Clapton chega aos 70 anos.
Clapton chega aos 70 anos.

Este post é uma versão atualizada de outro publicado há quatro anos atrás. Mas ele merece…

Hoje, 30 de março de 2015, o guitarrista britânico Eric Clapton faz aniversário de 70 anos. Um data redonda que serve para celebrar a importância de um dos músicos mais importantes do século XX, que deixa um legado imenso ao rock, ao blues e à música popular em geral.

Aclamado nos anos 1960 como “o deus da guitarra“, esse fã de blues construiu uma carreira meteórica; fez sucesso de público e crítica; namorou a mulher do melhor amigo; se afundou nas drogas; deu a volta por cima; ampliou o seu público mais ainda; afundou no álcool; se tratou para poder criar o filho; o filho morreu em um acidente; manteve-se sóbrio; fez mais sucesso ainda; e mantém-se como um músico respeitado, excursionando constantemente pela Europa, Japão e Estados Unidos. E agora fala em se aposentar.

Enfim, uma trajetória ímpar para uma “estrela” de tal magnitude. Não à toa a (recomendável) autobiografia do artista, Clapton, publicada em 2007, é uma obra de superação, de um homem enfrentando seus demônios e vencendo ao final.

Para celebrar a data, o HQRock faz um apanhado da longa e profícua carreira do maior dos guitarristas britânicos, quiçá de todo o rock clássico.

Juventude:

Clapton criança em fotografia usada na capa do álbum Reptile, de 2000.
Clapton criança em fotografia usada na capa do álbum Reptile, de 2000.

Eric Patrick Clapton é um típico representante da geração do pós-guerra: nasceu em Ripley, nos arredores de Londres, em 1945, filho da adolescente Patricia Clapton, de família operária, e um soldado canadense de passagem pela Inglaterra em plena II Guerra Mundial. Para evitar escândalos, o menino Eric foi criado como “filho” dos avôs e só descobriu a verdade aos 09 anos de idade. Imagine o choque em sua mente juvenil ao descobrir que sua “irmã” era, na verdade, a sua mãe! Por isso, o problema de identidade sempre cercou a obra do artista.

Na adolescência, canalizou a rebeldia por meio do rock and roll: em 1956, o gênero explodiu na Grã-Bretanha com os sucessos de Elvis Presley, Bill Harley, Chuck Berry e Little Richard. O pequeno Eric encontrou na música uma válvula de escape para seus problemas pessoais e familiares. A paixão era tão grande que seu avó carpinteiro fez um grande esforço para lhe comprar um violão barato.

Leadbelly, herói do blues rural: sucesso na Europa e não nos EUA.
Leadbelly, herói do blues rural: sucesso na Europa e não nos EUA.

Na medida em que avançava na adolescência, Clapton descobriu o blues, que se transformou em sua maior paixão musical. O cenário britânico era muito favorável ao blues: enquanto os bluesmen sofriam preconceito racial nos EUA e eram completos desconhecidos do público em seu país natal; no Reino Unido, o blues gerou uma curiosidade musical (e cultural) genuína, pegando carona na febre do jazz que assolou a Europa a partir dos anos 1920. Na medida em que surgiam bandas de jazz na Europa e estas iam excursionar nos EUA, voltavam para casa levando discos de blues que passaram a ser apreciados especialmente nos anos 1950.

Foi essa onda que permitiu artistas como Leadbelly – um notório bluesman rural – a ir viver na Europa e passar seus últimos dias como um músico e compositor respeitável. A emergência do blues elétrico de Chicago nos anos 1950 não freou o movimento e, logo, esses novos artistas também passaram a fazer sucesso em um circuito específico de apreciadores de blues e jazz.

Assim, no início dos anos 1960, Londres viu nascer uma forte cena de R&B (Rhythm and Blues), o nome dado a esse novo blues elétrico. Curiosamente, esse movimento uniu duas “gangues” que antes não “se bicavam”: os apreciadores do jazz e os amantes do rock. Não é à toa que ex-membros de uma banda de jazz montaram aquela que seria a banda seminal do novo movimento: The Blues Incorporated, liderada por Alexis Korner no violão, ladeado por Cyrill Davis na gaita.

Um Mick Jagger adolescente canta no Blues Incorporated, com Jack Bruce ao fundo no baixo acústico.
Um Mick Jagger adolescente canta no Blues Incorporated, com Jack Bruce ao fundo no baixo acústico.

Korner era um sujeito gregário e gostava de reunir aqueles jovens amantes de rock que queriam tocar R&B e transformou sua banda em um time não-fixo de músicos, o que permitiu que grande parte das futuras estrelas do rock britânico tivessem sua iniciação nas fileiras do The Blues Incorporated, como: os vocalistas Mick Jagger (Rolling Stones) e Long John Baldry (Bluesology); o guitarrista Brian Jones (Rolling Stones); o baixista Jack Bruce (Cream); os bateristas Ginger Baker (Cream), Charlie Watts (Rolling Stones); o pianista Nick Hopkins; e muitos outros.

Korner também incentivou a formação de vários outros grupos, das quais os Rolling Stones foram os mais notórios. mas também outros como The Graham Bond Organisation, The John Mayall’s BluesBreakers e Cyrill Davis and the All Stars. Este último reuniu em suas fileiras os guitarristas Jeff Beck e Jimmy Page e teve Long John Baldry como vocalista. Com a morte de Davis em 1964, a banda mudou de nome para Long John Baldry and the Hootchie Cockie Men, que teve Rod Stewart como vocalista. Baldry depois montou o Bluesology, que revelou o pianista Elton John.

Toda essa cena estava em seu início fervilhante nos anos de 1961 e 1962, quando um ainda adolescente Eric Clapton assistiu assombrado seu primeiro show da Blues Incorporated, que na ocasião reunia Korner com Cyril Davis na gaita, Brian Jones fazendo uma guitarra slide, Jack Bruce no baixo, Charlie Watts na bateria e Nick Hopkins no piano. Vendo os concertos daquela banda, Clapton decidiu que precisava de uma guitarra elétrica.

Um Eric Clapton adolescente e sua guitarra, começando a carreira.
Um Eric Clapton adolescente e sua guitarra, começando a carreira.

Naquele tempo, o jovem trabalhava como carpinteiro auxiliando o avô, de modo que juntou dinheiro para adquirir sua primeira guitarra elétrica. Se até então a música era um hobby do jovem Eric, agora, o rapaz visualizava uma carreira profissional como guitarrista. Ao mesmo tempo, ingressou numa Escola de Belas Artes, o que lhe deu a oportunidade de participar de suas primeiras bandas.

A primeira que ingressou foi a já existente The Roosters, que tinha sido fundada pelo futuro membro dos Rolling Stones, Brian Jones e o vocalista Paul Jones (não são parentes), que ficaria famoso na banda The Manfred Mann. Depois, Clapton foi convidado a ingressar em uma banda originária de Liverpool chamada Casey Jones and the Engineers, na qual passou apenas algumas semanas.

The Yardbirds:

Clapton (dir.) nos Yardbirds: banda lendária que incendiava os clubes londrinos.

A carreira de Clapton alavancou com esta banda de R&B que conheceu na faculdade. E Clapton não só acrescentou mais técnica à banda: dois meses após sua entrada, o grupo ganhou certa notoriedade na Cena de R&B de Londres, quando substituiu os Rolling Stones como banda da casa do Crawdaddy Club, em Richmond, nos fins de 1963.

The Yardbirds era então formado por: Keith Relf (vocais e gaita), Eric Clapton e Chris Dreja (guitarras), Paul Samwell-Smith (baixo) e Jim McCarthy (bateria). O repertório era formado por canções de notáveis bluesmen elétricos, como Muddy Waters, Jimmy Reed e Bo Didley.

Capa de Five Live Yardbirds: primeiro álbum da carreira de Clapton.
Capa de Five Live Yardbirds: primeiro álbum da carreira de Clapton.

A carreira dos Yardbirds foi meteórica, já que no início de 1964 lançaram seu primeiro compacto (I wish you would), seguido depois pelo segundo (Good morning little school girl). Um detalhe curioso: esta última canção foi a estreia de Clapton no microfone, fazendo os backings vocals para Relf.

Embora não tenham atingido as paradas de sucesso de modo significativo, esses lançamentos incendiaram a cena R&B por causa da agressividade das gravações dos Yardbirds e de seus shows incendiários. Esta última faceta, inclusive, foi posta à prova com o lançamento do álbum Five Live Yardbirds, que traz um concerto gravado no The Marquee Club e é sensacional! Tudo isso foi o suficiente para por o grupo em algumas apresentações na TV.

Outro ponto interessante da carreira deles naquele momento foi a excursão com o bluesman norteamericano Sonny Boy Williamson, que anos mais tarde seria lançado em um álbum ao vivo. Isso se inseria no contexto do esforço de artistas e empresários britânicos de promoverem turnês na Europa com os bluesmen originais dos EUA, o que rendeu o The Blues and Folk International Festival, na qual inúmeros artistas negros se apresentaram no velho continente.

Clapton se via, então, como um herdeiro daquela tradição do blues, agindo como um purista. Por isso, decidiu largar os Yardbirds depois da gravação do compacto For your love, em março de 1965 (quando completava seus 20 anos!) irritado pelo fato da banda adotar uma sonoridade mais comercial. Curiosamente, tal faixa levou a banda a se tornar uma das mais famosas da Inglaterra e a estourar, também, nos Estados Unidos. Mas quando isso aconteceu, Jeff Beck estava na guitarra em seu lugar.

The Bluesbreakers:

Escrito nos muros: “Clapton é deus”, em 1966.

Não demorou quase nada e Clapton ingressou na banda de John Mayall (voz e teclados), the Bluesbreakers, o primeiro grupo inglês de blues a gravar material original. Tocando blues de verdade – e não o “parente” R&B – Clapton mergulhou em seu território favorito, o que se refletiu em seu som. Passando a usar uma guitarra Gibson Les Paul, o músico virou uma sensação nos clubes londrinos. Logo, se transformou em uma celebridade dentro do circuito de R&B da cidade. Assim, em 1966, ele foi aclamado como “deus”: a pichação “Clapton is God” começou a aparecer pichada nos muros e no metrô de Londres.

O clássico álbum com os Bluesbreakers: Clapton em sua melhor forma como guitarrista.

A fama do guitarrista fez com que 0 único álbum que gravou com a nova banda – não à toda chamado The Bluesbreakers with Eric Clapton, de 1966 – se tornou o primeiro álbum de blues a entrar no Top20 das paradas britânicas e é uma obra-prima, o marco inicial do subgênero blues rock que daria origem, anos depois, ao hard rock e ao heavy metal.

O disco mostra a influência da nova geração de bluesmen elétricos, como Buddy Guy e Otis Rush. O som da guitarra em faixas como Hideway e All your love são simplesmente fantásticos. O disco também traz a estreia de Clapton como cantor solo: em Ramblin’ on my mind, de autoria de seu herói Robert Johnson (um bluesmen dos anos 1930).

Cream:

Cream: uma das bandas mais psicodélicas e potentes dos anos 1960.

O que fazer quando se é eleito o melhor guitarrista da Inglaterra? Clapton deu a resposta: se unir ao melhor baixista e ao melhor baterista, Jack Bruce e Ginger Baker, respectivamente. O jornal Melody Maker escolheu o trio de melhores instrumentistas do país no início de 1966. Coincidência ou não, seis meses depois estreou o Cream com eles, formando o primeiro “supergrupo” do rock – aqueles onde os membros já são famosos antes de montá-los. A banda, claro, causou a maior sensação e impressionou com a potência e a fúria sonora de seu som ao vivo.

O impacto da criação dessa banda foi enorme na Inglaterra e a banda foi aclamada antes mesmo de gravar qualquer canção. O Cream, inclusive, testou insistentemente seus admiradores tentando se provar uma boa banda de música, e não apenas um show pirotécnico de técnica e fúria como eram seus shows: os dois primeiros compactos da banda eram canções pop que flertavam com o vaudeville (um típico som tradicional originário do século XIX): Wrapping papers e I feel free.

Eric Clapton em seu esplendor psicodélico em 1967.
Eric Clapton em seu esplendor psicodélico em 1967.

Naquele momento, Clapton não era mais um purista do blues: impressionado com a nascente onda psicodélica desenvolvida por bandas como Beatles e Rolling Stones, o guitarrista absorveu a influência e desenvolveu no Cream um blues rock com ares pop e psicodélico ao mesmo tempo. Se os shows eram incendiários, com improvisações que transformavam as canções em peças de 15 ou 20 minutos de duração e solos intermináveis; os discos traduziam isso para uma linguagem ligeiramente mais tradicional, com canções fortes, pesadas e arranjos psicodélicos e criativos.

O Cream se tornou uma das maiores sensações da cena psicodélica da Inglaterra e foram os grandes incentivadores de outra banda que fez muito sucesso: The Jimi Hendrix Experience, que lançou Hendrix ao mundo. As duas lendas da guitarra viraram grandes amigos.

O Cream psicodélico em 1967.
O Cream psicodélico em 1967.

Se antes, Clapton era uma celebridade da cena R&B londrina, o Cream o transformou em um astro, com a banda sendo um dos maiores sucessos da década e vendendo tanto quanto Beatles e Stones. Apesar do baixista Jack Bruce ser o vocalista principal e o compositor da maioria das canções do Cream, o carisma de Clapton e sua guitarra se tornaram na “face pública” da banda. Isso ficou ainda mais evidente quando, após o sucesso do primeiro álbum, Fresh Cream, de 1966, o grupo foi gravar seu segundo álbum nos EUA.

Os executivos da gravadora Atlantic perceberam que Clapton era a “estrela” da banda e incentivaram o guitarrista a compor mais e assumir os vocais, de modo que o álbum Disraeli Gears, lançado em 1967, trouxe duas canções suas: Strange Brew e Tales of brave Ullysses. Além disso, o grande hit do disco, Sunshine of your love, é assinado por Bruce e Clapton, juntamente ao letrista Pete Brown.

Ginger Baker, Jack Bruce e Clapton: guerra de egos.
Ginger Baker, Jack Bruce e Clapton: guerra de egos.

Contudo, o Cream também era uma guerra de egos, especialmente entre Jack Bruce e Ginger Baker (que já tinham tocado juntos no Blues Incorporated e na Graham Bond Organisation), que simplesmente se detestavam. Ao mesmo tempo, Clapton se desencantava com a pirotécnica da banda, ficando cada vez mais interessado na sonoridade limpa e sincera de grupos como The Band, que lançou seu primeiro álbum em 1968. Assim, após o lançamento do álbum duplo Wheels of Fire (com um disco em estúdio e outro ao vivo), o Cream se despediu do público com o The Farewell Concert no Royal Albert Hall, em novembro daquele ano. Ainda assim, um último álbum do Cream foi lançado no início de 1969, apropriadamente chamado Goodbye.

Este disco abria outro capítulo na vida de Clapton expressa na canção Badge, uma parceria dele com o beatle George Harrison e que foi o grande hit do álbum.

Dirty Mac, com Lennon, Clapton e Richards.
Dirty Mac, com Lennon, Clapton e Richards.

Enquanto se despedia do Cream, Clapton estreitava seus laços com outros músicos da cena musical londrina. Amigo dos beatles John Lennon e George Harrison desde 1964, o guitarrista estreitou as relações com o quarteto de Liverpool naquele período, passando a fazer parte do círculo interno da banda mais famosa do mundo. Por isso, terminou contribuindo para um solo memorável na canção While my guitar gently weeps, de Harrison, lançada no White Album, de 1968.

Clapton também se uniu a John Lennon na banda-de-uma-noite-só The Dirty Mac, que se apresentou no Rock and Roll Circus dos Rolling Stones, tocando uma versão magistral de Yer blues, de Lennon, outra canção dos Beatles lançada no White Album. Além de Lennon e Clapton nas guitarras, a banda improvisada trazia o stone Keith Richards no baixo e o baterista Mitch Mitchell (do The Jimi Hendrix Experience).

Blind Faith:

Blind Faith: união dos gênios de Winwood e Clapton. Um único (e fantástico) disco.

De um supergrupo para outro. Infeliz no Cream, Clapton se uniu ao superastro e “menino prodígio” (só tinha 19 anos) Steve Winwood, que fizera sucesso nos anos anteriores em duas bandas: The Spencer Davis Group e Traffic. Com Clapton nas guitarras e Winwood nos teclados e voz, a banda tinha ainda Ric Gresh no baixo e Ginger Baker na bateria. Novamente, se gerou bastante expectativa, o grupo estreou em um grande concerto no Hyde Park de Londres para 200 mil pessoas e lançou um álbum homônimo de grande sucesso.

Blind Faith, o álbum, traz uma das mais célebres entre as primeiras composições de Clapton: Presence of the Lord; além outras de Winwood, como Can’t find my way home. Contudo, tendo em vista Winwood ser um dos maiores vocalistas da história do rock, ao contrário de todos os seus outros grupos, Clapton não canta nesta banda.

Apesar do sucesso do Blind Faith, Clapton nunca foi feliz dentro desse grupo, talvez porque a presença de Ginger Baker trazia ecos demais do Cream. Por isso, após uma turnê de verão pelos EUA, Clapton se viu novamente tocando em um supergrupo enquanto queria fazer um som mais simples. O Blind Faith nunca mais se agrupou novamente.

Delaney, Bonnie & Friends (e outros):

Clapton, Delaney e Bonnie Bramlett: fazendo uma combinação explosiva de rock, blues e soul.
Clapton, Delaney e Bonnie Bramlett: fazendo uma combinação explosiva de rock, blues e soul.

Clapton encontrou a simplicidade na banda norteamericana Delaney, Bonnie & Friends, formada por renomados músicos de estúdio dos EUA, mas desprovidos de ego ou excentricidades. Clapton conheceu a banda durante a turnê do Blind Faith, na qual o DBF agiu como grupo de abertura. Encantado com o estilo mambembe e desapegado desse time de grandes instrumentistas, Clapton patrocinou uma turnê deles na Inglaterra e fez também algumas gravações.

O DBF tinha em seus quadros alguns dos mais célebres instrumentistas do rock clássico: Delaney Bramlett (vocais e guitarra), Bonnie Bramlett (vocais), Rita Colidge (vocais), Leon Russell (guitarra e piano), Carl Randle (baixo), Bobby Whitlock (teclados), Jim Gordon (bateria), Bobby Keys (saxofone), Jim Price (trumpete) e mais alguns outros ocasionais participantes. Na Inglaterra, o circuito musical do rock ficou encantado com eles, de modo que não apenas Clapton subiu ao palco com eles, mas vários outros músicos, como os guitarristas George Harrison (Beatles) e Dave Mason (Traffic).

Lennon se apresenta com Eric Clapton em 1969.
Lennon se apresenta com Eric Clapton em 1969.

Sem uma ocupação fixa naquele momento, Clapton também participou da Plastic Ono Band do ex-Beatles John Lennon, com a qual fez um concerto no Canadá – lançado no álbum Live Peace Toronto – e também alguns outros shows menores e a gravação do single Cold turkey.

A festa em torno do DBF durou o outono e o inverno de 1969/1970, mas nem eles puderam resistir à colisão de egos. Entretanto, eles ainda deixariam três legados importantes à carreira de Clapton.

A capa de Eric Clapton, de 1970: melhor álbum da carreira.
A capa de Eric Clapton, de 1970: melhor álbum da carreira.

O primeiro deles foi o primeiro álbum solo do guitarrista: Eric Clapton, lançado em 1970 (há um post sobre ele aqui no HQRock), um clássico do rock e, talvez, o melhor disco de toda a carreira do músico. O grande incentivador da empreitada foi o líder do DBF, Delaney Bramlett, convenceu Clapton a gravar e também produziu o álbum, usando o DBF como banda de apoio, além das participações especiais de George Harrison, David Mason e Stephen Stills.

O segundo legado foi a célebre participação de Clapton no álbum de George Harrison, All Things Must Pass, lançado ainda em 1970. Um batalhão dos melhores músicos ingleses e norteamericanos tocaram naquele disco triplo, dentre os quais Clapton e os DBF. Infelizmente, esta banda se dissolveu exatamente durante as sessões de gravação do disco, fazendo com que um novo grupo surgisse dali e este é o terceiro legado.

Derek and the Dominos:

Derek and the Dominos: músicos do mais alto calibre em gravações sensacionais.
Derek and the Dominos: músicos do mais alto calibre em gravações sensacionais.

Tendo em vista a fragmentação do DBF, Clapton conseguiu manter o núcleo base da banda ao seu lado: ele próprio nos vocais e guitarra, Carl Randle no baixo, Bobby Whitlock nos teclados e Jim Gordon na bateria. Esse núcleo enxuto foi a primeira banda na qual o guitarrista emergia como líder inconteste (já que antes dividiu ou cedeu a função a John Mayall, Jack Bruce e Steve Winwood). Entretanto, um pouco cansado do peso de sua própria fama, o deus da guitarra decidiu fazer um joguinho e criar algo como uma identidade secreta, batizando a banda de Derek and the Dominos.

Como já escrito, o Derek and the Dominos se formou nas gravações de All Things Must Past de George Harrison, sendo o grupo de músicos que toca nas faixas mais rock and roll do álbum. Inclusive, foi durante aquelas sessões que o grupo gravou seu primeiro single, aproveitando o produtor Phil Spector e o apoio de Harrison na outra guitarra. As canções foram Tell the truth e Roll it over. O ex-guitarrista do Traffic, Dave Mason, também tocou nessas sessões e considerou seriamente ingressar no grupo de forma fixa.

A modelo britânica Pattie Boyd, vértice do triangulo amoroso com George Harrison e Eric Clapton: musa inspiradora.
Pattie Boyd: pivô de triângulo.

O Derek and the Dominos conseguiu agendar shows rapidamente no circuito de clubes e um contrato com a gravadora. Mas apesar da grande banda que tinha consigo, do repertório fenomenal que estavam montando e de uma sequência de apresentações mais tranquilas do que nos tempos do Cream, Clapton viva um tremendo inferno astral na vida pessoal. O músico estava apaixonado pela mulher de seu melhor amigo, George Harrison.

Nos últimos anos, Clapton e Harrison viviam como dois irmãos, sempre juntos e tocando e fazendo shows. Contudo, o deus da guitarra terminou se apaixonando por Patti Boyd, a esposa do ex-beatle. Boyd era uma modelo famosa e uma mulher lindíssima. Porém, era extremamente infeliz na vida conjugal, tendo que aturar as “puladas de cerca” constante do marido e o fato dele não se interessar mais pelo “amor físico” com ela, pois estava muito envolvido com as seitas transedentais e o misticismo. Ao mesmo tempo, Clapton estava ali: bonito, simpático, prestativo, disponível e apaixonado.

Patti Boyd cedeu aos encantos do deus da guitarra, mas ao mesmo tempo, não estava disposta – pelo menos de imediato – a largar o marido ex-beatle, o que enchia Clapton de dor e culpa. E a situação era ainda mais complexa, já que Eric não só namorava a irmã de Patti na ocasião, como também, Harrison terminou descobrindo o caso. Harrison e Clapton chegaram a sair nos socos em um estacionamento, porém, terminaram resolvendo a coisa no modo inglês: sem falar nada e seguindo adiante.

A capa de Layla: clássico do sofrimento por amor.
A capa de Layla: clássico do sofrimento por amor.

O amor meio-correspondido por Pattie já tinha enchido o repertório do álbum Eric Clapton e ganhou uma sequência com o disco do Derek and the Dominos: Layla and Others Assorted Love Songs, outro clássico, lançado em dezembro de 1970. Para se afastar de George e Pattie, Eric decidiu ir para os EUA e gravar o disco lá com Tom Dowd, o engenheiro de som dos discos do Cream. No meio das sessões, o quarteto foi acrescido do guitarrista norteamericano Duane Allman, membro da seminal banda de southern rock The Allman Brothers, que tocou como uma participação especial, fazendo guitarra slide.

O período das gravações continuou turbulento por causa da morte de Jimi Hendrix em setembro, que era um grande amigo de Clapton. Aliás, no dia da morte de Hendrix ele iria encontrar Clapton em um pub e este estava levando uma guitarra de presente para ele. Eric ficou arrasado e, em homenagem, gravou a faixa Little wing, de Hendrix, no disco.

O álbum não fez tanto sucesso de vendas quanto o guitarrista estava acostumado – talvez o lance Eric/Derek tenha enganado parte do público (e agravadora imprimiu botons e adesivos com a frase “Derek é Eric”, mas parece que não adiantou) – e parte da crítica ficou confusa com o disco, mas inegavelmente, é um dos grandes clássicos de sua carreira, em faixas incríveis como Bell bottom blues, Anyday e Keep growing.

Mas claro, o grande destaque é a faixa Layla, uma ode a Pattie, na qual canta todo o sofrimento de seu amor embalado por um riff sensacional, uma levada enérgica, um arranjo fantástico e a ousadia de uma longa coda instrumental com uma melodia totalmente diferente, levada no piano.

No início de 1971, o Derek and the Dominos embarcou para os EUA, onde fez uma vitoriosa turnê – que seria registrada no futuro álbum In Concert – mas implodiu logo depois. De volta ao Reino Unido, a banda até começou a gravar seu segundo álbum, mas Clapton estava totalmente afundado no uso de drogas, especialmente heroína, e simplesmente, abandonou o barco. Bobby Whitlock tentou desesperadamente tirar Clapton de sua casa de campo, mas não conseguiu e a banda acabou.

Ostracismo:

George Harrison e Eric Clapton no Concert For Bangladesh, em 1971: apesar de amarem a mesma mulher, os dois permaneceram amigos.

Era início de um dos períodos mais conturbados da vida de Clapton: o guitarrista afundou nas drogas e passou praticamente três anos quase inativo, apenas ocasionalmente aparecendo em público. Dessas aparições, a mais célebre foi no Concert for Bangladesh, em agosto de 1971, um concerto beneficente organizado por George Harrison. Os amigos continuavam a tocar a vida no estilo inglês.

O vídeo do show mostra claramente um Eric Clapton acima do peso e enferrujado na guitarra, sem aquele brilho que marcara sua carreira até então.

A situação atingiu um estado crítico em 1973 e, temendo que Clapton morresse, um batalhão de amigos conseguiu que ele fizesse um programa de desintoxicação. Ao mesmo tempo, para animá-lo e trazê-lo de volta à ativa, Pete Townshend (do The Who), George Harrison e Steve Winwood organizaram um concerto no Rainbow Theatre para marcar a volta do deus da guitarra. O show seria lançado no disco Rainbow Concert, apesar de sua irregularidade.

Mas deu certo: Clapton fez um ousado tratamento com acupuntura e conseguiu voltar à ativa livre das drogas. Mas exagerando um pouco no álcool.

Patti Boyd: a musa seguiu o coração e se uniu a Clapton. Os dois viveram juntos de 1974 até o fim dos anos 1980.

Solo:

No início de 1974, Clapton voltou aos EUA e se juntou a uma banda que havia sido montada por Carl Randle (The Tulsa Boys), gravando e lançando 461 Ocean Boulevard, álbum que fez grande sucesso com o hit I shot the sheriff, regravação do então desconhecido Bob Marley. O disco reúne algumas composições novas (Let it grow a melhor delas) e alguns covers e foi um grande sucesso de vendas, chegando ao n.º 1 das paradas dos EUA.

O sucesso não foi apenas profissional. Naquela mesma época, Patti Boyd se separou de George Harrison e, como era inevitável, terminou cruzando seu caminho de novo com Clapton. O casal finalmente ficou unido oficialmente e chegaram ao matrimônio em 1979. Por outro lado, Clapton e Harrison retomaram normalmente sua amizade e continuaram gravando um no disco do outro quase sempre.

Slowhand: grande sucesso.
Slowhand: grande sucesso.

Em 1975, conseguiu outro grande hit com sua versão de Kockin’ on heavens doors de Bob Dylan , mas não no álbum There’s One in Every Crowd, mas recuperou o sucesso com No Reason To Cry (1976) e mais ainda com Slowhand (1977), que emplacou três grandes hits: Cocaine, Wonderfull tonight e Lay down Sally.

Com o início dos anos 1980, a carreira do guitarrista decaiu um pouco, motivada pelos seus problemas com o álcool. Mas depois, apesar de uma grave crise matrimonial, enfrentou uma lufada de sucesso em discos produzidos pelo baterista, cantor e compositor Phil Collins (do Genesis), Behind the Sun (1985) e August (1986).

Clapton e o filho Connor: chega de álcool!
Clapton e o filho Connor: chega de álcool!

O caso extraconjugal com uma produtora de TV italiana gerou seu primeiro filho, chamado Connor Clapton, que nasceu em 1986. Foi a pá de cal para o casamento com Patti Boyd, mas gerou ânimo o suficiente para que Clapton se internasse em uma clínica de recuperação (pela enésima vez), mas dessa vez, realmente decidisse ficar sóbrio, seguindo a cartilha dos 12 passos e frequentando os Alcoólatras Anônimos.

O álbum Journeyman (1989) fez um sucesso maior ainda – com hits como Forever man, Pretending e Bad love – e seguiu uma grande turnê mundial, encerrando o ciclo de shows em 1991 com uma série de concertos no seu amado Royal Albert Hall, que seriam lançados mais tarde no disco ao vivo e vídeo 24 Nights.

O álbum "Unplugged" ajudou Clapton a se tornar um dos maiores fenômenos de vendas dos anos 1990.
O álbum “Unplugged” ajudou Clapton a se tornar um dos maiores fenômenos de vendas dos anos 1990.

Infelizmente, seu filho Connor morreu em um acidente ao cair da janela de um apartamento, no fim de 1991. Seu requiém, Tears in heaven, lançada no ano seguinte, foi um de seus maiores sucessos e uma das mais dolorosas canções dos últimos tempos. Mostrando uma força interior incomum, o deus da guitarra não recaiu em sua dependência, e lidou com a dor trabalhando: gravou um show MTV Unplugged, em 1992, que se transformou em um dos maiores fenômenos de vendas da década e um disco premiado, coroando a fase mais celebrada de sua carreira recente.

Na impossibilidade de assumir um compromisso como frontman em termos de turnê, Clapton endossou uma turnê de seu amigo George Harrison pelo Japão, na qual forneceu sua banda como apoio e tocando ao seu lado.

Eric Clapton: início da despedida dos palcos em 2014.
Eric Clapton: início da despedida dos palcos em 2014.

E o sucesso ainda não acabou, prosseguindo com From the Cradle (1994), Pilgrim (1998) e Reptile (2001). Depois de uma longa turnê mundial em 2001-2002, Clapton não conseguiu mais retomar o sucesso da década anterior, mas encontrou espaço para realizar projetos pessoais: trabalhou com músicos como o bluesman B.B. King e o guitarrista J.J. Cale; e retomou projetos antigos, como uma reunião especial do Cream em 2005, uma sequência de turnês anuais com Steve Winwood e concertos com Jeff Beck em 2010. Também gravou um álbum em homenagem ao seu ídolo Robert Johnson e organizou várias edições anuais do Crossroad Festival, dedicado a reunir grandes nomes do rock e do blues e arrecadar fundos para uma instituição para adictos que mantém.

Clapton anda há muito afastado das paradas de sucesso e fala seriamente em se despedir das grandes turnês, mas o “deus da guitarra” continua produzindo. Sua obra imortal do passado lhe garante um lugar inquestionável no panteão do rock e do blues. E da música em geral, como um dos maiores gênios da história recente.

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