A capa de The Endless River: novo disco depois de 20 anos.
A capa de The Endless River: novo disco depois de 20 anos.

Esta semana, uma das mais lendárias bandas de rock da história, o Pink Floyd, retornou às lojas de discos (e downloads na internet) com um novo álbum, The Endless River, o primeiro em 20 anos e, anunciadamente, o último da carreira profícua do grupo britânico, famoso por obras como Darkside of the Moon e The Wall. O que dizer desse novo disco? O HQRock traz para você uma crítica do material. Vamos lá!

Em primeiro lugar, duas coisas importantes precisam ser ditas sobre The Endless River: 1) é um álbum praticamente apenas instrumental, com uma única faixa cantada; 2) o disco é fruto de gravações antigas, realizadas em 1993, como preparação para o álbum The Division Bell (lançado em 1994). As faixas foram retrabalhadas pelo guitarrista David Gilmour e o baterista Nick Mason em 2013 para que ganhassem estrutura possível de um lançamento e servissem de tributo ao tecladista Richard Wright, que tocou nas sessões, mas morreu em 2008, vítima de um câncer.

Ambas as informações têm que ser levadas em conta na hora de ouvir o disco, algo por vezes ignorado pelo público. O fato é que The Endless River chegou e as impressões sobre o álbum se dividiram severamente. Na verdade, há até mais críticas negativas no ar do que boas.

Muita gente detestou o disco e o malha nas redes sociais ou em sites de notícias.

Então, o que o HQRock diz do álbum?

Mason, Gilmour e Wright em 1994: sessões instrumentais.
Mason, Gilmour e Wright em 1994: sessões instrumentais.

The Endless River é um bom disco, sim. Como álbum, na verdade, é ótimo! As canções trazem qualidades tranquilas e relaxantes e mantém aquele clima etéreo e espacial que marcou a sonoridade do Pink Floyd em toda a sua carreira. O que desagradou o público, de verdade, é que o álbum é apenas instrumental e é muito raro um disco dessa natureza chegar ao mainstream do mercado fonográfico. E quem critica o Pink Floyd por fazer um álbum instrumental, na verdade, simplesmente não conhece o Pink Floyd.

O fato da banda ser lembrada por sua obra magistral dos anos 1970, com obras como Darkside of the Moon, Wish You Were Here e The Wall, termina atrapalhando, porque apesar de serem álbuns de extrema qualidade – alguns dos melhores já gravados na história do rock em todos os tempos – os três têm aquele apelo pop que lhes permite ser admirado sem graves problemas pelo grande público.

Depois que o baixista Roger Waters (a principal força criativa do grupo até então) saiu do Pink Floyd, em 1985, e o trio David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason prosseguiu em frente, os dois álbuns lançados, A Momentary Lapse of Reason (1987) e The Division Bell (1994), até reforçaram uma sonoridade mais branda do que o passado, com um acento pop ainda maior, especialmente no último. (Que fique bem claro: isso não é um desmérito à priori, já que muitas das canções de Division Bell – apesar de não serem fortes ou importantes como no passado – são simplesmente muito bonitas).

O tecladista Richard Wright em 1972: tributo.
O tecladista Richard Wright em 1972: tributo.

Assim, o grande público se acostumou com essa, digamos, acessibilidade à obra do Pink Floyd. O que esses ouvintes ignoram é que o Pink Floyd em seus primeiros anos foi uma banda experimental, repleta de canções estranhas, não-ortodoxas e, mesmo, perturbadoras. Com certeza, se esse público ouvisse faixas como Saucerfull of secrets, Careful you axe, Eugene ou mesmo Echoes, provavelmente iria sair correndo e gritando de pavor.

Ao fazer uma obra inteiramente instrumental como The Endless River, embora mantenha de um modo geral a ambientação de seus últimos álbuns, o Pink Floyd flerta novamente com aquele passado. O resultado causa estranheza ao público, mas o resultado final é bom. E é coerente com a obra do grupo como um todo.

É preciso que se diga, claro, que The Endless River não é um clássico da banda, nem mesmo um de seus melhores álbuns. Mas ainda assim, é um disco interessante, com boas passagens formadas pelos teclados densos de Richard Wright (sem grandes firulas) e o timbre característico da guitarra de David Gilmour, criando uma música relaxante. Em alguns momentos parece com aqueles discos de World Music feitos para meditação e usado em consultórios médicos? Parece sim! Mas há de se entender que isso não é uma concessão da banda: isto é parte importante da sonoridade do grupo desde sempre.

David Gilmour: conduz o Pink Floyd numa viagem sonora espacial e etérea.
David Gilmour: conduz o Pink Floyd numa viagem sonora espacial e etérea.

The Endless River inicia com Things left unsaid que define bem o conceito do disco em título: não há muitas palavras em uma banda formada por dois caras muito introspectivos, como Gilmour e Wright. É apenas uma suíte de abertura que dá lugar para It’s what you do, que é um bom tema, um dos melhores do disco, com cruzamentos entre os teclados e a guitarra.

O fluxo do disco segue mantendo o clima relaxado e etéreo: Sum é outro belo momento e Skins remete diretamente às obras experimentais da banda em seus primórdios, particularmente Saucerful of secrets, com suas viradas constantes de bateria que criam uma cama na qual os outros instrumentos improvisam.

Anisina é outro bom momento, com sua cadência de acordes de piano lembrando obras como a belíssima Us and them (de Darkside of the Moon). Outra parte de destaque é a sequência com Allons-y (1), Autumm’ 68 e Allons-y (2): a primeira e a última um pouco mais rocks, remetendo a Run like hell (de The Wall) e a do meio numa clara referência à belíssima Summer’ 68 (de Atom Heart Mother, de 1970). É uma forma da banda espelhar o seu passado, o que fica bem interessante.

O Pink Floyd ainda reunido em 2005: Richard Wright, David Gilmour e Nick Mason.
O Pink Floyd ainda reunido em 2005: Richard Wright, David Gilmour e Nick Mason.

Talkin’ Hawking é notória pela voz do astrofísico Stephen Hawking, que trava um “diálogo” com a banda; repetindo a “parceria” realizada em Keep talkin’ (de Division Bell). Já caminhando para o final, Surfacing remete à típica sessão rítmica também de Division Bell até dissolver-se no fim e dar lugar a Louder than words, a única canção cantada do disco.

Louder than words será a faixa mais ouvida e comentada do disco, já que é aquela que o grande público quer ouvir, com voz e letra. Não é uma canção sensacional, mas é um bom tema. Quem esperaria que às vésperas dos 70 anos, David Gilmour compusesse sua melhor canção? Eu, não. E esta, definitivamente, não é. Mas é uma canção decente, feita com estilo e traz alguns bons elementos, como o som da guitarra e uma boa sacada repetição de notas agudas de teclado nas paradas antes dos versos.

David Gilmour e Polly Samson: letra sobre o relacionamento interno do grupo.
David Gilmour e Polly Samson: letra sobre o relacionamento interno do grupo.

A letra de Polly Samson (escritora que fez a maioria das letras de Division Bell e é também esposa de Gilmour) fala justamente sobre o relacionamento (muitas vezes sem muitas palavras) entre os membros da banda. O efeito da voz de Gilmour aparecendo após 40 minutos de música instrumental é fantástico e funciona. Apesar de alguns críticos dizerem que sua voz é a mesma de 1994, isso não é verdade: seu timbre característico (e bonito) está lá, mas a voz está mais aveludada, grave e com ranhuras nas pontas, típicas de um senhor de 68 anos.

Se the Endless River encerra a carreira do Pink Floyd, o faz com mérito. Um tom de beleza espacial muito bem-vindo num mercado no qual o Pink Floyd, infelizmente, não deixou sucessores.

Todos unidos em 1969, Roger Waters, Mason, Gilmour e Wright: banda experimental nos primórdios.
Todos unidos em 1969, Roger Waters, Mason, Gilmour e Wright: banda experimental nos primórdios.

Não é o melhor disco da banda, mas lhe faz jus. E se o público não gostar, é porque não entende o que o Pink Floyd verdadeiramente é.

The Endless River é um álbum do Pink Floyd – David Gilmour (vocais e guitarra), Richard Wright (teclados) e Nick Mason (bateria) – lançado em 10 de novembro de 2014. A produção do álbum coube a David Gilmour mais o constante colaborador Phil Manzanera e Youth e Andy Jackson. O design da capa foi criado pelo veterano colaborador da banda, Aubrey Powell e Hipgnosis.

O Pink Floyd ensaiando em 1993: The Endless River.
O Pink Floyd ensaiando em 1993: The Endless River.

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O Pink Floyd surgiu em Londres, em 1965, e se tornou um dos maiores exponentes do Movimento Psicodélico com seu primeiro disco, em 1967. Era formado por Syd Barrett (vocais e guitarra), Roger Waters (baixo e vocais), Richard Wright (teclados e vocais) e Nick Mason (bateria), mas o primeiro foi substituído por David Gilmour em 1968. Depois, a banda se tornou uma das fundadoras do chamado rock progressivo e após anos na cena underground, alçou à categoria de uma das bandas mais populares do planeta pelo sucesso do disco Darkside of the Moon, de 1973. O grupo viveu várias crises nos anos 1980, que resultou na saída de Roger Waters, em 1985. O trio Gilmour, Wright e Mason se reuniu em seguida e prosseguiu a carreira de álbuns e shows e o Pink Floyd encerrou as atividades em 1996. Poucas reuniões ocorreram depois disso.

 

 

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