BRUCE CREAM
Jack Bruce: um dos maiores baixistas da história do rock e voz da banda Cream.

Um comunicado oficial anunciou ontem a morte do compositor, cantor e baixista Jack Bruce, mais famoso por ter integrado a lendária banda Cream, uma das mais importantes da história do rock. Por sua extrema habilidade musical, também é um dos maiores baixistas da história do rock e um músico extremamente influente nas novas gerações. No site oficial do músico, sua família publicou uma nota informando seu falecimento aos 71 anos:

É com grande tristeza que nós, a família de Jack, anunciamos a morte de nosso amado Jack: marido, pai, avô e lenda. O mundo da música será um lugar mais pobre sem ele, mas ele vive em sua música e eternamente em seus corações.

Jack Bruce sofria de uma doença hepática e já havia se submetido a um transplante de fígado em 2003. Segundo a agente do artista, Claire Singers, ele morreu rodeado por sua família em sua casa de campo em Suffolk, na Inglaterra.

Nascido com o nome de John Symon Asher Bruce (sendo o “Jack” um mero apelido) em 14 de maio de 1943, em Bishopsbriggs, em Larnakshire, na Escócia; era filho de um casal de músicos, o que fez com que se mudasse constantemente na infância e estudasse em 14 escolas diferentes. A instituição que lhe marcou mais foi a Royal Scottish Academy of Music and Drama, que ingressou ao fim do Ensino Médio, após ter começado a tocar Jazz ainda adolescente. Na Academia, estudou violoncelo e composição musical, mas terminou se desligando após um tempo, porque não se permitia tocar jazz na escola.

Um Mick Jagger adolescente canta no Blues Incorporated, com Jack Bruce ao fundo no baixo acústico.
Um Mick Jagger adolescente canta no Blues Incorporated, com Jack Bruce ao fundo no baixo acústico.

Adotando o contrabaixo como instrumento “popular”, sua carreira profissional se iniciou por meio da Murray Campbell Big Band, um grupo de jazz. Em 1962, Bruce ingressou na lendária banda The Blues Incorporated, liderada por Alexis Korner. A banda foi a mais importante da cena de R&B de Londres, sendo o grande catalizador de todo o movimento e celeiro de grandes astros futuros. Inicialmente, faziam parte da banda: Alexis Korner (guitarra), Long John Baldry (vocais), Cyrill Davis (gaita), Jack Bruce (baixo), Dick Heckstall-Smith (sax) e Charles Watts (bateria, futuro membro dos Rolling Stones).

Korner tinha uma postura muito gregária e, apesar do conjunto ter um núcleo base fixo, estava sempre aberto às contribuições de vários artistas jovens, em início de carreira. Isso permitiu que inúmeros futuros famosos tocassem com a banda como o trio fundador dos Rolling Stones Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones (este, foi membro fixo da banda); Rod Stewart, Jimmy Page, Paul Jones (da banda Manfred Mann), o tecladista John Mayall, o pianista Nick Hopkins; e o baterista Ginger Baker.

Vários grupos se formaram a partir do Blues Incorporated, reunindo esses músicos que circulavam em torno da banda. Além dos Rolling Stones, formaram-se o Cyrill Davis’ All Star Band (que reunia os guitarristas Jimmy Page e Jeck Beck); The John Mayall’s Bluesbreakers; e o The Graham Bond Organisation.

O Graham Bond Organisation, com Bruce (dir.).
O Graham Bond Organisation, com Bruce (dir.).

Foi nesta última em que se agregaram Graham Bond (vocais, teclados e sax), Jack Bruce (baixo), John McLaughlin (guitarra), Dick Heckstall-Smith (sax) e Ginger Baker (bateria). O grupo estreou em 1963 e, apesar de nunca ter feito sucesso comercial, lançou dois álbuns (The Sound of ’65 e There a Bond Between Us, ambos lançados em 1965) e causou algum tipo de impacto no circuito restrito do R&B por causa de sua mistura de blues e jazz, trazendo, portanto, o elemento da improvisação como algo importante nos shows.

Entretanto, as relações pessoais entre Bruce e Baker eram simplesmente impossíveis. Os dois se odiavam, brigavam o tempo inteiro e chegavam até a sabotar o equipamento um do outro na hora dos concertos, ou mesmo, trocarem socos durante as apresentações! Existem dezenas de estórias escabrosas envolvendo a dupla e é difícil saber o que é verdade e o que não é – afirmam que Baker chegou até a tentar esfaquear Bruce em uma ocasião – mas o fato é que os dois tinham personalidades muito difíceis, cheias de ego.

Os Bluesbreakers com Eric Clapton (de listras), mas sem Jack Bruce...
Os Bluesbreakers com Eric Clapton (de listras), mas sem Jack Bruce…

Em agosto de 1965, Bruce terminou demitido do Organisation e pensou em seguir carreira solo (cantando e compondo), porém, não tardou muito e surgiu a oportunidade de tocar o baixo para o John Mayall’s Bluesbreakers. A banda de Mayall já era, então, a principal da cena de R&B de Londres – pois houvera o esvaziamento do Blues Incorporated, com tantas bandas derivadas – e era um grupo muitíssimo apreciado pelo público. Além disso, os Bluesbreakers tinham se renovado recentemente com a adesão de Eric Clapton na guitarra, tornando-o o guitarrista mais famoso do país com seus solos bonitos e cheios de classe.

Mayall demitiu o baixista John McVie porque este estava exagerando nas drogas (havia uma política de “ficar limpo” na banda, o que renderia muito trabalho para o líder e uma constante mudança de membros) e Jack Bruce assumiu seu lugar. De imediato, se mostrou uma química excelente entre Bruce e Clapton e os shows dos Bluesbreakers viraram uma enorme sensação. Infelizmente, Bruce ficou pouco tempo (seu ego e a política do “ficar limpo” impediram continuar) e foi McVie quem gravou o célebre álbum The Bluesbreakers with Eric Clapton, lançado em 1966, e o primeiro disco de blues a entrar no Top10 das paradas britânicas.

A banda Manfred Mann com Jack Bruce (esq.).
A banda Manfred Mann com Jack Bruce (esq.).

Ainda assim, algumas apresentações ao vivo dos Bluesbreakers com Bruce e Clapton foram registradas e incluídas em uma edição especial do álbum como um CD bônus.

Ao sair dos Bluesbreakers, Bruce aceitou o convite de ingressar na banda The Manfred Mann, que vinha do circuito R&B, mas tinha uma pegada mais pop e uma boa carreira nas paradas de sucesso. Curiosamente, o single Pretty flamingo, gravado com Bruce, chegou ao 1º lugar das paradas britânicas, sendo a primeira vez que o músico flertou com o sucesso das massas. Mesmo assim, no típico espírito purista dos blueseiros da época, o músico não estava feliz tocando em uma banda mais pop.

No início de 1966, o jornal Melody Maker fez uma enquete para escolher os melhores instrumentistas da Grã-Bretanha e os vencedores foram Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker em seus respectivos instrumentos. Coincidência ou não, Clapton também cansou da política “ficar limpo” dos Bluesbreakers e propôs a Bruce montarem uma nova banda com Baker. Apesar das relações nada amistosas entre a velha dupla Baker-Bruce, todos toparam e num momento de “às favas com a modéstia” batizaram a banda de Cream, porque eles eram “a nata” da música britânica.

O Cream em 1967: Ginger Baker, Jack Bruce e Clapton.
O Cream em 1967: Ginger Baker, Jack Bruce e Clapton.

Como não podia deixar de ser diferente, a formação do Cream caiu como uma bomba no circuito musical londrino e o grupo já era um sucesso antes mesmo de fazer seu primeiro show. A crítica se rendeu à banda imediatamente e o público mostrou que não discordava: os singles Wrapping paper e I fell free foram grandes sucessos (mesmo nenhum deles sendo o rock pesado esperado pela audiência) e o álbum Fresh Cream também foi bem nas paradas.

O som do Cream era uma explosão: combinava o rock com o blues e trazia toneladas daqueles tons jazzísticos que Bruce adorava. À moda do jazz, a banda improvisava o tempo inteiro, fazendo cada canção se transformar em uma jornada virtuosa e sinuosa de 10 ou 16 minutos, com cada um levando seus instrumentos ao limites. O Cream foi a banda mais pesada já surgida até então, seu som era destruidor ao vivo. Em estúdio, a banda maneirava mais e investia em mais classe; mas ainda assim, deixava antever nos discos os motivos pelos quais eram famosos ao vivo.

Apesar de Eric Clapton ser a grande estrela do Cream desde o começo – o talento e o carisma do guitarrista conferiam um rosto ao grupo e consolidavam sua fama de “deus da guitarra”, conforme foi pichado nos muros de Londres – Bruce era a alma da banda; não apenas porque era o principal cantor e compositor (Clapton e Baker também contribuíam em ambos os campos), mas também porque seu baixo cheio de melodias e seus riffs eram a “cama” perfeita para os belos e potentes solos de Clapton nas longas jams instrumentais da banda.

Trabalhando quase sempre com o poeta Pete Brown como letrista, Jack Bruce assina a maioria das mais famosas canções do Cream, como I fell free, Sunshine of your love (esta em coautoria com Clapton), Swalbr, White room e Polititian.

O Cream psicodélico em 1967.
O Cream psicodélico em 1967.

A carreira do Cream foi meteórica: foram apenas dois anos, mas ainda renderam turnês incessantes turnês na Grã-Bretanha e nos EUA e quatro álbuns de estúdio: Fresh Cream (1966), Disraeli Gears (1967), Wheels of Fire (1968, duplo) e Goodbye (1969); os dois últimos trazendo também material ao vivo para exibir a potência da banda. Posteriormente, também saíram as coletâneas ao vivo Live Cream I e II que mostram porque o grupo era tão admirado na época. (Veja mais detalhes dos álbuns do Cream na Discografia Completa de Eric Clapton, publicada aqui no HQRock).

O fim foi causado pela completa impossibilidade de Bruce e Baker continuarem trabalhando juntos, ao mesmo tempo em que Eric Clapton queria investir em um tipo de música mais relaxada e simples. Ainda assim, numa rara demonstração de maturidade, o grupo decidiu encerrar as atividades programadamente, gravando as faixas de Goodbye e fazendo um show de despedida chamado Farewell Concert, no Royal Albert Hall, em novembro de 1968.

Jack Bruce e seu baixo: influência decisiva.
Jack Bruce e seu baixo: influência decisiva.

Após o fim do Cream, Jack Bruce saiu do mainstream e voltou às suas origens, criando trabalhos com a sonoridade voltada mais para o jazz.

O Cream ainda se reuniu duas vezes: em 1993 (quando foram incluídos no Hall da Fama) e com uma série de concertos (que viraram CD e DVD) em 2005.

Jack Bruce se vai, mas sua música fica. Seu estilo de tocar baixo irá sempre influenciar os roqueiros que querem ir (muito) além das notas básicas. Além disso, o legado do Cream permitiu a criação do que chamamos hoje de rock pesado, sendo as bases incontestes do hard rock e do heavy metal.

 

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