o que 007 faz com o vilão no fim tem muito significado. É uma postura rara em Hollywood, mas que o velho espião toma acertadamente, como um recado, uma mensagem, à desordem e ao caos que ameaçam a existência do mundo em que vivemos.

Por fim, cabe o destaque à fotografia de Hoyte Von Hoytema que é muito bonita e enche o filme de tons pasteis e uma tonalidade espetacular, tirando ao máximo a bela visualização de cidades como Cidade do México, Londres, Roma e Tânger, por onde o filme se passa.

007 – Spectre tem história de John Logan, roteiro de Robert Wade e Neal Purvis; e direção de Sam Mendes, o mesmo do anterior Operação Skyfall. O elenco traz Daniel Craig (James Bond), Christoph Waltz (Franz Oberhauser), Ralph Fiennes (M), Monica Bellucci (Lucia Sciarra), Naomie Harris (Moneypenny), Ben Whishaw (Q), Léa Seydoux (Madelaine Swann), Andrew Scott (Denbigh), Dave Bautista (Sr. Hinx) e Rory Kinnear. As filmagens passaram por Londres, Cidade do México, Roma, Tânger, Efourd, no Marrocos, e na Áustria. A estreia foi em 06 de novembro de 2015.

James Bond, o 007, foi criado pelo escritor escocês Ian Fleming em 1953 como personagem de um romance de espionagem. Com o estrondoso sucesso, o autor produziu vários livros e o espião chegou aos cinemas pela primeira vez em 1962, fundando a mais longeva e bem-sucedida franquia do cinema em todos os tempos.

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