A capa de Saucerful of Secfrets: experimental até na capa.
A capa de Saucerful of Secfrets: experimental até na capa.

Um dos discos mais estranhos e desafiadores do rock foi lançado há 46 anos atrás: nesta data, em 1968, chegava às lojas da Grã-Bretanha Saucerful of Secrets da banda de rock psicodélico Pink Floyd. Àqueles que conhecem a banda por sua fase de megassucesso nos anos 1970, após o lançamento de Darkside of the Moon, podem tomar um susto e cair da cadeira ao ouvir os primeiros trabalhos desta que é uma das bandas mais importantes da história do rock. O Pink Floyd nasceu no circuito alternativo e produzia uma música que não tinha nada de “pop” em seus primeiros trabalhos.

Saucerful of Secrets, embora esteja longe (muito longe) de ser um dos melhores trabalhos do Pink Floyd, é importante historicamente porque é o último álbum da banda a trazer seu primeiro líder e fundador, o guitarrista Syd Barrett e, curiosamente, ser o primeiro com o seu substituto, David Gilmour. Por isso, é o único trabalho da banda com todos os seus cinco integrantes históricos. É, portanto, um álbum de transição e, desse modo, é inconstante e não tem nada de homogêneo. Mas se você gosta de coisas instigantes, é um álbum provocador e que tem algumas gemas preciosas escondidas.

A jornada do Pink Floyd

O Pink Floyd em sua primeira encarnação, com Syd Barrett (esq.), Nick Mason, Richard Wright e Roger Waters.
O Pink Floyd em sua primeira encarnação, com Syd Barrett (esq.), Nick Mason, Richard Wright e Roger Waters.

O Pink Floyd se formou em Londres em 1965, a partir da iniciativa de dois amigos de infância que advinham da cidade universitária de Cambridge: Roger Waters e Roger “Syd” Barrett. Os dois se conheceram na cidade natal e faziam parte de um grupo de jovens que gostavam de música e de arte e até fizeram planos de montar uma banda. Anos depois, estavam ambos em Londres, onde Waters foi estudar Arquitetura e Barrett Arte. A dupla se uniu ao tecladista Richard Wright e ao baterista Nick Mason (que estudavam Arquitetura com Waters) e nasceu o Pink Floyd.

Inicialmente dedicados ao R&B – o estilo dos Rolling Stones – a banda logo começou a investir em material autoral, especialmente o composto por Syd Barrett, que os conduziu a uma sonoridade experimental e psicodélica, equilibrando canções estranhas com longas suítes instrumentais. Já em 1966, o Pink Floyd desponta na cena alternativa de Londres, fazendo a sensação de um circuito de clubes cujo o maior representante era o UFO. Para se ter uma ideia do impacto que a banda causou na noite londrina, basta dizer que ao contrário do que normalmente acontece, houve uma disputa de gravadoras para contratá-los. E ganhou a EMI, a poderosa gravadora dos Beatles.

No primeiro semestre de 1967, o Pink Floyd lançou seus dois primeiros singles, Arnold Layne eSee Emily Play, que confirmaram a sensação e fizeram sucesso nas paradas de sucesso, apesar de serem canções estranhas com temas não-usuais e repletos de experimentações sonoras. Mas era o Verão do Amor e o boom psicodélico tinha acabado de acontecer.

O primeiro álbum da banda.
O primeiro álbum da banda.

Na esteira de lançamentos psicodélicos como Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band dos Beatles, Are You Experienced? do The Jimi Hendrix Experience e do álbum de estreia do The Doors, o primeiro álbum do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Dawn, também fez sucesso e foi aclamado pela crítica, com uma sonoridade inovadora que misturava rock, jazz, folk e experimentações eletrônicas, pontuadas por composições arrebatadoras – a maioria de autoria de Syd Barrett – e letras extremas: perturbadoras ou infantis.

Contudo, após esse bom início, tudo virou de cabeça para baixo: Syd Barrett mergulhou fundo na cultura das drogas e começou a manifestar um comportamento bizarro, estranho e errático. Isso dificultou a vida da banda, especialmente nas turnês, onde Barrett podia fazer coisas imprevisíveis: não aparecia nos shows, parava de tocar, desafinava a guitarra propositadamente, ficava parado sem se mexer ou agia como um louco.

David Gilmour substituiu Syd Barrett em 1968.
David Gilmour substituiu Syd Barrett em 1968.

Após várias tentativas frustradas de produzir algum material novo de qualidade, no segundo semestre de 1967, o restante da banda, Waters, Wright e Mason, decidiram tomar uma medida enérgica. Waters convidou outro amigo de infância dele e de Barrett, David Gilmour, que tinham uma banda própria que atuava na França. Gilmour entrou para o Pink Floyd nos primeiros dias de 1968 para ocupar o lugar de Barrett no palco, cantando e tocando guitarra. A ideia era manter Barrett como compositor na banda, atuando nas gravações, mas não saindo em turnês, tal qual os Beach Boys faziam com o líder Brian Wilson.

Ao longo do mês de janeiro de 1968, o Pink Floyd existiu como um quinteto, com Waters, Barrett, Gilmour, Wright e Mason tocando juntos em algumas ocasiões e fazendo gravações. Mas na medida em que o comportamento de Barrett permanecia bizarro, o grupo decidiu simplesmente demiti-lo, tornando-se de novo um quarteto.

Syd Barrett faria uma carreira solo, lançando dois aclamados álbuns (produzidos por David Gilmour), em 1970; mas abandonou a carreira musical depois disso, por causa de seus problemas mentais. O Pink Floyd, por sua vez, prosseguiu sua carreira como o principal nome do circuito alternativo do rock psicodélico da Inglaterra, mas progressivamente alçou às paradas de sucesso e, após o lançamento do álbum Darkside of the Moon, em 1973, tornou-se uma das bandas mais famosas e importantes da história do rock.

Gravando Saucerful of Secrets

Pink Floyd Quintet
O Pink Floyd como quinteto, em 1968. Syd Barrett está no alto, com olhar distante.

As gravações de Saucerful of Secrets foram longas e esparsas. Logo após a conclusão de The Piper at the Gates of Dawn, o Pink Floyd voltou aos estúdios já em agosto de 1967, retomando uma maratona de gravações que terminariam por resultar em Saucerful of Secrets quase um ano depois, mesmo que muitas vezes a intensão não fosse gravar um álbum, mas sim, compactos. Foi o caso da primeira iniciativa: em agosto o Pink Floyd se reuniu para gravar as canções Sets the controls for the heart of the sun (de Waters) e Scream thy last scream (de Barrett), visando um compacto. A banda seguiu em frente, mas a EMI vetou o lançamento, porque era anti-comercial demais. Por isso, o grupo retornou aos estúdios em outubro, registrando Vegetable man (de Barrett), que também não empolgou a gravadora (nem a banda…) e, em seguida, investindo em Jugband blues (de Barrett), outra que não empolgou para liderar um compacto.

Em uma situação difícil, ausência de canções para liderar um novo single, o Pink Floyd chegou a resgatar uma sobra de The Piper at the Gates of Dawn: a canção Remember a day (de Wright), já gravada, ganhou novos overdubs, inclusive, uma bela slide guitar de Barrett. Era um forte candidata à single, mas logo depois, veio Apples and oranges (de Barrett), que terminou sendo a escolhida para o compacto. Um nova canção, Paintbox (de Wright) foi gravada em seguida, escolhida para o lado B.

O compacto Apples and oranges/ Paintbox terminou sendo um fracasso de vendas e diminuiu a empolgação da banda.

A gravação de um novo álbum começou oficialmente em 18 de janeiro de 1968, já com David Gilmour nos vocais e guitarra e Syd Barrett aparecendo de vez em quando para registrar alguma coisa. Nesta segunda fase, ganharam destaques composições de Waters, como Let be more light eCorporal clegg. Em fevereiro, já com Barrett totalmente ausente (e demitido) do grupo, vieram canções como It would be so nice (de Wright) e Julia dream (de Waters), que terminariam fora do álbum e lançadas como compacto.

A última canção registrada para o álbum foi justamente a faixa-título, que terminaria servindo para preenchê-lo, já que o grupo optou por retirar do set list os compactos e não usar canções de Barrett que parecia muito desconectadas, como Vegetable man e Scream thy last scream.

As faixas do álbum

Vamos analisar o álbum faixa a faixa:

LET THERE BE MORE LIGHT

Uma boa composição de Roger Waters, até poderia ter sobrevivido ao repertório dos shows do Pink Floyd no futuro, se o grupo assim quisesse. É uma canção muito psicodélica, levada à frente pelos arpejos do baixo de Waters, o órgão hammond típico de Wright e um efeito de wah-wah na guitarra de Gilmour. Apesar de Waters ser o compositor da faixa, os vocais principais ficam com Wright (nos versos) e Gilmour (nos refrões).

O final da canção tem destaque com uma sequência constante de quebradas de ritmo lideradas por uma fabulosa melodia de slide guitar. E é aí que entra Syd Barrett. Apesar dos membros remanecescentes do grupo nunca terem clarificado a questão, o engenheiro de som da banda, Andrew King, já disse em entrevistas que é Barrett quem toca essa guitarra slide. E faz todo o sentido: é realmente o estilo dele, com um esqueiro de metal deslizando nas cordas.

Reforça a ideia, também, o fato do Pink Floyd simplesmente não executar esse trecho da canção quando a tocava ao vivo, como podemos ver na famosa apresentação da banda no programa de TV Moulin Rouge, na França, em abril de 1968, ainda antes do lançamento do álbum. Com isso, temos o Pink Floyd como um quinteto logo na primeira faixa do álbum.

Richard Wright é o principal vocalista de Saucerful of Secrets.
Richard Wright é o principal vocalista de Saucerful of Secrets.

REMEMBER A DAY

Esta canção de Richard Wright, como já escrito, foi gravada inicialmente para o primeiro álbum, recebendo o overdub da slide guitar de Syd Barrett em outubro de 1967. É uma composição interessante, que mantém o estilo do primeiro disco dentro do segundo, com uma letra voltada à melancolia da infância tão presente em The Piper… O grande destaque é mesmo a guitarra de Barrett, novamente, maravilhosa. David Gilmour não participa da canção e Wright faz os vocais principais.

SET THE CONTROLS FOR THE HEART OF THE SUN

Esta canção de Roger Waters quase foi lançada como single e se tornou a canção do álbum mais longeva no repertório da banda, sendo presença praticamente obrigatória em todos os shows do Pink Floyd até 1973, e reaparecendo ocasionalmente depois disso, inclusive nos derradeiros shows de 1981, com o fim da “formação clássica” da banda.

A base principal da banda foi gravada em agosto de 1967, com Waters, Barrett, Wright e Mason. Mais tarde, nas sessões de 1968, David Gilmour acrescentou também uma outra parte de guitarra. Mesmo assim, a contribuição de Barrett foi mantida e esta é a única canção oficialmente reconhecida com o Pink Floyd como quinteto. Os vocais aqui, sussurrados, são de Waters.

CORPORAL CLEGG

Esta canção de Roger Waters é um dos pontos mais estranhos do álbum, graças ao arranjo esquisito e ao uso do kazoo (um tipo de apito) para fazer o solo instrumental no meio e no fim. A letra é a primeira incursão de Waters no tema da guerra, algo que seria recorrente em toda a sua carreira restante. A banda até cogitou lançá-la como single, mas a EMI também vetou, embora até um vídeo tenha sido produzido (e com uma versão diferente, sem o kazoo no final).

Em termos de arranjo, destaque à guitarra com wah-wah de David Gilmour, que também faz os vocais, complementado com pequenas inserções de Nick Mason, em sua estreia vocal oficial, além de Richard Wright fazendo backing vocals.

Por fim, uma curiosidade: além da guitarra de Gilmour, há uma segunda guitarra fazendo um ritmo estranho, quase todo pautado em uma única nota, que soa muito similar ao estilo de Syd Barrett. Poderia até ser Gilmour mimetizando o velho amigo, mas eu apostaria que Barrett toca nesta canção também, aumentando para três as faixas do Pink Floyd como quinteto.

A formação clássica do Pink Floyd, com Gilmour (dir.).
A formação clássica do Pink Floyd, com Gilmour (dir.).

SAUCERFUL OF SECRETS

A faixa-título abria o lado B do LP e é uma faixa instrumental abstrata, pautada em sequências de acordes esparsos. A faixa é dividida em quatro partes: Something else, Syncopathed pandemonium, Storm signal e Celetial voices. Apesar de carregar o título, não é uma obra de destaque na carreira da banda, apesar de ter se mantido por muito tempo em seu repertório ao vivo. Falando nisso, as versões ao vivo do grupo posteriores seriam bem melhores do que essa gravação, especialmente na quarta parte.

SEE-SAW

Esta composição de Richard Wright (que também faz os vocais) aparentemente entrou apenas para preencher espaço, já que não tem destaque algum. Apesar do tecladista ter tido uma importantíssima contribuição como autor nos primeiros tempos da banda, esta aqui está longe de ser o seu melhor. Para piorar, o arranjo do grupo não favorece a canção.

JUGBAND BLUES

Syd Barrett retorna para sua derradeira participação no Pink Floyd, nesta que é a única faixa em que canta no álbum. Esta sua composição poderia ter sido um compacto em 1967, mas terminou guardada para o álbum. Embora tenha sido gravada meses antes de ser expulso do grupo, a letra soa como uma despedida e não deve ter sido coincidência ter sido posta para encerrar o disco. Como um adeus de Barrett ao Pink Floyd. Tendo sido gravada antes, David Gilmour também não participa dessa faixa.

A canção é desestruturada, como a maioria das obras finais de Barrett, estranha e inconclusa. O Pink Floyd ainda é acompanhado por um naipe de metais de uma banda do Exército da Salvação, famosa associação de caridade da Inglaterra.

O fato de ser a única canção cantada por Barrett no álbum também lhe dá um caráter de isolamento, o que reforça a impressão do que o problemático compositor sofria na época. Por fim, uma curiosidade: existe um vídeo para essa canção.

Syd Barrett: lcarreira destruída pela loucura.
Syd Barrett: lcarreira destruída pela loucura.

Recepção

Ao contrário de The Piper…, Saucerful of Secrets não foi abraçado de imediato pela crítica, nem fez tanto sucesso, fazendo o Pink Floyd retornar ao circuito alternativo depois de ter flertado com as paradas de sucesso. Mas isso foi positivo, já que permaneceram como a principal banda alternativa da Inglaterra até o álbum Atom Heart Mother atingir o primeiro lugar das paradas britânicas em 1970.

Saucerful of Secrets também abre uma fase intermediária na carreira do Pink Floyd, entre a fase de Syd Barrett e a consolidação do estilo do grupo justamente após Atom Heart Mother. Assim, Saucerful… se une a More e Ummagumma (ambos de 1969) nessa estrada de autodescoberta.

E depois…

O Pink Floyd no auge do sucesso nos anos 1970.
O Pink Floyd no auge do sucesso nos anos 1970.

O Pink Floyd seguiu sua carreira – com Waters, Gilmour, Wright e Mason como a “formação clássica” – e viveu seu apogeu artístico e comercial nos anos 1970, por meio de álbuns como Darkside of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975) e The Wall (1979). Richard Wright foi expulso do grupo após este último e o Pink Floyd prosseguiu como um trio até 1984, quando Waters e a dupla Gilmour e Mason embarcaram em uma batalha judicial pelo nome do conjunto, resultando no ganho destes últimos. Gilmour e Mason recrutaram Wright de volta e o conjunto permaneceu ativo até 1996, quando encerrou as atividades oficialmente.

Portanto, Saucerful of Secrets não é parte do core principal da obra do Pink Floyd, mas sua audição nos serve para lembrar quão ousados foram os anos 1960 e como a música não-ortodoxa, não-comercial, guarda uma beleza rara. Difícil, é verdade, mas ainda assim, bela.

Saiba mais sobre Syd Barrett clicando aqui. Conheça a Discografia Completa do Pink Floyd aqui.

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O Pink Floyd surgiu em Londres, em 1965, e se tornou um dos maiores exponentes do Movimento Psicodélico com seu primeiro disco, em 1967. Era formado por Syd Barrett(vocais e guitarra), Roger Waters (baixo e vocais), Richard Wright (teclados e vocais) e Nick Mason (bateria), mas o primeiro foi substituído por David Gilmour em 1968. Depois, a banda se tornou uma das fundadoras do chamado rock progressivo e após anos na cena underground, alçou à categoria de uma das bandas mais populares do planeta pelo sucesso do disco Darkside of the Moon, de 1973. O grupo viveu várias crises nos anos 1980, que resultou na saída de membros, e encerrou as atividades em 1996. Poucas reuniões ocorreram depois disso.

 

 

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