Roger Waters: apelo aos músicos brasileiros.
Roger Waters: apelo aos músicos brasileiros.

Uma notícia de surpresa ocorreu esta semana. O cantor e compositor britânico Roger Waters, ex-líder da lendária banda Pink Floyd, uma das mais importantes da história do rock, veio a público com uma carta que escreveu aos músicos brasileiros Caetano Veloso e Gilberto Gil, solicitando que a dupla, famosa internacionalmente pelo movimento da Tropicália – em certo sentido, uma resposta tupiniquim à psicodelia que bandas como o Pink Floyd desenvolviam na Europa – mudasse seus planos e não se apresentasse em Israel.

Waters é um daqueles roqueiros engajados e, atualmente, tem lançado suas preocupações para a Palestina e a situação de seu povo. O músico comanda um movimento de boicote não-violento à Israel, num sentido parecido com aquele movido nos anos 1980 contra o aparthaid na África do Sul.

Gil e Caetano farão em breve uma grande turnê internacional e tocarão em Tel AViv, em Israel, no dia 28 de julho próximo.

A carta de Waters em si já diz muito. Veja a íntegra abaixo, conforme publicado na Folha de São Paulo:

Gilberto Gil e Caetano Veloso: show em Israel.
Gilberto Gil e Caetano Veloso: show em Israel.

Caros Caetano e Gilberto,

Quando olho para suas fotos, escuto suas músicas, leio a história de suas lutas pessoais e profissionais, lembro de todas as lutas de todos os povos que resistiram a um domínio imperial, militar e colonial através do milênio, que lutaram pelos aprisionados e pelos mortos. Nunca foi fácil, mas sempre foi certo.

Em uma de suas músicas, Gil, você menciona o arcebispo Desmond Tutu. Eu não falo português, mas assumo que vocês dois aplaudam a resistência do arcebispo Tutu ao racismo e ao apartheid que acabaram derrubados na África do Sul. Eram dias impetuosos, quando a comunidade mundial de artistas estava lado a lado com seus irmãos e irmãs oprimidos na África. Nós, os músicos, lideramos o levante naquele momento, em apoio a Nelson Mandela, a ANC, ao povo africano oprimido e a todos os aprisionados e mortos.

Estamos diante de uma oportunidade igualmente significativa agora. Estamos em um ponto culminante. Aqueles de nós que estamos convencidos que o direito a uma vida humana decente e à autodeterminação política devem ser universais estamos, em consonância com 139 nações da Assembleia Geral da ONU, focados na Palestina.

Após o ataque brutal de Israel à população palestina de Gaza, no último verão, a opinião pública, acertadamente, pendeu a favor das vítimas, a favor dos oprimidos e dos sem privilégios, a favor dos aprisionados e mortos.

O primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, com seu governo de extrema-direita, lembra-me da história da “Nova roupa do imperador”; com certeza nunca houve um gabinete mais exposto em sua calúnia como este. Eles se condenam mais a cada fôlego, a cada discurso racista. “Olha, mamãe, o imperador está nu!”

Obras como The Wall mostram o engajamento de Roger Waters.
Obras como The Wall mostram o engajamento de Roger Waters.

Tive a oportunidade, recentemente, de escrever uma carta a um jovem artista inglês, Robbie Williams; eu compartilhei com ele o destino de quatro jovens palestinos que jogavam futebol numa praia de Gaza, mortos por artilharia israelense. Por que eu traria à tona uma praia e futebol? Por quê? Porque eu amo o Brasil, eu tenho a praia de Ipanema nos olhos da minha mente; eu lembro de shows que fiz em São Paulo, Porto Alegre, Manaus e Rio. Como poderia esquecê-los? Eu tenho uma camiseta de futebol, assinada: ‘para Roger, de seu fã Pelé’.

Quando estive aí pela última vez, uma criança inocente tinha acabado de ser morta, arrastada por um carro dirigido por criminosos que escapavam da cena do crime. O remorso nacional era palpável, era todo abrangente, vocês, todos vocês, importavam-se com aquela pobre criança. De tantas maneiras, vocês são um foco de luz para o resto do mundo.

Como vocês sabem, artistas internacionais preocupados com direitos humanos na África do Sul do apartheid se recusaram a atravessar a linha de piquete para tocar em Sun City. Naqueles dias, Little Steven, Bruce Springsteen e cinquenta ou mais músicos protestaram contra a opressão cruel e racista dos nativos da África do Sul.

Caetano e Gil nos anos 1970: Tropicália.
Caetano e Gil nos anos 1970: Tropicália.

Aqueles artistas ajudaram a ganhar aquela batalha, e nós, do movimento não-violento de Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS) pela liberdade, justiça e igualdade dos palestinos, vamos ganhar esta contra as políticas similarmente racistas e colonialistas do governo de ocupação de Israel. Vamos continuar a pressionar adiante, a favor de direitos iguais para todos os povos da Terra Santa. Do mesmo modo que músicos não iam tocar em Sun City, cada vez mais não vamos tocar em Tel Aviv. Não há lugar hoje no mundo para outro regime racista de apartheid.

Quando tudo isso acabar, nós iremos à Terra Santa, cantaremos nossas músicas de amor e solidariedade, olharemos as estrelas através das folhas das oliveiras, sentiremos o cheiro da madeira queimando das fogueiras de nossos anfitriões, estimaremos essa lendária hospitalidade.

Mas, até que isso termine, até que todos os povos sejam livres, nós vamos fincar nosso emblema na areia, há uma linha que não cruzaremos, nós não vamos entreter as cortes do rei tirano.

Caros Gilberto e Caetano, os aprisionados e os mortos estendem as mãos. Por favor, unam-se a nós cancelando seu show em Israel.

As assessorias de Gil e Caetano responderam que o concerto está mantido e será realizado.

Roger Waters foi o grande mentor do Pink Floyd. Aqui em 1971.
Roger Waters foi o grande mentor do Pink Floyd. Aqui em 1971, no Live at Pompeii.

Roger Waters sempre foi um ativista político, algo que expressou à profusão em suas letras no Pink Floyd e na sua carreira solo.

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George Roger Waters nasceu em Surrey na Inglaterra, em 1943, mas viveu toda a infância e juventude em Cambridge, onde conheceu o guitarrista e cantor Syd Barrett. Após ambos mudarem para Londres – onde Barrett estudou arte e Waters arquitetura – se reencontraram e fundaram o Pink Floyd em 1965. A banda se consolidou com a dupla mais Nick Mason na bateria e Richard Wright nos teclados e, após dois anos, se tornou a febre do movimento alternativo de Londres e marco maior do movimento psicodélico. A estreia fonográfica veio em 1967 com sucesso, mas Syd Barrett foi afastado da banda por sérios problemas mentais relacionados ao abuso no uso de drogas. Foi substituído por David Gilmour, em 1968, amigo dele e de Waters também de Cambridge.

Sem Barrett, Roger Waters se consolidou como o líder inconteste do Pink Floyd, além de seu principal compositor,mesmo que os vocais fossem realizados em sua maioria por David Gilmour. Permanecendo no circuito alternativo por alguns anos, o Pink Floyd se tornou uma das bandas de maior sucesso do mundo em 1973, com o lançamento do álbum Darkside of the Moon. A carreira de sucesso prosseguiu ao longo dos anos 1970, com discos como Wish You Were Here (1975) eThe Wall (1979). Após uma série de brigas e crises, Roger Waters deixou a banda em 1985, mas Gilmour, Wright e Mason continuaram com a banda até 1996.

Roger Waters fez uma carreira solo com pouco sucesso, mas aclamada pela crítica em discos como The Pros and Cons of Hitching Hiking (1984), Radio KAOS (1987) e Amused to Death(1992), além da ópera Ça Ira (2005).

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