Quarteto Fantástico: não é tão ruim quanto pintam...
Quarteto Fantástico: não é tão ruim quanto pintam…

Finalmente, depois de muita conversa, boatos de problemas nos bastidores e expectativa fria, estreou Quarteto Fantástico, filme sobre o mais antigo supergrupo de heróis da Marvel Comics, levado aos cinemas pela 20th Century Fox. E o que achamos do filme?

Bem, Quarteto Fantástico não é… fantástico. Não é um grande filme. Mas também não é a coisa totalmente horrível que as críticas vêm plantando nos últimos dias, especialmente nos EUA. Lá, o filme foi completamente destruído. Nossa impressão não é tanto nesse sentido, embora com algumas ressalvas.

Nas histórias do Quarteto Fantástico, Kirby fez experimentações com fotografias e efeitos gráficos que combinavam o clima psicodélico dos anos 1960.
Nas histórias do Quarteto Fantástico, Kirby fez experimentações com fotografias e efeitos gráficos que combinavam o clima psicodélico dos anos 1960.

Quarteto Fantástico tem um desafio enorme: adaptar personagens extremamente difíceis de transportar de sua mídia (e contexto) originais. Eles não são heróis no senso comum do termo, não combatem criminosos, são aventureiros que viajam a outras dimensões, conhecem novos planetas ou descobrem civilizações e monstros ocultos vivendo na própria Terra. E são uma família: um casal, o irmão dela e o amigo de infância dele. Depois, chegam filhos e agregados; amigos. Funcionou uma maravilha no contexto de Guerra Fria e corrida espacial dos anos 1960, com toda aquela abordagem dramática, tensa e psicológica de Stan Lee e o visual arrojado, exagerado, psicodélico, tenso e brutal de Jack Kirby nas 102 edições de Fantastic Four que produziram entre 1961 e 1970.

Mas passado isso, sempre foi muito difícil fazê-los funcionar e apenas alguns artistas conseguiram, como John ByrneWalt Simonson ou Mark Waid.

A versão anterior era muito pior. Muito pior!
A versão anterior era muito pior. Muito pior!

Em filme a coisa fica ainda pior: pois não são HQs.

Mas de qualquer modo, o Quarteto Fantástico de Josh Trank é sim melhor do que o de Tim Story, que realizou os dois filmes de 2005 e 2007, que foram recebidos com frieza por público e crítica. A história de Trank é melhor, o modo como ganham os poderes é mais convincente e o tom do filme (que foge do humorzinho cretino dos antigos) cai melhor: melhor ser sério e dark do que ficar fazendo gracinha sem graça, não é?

O grupo reunido no novo filme.
O grupo reunido no novo filme.

O que o filme tem de positivo?

A história é simples. Reed Richards é um jovem genial e, trabalhando sozinho, no colégio (!), consegue descobrir como teleportar pequenos objetos; assim, termina contratado pela Baxter Foundation, comandada por Franklin Storm, que é uma fundação-universidade que está pesquisando justamente esse campo. Os esforços tinham sido frustrados até então, e o principal cientista do projeto, Victor Von Doom (da Latvéria!), um jovem rebelde, arrogante e raivoso, se desligou num surto de violência. Mas a chegada de Richards reativa tudo e Victor é trazido de volta para que possam viabilizar o experimento. Até o filho de Franklin Richards, o (engenheiro?) mecânico Johnny – que andava perdido, gastando seu tempo com pegas ilegais nas ruas – é adicionado ao plano. Reúne-se à irmã adotiva, Sue Storm, que é uma analista de dados, que encontra padrões, que diz em algum momento que nasceu em Kosovo, e foi adotada por Franklin.

A coisa que mais pesa contra essa história é a inclusão de Ben Grimm no acidente, que não tem sentido nenhum e é a coisa mais forçada de todo o filme.

Michael B. Jordan, o Johnny Storm.
Michael B. Jordan, o Johnny Storm.

O experimento dá certo, mas no afã de serem donos da própria tecnologia e ganharem os frutos do reconhecimento (e fama) decorrentes, os jovens impulsivos não resistem a serem os primeiros seres humanos a cruzarem o portal dimensional. Até dá certo, mas no afã de ir mais longe, aí sim, dá tudo errado. O resultado, todo mundo sabe: superpoderes incríveis e terríveis para eles.

Não é uma má adaptação da origem do Quarteto. Os problemas são, justamente os desenvolvimentos disso.

Quais são os problemas?

A cena do acidente.
A cena do acidente.

Todo filme de origem é complicado, pois é preciso tempo demais para explicar como as coisas acontecem, quando o público quer ver o que acontece depois que as coisas acontecem, entendem? A origem do Quarteto toma o filme praticamente inteiro! Mas por outro lado, o melhor do filme é justamente o enorme primeiro ato que conta o processo de como os cinco jovens (o grupo mais Von Doom) conseguem seus poderes. Se você quer mais do que ação desenfreada e quer uma história contada, essa primeira longa parte lhe dá isso. E dá até bem.

Depois do acidente, as coisas desandam um pouco. O filme tem um segundo ato minúsculo, que mostra como o grupo lida com os seus poderes recém-ganhos, mas num daqueles recursos “um ano depois…”. Mesmo assim, há alguns elementos inovadores em como isso acontece, que não iremos contar para não cairmos em spoilers. Nada que fosse estragar sua vida se eu contasse, mas vamos respeitar o desenvolvimento da história para quem assiste.

Um bom elenco, mas com pouco espaço.
Um bom elenco, mas com pouco espaço.

O terceiro ato também não é muito longo e traz, claro, a batalha final do Quarteto contra o Dr. Destino – que obviamente, em nenhum momento usa esse nome.

O curioso é que Quarteto Fantástico é um filme curto, com pouco mais do que 90 minutos, mas parece que o estúdio optou por não mostrar mais, criando uma estrutura cinematográfica não usual de um filme de primeiro ato longo e dois outros atos curtos.

Detalhe do rosto do Coisa.
Detalhe do rosto do Coisa.

A crítica reclamou dos efeitos especiais, mas eles não são tão ruins. Representar o Coisa de modo convincente é mais difícil do que ao Hulk, por exemplo. E claro que o personagem passa a impressão de algo irreal ao telespectador. Mas de que outro modo isso pode ser feito? A versão anterior optou por uma caracterização física (uma roupa de borracha) e também não funcionou. Os demais estão ok: não tem como o Tocha Humana não ter ar cartunesco quando está coberto de chamas e nem sequer se pode ver seu rosto. O que fazer? Desenhar um rosto lá? Ia ficar pior. (Na verdade, em termos de efeitos, o que me incomodou mais foi a peruca feia da Kate Mara).

De positivo, finalmente, os poderes de Reed Richards tem alguma utilidade, já que o feito mais impressionante que ele realizou nos filmes de Tim Story foi passar seu braço por baixo de uma porta e buscar um papel higiênico do outro lado do corredor. Sem brincadeira! Agora, não. O Reed Richards de Milles Teller entra em batalha e mostra como seus poderes podem ser úteis, inclusive, contra alguém poderoso como Von Doom.

Em chamas!
Em chamas!

Então, o que incomoda mesmo no filme é o pouco desenvolvimento após o acidente. As relações do grupo podiam ser melhor desenvolvidas. A relação entre Johnny e Sue, por exemplo, é muito pouco explorada. Os dois interagem pouquíssimo, quase que não conversam o filme inteiro, sendo a  relação mais marcante entre eles um “é bom te ver também” dito por ele. Há uma cena curta em que Franklin Richards diz para Sue que para Johnny “tudo sempre foi mais difícil”, o que expõe a complexidade da situação: uma família de negros ricos adotando uma garota branca e loira da Europa Oriental. Mas não há mais.

A relação entre Reed e Sue é apenas sugerida, marcando um passo pequeno para o que poderão ter no futuro. O filme ainda arrisca uma “pontinha” entre Victor e Sue, mas para o bem do telespectador, é algo discreto e apenas sugerido.

Milles Teller é o grande destaque e o protagonista absoluto.
Milles Teller é o grande destaque e o protagonista absoluto.

Milles Teller, que já mostrou seu talento em alguns outros filmes (notavelmente em Whiplash) não é o tipo de ator com muita expressão facial, mas consegue imprimir emoções e certa corporalidade e termina sendo o grande destaque do elenco. Michael B. Jordan é um bom ator comprovado, mas não tem muito o que fazer com seu Johnny Storm no filme. Jaime Bell é o mais prejudicado: seu Ben Grimm não tem o que fazer antes do acidente e, após o evento, está coberto por uma armadura de pedras laranjas.

Dr. Destino: nada como nas HQs.
Dr. Destino: nada como nas HQs.

Tobby Kebbell está ótimo como Victor Von Doom antes do acidente. Mas depois… A caracterização do vilão é justamente o ponto mais fraco do filme. Bom, pelo menos para os fãs de quadrinhos. Stan Lee e Jack Kirby criaram o Dr. Destino como um dos maiores vilões da Marvel Comics e a editora o manteve assim ao longo dos anos. No filme, ele se reduz a um cara completamente enlouquecido, que quer destruir a Terra como num filme de matinê nos anos 1960. Simples assim. E ele pode!!!!!!

Todavia, no cômputo final, Quarteto Fantástico se salva. 

Sue Storm no modo visível.
Sue Storm no modo visível.

Não é um filme bom como X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido (para citar um exemplo da Fox) e está longe daquela qualidade Marvel de Homem-Formiga; mas também não é tipicamente um filme da Fox, como as versões anteriores do Quarteto ou os filmes do Demolidor e Motoqueiro Fantasma.

Quarteto Fantástico acerta ao dar um tom sério ao filme e aos personagens, a lhes proporcionar algum peso e profundidade (com um elenco muito mais convivente do que a horrível reunião de 2005 e 2007) e deixa alguns elementos de potencial a ser explorado.

Fico me perguntando se grande parte do peso negativo da crítica é o fato de não ser um filme de ação, como vêm sendo a maioria dos filmes de super-heróis dos últimos tempos. Porque Quarteto Fantástico, definitivamente, não é um filme de ação! É algo a se pensar.

Seu desafio vai ser romper a barreira da crítica impiedosa e cativar o grande público. Somente assim, a Fox irá realizar seus planos de dar prosseguimento à franquia e reuni-los aos X-Men em um crossover ali por 2018.

Quarteto Fantástico é dirigido por Josh Trank (de Poder Sem Limites). O roteiro é de Simon Kinberg (o mesmo da franquia dos filmes dos X-Men) e Josh TrankA produção-executiva é de Matthew Vaughn (de X-Men – Primeira Classe). O elenco traz: Milles Teller (Reed Richards/ Sr. Fantástico), Kate Mara (Susan Storm/ Mulher-Invisível), Michael B. Jordan (Johnny Storm/ Tocha Humana), Jaime Bell (Ben Grimm/ O Coisa) e Tobby Kebbell (Victor Von Doom/ Dr. Destino). O lançamento foi em 06 de agosto de 2015, no Brasil, um dia antes dos EUA.

O Quarteto Fantástico foi criado por Stan Lee e Jack Kirby em Fantastic Four 01, de 1961, dando início à era moderna da Marvel Comics. Por isso, a equipe é apelidada de “a primeira família”. Maior sucesso dos anos iniciais da década de 1960, o grupo perdeu importância nas últimas décadas para outros – como Homem-Aranha, Vingadores, X-Men etc. – mas continua sendo uma parte essencial do Universo Marvel.

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