John Lennon: obra disponível em streaming.
John Lennon: obra disponível em streaming.

Na semana de seu aniversário – comemorado em 09 de outubro – o cantor e compositor britânico John Lennon, líder e fundador da seminal banda The Beatles, a mais importante da história do rock, tem oficialmente toda a sua discografia solo disponível em streaming por meio do Spotify, o maior serviço do tipo no mundo.

No Spotify, o ouvinte poderá acessar os oito álbuns lançados por Lennon em sua carreira individual, realizada após o fim dos Beatles, e mais três coletâneas reunindo os maiores sucessos do músico, que é um dos mais influentes da história da música. Os álbuns são: Plastic Ono Band, Imagine, Sometime in New York City, Mind Games, Wall and Bridges, Rock and Roll, Double Fantasy e Milk and Honey; e as coletâneas são: Gimme Some Truth (box-set com 4 Cds), Signature Box (box-set especial com os oito álbuns de estúdio, 2 DCs de singles, versões diferentes e raridades) e Power to The People – The Hits (a coletânea mais recente).

Alguns materiais ficam de fora, como discos ao vivo e algumas coleções póstumas; mas não deixa de ser um bom volume do mais famoso dos Beatles.

Como de praxe nessas ocasiões, o HQRock aproveita a oportunidade para contar a história de John Lennon e trazer sua Discografia Completa comentada!

Por isso, pegue sua guitarra Epiphone, pluge num amplificador Fender, conecte o pedal Leslie e mande brasa em um rock bem forte!

Herói da Classe Trabalhadora

Lennon com os Beatles em Hamburgo, em 1960: adolescente rebelde e problemático.
Lennon com os Beatles em Hamburgo, em 1960: adolescente rebelde e problemático.

O HQRock já tem um post especial em que narra a biografia de Lennon em detalhes (leia aqui), mas para não ficarmos no vazio, vamos listar pelo menos alguns pontos importantes de sua vida.

John Winston Lennon nasceu em Liverpool, no norte da Inglaterra, em 09 de outubro de 1940, exatamente no momento em que a cidade sofria um intenso ataque aéreo da Alemanha, em meio a II Guerra Mundial. Filho do casal Alfred Lennon e Julia Spencer, ele marinheiro da marinha mercante, ela garçonete. Como muitos de sua geração, Lennon cresceu em meio à guerra tendo que dividir o tempo entre realizar tarefas domésticas, ir à escola e se esconder no porão em meio às bombas que caiam do céu. Liverpool era o segundo porto mais importante da Grã-Bretanha, por isso, era um alvo privilegiado.

Tocando gaita  no início da carreira dos Beatles.
Tocando gaita no início da carreira dos Beatles.

Como também é típico da geração dos baby boomers, Lennon cresceu em um lar desestruturado, desmontando a moral rígida da Era Vitoriana e encarrando a dura realidade do século XX: divórcios. Os pais de Lennon se separaram quando ele tinha apenas 4 anos e – com o pai indo embora sem dar notícias e a mãe casada com outro homem e tendo outra família – coube ao pequeno John ser criado pela tia Mimi, irmã de sua mãe. John só retomou o contato com a mãe na adolescência, quando descobriram que tinham muito em comum, inclusive, a paixão pela música: foi Julia Lennon quem ensinou o filho a tocar seu primeiro instrumento, um banjo.

Depois, veio a gaita, que aprendeu a tocar sozinho e a usava como distração. O aflorar da adolescência mudou sua personalidade, fazendo a vir à tona toda a raiva reprimida, transformando-o num jovem zangado, durão, encrenqueiro e rebelde.

John Lennon à frente dos Quarrymen em 1956.
John Lennon à frente dos Quarrymen em 1956.

Em 1956, o rock and roll vindo dos EUA aportou na Inglaterra e tomou de febre toda a juventude, via os pioneiros Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry e Bill Harley. Cativado pelo som, pela energia e raiva, Lennon se tornou um roqueiro de primeira hora. Isso o fez convencer Mimi a lhe dar um violão barato de presente, com o qual começou a aprender a tocar rock.

Ao mesmo tempo, outro gênero musical também fez bastante sucesso no país: o Skiffle, uma versão branca do velho blues rural dos EUA, capitaneado pelo cantor britânico Lonnie Donegan. Apesar de um pouco menos duro do que o original, o Skiffle era rústico, enérgico e carregado de emoção. Também era uma boa alternativa em termos pragmáticos: por ser rústico, podia ser tocado em instrumentos caseiros improvisados. Era a saída possível para aqueles britânicos da classe trabalhadora que não podiam comprar uma guitarra elétrica para tocar rock.

Os Beatles em Hamburgo, em 1960.
Os Beatles em Hamburgo, em 1960.

Foi o que Lennon fez. Reuniu seus colegas da Quarry Bank High School e formou sua primeira banda: The Quarrymen (um trocadilho que significa ao mesmo tempo, “homens de Quarry” e “pedreiros”, mostrando desde já o interesse de Lennon no uso das palavras). Os Quarrymen tinham violões e acordeões misturados com baixo construído com corda de piano e cabo de vassoura e percussão com tábuas de lavar roupa (bem no espírito Skiffle), e combinavam o repertório de rock com o de Skiffle. Rapidamente, a banda ficou até famosa nos bailinhos e festinhas de quermesse na periferia de Liverpool.

Foi numa festinha na paróquia de São Pedro, em 1957, que um amigo comum levou o jovem Paul McCartney, de 15 anos, para assistir aos Quarryman. McCartney terminaria apresentado a John Lennon e conseguiu se exibir tocando violão para ele. Vendo que o rapaz era talentoso – bem mais do que os colegas de escola que o acompanhavam – Lennon convidou McCartney para a banda e este aceitou, nascendo aí a maior dupla da história musical do século XX.

Os Beatles em 1960: Harrison, Lennon, Best, McCartney e Sutcliffe.
Os Beatles em 1960: Harrison, Lennon, Best, McCartney e Sutcliffe.

Daí para frente, tudo ocorreu muito rápido. Os Quarryman foram adquirindo instrumentos elétricos e se tornando mais profissionais. Já em 1957 mesmo, Lennon deixou a High School e ingressou na Escola de Belas Artes de Liverpool. Suas notas eram péssimas na escola, mas o diretor achou que o talento artístico do rapaz podia direcioná-lo na vida. O fim da escola também esfriou os ânimos dos Quarryman e vários membros começaram a sair da banda. Ainda assim, em 1958, o colega de escola de McCartney, George Harrison, fez um teste para a banda e entrou como terceiro guitarrista. A ele foi dada a função de fazer os solos, enquanto Lennon e McCartney cuidavam do ritmo. A partir daquele ano, os Quarrymen passaram a se apresentar com a formação totalmente rock and roll de três guitarras, bateria e até um pianista tocava com eles de vez em quando.

Minha Mãe Está Morta

John Lennon em 1966, na gravação do clipe de Rain.
John Lennon em 1966, na gravação do clipe de Rain.

1958 também é o ano de uma grande tragédia particular de John Lennon: sua mãe, Julia, morreu atropelada na porta da casa da tia Mimi, por um policial fora de serviço que dirigia bêbado. O impacto em Lennon foi profundo e ele se tornou ainda mais amargo, rebelde e problemático. A música se tornou sua válvula de escape e o músico passou a canalizar isso por meio da composição. Ele e Paul McCartney começaram a escrever material original e fizeram o pacto de – como estratégia de ganhar mais força – sempre assinarem suas composições como Lennon & McCartney, nascendo a maior dupla de compositores da música moderna.

Os Beatles em 1964: McCartney, Lennon, Harrison e Starr.
Os Beatles em 1964: McCartney, Lennon, Harrison e Starr.

Em 1959, a banda já usava outros nomes – Johnny and the Moondogs era o mais comum – e dava outro passo decisivo rumo à profissionalização por meio da inclusão de um baixista, na figura de Stuart Sutcliffe, colega de Lennon na Escola de Belas Artes. Sutcliffe não sabia tocar direito, mas pelo promovia os tons graves que o rock necessitava. Em 1960, o grupo mudou o nome para The Beatles: um nome criado por Lennon a partir de um trocadilho, beetles (besouros) e beat (batida). Após usarem a alcunha por um tempo, como a moda na época eram nomes longos, mudaram temporariamente para The Silver Beatles. Naquele mesmo ano, fizeram sua primeira temporada em Hamburgo, tocando nos inferninhos da portuária cidade alemã.

Em 1961, Sutcliffe deixou a banda e Paul McCartney assumiu o cargo de baixista do grupo, passando os Beatles a ter apenas duas guitarras, com Lennon no ritmo e Harrison no solo. Naquele mesmo ano, assinaram um contrato com o empresário Brian Epstein e, em 1962, conseguiram ser contratados pela gravadora EMI, a maior da Grã-Bretanha, admitiram o baterista Ringo Starr e conseguiram sucesso logo com seu primeiro compacto.

O resto é história…

Revolução

Lennon durante as gravações de Sgt. Peppers dos Beatles, em 1967.
Lennon durante as gravações de Sgt. Peppers dos Beatles, em 1967.

O que dizer sobre a obra de John Lennon?

O artista que foi a imagem-mor dos Beatles no tempo de sua existência; o rebelde de comentários ácidos; o pacifista… Tudo isso foi potencializado em sua carreira individual. Nos Beatles, sua música molhou os pés em vários direcionamentos, e à solo pôde endurecê-la, despi-la e ampliá-la.

Lennon criou os Beatles. Só isso já lhe garantiria um lugar no panteão da história da música. Mas ele foi além. Foi o motor principal da maior banda de música de todos os tempos. Mesmo que tenha que dividir os créditos e os holofotes com a outra metade da parceria Lennon-McCartney, foram as escolhas e as obras de Lennon que guiaram os Beatles por sua viagem mágica e misteriosa saindo da cinzenta e provinciana Liverpool, no norte da Inglaterra, para conquistar o mundo com sua música, charme e humor.

Uma das últimas fotos dos Beatles reunidos, em 1969.
Uma das últimas fotos dos Beatles reunidos, em 1969.

As canções assinadas por Lennon-McCartney são a trilha sonora essencial dos anos 1960, que foram a década mais importante do século XX, seja por suas transformações culturais, sociais e políticas. Mais do que isso, a banda teve uma atuação direta nas três esferas.

Embora Paul McCartney tenha por diversas vezes assumido as rédeas da carreira dos Beatles, como por exemplo, no conceito do álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, considerado o mais importante da banda, foi a atuação decisiva de Lennon, às vezes nos bastidores, mais discretamente, outras escancaradamente, de modo bombástico e polêmico, que constituíram na profundidade do conteúdo dos Beatles. McCartney pode ter sido o embaixador e porta-voz da banda em vários momentos, mas coube a Lennon liderá-la, porque um líder não é aquele que, necessariamente, aparece mais, porém, um espírito que guia os demais e os influencia. E esse papel, nos Beatles, coube a Lennon e não a McCartney. (Sem querer desmerecer a obra deste último, que também é genial e fabulosa).

O Sonho Acabou

Lennon começou a carreira solo ainda dentro dos Beatles.
Lennon começou a carreira solo ainda dentro dos Beatles.

Antes mesmo do fim dos Beatles, John Lennon já iniciava sua carreira solo. Sentido-se aprisionado pela fama, sucesso e cautela do grupo, Lennon começou a extravasar lampejos mais radicais de sua arte fora da banda, tendo como parceiro sua nova esposa, a artista plástica japonesa Yoko Ono. Assim, Lennon foi o primeiro dos Beatles a lançar uma canção solo: o hino à paz Give peace a chance, no verão de 1969, que fez algum sucesso comercial e virou um hino pacifista. Depois, lançou outro single, Cold turkey, falando da crise de abstinência da heroína, cujo vício o atormentava à época.

Lennon formou a banda alternativa Plastic Ono Band em 1969 – que entre os membros chegou a ter o guitarrista Eric Clapton – e lançou um álbum ao vivo com uma performance do grupo no Canadá. Ainda antes do anúncio oficial do fim dos Beatles, Lennon foi o primeiro deles a ter um verdadeiro hit nas paradas de sucesso: Instant karma!, em fevereiro de 1970. Com o anúncio oficial do fim da banda, em abril daquele ano, Lennon só continuou a desenvolver seu trabalho. Foi ele quem taxou a frase “o sonho acabou” como representativa não apenas do fim dos Beatles, mas do fim dos anos 1960 e da utopia que ele carregava.

Lennon ao vivo em 1972.
Lennon ao vivo em 1972.

No início dos anos 1970, Lennon se envolveu cada vez mais com a esquerda radical e se mudou para os EUA, onde teve que lutar por quatro anos contra um processo de deportação, motivada pelo Governo de Richard Nixon, temeroso do poder de influência do compositor na juventude. O FBI passou a segui-lo, disposto a usar qualquer desculpa para prendê-lo e enviá-lo de volta para a Grã-Bretanha. A batalha nos tribunais seguiria até 1975 (após Nixon ser derrubado em um processo de Impeachment), quando o músico conseguiu seu green card.

Em sua carreira solo não fez tanto sucesso quanto com os Beatles, mas entregou sempre um material muito forte, repleto de composições sensacionais, mesmo que por vezes longe das paradas de sucesso. Entre 1973 e 1975, esteve separado de Yoko Ono e produziu ainda mais do que antes, tocando com diversos outros músicos, como Elton John, Mick Jagger, David Bowie e Harry Nilsson. Após se reconciliar com a esposa, conseguiu ter seu segundo filho e decidiu encerrar a carreira temporariamente, passando cinco anos afastado dos holofotes.

Começar de Novo

Lennon em 1980: começando de novo.
Lennon em 1980: começando de novo.

Quando Sean Lennon estava prestes a completar cinco anos, seu pai achou que era hora de tirar a guitarra da parede e voltar a trabalhar. Lennon produziu furiosamente e compôs mais de duas dezenas de canções novas, fazendo uma leitura dos novos tempos, os anos 1980. Também decidiu fazer um álbum em parceria com a esposa, com faixas de cada um se alternando no disco, algo que nunca havia sido feito.

O álbum Double Fantasy foi lançado em outubro de 1980 e começou a chamar a atenção da crítica e do público. O single (Just like) starting over fez sucesso e começou a subir nas paradas de sucesso, mostrando que o incendiário músico não havia perdido a mão.

Porém, Lennon terminou assassinado por um fã com distúrbios mentais na porta de seu edifício em Nova York, em 08 de dezembro de 1980.

Era o fim de um homem, de uma lenda e de uma era.

Jogos Mentais

Vamos agora à Discografia Completa de John Lennon. Nossa listinha inclui todos os álbuns oficiais do compositor, por isso, vai além daqueles selecionados pela Spotify. Aumente o som!

john lennon two virgins 1968 CD censoredUNIFINISH MUSIC VOL. 1: TWO VIRGINS, 1968

UNIFINISH MUSIC VOL. 2: LIFE WITH THE LIONS, 1969

THE WEDDING ALBUM, 1969

John Lennon e Yoko Ono produziram em parceria uma trilogia de álbuns de “música de vanguarda”, ou seja, discos sem música, repletos apenas de sons, ruídos, gritos, efeitos sonoros e outras coisas atordoantes. Não é algo para se ouvir em volume alto. Ou mesmo nem é para se ouvir, se você não quer ouvir outra coisa que não seja música. Mas de qualquer modo, é um esforço artístico. O primeiro desses álbuns chamou muito a atenção do público e da mídia por trazer o casal nu na capa.

john lennon Live Peace In Toronto 1969LIVE PEACE TORONTO – PLASTIC ONO BAND, 1969 (ao vivo)

A Plastic Ono Band fez sua estreia com um show ao vivo no Rock and Roll Revival Festival, em Toronto, no Canadá, em setembro de 1969, com John Lennon (vocais e guitarra), Eric Clapton (guitarra e backing vocais), Klaus Voorman (baixo) e Alan White (bateria), mais participação especial de Yoko Ono nos vocais. O disco funciona muito bem, com a banda compensando a falta de entrosamento – só ensaiaram no avião no caminho para o show – com uma energia cativante. As canções de Yoko são intragáveis e repletas de ruídos, gritos e microfonias, mas estão ao final do disco. Este álbum foi o primeiro de Lennon a trazer canções propriamente ditas, mas foi lançado após dois compactos: Give peace a chance e Cold turkey. Ambas as canções ganham versões ao vivo no disco, ao lado de covers de Blue suede shoes, Money e Dizz miss lizzy e do clássico dos Beatles, Yer blues.

john lennon plastic ono band 1970PLASTIC ONO BAND, 1970

O primeiro álbum de estúdio com canções de John Lennon foi lançado já vários meses depois do fim dos Beatles e vai num caminho totalmente distinto da antiga banda. Aqui, Lennon opta por um som essencialmente cru, sem nenhum tipo de adorno, muito direto e seco, o que de certo modo, antecipa a sonoridade punk. As letras, para completar, são pesadíssimas, falando de seus problemas pessoais (especialmente os traumas familiares), a dores de ser uma celebridade, os problemas com as drogas, críticas às religiões e uma leitura pessimista do fim dos anos 1960. É uma álbum sensacional, um dos mais importantes da época e uma grande influência para as gerações futuras. O título do álbum é o mesmo da banda “conceitual” que acompanha o compositor, ou seja, um time de músicos que muda a cada ocasião, mas sempre fantásticos. Neste caso, a banda traz apenas Lennon (vocais e guitarra), Klaus Voorman (baixo) e Ringo Starr (bateria), mais participações especiais de Phil Spector e Billy Preston tocando piano, cada um em uma faixa. Spector também é coprodutor do disco, ao lado de Lennon. Todas as canções são fortes, mas destaques para Mother, I found out, Love, Working class hero, Love e God.

john lennon imagine 1971IMAGINE, 1971

O álbum de maior sucesso e o mais famoso de Lennon em sua carreira solo foi aquele com a icônica faixa-título Imagine. Dessa vez, Lennon decidiu manter a força do conteúdo do álbum anterior, especialmente nas letras, mas colocá-las sob uma embalagem musical mais elaborada. Assim, reuniu um grande time de músicos para acompanhá-lo naquele que é seu disco mais completo e sensacional. Lennon continua usando o nome Plastic Ono Band para seus músicos e aqui temos: Lennon (vocais, guitarras, gaita e piano), George Harrison (guitarras), Klaus Voorman (baixo), Nick Hopkins (piano) e Alan White (bateria), mais participações especiais da banda Badfinger (violões e percussão), King Curtis (sax), Bobby Keys (sax) e dos bateristas Jim Gordon e Jim Keltner, cada um em uma faixa. Entre os clássicos absolutos do disco estão: Imagine, Jealous guy, Gimme some truth, How do you sleep? e How?. O disco chegou ao primeiro lugar das paradas e foi um grande sucesso. Imagine e Jealous guy também fizeram sucesso como compactos e nas rádios. Novamente, Phil Spector divide os créditos de produção e até canta em dueto em Oh! Yoko.

john lennon sometime in new york city 1972SOMETIME IN NEW YORK CITY, 1972

Após o álbum anterior, John Lennon se mudou para a cidade de Nova York, nos EUA. E de imediato, se envolveu com a extrema esquerda e uma série de movimentos políticos. Tudo isso é refletido nesse álbum, que tem um direcionamento totalmente político em suas letras. Todo esse engajamento teve um custo, claro, com Lennon passando a ser seguido por agentes do FBI e sofrendo um severo processo judicial de deportação, contra o qual lutou anos na justiça. O clima de paranoia e nervosismo permeia todo o disco. Contudo, isso o afastou das massas, sendo esse o álbum de menor sucesso de Lennon desde 1970. É ainda um disco duplo, com o Disco 2 repleto de apresentações ao vivo, dentre as quais uma união de Lennon com a banda Frank Zappa and the Mothers of Invection e uma apresentação de 1969 na qual a Plastic Ono Band une forças ao Delaney, Bonnie & Friends, reunindo mais de 20 músicos em uma versão furiosa de Cold turkey. No Disco 1, em estúdio, Lennon é acompanhado pela banda Elephants Memory – que teria um álbum próprio produzido pelo próprio ex-beatle. Entre os destaque do álbum, a canção feminista Woman is the nigger of the world, Sunday bloody sunday, Lucky of the irish e Angela.

john lennon mind games 1973MIND GAMES, 1973

Os problemas com a justiça e a perseguição do FBI – que muita gente não acreditava que ocorria na época, pensando ser apenas paranoia do músico, mas após sua morte foi admitida pela agência – tornaram a vida do casal Lennon-Ono impossível. Separados, Lennon migrou para Los Angeles e produziu o primeiro álbum sozinho (sem a parceria com Phil Spector). Para isso, usou uma equipe totalmente nova de músicos, selecionados entre os melhores de LA na época: Lennon (vocais, guitarras, teclados), David Spinozza (guitarra), Sneaky Pete Kleinow (pedal steel guitar), Gordon Edwards (baixo), Ken Ascher (teclados), Jim Keltner (bateria), Arthur Jenkins (percussão), Michael Brecker (sax) e coro de Something Different Choir. As letras ainda flertam com a política (Bring on the Lucie) e com a mensagem paz & amor (Mind games), porém, a tônica começa a ser o amor e a dor da separação (I know, I know; Out the blue). O disco não fez tanto sucesso e foi recebido meio friamente na época.

john lennon wall and bridges 1974WALL & BRIDGES, 1974

Depois de tentar gravar um disco de covers de rock and roll dos anos 1950 com Phil Spector – que terminou inconcluso em meio a selvagens sessões regadas a drogas e brigas – Lennon voltou-se ao seu próprio material e lançar seu álbum mais forte desde Imagine. Dessa vez, a tônica é toda em torno de seus sentimentos pessoais, a frustração com a justiça, as dores de amor e uma reflexão sobre o passado. Esta última encarnação da Plastic Ono Band (última vez em que o título foi usado) trouxe um time fortíssimo de músicos: Lennon (vocais, guitarras e teclados), Eddie Mottau (violão de apoio), Jesse Ed Davis (guitarra solo), Klaus Voorman (baixo), Nick Hopkins (piano), Ken Ascher (teclados), Bobby Keys (saxofone), Jim Keltner (bateria), Bobby Keys e Ron Aprea (sax), com participações especiais de Elton John (vocais e piano) e Harry Nilsson (vocais) em algumas faixas. Entre as canções, destaque para Going down on love, Whatever gets you thru the night, Bless you, What you got, Old dirt road, Nobody loves and you down and out e # 9 dream. O disco fez um grande sucesso e Whatever gets you thru the night (que traz um dueto entre Lennon e Elton John) chegou ao primeiro lugar das paradas.

john lennon rock and roll 1975ROCK AND ROLL, 1975

Após dois anos, Lennon finalmente consegue realizar seu sonho de gravar um álbum de covers dos anos 1950. Usando apenas duas canções das sessões de Phil Spector, o cantor regravou tudo de novo, usando mais ou menos os músicos do álbum anterior. Curiosamente, Lennon também optou por canções não-óbvias e por arranjos bem diferentes dos originais, o que pode trazer estranhamento aos puristas. Stand by me foi o grande sucesso do disco, que também trouxe faixas como Do you wanna dance?, Sweet little sixteen e Bep-bop-a-lula. Depois do lançamento desse disco, Lennon ganhou o green card (com o fim do processo de deportação), viu seu filho nascer e passou cinco anos afastado do showbizz. Como brinde, o álbum traz uma bela capa, com uma fotografia de Lennon em Hamburgo em 1961.

john lennon shaved fish 1976SHAVED FISH, 1976 (coletânea)

Primeira coletânea da carreira solo de Lennon, lista seus grandes êxitos até o momento e ainda trouxe a canção Imagine de volta ao topo das paradas. A coleção tem 11 faixas e algumas curiosidades: os singles Give peace a chance, Cold turbkey, Instant karma, Happy Xmas e Power to the people são pela primeira vez compilados em um álbum; contudo, Give peace a change aparece em uma edição de apenas 57 segundos (ao contrário dos mais de 4 minutos do mantra original). Esta mesma canção reaparece ao final de Happy Xmas, porém, em sua versão ao vivo do Ono to One Concert, de 1972, também apenas em alguns segundos. Já a faixa Mother aparece em uma versão exclusiva, uma nova edição da original, maior do que a versão-single e menor do que a versão-álbum.

john lennon double fantasy 1980DOUBLE FANTASY, 1980

John Lennon volta com todo o gás para abrir os anos 1980 com um novo álbum muito forte. Dessa vez, contudo, o disco é divido entre faixas dele e de Yoko Ono. A produção coube a Alan Douglas (que produzira Kiss e Aerosmiths) e os músicos são a nova geração dos melhores: Lennon (vocais e guitarra), Earl Slick (guitarra), Hugh McCracken (guitarra), Tony Levin (baixo), George Small (teclados), Andy Newmark (bateria) e Arthur Jenkins (percussão). O casal reflete sobre a meia-idade, os novos tempos, o amor e o futuro. As canções de Lennon são arrebatadoras! Destaque para (Just like) starting over, Watching the wheels, Woman e Beautiful boy. (Just like) Starting over foi o primeiro hit do disco e já estava nas paradas quando Lennon foi assassinado, apenas dois meses depois do lançamento. Com sua morte, uma beatlemania imensa invadiu o mundo e várias canções dele voltaram às paradas, com Woman dentre elas.

john lennon the JL collection 1982THE JOHN LENNON COLLECTION, 1982 (coletânea)

A morte do músico trouxe uma grande demanda por suas gravações e esta coletânea se tornou bastante famosa nos anos 1980, cobrindo toda a carreira solo do músico, embora com apenas 17 faixas. Desta vez, Give peace a change aparece inteira (sendo a primeira vez que a canção ganha sua versão completa em um álbum). As faixas Whatever gets you tru the night e #9 dream aparecem não nas versões-singles (que são mais curtas), mas em suas versões originais dos álbuns. Boa parte do Lado B da coleção em seu formato original era composto por canções de Double Fantasy. Como curiosidade, vale lembrar que a versão dos EUA tinha duas faixas a menos, mas a versão lançada em CD, em 1989, incluiu mais duas faixas no total: Move over Mrs. L e Cold turkey. Por fim, vale mencionar a capa, apesar de simples não deixa de ser poética, com o olhar vagamente triste direcionado à câmera, tão pouco tempo após seu assassinato.

john lennon milk and honey 1984MILK AND HONEY, 1984

Este disco póstumo é a sequência direta do anterior, montado a partir das canções que o casal Lennon-Ono preparava para a sequência. Dessa vez, as canções de Lennon incluem pedardos como Nobody told me, I steeping out, I don’t wanna face it e Borrowed times. Como bônus, o disco traz uma gravação em fita K7 de Grow old with me, que teria sido o último registro gravado de Lennon. Estranhamente, a capa do álbum é quase igual a de Double Fantasy, apenas com cor aplicada. Quanto ao material, infelizmente, o trabalho de pós-produção de Yoko Ono não consegue disfarçar a cara de “não acabado” do disco.

john lennon live in new york city 1986LIVE IN NEW YORK CITY, 1986 (ao vivo)

Este álbum ao vivo traz o show que Lennon realizou no Madison Square Garden em 1972, chamado à época de One to One Concert, realizado em benefício da Unicef na época do lançamento do álbum Sometime in New York City, acompanhado da banda Elephants Memory. É um concerto memorável e o melhor registro ao vivo do compositor em sua carreira solo. Uma pena que Lennon se dedicou pouco aos concertos e turnês. Este disco também foi lançado em vídeo VHS, embora nunca em DVD. Entre as canções: New York City, Imagine, Mother, Well, well, well, Woman is the nigger of the world e até um rápido retorno ao passado com Come together. Vale anotar que Mother ganha aqui talvez sua versão mais forte.

john lennon menlove ave 1986MENLOVE AVE, 1986

Este estranho álbum traz out-takes dos discos Wall and Bridges e Rock and Roll, numa coleção que, à princípio, soa totalmente oportunista. O disco vale mais pela fantástica capa com uma gravura de Andy Warhol. No material sonoro, destaque para Lennon tocando versões mais enxutas e relaxadas de algumas canções, o que rende momentos de grande beleza, como é o caso da versão de Nobady loves you when you down and out. De inéditas mesmo apenas duas faixas: Here you go again (única composição escrita em parceria com o produtor Phil Spector), gravada durante as sessões da primeira (e abortada) versão do Rock and Roll; e Rock and roll people, composição de Lennon (aqui, gravada durante as sessões de Mind games), originalmente lançada pelo bluesman Johnny Winter.

John_Lennon_-_Imagine_John_Lennon 1988 soundtrackIMAGINE: JOHN LENNON, 1988 (coletânea)

Esta coletânea lançada em álbum duplo é na verdade a trilha sonora do documentário Imagine – John Lennon, dirigido por Andrew Solt, que exibe a biografia do compositor montada a partir de relatos (em áudio e vídeo) dele próprio. Misturando hits dos Beatles cantados e/ou compostos por Lennon (Twist and shout, Help!, In my life, Strawberry fields forever, Revolution, Julia, Don’t let me down) no Lado A; com faixas da carreira solo no Lado B (uma versão compacta de Collection), o grande destaque deste álbum duplo são duas gravações inéditas: um ensaio acústico (voz e piano) de Imagine e a balada Real love (voz e violão), esta tirada de uma gravação demo em fita k7.

john lennon legend 1997LENNON LEGEND: THE VERY BEST OF JOHN LENNON, 1997 (coletânea)

No crepúsculo da Era do CD, a EMI lançou esta boa coletânea de Lennon, bem mais abrangente do que The John Lennon Collection, trazendo as canções mais conhecidas da carreira solo do compositor em 20 faixas e tendo o destaque de trazer faixas de Milk and Honey pela primeira vez neste tipo de lançamento. Esta coleção foi um grande sucesso e chegou ao 3º lugar das paradas da Inglaterra na época do lançamento, retornando às paradas em 2007 outra vez, agora, no 30º lugar (o que é muito para um disco com 10 anos de idade!). Legend também ganhou uma versão em DVD com os clipes. Infelizmente, Yoko Ono mexeu nos vídeos para acrescentar mais imagens dela própria (!).

john lennon anthology 1998 box setTHE JOHN LENNON ANTHOLOGY, 1998 (box-set)

Na esteira do Anthology dos Beatles, John Lennon ganha um material do mesmo tipo: uma enorme coleção (4 CDs) de gravações inéditas, com ensaios, demos, out-takes e canções ao vivo. É um material fabuloso que permite conhecer não somente o processo de composição de Lennon (várias canções aparecem em estágios bem iniciais de trabalho), mas principalmente ouvir tentativas diferentes que resultam em versões absolutamente primorosas de algumas canções: Jealous guy, One day (at time), Bring on the lucie e You are here ganham versões mais simples e mais bonitas do que as originais; outras como Mother e God ganham novos takes impressionantes; enquanto algumas versões demos tem uma força devastadora, como I know (I know), Watching the wheels e uma nova (e belíssima!) versão de Real love (desta vez ao piano e mais parecida com a versão que os Beatles usaram no Anthology deles). Também há algumas canções inéditas, como Serve yourself e My life (esta uma versão primordial de (Just like) starting over, com outra letra e tema). Merece elogios a embalagem do lançamento, muito bonita em todos os seus aspectos. O libreto traz as letras das canções de autoria de Lennon (e exclui os covers) e detalhes dos músicos que tocaram em cada sessão. Um lançamento fabuloso para se aprofundar no making of de sua obra.

john lennon wonsaponatime 1998WONSAPONATIME, 1999 (coletânea)

Este disco é uma coletânea com o melhor do material de The John Lennon Anthology. Vale por cada minuto e vem em uma embalagem belíssima.

john lennon acoustic 2004ACOUSTIC, 2004 (coletânea)

Esta coletânea foca no material acústico de Lennon, misturando faixas já lançadas em Anthology com algumas outras peças inéditas. Por oportunista que seja, é encantador ouvir o compositor tão exposto quanto nessas gravações, onde se percebe a força de suas composições mesmo nas formas mais simples.

john lennon working class hero 2010WORKING CLASS HERO: THE DEFINITIVE LENNON, 2005 (coletânea)

Uma outra versão (ampliada) de Lennon Legend, sendo, por isso mesmo, a mais completa coletânea de Lennon que não seja um box-set. Combina todos os grandes hits, com canções menos conhecidas, Lados B e até material ao vivo (Come together do Live in New York City) e dos out-takes e demos de Anthology. São 38 faixas com um resumo completo de sua carreira. Se você quer um playlist não tão extenso de Lennon, mas ainda assim, fundamental, esta é a sua pedida.

john lennon Gimme-some-truth 2010GIMME SOME TRUTH, 2010 (coletânea)

Box-set de 4 CDs com o melhor da obra do músico dividido por temas. O disco Working Class Hero traz as canções políticas de Lennon; Woman coleta as canções de amor; Borrowed time aquelas sobre sua época; e Roots traz canções que remetem ao rock and roll dos anos 1950 que serviram de inspiração para sua carreira, sejam covers (a maioria neste caso) e algumas composições originais. Assim como The Definitive… reúne material de todo o catálogo do músico, à exceção da fase com os Beatles. Novamente, uma embalagem primorosa. Agora, precisava ter a Yoko Ono na capa? O disco é do marido dela…

john lennon power to the people the hits 2012POWER TO THE PEOPLE: THE HITS, 2010 (coletânea)

Para quê parar de explorar o mercado, não é? The Hits… é o resumo de Gimme Some Truth e, também, uma nova versão de Lennon Legend, tentando sintetizar o melhor da obra do músico em um único CD com seus hits principais. O melhor do álbum é sua embalagem, no típico estilo bonito e ousado adotado desde Anthology. Foi lançada uma versão dupla com o CD e um DVD com os clipes das canções.

John_Lennon_Signature_Box 2010THE JOHN LENNON SIGNATURE BOX, 2012 (box-set)

Outro box set, agora reunindo todos os oito álbuns oficiais de John Lennon em sua carreira solo (Plastic Ono Band, Imagine, Sometime in New York City, Mind Games, Wall and Bridges, Rock and Roll, Double Fantasy e Milk and Honey), acompanhado de dois CDs extras, um com as faixas lançadas apenas em singles; e outro com home takes, ou seja, gravações caseiras inéditas, trazendo versões despojadas (mas impactantes) de canções como Mother e outras totalmente inéditas como India, India. Todas as faixas foram remasterizadas e o lançamento ocorreu virtualmente, também, via iTunes. É a coleção oficial da discografia de Lennon e está no pacote de streaming do Spotify.

Amor Verdadeiro

John Lennon em 1968: música que moldou o século XX. E além...
John Lennon em 1968: música que moldou o século XX. E além…

Em seus oito álbuns solo, Lennon imprimiu a voz de seu tempo. Seus hinos pacifistas, suas canções de amor tão rascantes, seu discurso político, ora crítico, ora panfletário, ora virulento… são algumas das impressões (em letra e música) mais fortes produzidas nos últimos tempos. Embora sua obra nos Beatles seja mais conhecida, ela é marcada por um lirismo e uma forma melódica mais acentuada e tende mais aos temas filosóficos e surrealistas.

Em sua carreira solo, Lennon se livrou das amarras e falou o que quis do jeito que quis. E com isso, nos legou uma das obras mais fortes e corajosas que um artista já produziu, mas que ao mesmo tempo tem um irresistível apelo ao grande público.

Lennon não precisa concorrer com os Beatles – ele é parte fundamental da banda – mas sua carreira individual é boa o suficiente para lhe dar “pernas próprias”, um mérito conquistado por si só de modo que talvez nenhum outro membro da banda conseguiu. Talvez Paul McCartney tenha feito mais sucesso, mas sua obra não tem nada da força, da coragem e da qualidade transbordante da carreira solo de John Lennon.

Portanto, seu legado é duplo. Os Beatles podem ter sido a maior criação de Lennon, mas também sem eles, o artista alcançou um grau destacado no panorama da música mundial.

 

 

 

 

 

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