40 anos de um dos discos mais celebrados do rock.
40 anos de um dos discos mais celebrados do rock.

Há exatos 40 anos atrás, em março de 1973, chegava às lojas do mundo uma das obras musicais mais fortes, marcantes e de sucesso do século XX: o álbum Darkside of the Moon, da banda britânica Pink Floyd. Além de ser um dos pontos altos da carreira da banda e do chamado rock progressivo, a obra teve um impacto impressionante na época do lançamento e, ainda hoje, é um marco sonoro de grande valor, inteligência, beleza, crítica e ousadia. Tudo dentro de um pacote que ainda assim é acessível ao grande público.

Um dos discos de maior sucesso e popularidade da história do rock e dono de uma capa icônica espetacular, Darkside of the Moon não envelheceu com o tempo e sua sonoridade ainda remete a alguns dos experimentos do rock contemporâneo dos dias de hoje – vide por exemplo os últimos discos do Radiohead. Por isso mesmo, ouvi-lo e entendê-lo é uma tarefa essencial ao fã de rock ou de boa música em geral.

E se vivemos em uma época em que o formato “álbum” quase perdeu o sentido, ouvi-lo na íntegra e na sequência exata de suas 10 faixas é um exercício que o jovem ouvinte deveria se arriscar a tentar, para experimentar algo que, para ele, talvez ainda seja mais novo e impactante do que ao público do passado. Fica a dica…

Em comemoração aos 40 anos de seu lançamento, o HQRock traz um comentário geral sobre a obra e sua importância.

Mente Danificada… Um início interrompido

A icônica capa criada por Storm Thorgerson.
A icônica capa criada por Storm Thorgerson.

Em primeiro lugar, só se compreende o disco Darkside of the Moon em sua completude quem conhece pelo menos um pouco a história do Pink Floyd antes do álbum. E vamos a ela, mesmo que rapidamente. O Pink Floyd surgiu da ideia de dois jovens estudantes de artes chamados Roger e crescidos em Cambridge, no interior da Inglaterra. George Roger Waters nasceu em Surrey em 1943, mas ficou órfão do pai antes de completar um ano de idade, já que ele morreu como combatente na II Guerra Mundial, com sua mãe viúva mudando-se para aquela famosa cidade universitária da Inglaterra. Enquanto isso, Roger Keith Barrett nasceu em 1946, em Cambridge, filho de um renomado médico.

Os dois se tornaram amigos na adolescência e se reencontraram em Londres por volta de 1964, onde Waters estudava arquitetura (na época, parte das artes) e Barrett, já usando o apelido “Syd” no lugar do nome verdadeiro, tentava o caminho das artes plásticas. Em Londres, a dupla de Cambridge se uniu ao tecladista Richard Wright e ao baterista Nick Mason, numa banda que teve algumas formações e vários nomes diferentes a partir de 1965 até chegar ao nome de Pink Floyd, criado por Barrett a partir de dois bluesmen obscuros do passado. Ascendendo na cena alternativa em torno do psicodelismo em 1966, o grupo virou uma sensação entre os “entendidos” por seu som espacial, aleatório, cheio de longas e improvisadas passagens instrumentais. As composições fortes de Syd Barrett (cantor e guitarrista) também eram um diferencial que garantiu uma disputa entre gravadoras para contratá-los, resultando no acordo com a gigante EMI, a mesma gravadora dos Beatles.

O Pink Floyd original em 1967, com Syd Barrett (esq.).
O Pink Floyd original em 1967, com Syd Barrett (esq.).

O Pink Floyd estreou nos discos em 1967 e seu impacto só aumentou. Seus primeiros singles e o álbum The Piper at the Gates of Dawn viraram trilha sonora dos doidões de Londres e causaram grande influência. Contudo, isso teve um preço: o sucesso, a fama e as engrenagens da indústria musical afetaram Barrett sobremaneira, que começou a perder a razão. Ao final daquele ano, o músico já estava praticamente incapacitado de cantar, tocar e compor, perdido num mundo errático e inconstante. Loucura, diriam alguns.

Sua saída da banda era inevitável e, para substituí-lo, o baixista Roger Waters chamou outro velho amigo de Cambridge: David Gilmour, que tinha uma banda que tocava na França de vez em quando. Nos primeiros meses de 1968, o Pink Floyd tentou existir como um quinteto, fazendo shows e gravando seu segundo álbum, mas Barrett foi inteiramente desligado, com Gilmour assumindo o papel de guitarrista e cantor. Waters e Wright passaram a dividir o fardo das composições. (Barrett tentaria uma carreira solo pouco depois, com dois bons discos produzidos pelos amigos Gilmour e Waters, mas seu estado mental não permitiu as coisas irem muito longe).

Fugindo… O Pink Floyd a caminho do Lado Escuro

A banda no fim dos anos 1960: buscando uma identidade.
A banda no fim dos anos 1960: buscando uma identidade.

O Pink Floyd, então, passou a existir à sombra da presença de Barrett e a sonoridade ainda mais experimental que adotaram – menos pautada em canções e mais em som e conceitos – terminou tornando-os mais exóticos, embora mantivessem uma parcela fiel de fãs. De qualquer modo, entre 1968 e 1972, o Pink Floyd foi a principal banda alternativa da Inglaterra, lançando outros sete álbuns, que chegavam ao Top10 das vendas justamente por causa desse prestígio.

Internamente, contudo, a banda se sentia perdida e sem rumo. Por isso, quando Roger Waters começou a desenvolver o conceito de um disco que falasse sobre alienação, violência e o medo da loucura no mundo moderno, todos ficaram muito empolgados ao encontrarem um objetivo.  Por isso mesmo, o projeto, inicialmente chamado de Eclipse, foi gestado lentamente. Logo após o lançamento do álbum Middle, em 1971 (que traz o clássico Echoes), a banda começou a trabalhar em composições novas que fariam parte de Eclipse. Em novembro daquele ano, após excursionarem pelos EUA, o quarteto se reuniu em um estúdio de ensaios e começou a trabalhar nas  canções do que seria a sua maior obra-prima.

Nós e Eles… Criando as canções

O Pink Floyd ao vivo em 1971.
O Pink Floyd ao vivo em 1971.

Duas das canções do que seria mais tarde o Darkside of the Moon já existiam. Primeiramente, uma bela e triste balada instrumental levada ao piano – e composta por Richard Wright – chamada de The Violence Sequence, porque foram composta para a trilha sonora do filme Zabriski Point, de Michelangelo Antonioni, em 1970, com a qual a banda contribuiu. A intensão era contrastar uma cena de violência (como o título sugere) com essa melodia tocante. Mas o diretor não aceitou e ela não foi usada. A canção, então, foi apresentada algumas vezes ao vivo nos shows da banda.

A outra peça era a mais abstrata chamada Religion, um número instrumental caótico também calcado nos teclados de Wright, especialmente um órgão hammond, que a banda também usava em alguns shows.

Por fim, apareceu uma canção mais tradicional composta por Waters e batizada – vejam só – de Darkside of the Moon, que chegou a ser gravada nas sessões para Middle, mas não fora finalizada. Seria rebatizada de Brain damage em seguida.

A partir dessa base, a banda começou a trabalhar no que viria a ser o álbum. Waters teve a ideia de usar aquelas canções para criar um álbum-conceito, que girasse todo em torno daquelas temáticas: violência, loucura, dinheiro, religião… Enfim, um disco sobre a alma humana no tempo contemporâneo. Chamou-o de Eclipse por remeter a algo que vai escurecendo com o tempo. O tempo, outro conceito!

A banda na época de Darkside of the Moon: preparando uma lenda.
A banda na época de Darkside of the Moon: preparando uma lenda.

Em meio aqueles ensaios de novembro de 1971, Waters levou duas gravações demo de canções que havia recém-composto: Time e Money. Eram canções completas, com letra, melodia e harmonia, e faziam uma leitura crítica do mundo social ao qual estamos imersos. Ambas também traziam uma mudança de estilo: até então, as letras de Waters seguiam os designo do rock progressivo e dos discos altamente experimentais do Pink Floyd, com mensagens etéreas e enigmas. Time e Money eram canções com letras mais diretas e absurdamente simples. E eram canções – isso não deve ser esquecido – e não as sessões semiintrumentais da banda girando em torno de conceitos.

A inspiração imediata de Waters era o álbum Plastic Ono Band, de John Lennon, lançado em 1970. Fora o primeiro disco do compositor após o fim dos Beatles e é carregado de simplicidade nas letras e no som. Mas tudo com uma mensagem forte. Muito forte. É um soco no estômago. Waters queria aquilo adaptado à realidade do Pink Floyd.

Novas canções e conceitos foram surgindo e já em janeiro de 1972, o Pink Floyd apresentou uma versão primitiva de Eclipse, num concerto em Brighton, na Inglaterra. As 10 faixas que iriam compor o futuro álbum já estavam mais ou menos lá, embora algumas com outros títulos e formatos.

Tempo… Preparando a obra

Poster de 1972 apresentando o show Eclipse.
Poster de 1972 apresentando o show Eclipse.

Tendo em vistas os primeiros shows de janeiro de 1972, o Pink Floyd gastou mais de um ano preparando Darkside of the Moon. E diferentemente de outras vezes, não começou pelo estúdio, mas pelos shows. Com isso, o disco foi testado literalmente mais de uma centena de vezes antes de ver a luz do dia em uma loja de discos.

Já em fevereiro de 1972, os cartazes dos concertos da banda anunciavam que uma nova peça chamada Darkside of the Moon seria apresentada nos shows. A banda executava as 10 faixas na íntegra e, depois, no bis, tocava outras de suas canções do passado. Foi nas execuções ao vivo que o material foi ganhando forma.

A seção instrumental inicial ganhou o nome de Speak to me; Religion tomou uma forma mais definida e mudou de título para On the run; The Violence Sequence ganhou uma letra por Roger Waters, passando a se chamar Us and them; e a canção Eclipse foi composta, como um tipo de encerramento que une todo o disco.

Respire… Uma pequena pausa nos trabalhos

Capa do álbum Obscure by Clouds, gravado em meio a uma pausa em Darkside.
Capa do álbum Obscure by Clouds, gravado em meio a uma pausa em Darkside.

Em meio aos shows em que apresentavam o pré-projeto de Darkside of the Moon, juntamente à promoção das faixas de Middle, o Pink Floyd ainda encontrou disposição para uma terceira tarefa. Foram convidados pelo diretor de cinema Barbet Schroeder para fazer a trilha sonora do filme La Vallée. O diretor e a banda já tinham produzido um trabalho em parceria antes: More, que foi o terceiro álbum do Pink Floyd, lançado em 1969. Entre o fim de fevereiro e o fim de março, a banda foi à França gravar em apenas algumas semanas a trilha do novo filme, num intervalo entre a turnê britânica e outra japonesa.

Obviamente, não usaram nenhum dos materiais planejados para Darkside of the Moon, então tiveram que compor material novo e gravá-lo quase que imediatamente. O material daria origem ao álbum Obscure by Clouds, lançado em junho de 1972. A banda não usou o nome La Vallée, porque não se entendeu com a produtora do filme, mas a trilha foi usada.

E o álbum é uma grata surpresa: um dos discos menos conhecidos do Pink Floyd, mas cheio de ótimas canções e uma sonoridade maravilhosa. Gravado sob condições tecnológicas precárias e em pouco tempo, isso resultou em uma maior união da banda, de modo que as canções são realmente fruto de parcerias entre os músicos.

De volta à Inglaterra, a banda começaria a verdadeira epopeia de gravar Darkside of the Moon.

Qualquer Cor que Você Goste… As gravações começam

A banda reunida na sala de controle de Abbey Road.
A banda reunida na sala de controle.

As gravações do álbum começaram em 1º de junho de 1972, nos estúdios da EMI em Abbey Road, o mesmo estúdio no qual os Beatles gravaram a maior parte de suas canções. O Pink Floyd tinha assinado, em 1967, um contrato maluco com a EMI com duração de 10 anos, na qual tinham direito a horas ilimitadas de estúdio , então, podiam gravar seus discos com calma, longamente. E desta vez fizeram isso mesmo.

O projeto voltou a se chamar Eclipse e a primeira faixa a ser gravada foi Us and them, a antiga peça instrumental ao piano de Richard Wright, agora com uma letra igualmente melancólica de Roger Waters, cantada lindamente por David Gilmour.

As gravações do disco ocupariam três longas temporadas, ao longo de nove meses. A primeira, entre junho e julho, andou rapidamente, com as gravações das bases de Us and them, Money, Time, Breathe e o esboço de The great gig in the sky, outra peça instrumental de autoria de Wright. Essa primeira seção das gravações foi interrompida por dois meses de férias da banda, para que se recuperassem e partissem para uma turnê de quinze dias pelos EUA, em agosto.

Um diferencial nas sessões do disco foi a presença do engenheiro de som Alan Parsons, veterano dos estúdios da EMI, que havia começado a carreira como assistente de engenheiro nas gravações finais dos Beatles. Parsons realmente sabia tirar um som bonito dos instrumentos e isso contribuiu bastante para a forma final do álbum.

O sucesso futuro de Darkside também seria gratificante para Parsons, que virou uma estrela por si só, ganhou um prêmio Grammy pelo disco e, no fim dos anos 1970, montaria a banda The Alan Parsons Project, que faria sucesso com um rock progressivo leve e bonito.

David Gilmour ouve o material gravado em Abbey Road.
David Gilmour ouve o material gravado em Abbey Road.

A segunda temporada de gravação deu-se início em 08 de setembro e durou um mês. Agora, definitivamente, o disco se chamava Darkside of the Moon. Foram gravadas as bases de Brain demage e Any color you like.

Neste momento, a banda decidiu acrescentar um coral feminino nas canções, algo que o Pink Floyd jamais usara. Foi ideia de David Gilmour, para dar um toque mais quente e de soul às ásperas e críticas letras de Waters. Foram contratadas as cantoras Doris Troy, Lesley Ducan, Liza Strike e Berry St. John, que cantam em todas as canções não-instrumentais do disco.

Gilmour também convidou um velho amigo de Cambridge, Dick Perry, para tocar saxofone em algumas faixas. Perry não era um músico profissional, mas fez um ótimo trabalho em Us and them e Money.

Essas gravações se encerraram no início de outubro, com o Pink Floyd embarcando em uma turnê de dois meses pela Europa, que incluiu até as apresentações do Pink Floyd Ballet em Marselha, na França, na qual o conjunto fez trilha sonora para uma apresentação de balé durante uma semana (!).

Por fim, a última temporada de gravações deu-se início em janeiro de 1973, nas quais foram feitos os últimos ajustes do álbum. Mas não pense que isso foi fácil.

Fale Comigo… Terminando o disco

Wright e Gilmour brincam com sintetizadores.
Wright e Gilmour brincam com sintetizadores.

Neste ponto, as gravações, que começaram amistosas e cheias de trocas entre os músicos, já estavam fervilhando de tensão entre as duas principais mentes criativas da banda: Roger Waters e David Gilmour. Por um lado, Water era o mentor do projeto, autor de grande parte das canções (Time, Money, Brain demage e Eclipse) e tinha feito letras para todas as canções (que incluem ainda Breathe e Us and them). Por outro lado, embora Gilmour tenha composto apenas uma canção (Breathe, que é repetida dentro de Time, então, também lhe dá crédito) e contribuído para a instrumental Any color you like, ele era a alma musical da banda. Sua guitarra é a marca fundamental do grupo. Suas ideias de arranjo também eram mais concisas. E, por último, mas não menos importante, Gilmour era o principal vocalista do grupo, cantando na maioria das faixas, inclusive, em Us and them, que poderia ter sido cantada por Wright, que era o autor.

Gilmour era a voz da banda e o músico mais completo.
Gilmour era a voz da banda e o músico mais completo.

Falando em Wright, apesar de ter composto Us and them e The great gig in the sky e ter contribuído para a instrumental Any color you like, o tecladista não era uma voz ativa dentro do grupo. Sua personalidade calada e quieta lhe deixava à margem das grandes discussões. Ainda assim, Wright canta nas interseções de Time e faz backing vocals em várias das outras.

Roger Waters foi o grande mentor do disco, criando a maioria das canções e todas as letras.
Roger Waters foi o grande mentor do disco, criando a maioria das canções e todas as letras.

Contudo, Waters e Gilmour discordavam radicalmente como aquelas gravações deveriam soar no disco. Neste ponto, a maior parte do material já estava gravado, mas havia algumas sobreposições e, o mais importante, a mixagem, que iria definir “a cara” das faixas. E os dois não concordavam quanto a isso.

Por isso, uma saída diplomática foi contratar o produtor Chris Thomas para supervisionar a mixagem e, assim, atuar como mediador entre os dois egos inflamados. Thomas era um funcionário de carreira da EMI, tendo começado a carreira como engenheiro de som dos Beatles na gravação do mítico Álbum Branco, em 1968. No ano seguinte, Thomas assumiu efetivamente a função de produtor em várias das faixas de Abbey Road, o último álbum do quarteto de Liverpool. A partir dali, começou uma vitoriosa carreira de produtor, que lhe levaria a trabalhar com grandes nomes, desde Elton John à banda punk Sex Pistols.

Muitos creditam à Chris Thomas a polida de Darkside…, que apesar de todo o seu experimentalismo, ainda é uma obra bastante acessível ao grande público.

Clare Torry deixou sua marca em The great gig in the sky.
Clare Torry deixou sua marca em The great gig in the sky.

Outra contribuição de Thomas foi convidar a cantora Clare Torry para colocar vocais na instrumental The great gig in the sky, de Richard Wright.  Não foi escrita uma letra para ela, então, Torry foi instruída pela banda a simplesmente produzir um canto sem palavras que acompanhasse o ritmo da canção, indo do frenesi à calma absoluta e vice-versa. A cantora gravou sua participação em três takes e foi embora, achando que não seria aproveitada para a versão final. Só ficou sabendo do resultado quando o disco foi lançado.

Décadas mais tarde, advogados instruíram Torry a reivindicar coautoria da canção, por ter proporcionado a melodia. Ela ganhou a causa em 2005 e, desde então, The great gig in the sky é creditada a Wright-Torry.

Disputas para encerrar o disco.
Wright, Gilmour, Mason e Waters: Disputas para encerrar o disco.

Também foi na etapa final das gravações com Chris Thomas que as falas foram incluídas no disco. Roger Waters teve a brilhante ideia de fazer entrevistas com pessoas próximas ao grupo ou funcionários dos estúdios Abbey Road com perguntas sobre o que pensavam sobre a loucura, a violência ou quando foram violentos pela última vez. As entrevistas foram gravadas e até o ex-beatle Paul McCartney foi entrevistado, já que estava gravando um disco no mesmo estúdio na mesma época. Contudo, as respostas evasivas do famoso compositor não foram utilizadas.

As interseções são incluídas geralmente no início ou no fim das canções, bem como no início de algumas sessões instrumentais e complementam de maneira incrível o conteúdo do disco. Há relatos sobre brigas e sobre quem tem razão; o assistente de palco da banda Chris Adamson dizendo que “eu estive louco por uma porrada de anos”; o outro assistente Pete Watts dizendo “eu sei que estive louco, eu sempre soube que estive louco”, bem como dá uma risada maluca ouvida no início do álbum; e por fim, o porteiro do estúdio, Jerry Driscoll, dizendo uma frase estupenda que é ouvida nos últimos segundos do disco: “não há um lado escuro da lua; na verdade, ela é toda escura“.

As últimas sessões do álbum, já em janeiro e fevereiro de 1973, foram dedicadas à criação da introdução instrumental Speak to me, que abre o disco e sintetiza vários elementos sonoros que serão ouvidos mais adiante; bem como a batida do coração que abre e encerra o álbum, gravada com a bateria de Nick Mason.

A capa do disco em vinil.
A capa do disco em vinil.

Por fim, não menos importante, na etapa final das gravações foi feito o design da capa do álbum, que se tornaria uma das mais icônicas imagens do rock em toda a sua história. O tecladista Richard Wright havia solicitado ao amigo Storm Thorgerson, dono da empresa Hipgnosis, que executasse uma capa simples e essencial. Thorgerson e a Hipgnosis já havia criado a maioria das capas do Pink Floyd a partir de seu segundo disco. Thorgerson também era de Cambridge e amigo de adolescência de Roger Waters, David Gilmour e Syd Barrett. Cabe a ele aquela aparência tão significativa da maioria das capas da banda, cheias de enigmas.

O prisma combina fotografia, desenho e pintura, porque o triângulo sugere algo elementar. Roger Waters teve a ideia da luz do prisma se transformar em batimentos cardíacos dentro da capa dupla do LP, para manter uma conexão direta com a música. E antecipando o alto investimento da EMI ao projeto, a Hipgnosis foi financiada para uma visita ao Egito para fotografar as pirâmides que aparecem no encarte.

A capa dupla do LP original permitia a criação de painéis muito bonitos nas vitrines das lojas, com a imagem se estendendo infinitamente pela combinação de várias unidades.

Dinheiro… A disputa com a gravadora

Pé na bunda da Capítol records.
Pé na bunda da Capítol records.

Em meio à gravação do disco, o Pink Floyd entrou em uma roda de negociações com a gravadora EMI para renovar seu contrato de distribuição com os Estados Unidos. A banda estava insatisfeita com o tratamento que a subsidiária norteamericana da empresa, a poderosa Capitol Records. No fim das contas, o grupo continuou com a EMI na Inglaterra, mas dispensou a Capitol e assinou um contrato de distribuição nos EUA com a maior concorrente desta, a Columbia Records.

A partir do álbum seguinte, as capas do Pink Floyd passariam a trazer EMI ou Columbia a partir do lado do Atlântico em que se encontram.

Foi um grande azar da Capitol, pois o sucesso absurdo de Darkside of the Moon deixaria rastro para os discos seguintes, que consolidaram a fase mais famosa do Pink Floyd. E deixaram a Capitol de fora da festa…

O Grande Acontecimento no Céu… A recepção do disco

Luzes do prisma viram batimentos cardíacos no encarte do disco.
Luzes do prisma viram batimentos cardíacos no encarte do disco.

Sem saber que o Pink Floyd tinha assinado um contrato com outra gravadora para os álbuns seguintes, a Capitol investiu pesado no marketing de lançamento. Tanto que Darkside of the Moon saiu primeiro nos EUA, em 10 de março de 1973. Na Grã-Bretanha e no resto do mundo, o lançamento foi em 24 de março.

A crítica se dividiu um pouco sobre o disco, geralmente elogiando o conteúdo, mas ainda alguns preferindo os discos antigos. De qualquer modo, a reação do público foi explosiva: Darkside foi o primeiro álbum do Pink Floyd a chegar ao primeiro lugar da parada da Billboard nos EUA. E não somente isso. Além de ter ficado por muitas semanas na posição, o disco bateu o recorde de maior permanência que um álbum ficou dentro dos 200 mais vendidos: nada menos do que 591 semanas! Mais de 11 anos completos!

Darkside ainda é o oitavo disco mais vendido da história da Inglaterra.
Darkside ainda é o oitavo disco mais vendido da história da Inglaterra.

A EMI teve que criar um sistema paralelo de produção do disco para dar conta da demanda. Em determinado momento dos anos 1970, um em cada cinco lares britânicos tinham uma cópia do LP.

Curiosamente, Darkside nem é o disco de maior sucesso comercial do Pink Floyd, embora tenha vendido cerca de 34 milhões de cópias até hoje. O campeão da banda é o álbum The Wall, de 1979, com 40 milhões.

Rompendo com as estratégias mais óbvias de promoção, o Pink Floyd tirou férias logo após o lançamento de Darkside e não fez turnê. Na lógica do grupo, o álbum já tinha sido “promovido” no ano anterior (1972), com dezenas de apresentações ao vivo.

Fotografia que ilustra o encarte de Darkside.
Fotografia que ilustra o encarte de Darkside: Wright, Waters, Mason e Gilmour.

Só voltaram aos palcos em 1974, em pequenas turnês curtas. Na primavera, tocaram na França e, em outubro e novembro, fizeram uma turnê pela Grã-Bretanha, na qual foram criticados por tocar de modo muito parecido com o disco e usando efeitos sonoros em demasia, em vez dos velhos shows altamente improvisados do passado.

Darkside of the Moon é um marco fortíssimo na carreira do Pink Floyd. Sem dúvidas, o lançamento do disco (e seu sucesso estrondoso) encerrou a fase underground da banda. E deu início à fase mais popular do grupo, sua fase clássica, que vai de Darkside em 1973 até The Wall em 1979.

A sonoridade contemplativa e bonita de Darkside ganhou uma sequência respeitável no álbum seguinte: Wish You Were Here, de 1975, que inclusive, é apontado como álbum favorito de dois membros, David Gilmour e Richard Wright.

David Gilmour grava sua guitarra em Us and them: Darkside traz alguns de seus melhores momentos.
David Gilmour grava sua guitarra em Us and them: Darkside traz alguns de seus melhores momentos.

Mas sem sombra de dúvidas, Darkside representa o apogeu criativo da banda, pelo menos em termos musicais. Em nenhum disco a banda soa tão bem, tão coesa quanto neste. A guitarra de Gilmour e os teclados de Wright se cruzam em arranjos impecáveis, complementando um ao outro em melodias e timbres. Às vezes até se misturam. Waters não é um grande baixista, mas seu som está muito bom no álbum, com algumas passagens marcantes, especialmente em Breathe e Us and them. Mason é o elo fraco, mas não compromete e, às vezes, até surpreende, como na introdução de Time e nas mudanças de ritmo alucinantes de Money.

E Gilmour produz alguns de seus melhores solos e fraseados de guitarra em toda a carreira da banda. O solo de Time é talvez o melhor de todos. Também há fraseados bem bonitos, como os de Brain demage e Eclipse. Mas há, ainda, a construção de texturas muito interessantes e eficientes, particularmente em Breathe (construída inteiramente em um diálogo de duas guitarras) e Us and them, num papel secundário, mas impactante.

Eclipse… O fim do Pink Floyd

A banda na época de The Wall: relações rompidas.
A banda na época de The Wall: relações rompidas.

O problema com o apogeu é que depois dele só resta a queda. E foi isso o que aconteceu.

Enquanto banda, o Pink Floyd lançou sua fase mais importante a partir de Darkside of the Moon, seguindo com Wish You Were Here (1975), Animals (1977) e The Wall (1979), contudo, as relações pessoais internas do grupo entraram em colapso.

Nem as gravações de Darkside foram totalmente tranquilas, como já se viu. Mais do mesmo veio em Wish You Were Here, apesar de terem ficado as boas lembranças. Contudo, as sessões de Animals e The Wall foram calamitosas. Richard Wright foi deixado cada vez mais de lado e chegou a ser expulso do grupo nas gravações de The Wall. Esse disco também encerrou as relações entre Waters e Gilmour, que até trabalharam juntos no disco seguinte, The Final Cut, de 1983, mas praticamente sem falarem um com o outro.

O Pink Floyd reunido nos anos 1980, sem Roger Waters: sucesso.
O Pink Floyd reunido nos anos 1980, sem Roger Waters: sucesso.

Em 1985, Roger Waters entrou com um pedido na Justiça britânica para encerrar a banda, entretanto, David Gilmour e Nick Mason responderam com outro processo para continuar a usar o nome “Pink Floyd”. Waters perdeu a causa e Gilmour e Mason chamaram Richard Wright de volta e o Pink Floyd lançou um novo disco, A Momentary Lapse of Reason, em 1987, que fez um grande sucesso.

A banda fez uma grande turnê, lançou um disco ao vivo (o primeiro desde 1969!) e retornou ao estúdio para gravar o álbum The Division Bell, de 1994, que fez um sucesso maior ainda, seguindo outra turnê gigantesca.

Pulse traz a versão ao vivo de Darkside of the Moon nos anos 1990.
Pulse traz a versão ao vivo de Darkside of the Moon nos anos 1990.

Nesta turnê, o trio executava o álbum Darkside of the Moon na íntegra nos shows. O álbum ao vivo da turnê, Pulse, lançado em 1995, causou uma grande sensação e sucesso mundial, trazendo, inclusive, a versão ao vivo de Darkside completa.

Apesar do fim da banda nunca ter sido oficialmente decretado, suas atividades se encerraram em 1996.

O quarteto clássico reunido pela última vez, em 2005, no Live 8.
O quarteto clássico reunido pela última vez, em 2005, no Live 8.

Desde então, houve apenas reuniões esporádicas entre Gilmour, Wright e Mason até que, em 2005, o trio se reuniu pela primeira (e única) vez com Roger Waters, tocando quatro faixas – duas delas do Darkside of the Moon – no concerto beneficente do Live 8, contra a reunião do G8 e a favor do cancelamento da dívida dos países pobres da África.

Em 2006, o ex-membro e fundador Syd Barrett faleceu vítima de complicações da diabetes. O trio remanescente do Pink Floyd (Gilmour, Wright e Mason) se reuniu uma última vez no ano seguinte, justamente em um concerto em memória ao ex-líder da banda, que vivia recluso em Cambridge desde 1973.

Em 2008, o tecladista Richard Wright também morreu,vítima de um câncer.

Roger Waters: turnês de sucesso.
Roger Waters: turnês de sucesso.

A última reunião do Pink Floyd até agora foi em maio de 2011, quando Gilmour e Mason se uniram a Roger Waters na abertura de sua turnê solo na qual apresentava o álbum The Wall na íntegra, em Londres.

Roger Waters anda bastante ativo nos últimos anos, lançando material novo, produzindo uma ópera e saindo em grandes turnês mundiais. O compositor executou o álbum Darkside of the Moon na íntegra em uma turnê que passou pelo Brasil em 2007, enquanto a turnê do The Wall também esteve no país em 2012.

David Gilmour anda mais afastado da mídia, mas lançou um álbum solo em 2007, que foi bem recebido por público e crítica e fez uma turnê mundial para promovê-lo.

Darkside of the Moon faixa a faixa:

Conheça agora alguns detalhes das canções que fizeram o mais famoso álbum do Pink Floyd e, para muitos, a sua melhor obra.

Speak to Me

(Mason)

O álbum inicia com um pulso, uma batida de um coração, que se mantém firme enquanto outros efeitos sonoros vão crescendo, como uma risada louca, gritos de uma mulher até chegar à faixa seguinte. Segundo Roger Waters, a pequena introdução é creditada ao baterista Nick Mason simplesmente porque ele não tinha nenhum outro crédito no álbum.

Breathe (In the Air)

(Waters, Gilmour, Wright)

Esta canção é principalmente de David Gilmour, que criou o ritmo de guitarra que estrutura a faixa, mas recebeu uma contribuição de Richard Wright na segunda parte, além da letra de Roger Waters. É uma canção quase tradicional, com uma beleza excepcional advinda de sua guitarra slides e das interjeições do órgão hammond de Wright. Seu único defeito é ser curta.

On the run

(Water, Gilmour)

Esta faixa instrumental era mais tradicional nos shows ao vivo antes da gravação do álbum, mas no disco, virou uma peça muito experimental, inteiramente conduzida pelos sintetizados EMS, executados principalmente por Waters e Gilmour, que levam a autoria da faixa. Para somar, a bateria de Mason marca o ritmo junto a uma série de efeitos sonoros, que incluem motores de carro e aviões, além de passos de corrida e respiração ofegante. No fim, a queda de um avião encerra tudo, efeito que foi levado para os shows, no qual um avião desliza sobre a plateia e explode acima do palco.

Time/ Breathe (Reprise)

(Mason, Waters, Wright, Gilmour)

O primeiro grandíssimo momento do disco, Time é um clássico imortal do Pink Floyd e do rock dos anos 1970. Uma canção fabulosa, com instrumental impecável e uma letra perturbadora sobre o uso humano do tempo. A canção inicia ainda com a reverberação da explosão anterior, seguindo-se o tique e taque de um relógio de corda e, por fim, a explosão de vários despertadores ao mesmo tempo, num efeito espetacular! A seguir, um longo interlúdio instrumental composto por frases soltas de teclado, guitarra e percussão num crescendo até a entrada da canção propriamente dita. O elemento central de Time foi composto por Roger Waters (letra e música) e é uma faixa muito forte, mas o solo de guitarra fantástico de  David Gilmour deu mais vida ainda à canção e virou sua grande marca. Gilmour também faz os vocais principais, acompanhado por backings de Richard Wright. Este faz o vocal principal mais melancólico dos refrões. Na etapa final, Time repete Breathe com outra letra, diminuindo a velocidade até parar.

The great gig in the sky

(Wright, Torry)

O estranho instrumental de Richard Wright ganha outra identidade com os vocais gritados, suspirados e gemidos de Clare Torry, que dão à faixa uma característica única. Apesar da voz não há letra, apenas sentimento.

Money

(Waters)

O Lado B do vinil iniciava com esta que se tornaria uma das canções mais famosas do Pink Floyd. Primeiramente, apenas o som de moedas e de uma caixa registradora para finalmente entrar o marcante riff de baixo de Roger Waters em um compasso estranho de 7/4. A letra fala sobre a estupidez que as pessoas com muito dinheiro fazem e o vazio de suas vidas. A banda está excepcional na execução e é completada por um bom solo de saxofone de Dick Perry. Depois, a canção muda de ritmo e vem outro solo, agora de guitarra, até tudo voltar ao início. A canção foi reduzida e lançada como um compacto nos EUA e foi o primeiro grande sucesso radiofônico do Pink Floyd naquele país. Até hoje é ouvida ocasionalmente nas rádios.

Us and Them

(Waters, Wright)

A mais bela balada do álbum, a faixa de Wright que era instrumental ganhou uma boa letra de Waters sobre a alienação e a loucura na sociedade contemporânea. Além do belo ritmo conduzido pelo órgão e o piano de Wright, interjeições significativas do sax de Perry, bonitos fraseados de guitarra de Gilmour e passagens fortes do baixo de Waters, tornam essa canção uma das mais deliciosas do Pink Floyd para ouvir com fones de ouvido no escuro. Experimente. Apesar da autoria de Wright, é David Gilmour quem canta a canção, emprestando ainda mais beleza com sua voz cheia de calor. A repetição da última palavra dos versos iniciais de cada estrofe tornaram-se uma marca da canção.

Any Color you Like

(Gilmour, Mason, Wright)

Esta é a faixa instrumental mais tradicional do disco, realizada quase inteiramente apenas com um diálogo entre os instrumentos da banda, especialmente os teclados e a guitarra.

Brain Damage

(Waters)

Balada folk perturbadora de Roger Waters sobre a loucura é marcada pelo fraseado ritmo da guitarra de David Gilmour, que remete diretamente aos fraseados de George Harrison nos Beatles. É a primeira faixa do álbum cantada por Waters, que empresta muito significado às suas próprias palavras. É nesta canção em que a expressão “darkside of the moon” aparece, encerrando o último estrofe e servindo de passagem direta, sem interrupções, para a faixa seguinte.

Eclipse

(Waters)

Esta canção, novamente cantada por Roger Waters, é quase inteiramente uma letra de lamento, dizendo que tudo o que você possa fazer é inútil, para encerrar com a célebre frase: “E tudo sob o sol está em ordem/ Mas o sol é eclipsado pela lua…”. A faixa chegou a batizar o projeto por um tempo e é um final em clímax para o disco, tendo em vista sua execução enérgica. Após alguma calmaria no final, volta-se à pulsação cardíaca do início do disco, que o encerra também desaparecendo no infinito.

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Conheça a discografia completa do Pink Floyd clicando aqui.

Veja a gravação do álbum The Wall, de 1979, aqui.

O Pink Floyd surgiu em Londres, em 1965, e se tornou um dos maiores exponentes do Movimento Psicodélico com seu primeiro disco, em 1967. Depois, a banda se tornou uma das fundadoras do chamado rock progressivo e após anos na cena underground, alçou à categoria de uma das bandas mais populares do planeta pelo sucesso do disco Darkside of the Moon, de 1973. O grupo viveu várias crises nos anos 1980, que resultou na saída de membros, e encerrou as atividades em 1996. Poucas reuniões ocorreram depois disso.

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