O poster triplo com os três vilões: informação demais.
O poster triplo com os três vilões: informação demais.

Sentimentos dúbios anteviam a estreia de O Espetacular Homem-Aranha – A Ameaça de Electro, sequência do reinício da franquia do mais popular herói da Marvel Comics, comandado pelo conglomerado Columbia Pictures/Sony. O precoce reboot da franquia dividiu fãs e críticas e estavam todos incertos do que esperar nesta sequência. Ao sair da sessão de cinema do novo filme, incrivelmente, os sentimentos dúbios permanecem.

Homem-Aranha 2: sentimentos conflitantes.
Homem-Aranha 2: sentimentos conflitantes.

Assim como seu predecessor, A Ameaça de Electro acerta em vários pontos: a fotografia mais soturna (do que a da série anterior); caracterização moderna de cenários e personagens (saindo do classicismo da anterior); atores ótimos em seus papeis; e a dinâmica matadora entre os protagonistas Andrew Garfield e Emma Stone, como o par romântico Peter Parker e Gwen Stacy.

Mas também há problemas. E neste filme há um irritante equilíbrio entre os problemas e os acertos. Vamos a eles.

Peter e Gwen: ótima química em cena.
Peter e Gwen: ótima química em cena.

O diretor Marc Webb ganhou projeção com uma comédia romântica incomum – 500 Dias com Ela – e trouxe a essência daquilo para o seu Homem-Aranha. Por isso, o filme acerta demais na trama entre Peter e Gwen. Quem leu os quadrinhos originais de Stan Lee e John Romita – e a fase final de Gerry Conway, Gil Kane e John Romita – vai se identificar profundamente com as idas e vindas do relacionamento da dupla ao longo do filme e os dramas vividos pelo herói. (Saiba mais sobre as HQs clicando aqui).

O roteiro cria situações que embora inovem a dinâmica Peter-Gwen (nos quadrinhos ela nunca soube a identidade secreta do amado, algo que fez logo no meio do primeiro filme, de modo que parte da dinâmica mimetiza ainda o relacionamento do herói com outra de suas namoradas da HQ, Mary Jane Watson, esta sim, descobriu no passado a identidade dele), trazem muito daquele gosto de melodrama (no bom sentido) que Stan Lee imprimiu marca lá no fim dos anos 1960 em suas histórias fabulosas. Os personagens são intensos e profundos e isso é legal de ver.

A caracterização dos atores é ótima. Emma Stone é a encarnação viva da Gwen Stacy de John Romita, com seu cabelo loiro, grandes olhos claros e beleza estonteante. Andrew Garfield faz muito bem um Peter Parker que não é excessivamente bonito, porém, não é o nerd deslocado dos quadrinhos originais. Está mais para um jovem hipster, portanto, mais moderno.

Peter e Gwen Stacy nos quadrinhos, na arte de John Romita.
Peter e Gwen Stacy nos quadrinhos, na arte de John Romita.

O problema é que essa boa história de amor de um herói por sua musa não encontra eco na trama paralela dos vilões. Por mais que o tempo de tela seja bem distribuído entre Electro, Duende Verde e Rino; no fim das contas fica informação demais para o telespectador, o que o impede de vivenciar a fundo as emoções geradas pela outra história.

A Ameaça de Electro lida com o tema da herança. O trio protagonista – Peter, Gwen e Harry – precisam lidar com isso. Peter vai atrás (e soluciona) o mistério envolvendo seus pais, Richard e Mary Parker, e descobre que até sua transformação em Homem-Aranha está relacionada a isso, como numa boa trama de conspiração. Há ainda outro tipo de herança, convexa, em relação ao seu falecido sogro. Em O Espetacular Homem-Aranha, o pai de Gwen, o Capitão de Polícia George Stacy, persegue o aracnídeo e descobre que ele é Peter. À beira da morte, Stacy pede que Peter se afaste de Gwen para que ela não sofra. O “fantasma” do Capitão Stacy persegue Peter ao longo do filme, o tempo inteiro ele sabendo que não está cumprindo sua promessa e atormentado por isso.

Gwen Stacy: ponto de virada.
Gwen Stacy: ponto de virada.

Gwen tenta descobrir o seu lugar no mundo sem que esteja à sombra de seu pai, o Capitão Stacy, nem do seu namorado super-herói. Mas se ser autônoma significar abandoná-lo? Deverá ela seguir sua vida – e uma bolsa de estudos em Oxford, na Inglaterra – ou permanecer no vai e vem das teias do amado? O fato é que Gwen molda uma frase para ela mesma: “é minha vida, é minha escolha”.

Harry Osborn: boa trama, mas apressada e não-fiel aos quadrinhos.
Harry Osborn: boa trama, mas apressada e não-fiel aos quadrinhos.

Harry é um ponto mais delicado. Em termos de história, o arco do personagem é interessante e um pouco diferente daquele visto na velha Trilogia do Homem-Aranha. Por outro lado, aquilo que Harry viveu em três filmes é reduzido em A Ameaça de Electro em algumas poucas cenas. Tudo fica muito rápido e muito carregado de informação. E sem tempo, não há jeito de desenvolver o personagem.

A escolha do diretor e dos roteiristas por essa abordagem a Harry Osborn também incomoda o fã de HQs mais ortodoxo, porque inverte os papeis de Harry e Norman. No cânone do Homem-Aranha, Norman Osborn foi O grande vilão. O Duende Verde original. Ainda é o grande vilão: inclusive, dando até aos Vingadores uma de suas derrotas mais amargas. Harry teve o seu momento Duende Verde, mas foi fruto de uma combinação de surto psicótico, drogas pesadas e remédios controlados. Ele se curou e voltou a ser uma pessoa “do bem” depois disso. Na nova franquia, é Harry quem trilha o caminho da vilania, enquanto seu pai é um moribundo.

O Duende Verde e o Homem-Aranha: troca de papeis.
O Duende Verde e o Homem-Aranha: troca de papeis.

Dá para entender a escolha dos produtores: um oponente mais jovem que possa se relacionar mais intimamente com Peter Parker. E, claro, não repetir o que já foi feito com Willen Dafoe em 2002. Pode até funcionar na tela, mas dói no peito do leitor dos quadrinhos originais. De qualquer modo, enquanto o Harry Osborn de James Franco era perturbado, o de Dane DeHann é psicótico mesmo. No pouco tempo de tela que lhe é destinado, termina ficando forçado. Sua transformação no Duende no longa termina sendo constrangedora.

Outro ponto sobre herança no filme resulta em outro conflito com o cânone das HQs. A história dos pais de Peter não é toda infundada: Stan Lee e John Romita criaram uma versão similar numa história de 1967. Mas não é algo fundamental no cânone, porque sempre foi mais importante a relação de Peter com seu falecido tio Ben. É a morte dele que dá o grande start na jornada do herói de Peter: “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”, é o lema que cunha o tio e o sobrinho segue para o resto da vida.

Richard e Mary Parker: os pais tem papel fundamental.
Richard e Mary Parker: os pais tem papel fundamental.

Nesta nova série, o papel do tio Ben termina reduzido – reduzido demais – em prol do mistério de Richard Parker. Isso enfraquece as bases fundamentais da moral do Homem-Aranha. Uma pena. É um problema que já tinha aparecido no primeiro longa – e a resenha do HQRock na época tratou disso – e se repete ainda mais forte neste segundo capítulo.

Por outro lado, A Ameaça de Electro é realmente um “abridor de franquias“: lança tramas e personagens em todas as direções, preparando terreno para novos filmes e sequências. Felicia Hardy, Alaister Smythe, Donald Mekken, Rino… eles vão brotando do chão. Menções ao Sexteto Sinistro estão lá e vemos claramente (inclusive nos trailers) os tentáculos do Dr. Octopus e as asas do Abutre. Até J. Jonah Jameson é citado algumas vezes no filme e Peter até fotografa para o Clarim Diário, mas o personagem ainda não aparece desta vez.

Rino: apenas gancho na história.
Rino: apenas gancho na história.

Mas na hora de desenvolver a trama dos vilões o filme falha. Rino é apenas um gancho para a história e, por isso, funciona. O Duende Verde de Harry é apressado como já dissemos. E o Electro tem até uma trama bem pensada, mas fica meio perdido no meio de tanta coisa acontecendo. O sempre ótimo Jaime Foxx se esforça para compor um personagem e o roteiro procura dar a ele alguma profundidade, mas uma vez transformado em um monstro de eletricidade – que termina parecido demais com o Dr. Manhantan de Watchmen – (ainda mais num acidente que aparece tão forçadamente na história) vira só um clichê de um vilão em busca de vingança contra a sociedade, disparando raios a esmo na Time Square.

Eletro: trama interessante, mas sem objetivos.
Eletro: trama interessante, mas sem objetivos.

O objetivo final do vilão – tomar posse de uma rede elétrica que abastece a cidade – também aparece tão infundado que dói. Sim, e depois? Nem Electro nem os roteiristas parecem saber.

O interessante é que o filme – ao contrário da maioria do gênero de super-heróis – melhora em seu terço final. Por quê? Por causa do entrelaçamento da trama Peter-Gwen com a dos vilões Duende Verde-Electro. No filme, Gwen não é a típica “donzela em perigo“, já que termina ajudando o Homem-Aranha em muitos momentos. E faz o papel de vítima apenas em uma cena.

Turning Point.
Turning Point.

Perto do fim, o filme dá um grande choque dramático no espectador. Não podemos dizer o que é, porque é um grande spoiler. Mas é algo que funciona bem na tela, é profundo e tocante.

Na sessão em que assisti, vi pessoas chorando e outras em prantos. Sério mesmo. É algo surpreendente.

Infelizmente, num filme apressado para mostrar tanta coisa – Duende Verde, Electro, Rino, formação de Sexteto Sinistro, segredos do passado de Richard Parker etc. – termina sobrando pouco tempo (e pouca trama) para explorar melhor o grande fato bombástico do fim. Não é dado ao telespectador tempo para depurar o que aconteceu.

Homem-Aranha: efeitos espetaculares.
Homem-Aranha: efeitos espetaculares.

É uma pena. Porque poderia ser um grande momento cinematográfico.

Desse modo, O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro não é um mau filme. Mas também não é o melhor momento do “amigão da vizinhança” nas telonas. É um filme dúbio. De sentimentos conflitantes. Grandes momentos, grandes interpretações, drama e choque de um lado; ação de qualidade, efeitos especiais surpreendentes; e por outro lado, pouco desenvolvimento dos vilões, muita informação, pressa e alguns momentos constrangedores.

Ao fim da projeção, também fica a incerteza do que esperar pela frente. A Sony já anunciou as partes 3 e 4, além de filmes “solo” de Venon e Sexteto Sinistro.

***

Electro e seu uniforme.
Electro e seu uniforme.

O Espetacular Homem-Aranha 2 traz Peter Parker tendo que lidar com o fardo de ser um estudante normal e o vigilante do crime Homem-Aranha; enquanto tenta se manter afastado de seu grande amor, Gwen Stacy, por medo de envolvê-la nos riscos de sua vida. Ao mesmo tempo, o surgimento de um novo supervilão com poderes especiais, o Electro, pode tornar as coisas bem mais complicadas. Há também outro vilão: Rino. O filme introduz novos personagens à trama: o amigo Harry Osborn e o pai dele, o poderoso (e perigoso) Norman Osborn, dono da Oscorp, corporação na qual Gwen é funcionária no primeiro filme. Os Osborn têm grandes planos para com Peter Parker e seus segredos.

O Espetacular Homem-Aranha 2 é dirigido por Marc Webb (de 500 Dias com Ela), com história de James Vanderbilt e roteiro de Alex Kurtzman, Roberto Orci (de Star Trek e Transformers) e Jeff Pinkner. O elenco traz Andrew Garfield (Peter Parker), Emma Stone (Gwen Stacy), Jaime Foxx (Max Dillon/Electro), Dane DeHann (Harry Osborn),  Chris Cooper (Norman Osborn), Colm Feore (Donald Mekken), Paul Giamatti (Aleksei Sytsevich/Rhino), Sally Field (May Parker), Campbell Scott (Richard Parker), Embeth Davidtz (Mary Parker), Felicity Jones (Felicia Hardy), B.J. Novak (Alistair Smythe), Dennis Leary (Cap. George Stacy).  A estreia no Brasil foi em 1º de maio de 2014, um dia antes do que nos EUA.

O Homem-Aranha foi criado por Stan Lee e Steve Ditko em 1962, na revista Amazing Fantasy 15, da Marvel Comics. Ele é publicado até hoje na revista Amazing Spider-Man e outras e também é membro dos Vingadores.

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