Era de Ultron:
Era de Ultron:

Após uma grande expectativa, chegou aos cinemas brasileiros Vingadores – Era de Ultron, a sequência de Os Vingadores, o épico do Marvel Studios que reuniu nos cinemas pela primeira vez a equipe de super-heróis da Marvel Comics formada por Capitão América, Thor, Homem de Ferro e Hulk. E o que podemos dizer do filme? O HQRock traz aqui sua resenha sobre a sequência da terceira maior bilheteria da história. Vamos lá!

Bem, se você quer ver os Vingadores em ação, agindo como um time, coordenando suas ações, se preocupando com os civis e coreografando sequências espetaculares de ação, este é o seu filme. Era de Ultron é um filmaço de ação, daqueles que (quase) não pára um segundo, com frenéticas situações se sucedendo de modo praticamente ininterrupto.

Ação sim. Muita ação!
Ação sim. Muita ação!

Contudo, isso tem um preço. Do mesmo modo que Superman – O Homem de Aço, o excesso de lutas termina por anestesiar o espectador e – se empolga o pré-adolescente carregado de adrenalina – diminui a empatia do público geral com os personagens. Estes deixam de ser “pessoas” (ou deuses e monstros) para se tornarem peões em movimento constante, aos quais é interessante acompanhar, mas que ninguém sente falta quando caem. E eles caem!

Quando você tem um elenco de 10 personagens relevantes – veja o banner lá em cima – e mais outros cinco coadjuvantes importantes, fica muito difícil, muito difícil mesmo, coordenar a dinâmica empatia-interesse do telespectador. Desde que o filme foi anunciado, minha preocupação sempre foi uma só: como vão equilibrar tantos personagens? Além dos seis Vingadores originais, ainda são incluídos outros três neste filme! Todos importantes à trama! O resultado? É a resposta para a pergunta: não é possível. 

O diretor Joss Whedon.
O diretor Joss Whedon.

O diretor-roteirista Joss Whedon é hábil em dividir tempo de tela e dar momentos importantes e de destaque a cada um de seus personagens. Os Vingadores exibiu isso à perfeição. Todos têm seu momento “uau”, todos têm motivações claras, todos têm algo a dizer e a fazer naquele primeiro filme. E em Era de Ultron? A resposta é “também”. Entretanto, dessa vez são mais personagens e o tempo não é o suficiente. Não basta.

Assim, cada personagem tem seu pequeno arco de história, tem seus dilemas e tem o seu momento “uau” – na verdade, a maioria deles tem vários momentos “uau” – só que isso não satisfaz o telespectador que se interessa por personagens, por caráter, por “gente” (ou deuses e monstros). Assim, quem assiste tem aquela sensação de anestesia e, mesmo que se empolgue com a ação, se envolve pouco com os personagens. Isso tem um custo emocional enorme. E também se reflete na saída do cinema, com a sensação que o filme deixa após acenderem as luzes.

Os Vingadores prontos à luta.
Os Vingadores prontos à luta.

Por exemplo, confirmando os rumores, há sim uma morte no filme. Uma morte que deveria ser importante. (E apesar das primeiras críticas dizerem que essa morte serve ao filme e à história, isso não é verdade. A morte é desnecessária e não acrescenta nada à trama. Nem a situação em que ele ocorre é bem resolvida, já que qualquer um pensa em duas ou três alternativas ao desfecho tendo em vista quem está envolvido). Agora, como essa morte pode ser importante quando o personagem em questão – que deveria ser importante – tem talvez uns 12 minutos de tempo de tela no filme inteiro e, portanto, não tem tempo de se desenvolver, de mostrar sua personalidade, e mais importante, de dar ao espectador a oportunidade de se importar com ele. Não, não há tempo para isso. Sua morte é vazia, desnecessária e desimportante.

Capitão América é o líder nato no filme.
Capitão América é o líder nato no filme.

Joss Whedon é hábil em usar diálogos rápidos para exibir a personalidade de seus personagens e suas motivações. Isso funcionou maravilhosamente em Os Vingadores, mas naquele filme todos os apresentados – à exceção do Gavião Arqueiro – tinham sido exibidos anteriormente em outros filmes. Grande parte da audiência conhecia todos ou pelo menos alguns deles, de modo que, mesmo pegando o carro andando, podia entendê-los e criar empatia com eles. Agora temos mais três personagens totalmente novos, e mais o vilão totalmente novo, e não há referências a captar. O truque não funciona. 

Ultron: vilão psicótico.
Ultron: vilão psicótico.

Em termos de esquema, Era de Ultron repete mais ou menos a mesma estrutura de Os Vingadores, com a diferença de os Vingadores estarem unidos desde o princípio, o que é uma grande vantagem. Mas o filme não dá espaço para que os personagens conversem, que interajam de modo profundo, que mostrem quem são. A ação e a quantidade de personagens tiram o tempo de tudo. Os Vingadores tinha cenas tensas de conversas entre os membros, de reflexões de como parar o vilão Loki ou de tentar entender o que eles estava fazendo. Havia ação distribuída no filme inteiro, mas entre ela, momentos para respirar, desenvolver os personagens e colocá-los para pensar. Dessa vez não. Não dá tempo, é gente demais, é ação demais.

Os gêmeos: potencial desperdiçado.
Os gêmeos: potencial desperdiçado.

Os gêmeos Wanda e Pietro Maximoff – Feiticeira Escarlate e Mercúrio nos quadrinhos – são peças fundamentais na trama, mas não têm tempo de serem desenvolvidos. Eles até aparecem muito, mas têm poucas falas e pouco espaço. Mercúrio é subutilizado o filme inteiro e seu poder de supervelocidade parece só ter uma única finalidade: salvar inocentes e transeuntes (depois que eles mudam de lado e deixam de seguir Ultron para se unir aos Vingadores). É impossível não pensar na outra versão de Mercúrio, que aparece em X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido (que não é do Marvel Studios, mas da 20th Century Fox), que aparece praticamente em uma única sequência do filme e rouba a cena com uma elaborada ação em supervelocidade, na cena mais bonita daquele filme. Nada parecido com o Mercúrio de Era de Ultron.

Viúva Negra: drama pessoal.
Viúva Negra: drama pessoal.

A trama de Era de Ultron é interessante. O desenvolvimento de uma Inteligência Artificial que chega à conclusão que a única saída é o extermínio da humanidade. E tudo isso surge por um erro de Tony Stark e Bruce Banner (e o filme meio que inocenta este último, mesmo sendo ele cúmplice desde o princípio). Esta I.A. – sim é o Ultron – logo arranja um corpo para si e sai em busca do seu plano, que consiste em usar o vibranium (um metal praticamente indestrutível, não natural da Terra, mas que chegou até aqui por meio de um meteoro) de uma forma que os humanos jamais sequer cogitaram.

Visão: grata surpresa.
Visão: grata surpresa.

Contudo, de novo, tudo ocorre rápido demais. Com 15 minutos de filme, Ultron já é uma ameaça em nível global ao qual os Vingadores caçam mundo à fora. E ele só é mencionado pela primeira vez com uns 10 minutos de filme!

Era de Ultron tem alguns acertos. Ainda mais do que o primeiro, a sequência coloca o panorama geral em que o Marvel Studios está inserido: uma trama cósmica geral em torno das Joias do Infinito. Uma delas – a Joia da Mente – é um dos focos da trama, que exibe a pequenez dos humanos em sequer entender o que ela é. Thor é o elemento fundamental dessa história, afinal, ele vem de outro mundo e enxerga a perspectiva maior. Ele inclusive cita que quatro das seis Joias do Infinito apareceram nos últimos anos – e como ela sabe da quarta, aquele orbe que está em Guardiões da Galáxia, não é explicado… – e que isso não deve ser coincidência.

Hulk versus Hulkbuster.
Hulk versus Hulkbuster.

Curiosamente, o filme explora como os Vingadores terráqueos não conseguem captar a grandeza da coisa. Tanto o Capitão América quanto o Homem de Ferro só conseguem pensar em um modo de se defender quando uma invasão alien ocorrer de novo, mas com o primeiro disposto a pensar que eles vão simplesmente morrer!

As tramas particulares de cada vingador são interessantes, ainda que nenhuma dela seja bem resolvida ou desenvolvida de modo profundo. O Gavião Arqueiro é a grande surpresa, com uma exibição maior de quem ele é e o que faz. Conhecemos mais dele. Bem mais. Como os trailers já mostraram, há um relacionamento entre Bruce Banner e Viúva Negra, que se conectam depois dos eventos do filme anterior. Thor faz a ponte entre a Terra e o cosmos.

O Capitão América encontra seu lugar no presente e começa a se sentir confortável em sua nova condição. E o Homem de Ferro está cada vez mais paranoico e extremista, desenvolvendo as ações que resultaram de Homem de Ferro 3.

Até o Hulk tem dilemas!
Até o Hulk tem dilemas!

O Visão é outra grande surpresa e ele aparece de um modo muito poético no filme, exibindo grande potencial para outro filme (ou para este mesmo, se tivesse mais espaço).

A dinâmica entre alguns personagens também é legal: a amizade e cumplicidade que existe entre o Capitão América e a Viúva Negra, assim como desta com o Gavião Arqueiro. O lado “irmãos de armas” entre o Capitão e Thor, que lutam unidos o tempo inteiro. A dinâmica “irmãos de ciência” entre Stark e Banner etc.

As interpretações dos atores estão muito boas. Parece que cada um se apega ao seu pouco tempo de filme para trabalhar bem, mas como as tramas pessoais são muito pequenas dentro do escopo maior, não há muito o que fazer.

Capitão América e Thor: irmão em armas.
Capitão América e Thor: irmão em armas.

Em termos de ação, Era de Ultron é sensacional, principalmente em seus primeiros 2/3. A abertura com os Vingadores combatendo a HIDRA na floresta é muito legal, assim como a sequência de perseguição na Coreia do Sul entre o Capitão América, Viúva Negra e Gavião Arqueiro, bem no momento da virada dos gêmeos Maximoff. Os fãs irão se deleitar, também, com a batalha Hulk versus Hulkbuster.

A ação final é ainda mais espetaculosa do que a do primeiro filme. O risco envolvido parece ainda mais impossível! E talvez pareça impossível demais. Na presa do filme, não fica muito claro o que está acontecendo e, mais ainda, como é que aquilo está acontecendo. Mas a mensagem que Era de Ultron passa é: quem se importa, se podemos ver os Vingadores metendo a porrada em um monte de robôs?

Stark: ainda mais paranóico.
Stark: ainda mais paranóico.

Era de Ultron precisaria de umas 4 horas de duração para equilibrar seu imenso elenco e suas inúmeras tramas paralelas e o filme não tem isso. Talvez exista esse corte, lá nas primeiras edições do diretor, que um dia podem ser lançadas em DVD como “Edição do Diretor”. Mas da maneira como foi lançado, não há tempo para empatia a personagens. Apenas curtir a ação.

Assim, a experiência de assisti-lo envolve bastante expectativa e interesse. O que você quer ver? Se quer ação desenfreada, terá e sairá feliz. Se quer ver personagens e drama, não ficará satisfeito.

Gavião Arqueiro: mais espaço.
Gavião Arqueiro: mais espaço.

Todavia, suspeito que apostando na primeira, o filme corre o sério risco de desaparecer na consciência do telespectador poucos dias após assisti-lo, como é comum com sequências como Velozes e Furiosos, Transformers ou G.I. Joe. Isso até dá dinheiro, mas não foi sobre isso que o Marvel Studios se construiu até hoje. (Eles sempre apresentaram um produto de ação e super-heróis, mas com qualidade, boas tramas, bons atores, roteiros inteligentes e divertidos).

É isso o que eles querem agora?

PS: Lembre-se, o filme não tem aquela tradicional cena pós-créditos dos outros filmes da Marvel. Há apenas uma cena no meio dos créditos abrindo espaço para o futuro.

***

Gente demais?
Gente demais? Não, tem mais…

Vingadores – Era de Ultron é o fechamento da chamada Fase 2 do Marvel Studios, que se desenvolveu em Homem de Ferro 3, Thor – O Mundo Sombrio, Capitão América – O Soldado Invernal e Guardiões da Galáxia. O filme envolve a ameaça da inteligência artificial Ultron, que constrói para si um corpo robótico indestrutível e quer eliminar a humanidade.  No filme, ele cria um exército de drones para auxiliá-lo. A trama envolve a dificuldade dos Vingadores existirem como equipe, que é potencializada pela chegada dos irmãos Feiticeira Escarlate e Mercúrio, que no início são opositores ao grupo. O andróide Visão também é introduzido, um ser artificial que se alia à equipe. Além de Ultron, também está presente a organização terrorista HIDRA e seu líder, o Barão Von Strucker. O supervilão Thanos, que apareceu brevemente no primeiro filme, também deve aparecer nas sombras, movendo a trama em direção ao capítulo seguinte da equipe, que será o filme duplo Vingadores – Guerra Infinita, Parte I e Parte II, que sairão em 2018 e 2019, respectivamente.

Avengers – Age of Ultron é escrito e dirigido por Joss Whedon. O elenco reúne Robert Downey Jr. (Tony Stark/Homem de Ferro), Chris Evans (Steve Rogers/Capitão América), Chris Hemsworth (Thor), Mark Ruffalo (Bruce Banner/Hulk), Scarlett Johansson (Natasha Romanoff/Viúva Negra), Jeremy Renner (Clint Barton/Gavião Arqueiro), Samuel L. Jackson (Nick Fury), Elizabeth Olsen (Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate), Aaron Taylor-Johnson (Pietro Maximoff/Mercúrio), James Spader (Ultron), Don Cheadle (Coronel James Rhodes), Cobie Smulder (Agente Maria Hill), Thomas Krestschmann (Barão Wolfgan Von Strucker), Paul Bettany (JARVIS/ Visão), Andy Serkis (Ulysses Klaue) e Kim Soo Hyun (Dra. Helen Cho), com participações especiais de Josh Brolin (Thanos), Anthony Mackie (Sam Wilson/Falcão) e Hayley Atwell (Peggy Carter). As filmagens passaram pela África do Sul, Itália, Coreia do Sul e Grã-Bretanha. O lançamento no Brasil será em 23 de abril de 2015, uma semana antes dos EUA, onde chega em 1º de maio.

Os Vingadores surgiram em 1963, criados por Stan Lee e Jack Kirby, publicados em The Avengers 01, reunindo personagens já criados previamente. Mais importante supergrupo da Marvel Comics, fazer parte da equipe significa ter um status diferenciado de importância no Universo da editora.

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