A icônica capa de Sgt. Peppers, de 1967.

[Este post foi originalmente publicado em 2012]

Há exatos 45 anos atrás, em 01 de junho de 1967, chegava às lojas da Inglaterra e dos Estados Unidos o disco de maior impacto cultural já lançado no rock em todos os tempos: Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, a obra-prima psicodélica dos The Beatles, a famosa banda britânica.

Em pleno 2012, talvez a simples audição do disco não revele sua importância histórica, mas com certeza, haverá pistas. Primeiro, é preciso entender que Sgt. Peppers nem é o melhor álbum dos Beatles, que lançaram obras melhores antes (Revolver, de 1966) e depois (Abbey Road, de 1969), mas nenhuma foi mais importante do que Sgt. Peppers. Por quê?

Porque Sgt. Peppers representa uma revolução cultural. É uma obra que mudou definitivamente o panorama musical mundial e se impôs como principal referência musical imbatível por pelo menos uma década. Para entender essa revolução, é preciso se atentar a dois aspectos: o contextual e o da obra em si. Vamos lá.

O Verão do Amor

Cartaz de show do Pink Floyd no Marquee Club, em 1966, antes mesmo da estreia fonográfica da banda.

O principal marco do rock dos anos 1960 – e sua grande distinção do movimento anterior (dos anos 1950, aquele de Elvis Presley e Chuck Berry) – foi balizar de modo nítido duas características fundamentais relacionados ao gênero musical: 1) que ele era uma ruptura da juventude em relação à geração de seus pais; 2) que era não somente uma nova forma de arte, mas uma nova estética, que também se contrapunha àquele em vigor na época.

O primeiro ponto se relaciona ao fato da juventude estar emergindo como um novo ator social no cenário ocidental, passando a ocupar espaços sociais aos quais antes não participava, como a política e a produção (e não somente consumo) de cultura. O segundo ponto, mais profundo, mas inteiramente relacionado ao primeiro, como uma consequência, se relacionava ao fato desse novo ator social, a juventude, trazer consigo novos códigos simbólicos que iriam substituir os antigos. É por isso que o rock dos anos 1960 é revolucionário, porque se insere em um contexto maior que produziu uma nova estética para romper com a anterior, que se materializou não somente nesse rock dos anos 1960, mas também, em vários outros movimentos culturais-artísticos (movimento beatnick, o cinema de autor, tropicalismo, cinema novo…) e políticos (a nova esquerda, os movimentos de maio de 1968, os Panteras Negras, o feminismo, os estudantes secundaristas contra a Ditadura Militar no Brasil etc.).

Depois dos britânicos, os americanos The Byrds foram dos primeiros a adotar o visual psicodélico cheio de cores.

No campo específico do rock, toda essa “revolução” já estava implícita no movimento inaugural desse movimento: a Invasão Britânica, quando o rock renasceu na Grã-Bretanha no início dos anos 1960 e gerou uma geração fantástica de bandas e artistas, como The Beatles, The Rolling Stones, The Animals, The Yardbirds, The Who e muitos outros. O rock desses grupos não era o mesmo daquele “outro” rock dos Estados Unidos da década anterior: era mais radical, mais próximo (musicalmente) de suas raízes nas culturas marginais; mas ao mesmo tempo, mais elaborado, mais autoconsciente. Inicialmente localizado, a Invasão Britânica fez jus ao seu nome quando esses artistas literalmente invadiram os Estados Unidos, em 1964, e, por meio deste, alçaram seu som ao resto do mundo.

Com isso, os EUA, que já haviam deixado de produzir rock de maneira maciça desde o fim da década de 1950, encampou um movimento para trazer o gênero de volta a tona e dar uma “resposta” aos britânicos, nascendo a Reação Americana, que, em 1965, lançou artistas espetaculares, como Bob Dylan, The Byrds, Simon & Garfunkel, The Mamas and the Papas e Beach Boys.

Cartaz psicodélico do clube Whiskey-A-Go-Go traz shows de The Doors e The Byrds.

Inicialmente, Invasão Britânica e Reação Americana se situaram como movimentos distintos, mas a autoinfluência (em ambos os sentidos) permitiu reuni-los dentro de uma movimentação estética maior que culminou com o psicodelismo já em 1966. Este consistia simplesmente em radicalizar os pressupostos já implícitos desde o início: a amplificação dos instrumentos, a distorção da guitarra, a busca por efeitos sonoros inéditos, letras mais conscientes etc. E um dos principais canais para direcionar toda essa mudança foi justamente o vínculo com as drogas psicodélicas que surgiam ao mesmo tempo. A combinação de álcool, maconha, LSD e outras pílulas mágicas que “alteravam a consciência” levaram a esses artistas a extrapolar uma nova visão estética pautada em cores berrantes e distorção da realidade, que era uma maneira de tentar expressar os efeitos psicológicos daquelas substâncias.

O guitarrista Brian Jones, dos Rolling Stones, em toda a sua pompa psicodélica.

Com isso, o rock nascente mudou. As letras passaram a trazer mensagens cifradas, os efeitos sonoros levavam os artistas (e os ouvintes à reboque) para novos estados de consciência, as canções começaram a se tornar mais complexas, os arranjos adotaram situações não-ortodoxas, novos instrumentos (cítaras indianas, instrumentos medievais; outros de origem sifônica, como flautas, trompas, violinos e violoncelos; e novas invenções tecnológicas, como os primeiros teclados eletrônicos) se agregaram ao básico do rock (guitarra, baixo, bateria e às vezes pianos).

Assim, discos como Rubber Soul (1965) dos Beatles, Aftermath (1966) dos Rolling Stones, Pet Sounds (1966) dos Beach Boys e Fresh Cream (1966) do Cream (banda do guitarrista Eric Clapton) vinham carregados dessa nova textura.

O lançamento de Sgt. Peppers em 1967 não somente cristalizou essa tendência, como a radicalizou, mostrando o produto mais bem-acabado do psicodelismo e o seu sucesso esmagador – bateu o recorde de 11 semanas em primeiro lugar das paradas da revista Billboard, a mais importante dos EUA – expandiu o movimento para um público muito maior do que seus antecessores. Além disso, justamente a partir de Sgt. Peppers, os Beatles e o rock começaram a deixar de ser vistos como “coisa de criança” para serem percebidos como uma nova movimentação estética, uma contracultura.

A superpsicodélica capa de “Disraeli Gears” do Cream, a banda de Eric Clapton.

Entretanto, Peppers era parte de um contexto e não é coincidência que o ano de 1967 viu nascer alguns dos não apenas melhores produtos do psicodelismo, como também de toda a produção do rock clássico, como Are You Experienced? o disco de estreia do The Jimi Hendrix Experience; The Piper at the Gates of Down também a estreia do Pink Floyd; o álbum de estreia homônimo do The Doors; e outras produções de bandas como The Spencer Davis Group, Traffic, Jefferson Airplane, Cream, Rolling Stones, The Byrds etc.

O guitarrista Jimi Hendrix foi um dos maiores marcos do psicodelismo.

Com suas características fortes, o movimento psicodélico já perdeu suas forças a partir de 1968, mas sua essência se manteve ao longo de todo o período restante do rock clássico, levando àquela sonoridade típica do Festival de Woodstock (de 1969) e ao surgimento de novos subgêneros do rock, como o blues rock, o hard rock e o rock progressivo, seu filho mais fiel. Mesmo assim, o experimentalismo típico do psicodelismo continuou a ser a espinha dorsal do rock clássico até mais ou menos 1977, quando a popularização do movimento punk – explicitamente contra esse pensamento psicodélico – resultou não somente no fim do rock clássico, como também na popularização de um outro espírito no rock, agora mais ligado à simplicidade e à integridade (moral, estética, política etc.).

O Impacto do Álbum

Os Beatles gravando o álbum Sgt. Peppers.

Porque Peppers é tão cultuado? Por que apesar de todos os álbuns citados acima serem geniais, Peppers trazia um senso estético e uma abordagem inovadora muito forte, além de uma busca por novas texturas, efeitos e arranjos impressionante. A gravação tomou seis meses, quando o normal era durar apenas dois. Os Beatles mergulharam de cabeça na produção de novas canções e passavam semanas inteiras para gravar cada uma delas, criando uma série de efeitos especiais e arranjos não-ortodoxos.

As composições da dupla John Lennon-Paul McCartney também procuraram explorar novos caminhos e temas, saindo do esquema “canções de amor” para letras mais reflexivas, intimistas e até existencialistas.

George Harrison e Paul McCartney discutem detalhes de um arranjo nas gravações do disco.

O álbum foi precedido por um compacto com as faixas Penny Lane/ Strawberry Fields forever, lançado em fevereiro de 1967, que causou grande impacto no mundo por causa da diferença em relação à sonoridade típica dos Beatles. Se por um lado foi um erro lançá-las em single – porque a banda era caxias demais e, portanto, não repetia canções lançadas em singles dentro de seus álbuns, de modo que estas ficaram de fora de Peppers – por outro lançou duas canções muito fortes para mostrar o que estavam fazendo e o que vinha a seguir.

A bela capa do single Penny Lane/ Strawberry Fields forever.
A bela capa do single Penny Lane/ Strawberry Fields forever.

Particularmente Strawberry Fields forever, é uma das melhores faixas dos Beatles. Composta por John Lennon é, na verdade, uma canção folk de temática onírica e existencialista sobre algum momento de uma infância perdida, mas terminou se transformando, por conta de seu arranjo, em uma canção cheia de instrumentos estranhos e sonoridades fascinantes, emoldurada por uma das mais belas melodias já escritas. Ter sido lançada em single a excluiu automaticamente de Sgt. Peppers (os Beatles tinham por costume não repetir o lançamento de faixas), o que chega a ser uma pena, pois é uma grande canção.

Penny Lane também é uma canção fantástica, com sua narrativa surrealista e irônica sobre a vida nos subúrbios das grandes cidades.

A imprensa sabia que os Beatles estavam gravando um disco “especial” e a expectativa por seu lançamento era enorme. A própria banda distribuiu uma cópia demo entre seus amigos – que incluíam gente como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Mick Jagger, Bob Dylan… – e o disco já era um fenômeno sem mesmo ter sido lançado. Quando saiu oficialmente, foi um impacto cultural jamais sentido no mercado fonográfico.

A contracapa de Peppers traz as letras das canções pela primeira vez na história.
A contracapa de Peppers traz as letras das canções pela primeira vez na história.

Além de seu conteúdo musical, Sgt. Peppers também é um marco plástico, por causa da embalagem do disco. A famosa capa ainda é uma imagem poderosa, com a banda ladeada de algumas das figuras mais influentes da modernidade (e alguns ídolos pop). Não bastasse isso, o álbum vinha com o conceito de encarte: a capa era dupla (se abria em duas) e mostrava uma bela imagem da banda (veja abaixo) e havia um painel de papelão com imagens para ser recortada.

Outra grande inovação do disco foi ser o primeiro a trazer as letras das canções impressas! Algo tão usual nos dias de hoje nasceu também em Peppers.

As Faixas

Buscando novas sonoridades.

Apesar de algumas canções realmente clássicas, Sgt. Peppers é um disco que se destaca mais no conjunto da obra do que em canções separadas. Inicia-se com um som ambiente, um acordeon e uma plateia, parece um circo, então entra a forte faixa-título Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, um rockão cheio de guitarras distorcidas que apresenta uma nova “identidade ” para os Beatles, a banda do Sargento Pimenta; a faixa não tem fim, pois se emenda quase sem cortes com With a little help from my friends, cheia de referências às drogas e à união entre colegas, cantada pelo baterista Ringo Starr, mas que ficaria muito mais famosa três anos mais tarde quando regravada por Joe Cocker e usada no Festival de Woodstock.

Em seguida, vem outro petardo clássico, com Lucy in the sky with diamonds, com sua letra onírica que fala de uma misteriosa garota que está no céu com diamantes, tem olhos de caleidoscópio e parece um sonho, que causou sensação por suas iniciais formarem LSD, embora o próprio John Lennon, autor da canção, tenha afirmado ser coincidência.

John Lennon tira sons psicodélicos de sua guitarra Epiphone.

Daí, o disco dá origem a um novo bloco de canções menos conhecidas, com Getting better à frente. A canção merecia ser mais famosa, pois é um rock excelente com uma letra impressionante: um rapaz faz uma autocrítica sobre ter sido violento no passado, mas agora ser um ser humano melhor. Tudo isso embalado por um arranjo de ritmo marcado e um par de guitarras (uma bem aguda outra bem grave) martelando os acordes. No fim, um piano se junta à dupla fazendo um trio e (por causa da modificação do som) demora algum tempo para perceber que é um piano e não outra guitarra.

Imagem do encarte do disco.
Imagem do encarte do disco.

Segue-se Fixing a hole, uma faixa algo banal sobre consertar um buraco no telhado em meio à chuva. A letra, contudo, foi (erroneamente) interpretada como uma referência às drogas ejetáveis e causou algum frisson. O arranjo é comandado por um cravo (tocado por John Lennon), um baixo incrível (Paul McCartney) e um solo de guitarra carregado de efeitos de saturação bem interessante (George Harrison) que parece saltar para fora da faixa.

A canção seguinte é a bela e desconhecida She’s leaving home, o hino de todos aqueles jovens que saíram de suas casas para viver uma vida mais livre (e hippie) no fim dos anos 1960. A letra fantástica narra a história de uma garota que deixa uma carta para os pais e sai de casa de fininho de madrugada para viver longe com um cara que trabalha na loja de carros. (Notaram o aspecto operário do tema? Típico dos Beatles…). O narrador toma o ponto de vista da garota (entoado na voz principal por McCartney), mas a letra também dá espaço para a opinião dos pais (no contracanto do refrão, cantado por Lennon), que não conseguem entender a miopia de seus valores morais. Um efeito incrível! O instrumental – de maneira inusual – não traz a banda em seus instrumentos, mas apenas uma orquestra em ritmo de valsa.

O grupo no estúdio: experimentações.
McCartney e Harrison dão instruções a um naipe de sopros.

Após essa beleza lírica, vem a estranha Being for the Benefit of Mr. Kite, que narra de modo jocoso um típico espetáculo circense do início do século XX. O ritmo é de marcha e o arranjo replica a fanfarra que acompanha esse tipo de evento, com sopros e muitos pratos. Para completar o solo é inteiramente construído a partir da colagem aleatória de trechos de frases de teclados, criando um efeito perturbador e caleidoscópico. Um ponto psicodélico a mais. E o tema do circo dialoga diretamente com a faixa título, também.

George Harrison toca sua cítara.
George Harrison toca sua cítara.

Como que para dar um alívio à cabeça do ouvinte, vem em seguida a suave (mas não menos estranha) Within’ you, without you de George Harrison, gravada quase que somente com instrumentos indianos, tendo a cítara como o instrumento principal e estrutura da música hindu, tocada praticamente em um único acorde. Se você tem a mente aberta, o efeito é muito bonito. Outro grande destaque é a letra sensacional, de teor espiritual.

John Lennon grava uma peça de guitarra.
John Lennon grava uma peça de guitarra.

Depois, vem o ponto mais baixo do álbum: a bobinha When I’m Sixty-Four, que narra um casal apaixonado imaginando como será sua vida na velhice. O arranjo é novamente construído no estilo fanfarra, levando em um piano marcado e num baixo melódico.

Lovely Rita quem vem à seguir é muito melhor, com seu ritmo animado e a história de um rapaz apaixonado pela moça que é guarda de trânsito. Os vocais são alterados (especialmente os backings) e carregados de efeitos, enquanto um solo de piano em estilo honky tonky (ou seja, dos velhos blues) é tocado pelo produtor George Martin. Ao longo da canção um curioso som de serra é ouvido em vários momentos e é, na verdade, produto de um pente de metal cortando papel higiênico captado por um microfone e, depois, amplificado. O típico efeito sonoro que só o experimentalismo dos anos 1960 poderia produzir!

A banda discute arranjos.
A banda discute arranjos.

Se a anterior ainda soa (disfarçadamente) como uma faixa normal, Good morning, good morning vem para tirar qualquer senso de banalidade. Originalmente um rockão com letra sobre a saudade da inocência juvenil, a canção tenta simular o efeito de uma criança assistindo TV, com toneladas de sons de animais correndo para todos os lados. Como muitas das canções anteriores, há um clima de fanfarra conduzido por um naipe de metais, mas um solo de guitarra furioso no meio de tudo. No fim, os sons dos animais vão crescendo cada vez mais até virar uma bagunça completa no qual não se entende mais nada.

A banda aproveita o barulho e acrescenta o som de uma plateia, e uma contagem (1-2-3-4) traz a Sgt. Peppers lonely hearts club band (reprise), uma releitura da faixa-título ainda mais rápida e mais rock. Diferente do restante do disco, contudo, esta canção (à exceção do som da plateia) é uma faixa direta sem efeitos e apenas a formação básica da banda: Lennon e Harrison nas guitarras, McCartney no baixo e Starr na bateria. A faixa serve como entrada do bis, anunciando o número final.

Lennon ao piano.
Lennon ao piano.

O disco termina com a poderosa A day in the life outra das melhores canções já gravadas pelos Beatles, marcada pela voz doce de John Lennon, uma melodia triste belíssima, uma letra surrealista fantástica e sua estrutura totalmente não usual, terminando com um orgasmo sonoro de uma orquestra de 40 peças tocando de maneira atonal num crescendo até parar e ser substituída por uma forte nota de piano para encerrar, que simplesmente fica ressoando no ambiente por cerca de dois minutos!

Talvez tantas inovações para época fiquem descontextualizadas para quem ouve o disco nos dias de hoje, mas ainda assim, Sgt. Peppers é um dos grandes clássicos do rock em todos os tempos.

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Os Beatles surgiram em 1962, advindos da cidade britânica de Liverpool, e alçaram sucesso imediato na Inglaterra, que rapidamente se espalhou para a Europa, para os Estados Unidos e daí para o resto do mundo. Formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, foram a banda pioneira do movimento da Invasão Britânica que fundou o rock clássico e criou as bases modernas do gênero. Lançaram 13 álbuns e são recordistas até hoje em canções de sucesso. Encerraram as atividades em 1970, quando cada um dos membros saiu em carreira individual, todos com sucesso em níveis variados.

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