O The Who em 1970.
O The Who em 1970.

A banda britânica The Who irá lançar em breve uma versão orquestrada de sua obra mais famosa: a ópera rock Tommy, originalmente lançada como um álbum duplo em 1969. A nova versão é fruto de uma apresentação da banda em conjunto com a London Symphony Orchestra no Rainbow Theater, em Londres, em 1972.

Embora tenha sido um dos símbolos de sua geração, representante icônico da Invasão Britânica e a primeira banda de rock a destruir seus instrumentos no palco, o sucesso explosivo do The Who com seu terceiro single, My generation, de 1965, não se manteve pelos anos seguintes, de modo que o grupo corria o sério risco de entrar para história como uma banda de momento ou pior: um one hit wonder! E para tornar tudo mais terrível, nem mesmo My generation conseguiu penetrar no mais resistente mercado dos EUA, de modo que, mesmo que fossem uma banda conhecida na Grã-Bretanha, em meados dos anos 1960, eram semidesconhecidos para o restante do mundo, ou pelo menos, uma mera curiosidade.

A capa do álbum Tommy, de 1969.
A capa do álbum Tommy, de 1969.

Tudo isso mudou em 1969 com o lançamento de Tommy. O álbum foi um sucesso estrondoso no mundo todo, a banda firmou os dois pés na história do rock e até permitiu ao grande público olhar para trás e descobrir a riqueza do catálogo do grupo que, até ali, já tinha lançado outros quatro álbuns (My Generation,  A Quick One, Sell Out e Magic Bus, de 1965, 66, 67 e 68, respectivamente) e uma dezena de singles (dentre os quais, destaque para I can explain, Substitute, Happy Jack, I’m a boy, Pictures of Lilly e I can see for miles).

The Who ao vivo em 1969.
The Who ao vivo em 1969.

Tommy é uma ópera, ou seja, o disco inteiro narra uma história com começo, meio e fim, através das canções, embora repleta de passagens enigmáticas. A trama é típica da ousadia de seu criador: o compositor e guitarrista Pete Townshend, famoso por suas letras que quebram os padrões e falam sobre coisas que a maioria compositores não querem (ou não ousam) falar.

A história é a seguinte: como muitos de sua geração, o pequeno Tommy Walker vê seu pai partir para a guerra, mas sua mãe não fica sozinha e arranja um amante. Quando seu pai retorna do conflito, a mãe e o amante decidem matá-lo, mas o pequeno Tommy vê tudo! Como resultado, ele desenvolve um trauma no qual se torna incapaz de falar, ouvir e enxergar, ficando em estado catatônico. A medicina não consegue curá-lo, ao mesmo tempo em que o garoto é hostilizado por todos, inclusive, seu tio e seu primo chegam a molestá-lo (!!!!!), e sua mãe chega a levá-lo até em uma bruxa cigana.

Mesmo com sua condição, contudo, Tommy descobre o fliperama e, por mais improvável que seja, termina se tornando um hábil jogador e se torna campeão. Isso o transforma em uma celebridade e objeto de um culto. Um ousado médico, usando técnicas não-ortodoxas consegue curá-lo e o a cura é interpretada como milagre, o que só aumenta o culto a Tommy, que vira um tipo de messias. A família dele decide lucrar em cima disso e criam uma igreja e um campo de férias para explorar os fiéis, que se sentem traídos, e terminam se rebelando e matando todos!!!!!

Não fica claro, por causa da narrativa poética, se Tommy também é morto ou fica sozinho clamando por ajuda no final.

O sucesso de Tommy veio bem a tempo da banda ser um dos grandes destaques do Festival de Woodstock, naquele mesmo ano, e embarcar em uma longa turnê na qual apresentavam a ópera na íntegra. O clássico álbum ao vivo do grupo – Live at Leeds, de 1970 – foi gravado nesse período e sua versão estendida também traz a ópera completa.

O LP com a versão orquestrada dos anos 1970.
O LP com a versão orquestrada dos anos 1970.

A apresentação com a London Symphony Orchestra e a The Chamber Choir se deu em 09 de dezembro de 1972 e, além do próprio The Who, contou com participações de Steve Winwood (Traffic, Blind Faith), Richie Havens e Ringo Star (Beatles). A gravação foi produzida pelo famoso produtor dos anos 1960 Lou Adler.

E esta nem foi a única adaptação de Tommy a outro formato. A ópera rock ainda foi adaptado ao cinema em 1975, pelo diretor Ken Russell, como um musical protagonizado pelo vocalista Roger Daltrey e participações dos outros membros do The Who, além de participações de Eric Clapton, Elton John, Tina Turner, Ann Margaret e o ator Jack Nicholson. O The Who fez uma turnê de retorno em 1989 e, para celebrar os 20 anos da obra, também a apresentou na íntegra na excursão. Em 1995, Tommy virou um musical da Broadway e também já entrou em cartaz no riquíssimo circuito de teatros de Londres.

A versão orquestral de Tommy chegou a ser lançada em disco nos anos 1970, mas está à décadas fora de catálogo. A nova edição, remasterizada, será lançada em CD, vinil e para download em 11 de setembro próximo.

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O The Who surgiu na periferia de Londres, formado pela união de Pete Townshend (guitarra), Roger Daltrey (vocais), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria). Após algumas tentativas frustradas, a banda alçou o sucesso em 1965, com canções como I can’t explain e My generation. O grupo foi um dos mais importantes dos anos 1960, atingindo seu melhor momento comercial em 1969, com a ópera-rock Tommy, tocando em seguida no Festival de Woodstock. Diminuindo a popularidade ao longo dos anos 1970, veio a morte do baterista Keith Moon, em 1978, por causa de uma overdose de medicamentos. O grupo lançou seu último álbum em 1982, encerrando as atividades oficialmente. Contudo, continuaram a se reunir ocasionalmente para shows e turnês. O baixista John Entwistle morreu de um ataque cardíaco ocasionado pelo uso de cocaína em 2002, mas a dupla remanescente Daltrey e Townshend lançou o álbum Endless Wire (o primeiro desde 1982!) em 2005. Permanecem fazendo shows constantemente.

Em 2014, o grupo iniciou uma turnê comemorativa de seus 50 anos e lançando uma coletânea chamada The Who Hit’s 50.

 

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