Guardiões da Galáxia: a Marvel arriscando e acertando na mosca, de novo.
Guardiões da Galáxia: a Marvel arriscando e acertando na mosca, de novo.

Você nunca ouviu falar dos Guardiões da Galáxia? Não se preocupe: a equipe é desconhecida até dos leitores de quadrinhos; um grupo de personagens obscuros e esquecidos das HQs que atuam na periferia do universo ficcional da Marvel Comics. Mas não deixe que isso lhe engane: corra ao cinema e vá assistir Guardiões da Galáxia, adaptação da equipe de super-heróis cósmicos da Marvel Comics, realizado pelo braço cinematográfico da empresa, o Marvel Studios. Vá sem medo, é um dos melhores filmes já feitos pelo Marvel Studios. E estamos falando do estúdio que entregou Homem de Ferro, Os Vingadores e Capitão América 2 – O Soldado Invernal!

Se você já leu alguma crítica na imprensa aberta sobre o filme já deve ter percebido que o HQRock não é uma voz isolada: a Marvel é hoje o mais ousado e bem sucedido estúdio de Hollywood. Após assistir Guardiões da Galáxia a impressão se confirma totalmente: nenhum outro estúdio de Hollywood teria a coragem e a ousadia de fazer um filme como esse. E o pior, fazê-lo ser um filme ótimo, um dos melhores do ano e, repito, um dos melhores da Marvel em sua carreira de seis anos produzindo seus próprios longametragens.

Vamos ao filme. Guardiões da Galáxia é engraçado (histericamente engraçado, quer dizer), divertido, despretensioso e funciona muito bem. Os mais empolgados dizem ser o Star Wars da nova geração! Exageros a parte, não há como não lembrar da saga de George Lucas nos pontos positivos de Guardiões da Galáxia: é uma ficção científica que se passa nos confins do universo envolvendo batalhas entre dois grandes impérios intergaláticos e um grupo de foras da lei que de bandidos presos se tornam a última esperança de impedir uma catástrofe.

O visual colorido e estonteante do filme.
O visual colorido e estonteante do filme.

E para usar uma expressão moderninha, a Marvel “não contou pipoca” para produzir essa ficção intergalática: não há concessões visuais. O filme é impressionantemente colorido, os aliens aparecem em várias cores (azuis, rosas, vermelhos, laranjas, verdes, cinzas) e formatos (lembre-se que entre os protagonistas há uma árvore que anda e um guaxinin falante!). Mas a premissa da Marvel é ótima: não é a Terra, é o universo. A vida pode se desenvolver de várias formas e cores.

Por último e não menos importante: a Marvel é ousada o suficiente para criar um filme em que há um único humano em meio a esse colorido e multimorfo time de personagens: Peter Quill, o Senhor das Estrelas (Star-Lord), que nasceu na Terra e foi abduzido. Nem Star Wars fez isso! Claro, há outros humanoides em Guardiões da Galáxia, como os personagens de Glenn Close e John C. Reily; mas Quill é o único terráqueo. Tudo bem, Star Wars não tem (que se saiba) nenhum terráqueo, afinal, a história se passa “há muito, muito tempo, em uma galáxia distante”. Talvez a humanidade nem existisse quando aqueles eventos “aconteceram”. Mas Star Wars é povoado de humanos: o trio principal (Luke Skywalker, Han Solo, Leia Organa) é igual a nós e muitos dos personagens secundários de destaque também são humanos. Em Guardiões da Galáxia, a proporção de humanos é muito, mas muito menor. Isso é ousadia.

O trio de vilões: Korath, Ronan e Gamora na capa da revista Empire.
O trio de vilões: Korath, Ronan e Gamora na capa da revista Empire.

A trama de Guardiões da Galáxia é simples e bem construída, mesmo que tenha que acelerar em alguns pontos para dar conta da demanda. Mas é deliciosamente bem arranjada a maneira como os tais Guardiões se reúnem e formam uma equipe para impedir uma tragédia cósmica. Sem spoilers: Peter Quill, o Senhor das Estrelas, é um ladrão cafajeste. Ele é o terráqueo da história e ficamos sabendo logo na primeira cena (antes mesmo do tradicional logo da Marvel aparecer na tela), que ainda criança (no ano de 1988 e isso é importante para a história) é abduzido da Terra após a morte de sua mãe. Adulto, rouba coisas perdidas pelo cosmo e vende a quem paga o melhor preço. Por isso, vai a um planeta abandonado em busca de uma orbe misteriosa. Lá descobre outros interessados nela – Korath que está seguindo as ordens de Ronan, um terrorista dissidente do Império Kree. Star Lord é bem sucedido em roubar a orbe, mas tem sua cabeça posta a prêmio e isso coloca a dupla Rocket (o guaxinim falante) e Groot (a árvore que anda), que são caçadores de recompensas trambiqueiros, no encalço dele.

Quem também vai atrás do prêmio é Gamora, uma das assassinas mais famosas da galáxia, que é filha adotiva de um dos seres mais poderosos e temidos do universo: o titã louco Thanos. Este, “emprestou” suas filhas – a outra é a psicótica Nebula (a legenda a traduziu como Nebulosa, argh!) – para Ronan. Obcecado em obter a orbe, Ronan envia Gamora ao encalço de Peter Quill. O Senhor das Estrelas vai entregar a orbe ao intermediário da negociação no planeta Xandar (o outro grande império da trama, que acabou de realizar um tratado de paz com os Kree, da qual Ronan é contrário e mantém uma guerra particular). Xandar é a sede da Corporação Nova, uma força policial intergalática que mantém a paz em parte do cosmos.

Diferente dos quadrinhos, Ronan é um psicótico completo.
Diferente dos quadrinhos, Ronan é um psicótico completo.

Em Xandar, tanto Rocket e Groot quanto Gamora encontram o Senhor das Estrelas e saem em busca de roubar a orbe. Na confusão que se segue, todos são presos e enviados à cadeia, onde encontram o último membro da futura equipe: Drax, o destruidor. Na prisão, encontrarão uma motivação comum (mesquinha, não pense em heroísmo por bondade – outra ousadia da Marvel) para se reunir num time e  cair em uma missão suicida de impedir o plano genocida de Ronan.

Daí a história se desenvolve em grandes fugas, batalhas cósmicas, crescimento pessoal dos personagens e muito, muito humor. O humor é um dos grandes trunfos do filme. E mesmo sendo histérico em muitos momentos, sempre funciona e isso é impressionante. Você vai morrer de rir!

Os Guardiões no filme: desajustados unidos!
Os Guardiões no filme: desajustados unidos!

Os personagens também são surpreendentemente bem trabalhados. Nenhum deles é o “herói perfeito“, fazendo muito bem o esteriótipo do “herói desajustado e cheio de falhas” criado pela Marvel em suas HQs clássicas dos anos 1960. Mas cada um deles cresce como personagem ao longo do filme, encontrando uma causa e uma razão para redirecionarem suas vidas. E tudo de uma maneira crível e inteligente. O Senhor das Estrelas tem um bom coração (no fundo, ainda é aquela criança abduzida aos oito anos de idade), mas foi criado em meio a um bando de bandidos egoístas (liderados por Yondu, outro destaque do filme com sua canalhice). Gamora é uma assassina de grande reputação, mas se recente dessa condição e busca uma forma de dar uma guinada na vida e sair da influência de Thanos. Rocket é fruto de um experimento científico que lhe deixou grandes marcas físicas e psicológicas. Groot só é capaz de falar uma única frase – “eu sou Groot” – mas compensa tudo com ótimas tiradas visuais e um senso de proteção cativante. Drax quer desesperadamente uma vingança contra Ronan por ter matado a sua família, mas no fundo entende que isso é uma motivação vazia para a existência.

A cabeça de um Celestial forma Nowhere, a base do Colecionador: visual impressionante.
A cabeça de um Celestial forma Nowhere, a base do Colecionador: visual impressionante.

A dinâmica da equipe é maravilhosamente explorada no filme e o texto de James Gunn e Nicole Pearlman sabe tirar mesmo proveito disso: todas as cenas em que a equipe está reunida são hilariantes e divertidas. Eles trocam farpas, fazem piadas e tentam se entender em meio a um diverso caldeirão de personalidades e heranças culturais.

Rocket : dublado de maneira impressionante por Bradley Cooper.
Rocket : dublado de maneira impressionante por Bradley Cooper.

Por trás dos personagens, há os atores, claro. Todos muito bons em suas funções. Mesmo o super-star dos filmes de ação Vin Diesel, que dubla Groot apenas variando o tom da frase “eu sou Groot” está bem. Outro ator só de dublagem, o indicado ao Oscar Bradley Cooper, está simplesmente ótimo na pele de Rocket, com seu jeito malandro sarcástico impedindo o personagem de cair no ridículo (afinal, não esqueça, é um guaxinim falante…). Chris Pratt enche o Senhor das Estrelas de humor e carisma; Zoe Saldana mostra uma mulher durona que esconde uma sensibilidade por trás da fachada; e até Dave Bautista – que é um lutador de MMA – se sai totalmente competente com seu Drax melancólico, embrutecido pela raiva e incapaz de entender metáforas.

Aqueles com papeis menores também estão ótimos, com um time “secundário” de ótimos atores, como Glenn Close (como Irani Rael, a chefe da Corporação Nova), John C. Reilly (como o Oficial Nova Rhomann Dey) e Benício Del Toro (como Tenivan, o Colecionador), num papel que é quase uma participação especial, mas brilhante a seu modo). Josh Brolin faz a voz de Thanos em outra participação especial, mas demonstra um grande potencial para o personagem no futuro.

Peter Quill, o Senhor das Estrelas, esbanja simpatia e humor: único terráqueo do filme.
Peter Quill, o Senhor das Estrelas, esbanja simpatia e humor: único terráqueo do filme.

O espectador geral – aquele que não lê os quadrinhos nem do Homem de Ferro, quanto mais dos Guardiões da Galáxia – vai se deliciar com esses personagens engraçados, esse filme divertido e a ação bem amarrada, com bons efeitos especiais e um visual absolutamente estranho, diferente, ousado. (E um detalhe, apesar de dois protagonistas serem criados inteiramente por CGI, o filme não abusa desse conceito e mantém muito de sua realidade em efeitos práticos e cenários físicos).

Por fim, ao leitor das HQs da Marvel, o brinde de ver nascer no cinema o quase inexplorado universo cósmico da editora, com os Kree, Xandar, a Corporação Nova, Ronan, o Colecionador e, claro, Thanos, o maior vilão cósmico da editora. A participação de Thanos ainda é pequena – ele também apareceu em Os Vingadores, agindo nas sombras – mas sua presença em tela é marcante, a voz de Josh Brolin está poderosa e sabemos que veremos mais dele no futuro próximo.

E não esqueça: há a música, espécie de fio condutor da narrativa por meio do walkman (lembra dele?) que o Senhor das Estrelas carrega desde criança com uma fita K7 cheia de sucessos pop dos anos 1970 e 1980. A trilha causa estranheza, risos e diverte na mesma proporção.

Glenn Close como Irani Rael, a líder da Corporação Nova.
Glenn Close como Irani Rael, a líder da Corporação Nova.

Então, voltando ao início do post, vá ao cinema assistir Guardiões da Galáxia. Não se preocupe em não conhecê-los: isso é um grande trunfo do filme. Sem pretensões e expectativas, você pode simplesmente sentar na cadeira e se divertir com um dos melhores longas da Marvel até agora.

O sucesso virá. Tanto que a Marvel já confirmou: Guardiões da Galáxia 2 chega aos cinemas em 28 de julho de 2017. Esteja lá!

Saiba mais sobre os personagens do filme clicando aqui e sobre as HQs dos Guardiões da Galáxia e do universo cósmico da Marvel aqui.

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Benício Del Toro como o Colecionador.
Benício Del Toro como o Colecionador.

Guardiões da Galáxia tem  tênues ligações com os outros filmes do Marvel Studios. A Tropa Nova, força de manutenção da paz no Espaço, tem papel importante no filme. O vilão Thanos (já apresentado em Os Vingadores) também tem alguma importância na trama, mas não é o oponente principal, que cabe a Ronan, o acusador. Também é apresentado o Colecionador, auxiliado pela assassina Nebula. A trama se foca no arco do personagem Star-Lord (ou Senhor das Estrelas), o líder da equipe, que é meio terráqueo, meio alien. Os demais membros da equipe são: Gamora, Rocket , Groot e Drax, o destruidor. O personagem Yundu – que nos quadrinhos já foi membro do grupo – também está no filme, mas aparentemente não na equipe.

Guardiões da Galáxia é dirigido por James Gunn, que também reescreveu o roteiro que antes passou pelas mãos de Nicole Pearlman e Chris McCoy. O elenco traz Chris Pratt  (Star-Lord); Zoe Saldana (Gamora); o lutador de MMA Dave Bautista (Drax, o destruidor); Glenn Close (Comandante Rael, líder da Tropa Nova), Benício Del Toro (Colecionador), Bradley Cooper (voz de Rocket Raccoon), John C. Reilly (Rhomann Dey), Michael Rooker (Yundu);  Lee Pace (Ronan, o acusador); Karen Gillan (Nebula); Vin Diesel (Groot); Djimon Hounsou (Korath); Ophelia Lovibond (Carina Tanivan), com participação de Josh Brolin (Thanos). A data de lançamento do filme é 1º de agosto de 2014. Ele integra a Fase 2 do Marvel Studios e tem conexões com Os Vingadores 2 – A Era de Ultron, que sai no ano que vem.

Os Guardiões da Galáxia é um time de heróis cósmicos, que atua no Espaço Sideral e surgiu em 1969, na revista Marvel Super-Heroes 18, criados por Arnold Drake e Gene Colan. Coadjuvantes do Universo Marvel e vindos do futuro, participaram de histórias dos Vingadores, Defensores e Thor. Uma nova versão da equipe, com personagens do presente, surgiu na maxissérie Aniquilação: Conquista, em 2008, criada por Dan Abnett e Andy Lanning, trazendo como membros Star Lord, Gamora, Groot, Rocket Racoon e Drax, o destruidor, dentre outros.

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