Capitão America em “módulo Simpson”.

[Atualizado: Este post foi originalmente escrito em 2011, mas atualizado em 2014 para o lançamento de Capitão América – O Soldado Invernal.]

Com um filme prestes a estrear, o Capitão América comemora 70 anos de publicação em março de 2011.

O personagem foi criado por Joe Simon e Jack Kirby e estavam tão certos do sucesso que o colocaram em uma revista própria, o que era incomum. O supersoldado da Marvel estreou em Captain America Comics 01, em março de 1941, numa revista de 60 páginas, com quatro histórias.

Sucesso imediato! Os EUA estavam prestes a entrar na Segunda Guerra Mundial, Hitler era o grande vilão de seu tempo e o Capitão América cumpriu o papel de representar simbolicamente todo aquele contexto.

Para marcar a data, o HQRock faz um rápido apanhado da longa trajetória de Steve Rogers, o rapaz franzino que, após ser cobaia do experimento do exército chamado Projeto Supersoldado, transforma-se no ápice da perfeição física.

Um herói patriótico

O Capitão América nos dias de hoje.
O Capitão América nos dias de hoje.

O Capitão América começou a ser publicado ainda antes da entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial. Mas após a declaração de guerra em 1939, todos sabiam que era uma questão de tempo até o Tio Sam entrar com tudo, pois já se conhecia a história do conflito anterior.

Paralelo à emergência da Alemanha Nazista, do füher Adolf Hitler e máquina de guerra espalhada pela Europa, surgia o ramo dos super-heróis em 1938 com o lançamento do Superman em Action Comics 01, nas mãos da editora National Periodicals, mais tarde conhecida como DC Comics.

Rapidamente, muitas editoras pequenas surgiram visando os sonhos de grandeza alçadas pela concorrente e uma delas foi a Timely Comics, de propriedade de Martin Goldman, um experiente editor de revistas pulp baratas. Cercado de talentosos escritores e desenhistas, Goldman lançou a Timely em 1939, com uma revista chamada Marvel Comics, que coincidência ou não seria o nome que a empresa adotaria mais de 20 anos depois. Na capa daquela primeira revista estavam os primeiros heróis desse novo universo fictício: Tocha Humana, Namor e o Anjo.

Joe Simon e Jack Kirby: primeiros editores da Marvel.
Joe Simon e Jack Kirby: primeiros editores da Marvel.

Pouco tempo depois, Goldman contratou uma esperta dupla de artistas para se encarregar do aspecto editorial da empresa: Joe Simon e Jack Kirby; ambos escritores e desenhistas, mas com texto e arte sendo o forte de cada um, respectivamente. A dupla passou a ser responsável pela criação na editora, com Joe Simon no cargo de Editor-Chefe e Jack Kirby no de Diretor de Arte.

Simon e Kirby criaram alguns personagens, mas nenhum deles conseguia a mesma popularidade que Tocha Humana e Namor, o príncipe submarino, criações de Carl Burgos e Bill Everett, respectivamente.

Mas na medida em que o ano de 1940 avançava, mais clara ficava a percepção de que logo, logo, os EUA ingressariam na guerra. Então, Martin Goldman pediu que Simon e Kirby criassem um super-herói patriótico. A dupla se reuniu e criou o Capitão América e Goldman gostou tanto que garantiu a estreia do personagem em uma revista própria – o que era absolutamente incomum na época. E não apenas isso! Uma revista com 64 páginas de material inédito.

Simon chegou a contratar os desenhistas Al Avison e Al Gabriele para auxiliarem na criação da revista, por causa do tempo curto, mas Kirby bateu o pé e fez tudo sozinho, virando noites e mais noites, porém, entregando o material a tempo para a gráfica.

Captain America Comics começou a circular nos EUA ainda em dezembro de 1940, mas com a data de capa de março de 1941, que é o que ficou para as comemorações.

O nascimento de uma lenda

Capitão América: o grande estouro da Timely.
Capitão América: o grande estouro da Timely.

O novo herói mostrava a que vinha logo na estreia: a primeira capa de Captain America Comics  trazia o personagem esmurrando Adolf Hitler em pessoa. O número 01 tinha a origem, confrontos com espiões nazistas, uma ida à Alemanha para esmurrar o ditador e, também, as primeiras aparições do parceiro mirim (moda da época) Bucky Barnes e o arquiinimigo Caveira Vermelha.

A origem do Capitão América por Simon e Kirby.
A origem do Capitão América por Simon e Kirby.

A origem do Capitão América é uma das mais definitivas dos quadrinhos, não tendo sido alterada desde então. Apenas ampliada ou detalhada. Na trama, o franzino e doente Steve Rogers tenta de alistar no exército dos EUA, mas é negado por causa de sua condição física. Mas ele insiste, devido ao seu espírito patriótico. Um general assiste a cena e convida o jovem para se submeter a um experimento científico e, assim, servir o seu país. Rogers aceita.

Então, ele é apresentado ao doutor Reinstein – uma clara alusão a Albert Einstein, o maior físico da época – que o submete à fórmula do super-soldado, com o objetivo de melhorar o corpo do recruta à perfeição. O experimento é bem-sucedido, mas um espião nazista infiltrado no teste consegue assassinar o doutor, perdendo-se o segredo da fórmula para sempre.

Com isso, Steve Rogers é o único supersoldado criado e se transforma no Capitão América para defender a democracia e deter os nazistas. Ao mesmo tempo, Rogers é disfarçado como um recruta em um acampamento militar. É aí onde aparece Bucky Barnes.

Página de "Captain America Comics 01" com a estreia de Bucky.
Página de “Captain America Comics 01” com a estreia de Bucky.

Desde a criação do Robin, em 1940, o parceiro mirim era quase uma obrigação aos super-heróis da época e Simon e Kirby fizeram um para o Capitão América. Na história, mostram rapidamente como James Buchanan “Bucky” Barnes – um adolescente que era o mascote do acampamento – presencia Rogers se vestir de Capitão América, sendo treinado para ajudá-lo em combate.

Uma das histórias da primeira edição também trouxe a estreia do Caveira Vermelha, aquele que se tornaria o maior inimigo do herói. O personagem foi uma colaboração do desenhista France Herron com Simon e Kirby.

Sucesso Imediato

Captain America Comics foi um grande sucesso desde o início, atingindo a marca de um milhão de unidades vendidas. Mas também houve problemas.

De imediato, a Timely foi processada por outra editora porque o escudo triangular do Capitão América era muito parecido com o símbolo de um herói chamado The Shield. Para evitar dores de cabeça, Jack Kirby redesenhou o escudo, criando o icônico artefato circular do personagem. A estreia do novo escudo se deu já na edição 02 de Captain America Comics, sem nenhum tipo de explicação. Histórias futuras, inclusive, ignoraram a mudança, como se o herói sempre tivesse ostentado o escudo circular.

A edição 03 traz a estreia de Stan Lee como escritor do Capitão América.
A edição 03 traz a estreia de Stan Lee como escritor do Capitão América.

Simon e Kirby não podiam dar conta da demanda de 64 páginas mensais para o personagem, por isso, logo, passaram a usar escritores e desenhistas auxiliares, como os já citados Al Avison, Al Gabriele, France Herron, além do cartunista Syd Shores e do roteirista estreante Stanley Lieber, que assinava com o nome de Stan Lee

Lee era apenas um menino de 19 anos na época e era o office boy do escritório. Mas tinha talento para escrever. Joe Simon o contratou para escrever um conto em prosa do Capitão América, apresentado em duas páginas na edição 03 da revista. Foi a estreia de Lee nos quadrinhos – aquele se tornaria o maior monstro consagrado da indústria – e também a primeira vez em que o herói usava seu escudo para arremessar e recebê-lo de novo.

Página original à lápis de uma edição de Capitão América de 1941: a arte de Kirby repleta de movimentos, tensões e extrapolando os limites dos quadrinhos.
Página original à lápis de uma edição de Capitão América de 1941: a arte de Kirby repleta de movimentos, tensões e extrapolando os limites dos quadrinhos.

Mas no primeiro momento, o mérito do sucesso do Capitão América era de Joe Simon e Jack Kirby mesmo. Os textos cheios de suspense de Simon e a arte dinâmica de Kirby faziam a revista ser muito elogiada. Kirby causou uma pequena revolução no mercado, com seu enquadramento ousado e personagens cheios de fúria e movimento. Logo, todos os editores de quadrinhos da época estavam estudando a Captain America Comics em busca de novidades gráficas.

Kirby não respeitava o padrão de noves quadros por página, remodelando-os, fazendo os personagens saltarem no espaço e até transitarem de um quadro para outro. O artista também criou as páginas duplas, hoje tão comuns nas HQs.

O sucesso foi enorme e a influência também, mas Simon e Kirby achavam que não estavam sendo devidamente pagos por aquele trabalho tão magistral. Por isso, começaram a secretamente vender trabalho anonimamente para outras editoras, especialmente a DC Comics. A dupla também trabalhou no Capitão Marvel, um dos maiores sucessos da época, da editora Fawcett.

Martin Goldman descobriu tudo, por volta do fim de 1941, e demitiu a dupla sumariamente. Por isso, Simon e Kirby assinam apenas as nove primeiras edições de Captain America Comics. Foram substituídos por seus colaboradores, como Stan Lee nos textos e Al AvisonSyd Shores na arte. Stan Lee também herdou o cargo de Editor-Chefe. O público não sentiu tanto o impacto e a revista continuou sendo a mais vendida da editora nos anos seguintes.

Captain America Comics começou a perder força em 1943, quando Stan Lee foi convocado pelo exército e ficou afastado por dois anos, trabalhando na propaganda de guerra. Com o fim da II Guerra Mundial, em 1945, o Capitão América perdeu muito de seu apelo e as vendas decaíram. O fim do conflito obrigou o herói a mudar sua ambiência totalmente. Dos contos de guerra e terror no front europeu, suas histórias ficaram mais banais, com o combate ao crime em Nova York.

Outra inovação: foi Kirby quem criou as "páginas duplas" nos quadrinhos. Trecho de "Captain America Comics 06" de 1941.
Outra inovação: foi Kirby quem criou as “páginas duplas” nos quadrinhos. Trecho de “Captain America Comics 06” de 1941.

Goldman e Lee tomaram várias medidas para mantê-lo popular. Contrataram o escritor Bill Finger – o principal nome por trás das histórias do Batman, da concorrente DC Comics  – para produzir algumas histórias. Foi Finger quem criou o All-Winner Squad, em 1946, o primeiro supergrupo de heróis da editora que um dia seria a Marvel. Já no pós-guerra, Capitão América, Tocha Humana, Namor e alguns outros se unem para combater vilões da era atômica.

Curiosamente, apesar do grupo batizar uma nova revista, All Winners Comics, somente duas aventuras deles foram produzidas e nunca mais a agremiação foi utilizada.

A Golden Girl em Captain America 68.
A Golden Girl em Captain America 68.

Em 1948, a namorada do Capitão América, Betsy Ross, se tornou a Golden Girl, substituindo temporariamente Bucky como parceira do herói no combate ao crime. Mas isso não foi o suficiente para retomar as vendas.

Com a popularidade em baixa, o Capitão América teve sua última aventura do período publicada em 1949, quando da edição de Captain America 73. A revista foi rebatizada de Captain America’s Weird Tales (os contos bizarros do Capitão América), com aventuras genéricas de monstros e suspense, sem a participação do herói, embora se mantivesse seu nome no título. Mas na verdade, todo o mercado de super-heróis estava em crise, sendo substituído pelas histórias de suspense, terror, faroestes e policiais. O Capitão América, então, sumiu do mercado, amargando um hiato de quatro anos longe das bancas.

O Capitão América dos anos 1950 por John Romita.
O Capitão América dos anos 1950 por John Romita.

No início da década de 1950, a Timely mudou o nome para Atlas Comics, como maneira de se reciclar no novo mercado. Ainda assim, com o persistente sucesso (embora menor do que no passado) de Superman e Batman na DC Comics, Stan Lee decidiu retomar os heróis da Era de Ouro em 1953. A revista Young Men 23 trouxe novas aventuras do Capitão América, Tocha Humana e Namor. No ano seguinte, a revista Captain America Comics voltou às bancas, retomando a numeração original, mas o empreendimento não funcionou e foi cancelada de novo já no número 78.

Essas novas aventuras colocavam o Capitão América combatendo comunistas – inclusive o recém-convertido Caveira Vermelha – e tinha roteiro de Stan Lee e desenhos do novato John Romita, um nome que seria bastante vinculado ao personagem no futuro.

Cancelado em 1954, o Capitão América amargaria uma década inteira no esquecimento.

O Retorno de um Vingador

Stan Lee e...
Stan Lee e…
... Jack Kirby: parceira de ouro nos quadrinhos.
… Jack Kirby: parceira de ouro nos quadrinhos.

A história moderna da Marvel começa em 1961, quando Stan Lee e Jack Kirby criaram o Quarteto Fantástico. Em seguida, novos personagens surgiram: Hulk, Thor, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Os Vingadores, X-Men…

Era o desenvolvimento da Era de Prata dos quadrinhos e a Marvel emergia como uma editora nova, cheia de gás e inovação, tomando o mercado da toda-poderosa DC Comics.

Stan Lee permanecera como Editor-Chefe na Timely/Atlas e vivenciara uma grande crise nos meados dos anos 1950 que quase levara a empresa à falência. Mas a editora conseguira se estabilizar com HQs de terror, monstros e faroeste na segunda metade da década. Jack Kirby gozara do sucesso em várias outras editoras, mas sua fama de “brigão” e casca-grossa começaram a fechar muitas portas. Daí, que em 1959, o artista bate novamente nas portas da editora e volta a trabalhar, agora tendo seu ex-assistente Stan Lee como seu patrão.

Não foi uma relação fácil, mas Lee e Kirby terminaram descobrindo uma grande parceria, de modo que terminaram por criar um universo inteiro de novos super-heróis: a Marvel Comics (nome que a Timely/Atlas adotou a partir de 1961).

A estreia dos Vingadores, por Stan Lee e Jack Kirby.
A estreia dos Vingadores, por Stan Lee e Jack Kirby.

Além dos sucessos esmagadores de Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, Thor e Doutor Estranho, a Marvel imitou a Liga da Justiça da DC e reuniu seus principais heróis em um grupo: os Vingadores estrearam em setembro de 1963, com Homem de Ferro, Thor, Hulk, Gigante e Vespa.

Lee e Kirby não apenas criavam uma penca de novos heróis, mas também traziam de volta alguns personagens do passado. O Quarteto Fantástico incluía uma nova versão do Tocha Humana – os mesmos poderes e aparência, mas uma identidade totalmente distinta. E a edição 03 de Fantastic Four trouxe a volta de Namor, o príncipe submarino, apresentado quase como um vilão, desesperado de ódio contra a humanidade por ter destruído sua Atlântida natal.

Faltava o maior de todos do passado: o Capitão América. E Lee e Kirby o fizeram.

Avengers 04
Capa de “Avengers 04”: primeira aparição moderna do Capitão América. Arte de Jack Kirby.

O evento foi anunciado com alarde na capa de Avengers 04, de 1964: a chamada dizia “Captain America Lives Again!”.

Na revista, Lee e Kirby contaram a história em que os Vingadores encontram o Capitão América congelado no gelo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Assim, estava tão jovem quanto antes, mas em um mundo totalmente diferente. Na trama, enquanto combatem o vira-casaca Hulk e Namor, o grupo se depara no Ártico com um homem preso dentro de um iceberg. Ao trazê-lo para abordo de seu submarino reconhecem o herói do passado!

Os Vingadores encontram o Capitão América congelado por décadas. Arte de Jack Kirby.
Os Vingadores encontram o Capitão América congelado por décadas. Arte de Jack Kirby.
Namor liberta (sem  saber) o Capitão América do congelamento em um bloco de gelo.
Namor liberta (sem saber) o Capitão América do congelamento em um bloco de gelo.

Por meio de flashbacks, a história define que o Capitão América havia desaparecido no final da II Guerra Mundial, em 1945, imediatamente antes da rendição alemã. O próprio herói narra o episódio em que ele e seu jovem ajudante Bucky se agarraram a um avião experimental para impedi-lo de explodir sobre Londres, mas o avião termina explodindo antes, no Ártico, Bucky morre na explosão e o Capitão é arremessado nas águas gélidas e termina congelado.

Há um claramente um vilão responsável pela ação, mas a história não revela quem é essa figura, ficando a informação para o futuro breve.

A morte de Bucky em Avengers 04: momento histórico.
A morte de Bucky em Avengers 04: momento histórico.

Imediatamente integrado ao grupo, o Capitão América é agora um novo personagem: um homem fora do tempo. Alguém jovem – pois não envelheceu nas décadas em que ficou congelado em animação suspensa – mas totalmente deslocado, pois cresceu em outra época e não entende a nova e seus valores. Alguém arrasado ao descobrir que seus amigos envelheceram ou morreram. Um solitário.

Stan Lee soube muito bem optar por não repetir a velha fórmula, mas usar um personagem do passado para criticar o presente. Pelos olhos de Steve Rogers e sua visão antiquada, vemos as grandes mudanças dos anos 1960. Lee usa seu talento para o drama para aprofundar a psiquê do personagem e seu senso de isolamento de maneira fantástica.

E além disso tudo, havia a arte ainda mais fantástica de Jack Kirby no auge absoluto de sua forma. Mais raivoso, mais dinâmico, mais fluído! Quadros de ação de encher os olhos! O artista estava incrivelmente feliz em “reencontrar” sua maior criação.

A primeira formação dos Mestres do Terror, liderados pelo Barão Zemo.
A primeira formação dos Mestres do Terror, liderados pelo Barão Zemo.

O Capitão América logo passaria a liderar os Vingadores e a revista começou a girar em torno de sua figura, explorando sua adaptação aos tempos modernos. Por isso, a verdadeira primeira grande ameaça da equipe é o supergrupo de vilões Mestres do Terror, liderado por um personagem novo, o Barão Zemo, que é apresentado como sendo o responsável pela morte de Bucky, em Avengers 06, ainda em 1964, por Lee e Kirby.

A edição explora o Capitão América descobrindo detalhes do passado e tendo que enfrentar seu “velho” inimigo. No meio disso, mais da arte de Kirby em uma batalha furiosa entre os dois.

Houve outros confrontos com os Mestres do Terror do Barão Zemo, que foram os principais oponentes dos Vingadores em sua primeiríssima fase.  Após vários confrontos, o Barão Zemo morreu em combate em Avengers 15, de 1965.

O Capitão começa a dominar a revista dos Vingadores. Capa de Avengers 16.

A jogada da dupla Lee e Kirby de tornar o Capitão América o protagonista em uma revista cheia de estrelas foi um grande sucesso. Tanto que em Avengers 16, de 1965, os membros originais do grupo (Homem de Ferro, Thor, Gigante e Vespa) saem da equipe, deixando o Capitão América para liderar uma nova formação, com Gavião Arqueiro, Feiticeira Escarlate e Mercúrio.

O fato era que o Capitão América passou a dominar toda a revista e Stan Lee achou por bem afastar os outros personagens que tinham suas próprias aventuras, mantendo apenas a sentinela da liberdade com um grupo de personagens recentes e pouco experientes.

O novo quarteto de Vingadores passa a ser conhecido como “A Quadrilha do Capitão” e Jack Kirby abandona suas histórias, assumindo o desenhista do Homem de Ferro, Don Heck. Esta nova fase apresentou uma equipe mais humana e carregada de drama, já que Gavião Arqueiro, Feiticeira Escarlate e Mercúrio eram ex-vilões e ficavam brigando o tempo inteiro. Inicialmente, o Capitão era visto como uma “velharia” autoritária, o que ensejava ataques histéricos do Gavião Arqueiro questionando sua autoridade.

A fórmula foi um grande sucesso entre os leitores, apesar desta versão dos Vingadores ser bem menos poderosa do que a anterior (que contava com Thor e Homem de Ferro, por exemplo). A equipe enfrentava vilões como Espadachim (ed. 19), Power Man (Poderoso, no Brasil, ed. 21) e o Colecionador (ed. 28), todas entre 1965 e 1966.

Novas Aventuras Solo

“Tales of Suspense 58”, de 1965, dá início à partilha da revista entre o Capitão América e o Homem de Ferro. Arte de Jack Kirby.

O motivo da saída de Kirby dos Vingadores foi justamente porque o sucesso do Capitão América motivou a Marvel a produzir histórias individuais do herói nesse novo contexto, na revista Tales of Suspense , a partir do número 58. A revista trazia as aventuras do Homem de Ferro. Nesta edição, o vilão Camaleão – que usa disfarces – força o vingador dourado a combater a sentinela da liberdade. Tudo se resolve no final, sendo apenas uma boa desculpa para um grande quebra pau entre os dois nas mãos de Lee e Heck

A partir de Tales of Suspense 59, Homem de Ferro e Capitão América passam a dividir a revista, cada um em histórias de 10 páginas. Essa artimanha aumentou bastante a vinculação entre os dois personagens. Contudo, apesar do hype criado com essas novas aventuras, o fato é que Lee e Kirby erraram a mão: pareciam não saber bem o que fazer com o herói fora do contexto dos Vingadores.

Dinâmica cena de ação por Jack Kirby.
Dinâmica cena de ação por Jack Kirby.

Essas primeiras histórias pareciam apenas uma desculpa para por o Capitão em ação. Talvez fosse isso mesmo. Mas têm a sua vantagem: Jack Kirby realmente sabia colocar o sentinela da liberdade em grandiosas cenas de luta.

Capitão América vs. Barão Zemo na arte de Jack Kirby.
Capitão América vs. Barão Zemo na arte de Jack Kirby.

Destaque para Tales of Suspense 60, na qual o herói confronta o Barão Zemo após a primeira batalha de ambos com os Vingadores; e a edição 62, na qual Kirby explora as habilidade do herói com seu escudo. Esta edição, inclusive, deixa claro que todo o uso do escudo – incluindo ser lançado e voltar às suas mãos – derivava da pura habilidade de Steve Rogers e não de apetrechos magnéticos como davam a entender algumas edições anteriores com os Vingadores.

Após essa primeira rodada de histórias, Lee e Kirby voltaram ao passado para recontar histórias do personagem nos tempos da II Guerra Mundial, entre as edições 63 e 71 de Tales of Suspense,ainda em 1965. Inicialmente, recontaram algumas das antigas aventuras de Captain America Comics, de 1941 – como a origem do herói, contada no Universo Marvel Moderno pela primeira vez já na edição 63. Aqui, Lee e Kirby ampliam o rápido conto exibido em 1941, mostrando o Capitão em ação ao lado de Bucky Barnes. Também é importante frisar que estas aventuras eram as primeiras histórias modernas a trazer o personagem Bucky Barnes como alguém vivo e atuante, e não somente um flashback.

O Caveira Vermelha é introduzido na continuidade moderna da Marvel.
O Caveira Vermelha é introduzido na continuidade moderna da Marvel.

Na edição 64 veio o confronto com Sando e Omar (outra releitura de Captain America Comics 01, de 1941) e Tales of Suspense 65 trouxe o surgimento do Caveira Vermelha, trazendo a primeira aparição do vilão no Universo Marvel Moderno. Contudo, Lee e Kirby mostram que estão construindo uma nova cronologia. Na história de 1941, Capitão e Bucky descobriam que o vilão era na verdade o engenheiro aeronáutico John Maxon, um traidor aliado aos nazistas, que por sinal, morria no fim da edição. Histórias dos anos 1940 trouxeram o Caveira de volta, afirmando que àquele não era o verdadeiro vilão.

Caveira Vermelha estreia numa típica Tales of Suspense com a capa dividida entre os dois heróis.
Caveira Vermelha estreia numa típica Tales of Suspense com a capa dividida entre os dois heróis.

Em Tales of Suspense 65, ao recontarem a história, Lee e Kirby “revelam” que o Caveira Vermelha é John Maxon, mas este diz que não é o verdadeiro engenheiro e, em vez de morrer como no conto original, simplesmente foge. Para resolver a questão de uma vez por todas, a edição 66 trazia o Caveira Vermelha de volta, ele próprio dizendo que “Maxon” não era o verdadeiro vilão. Era um modo de mostrar que o Caveira era muito mais habilidoso na luta física do que aquele “outro” da edição anterior.

Capitão versus Baltroc na arte de John Romita.
Capitão versus Baltroc na arte de John Romita.

Tales of Suspense 66 é importante por dois motivos, além de trazer o verdadeiro Caveira Vermelha pela primeira vez. Em primeiro lugar, é um ligeiro desvio de caminho, já que Lee e Kirby passam a contar histórias inéditas do Capitão América, embora ainda baseadas nos tempos da II Guerra Mundial. Não mais releituras. Em segundo, a edição traz pela primeiríssima vez a origem do vilão, mostrando desde sua origem humilde até conseguir impressionar Hitler com sua fúria e se tornar um agente especial.

As edições seguintes prosseguem com aventuras nos tempos da guerra e, a partir de Tales of Suspense 70, temos uma pequena fase em que Kirby apenas faz os layouts de páginas ou esboços, enquanto a arte fica a cargo de George Tuska (em um de seus primeiros trabalhos na Marvel) entre as edições 70 e 74; e John Romita (também bem no início de sua retomada na Marvel, ainda antes de assumir o Homem-Aranha), nas edições 76 e 77. Vale lembrar que Romita foi o desenhista da versão do Capitão dos anos 1950, que não emplacou. Agora, mais de dez anos depois, o artista volta à Marvel para se tornar um de seus mais importantes ilustradores.

Dessa forma, é Tuska quem desenha – por cima dos layouts de Kirby – toda a Trilogia dos Hibernantes, três histórias que trazem o Capitão América de volta para o presente, entre Tales of Suspense 72, 73 e 74.  Na trama, o Capitão América precisa lidar com velhos agentes nazistas que põem na prática um velho plano do Caveira Vermelha. Era o despertar dos Hibernantes, poderosos robôs criados pelo vilão ainda na época da guerra.

O Primeiro Hibernante.
O Primeiro Hibernante.

Inclusive, essa primeira edição revela, pela primeira vez, a batalha final entre os dois oponentes nos últimos dias da II Guerra Mundial, numa cena de flashback. Na trama, o herói narra aos Vingadores (Mercúrio, Gavião Arqueiro e Feiticeira Escarlate) sua batalha na II Guerra contra os Hibernantes e como se deu a batalha final com o Caveira Vermelha: o vilão é soterrado em seu bunker secreto em Berlin, em meio ao bombardeio dos aliados.

Com isso, Lee e Kirby modificavam a cronologia original do personagem mais uma vez, pois nunca houve uma batalha final entre os dois, tendo em vista que o personagem foi publicado ininterruptamente até 1949 e ainda retornou em 1953, inclusive, combatendo o Caveira Vermelha de novo.

Mas Lee e Kirby passavam – desde as aventuras inéditas na II Guerra Mundial – a construir uma cronologia própria do personagem para a Era de Prata, sem levar em consideração o material dos anos 1940, apesar de parte considerável daquele material ter sido criado pelo próprio Lee.

Capitão América e Sharon Carter combatem a IMA em suas aventuras solo. Por Lee e Kirby.
Capitão América e Sharon Carter combatem a IMA em suas aventuras solo. Por Lee e Kirby.

Após o arco dos Hibernantes, Tales of Suspense 75 (dessa vez inteiramente desenhada por Jack Kirby) traz a estreia da personagem Sharon Carter, a Agente 13 da SHIELD. Na trama, o Capitão América a vê na rua e a acha muito parecida com uma mulher que teria amado na época da II Guerra Mundial. Mas ao persegui-la, o herói termina descobrindo que ela é uma agente da SHIELD e, pior, sem querer estraga uma ação secreta sobre uma bomba especial, o que leva o herói a confrontar pela primeira vez Batroc, o saltador.

A história já deixa claro que houve uma garota parecida por quem o herói foi apaixonado na época da guerra e que Sharon tem uma irmã que também falava de um cara que conhecera no conflito. Mas não se diz explicitamente que se tratam da mesma mulher. Aliás, o nome de nenhuma delas é revelado nesta história. Nem o de Sharon Carter.

Esta história em duas partes – prosseguindo na edição 76, já em 1966, desenhada por John Romita (sobre o layout de Kirby) – também introduz a organização conhecida apenas como Eles, que dará origem tanto ao Império Secreto (das histórias dos anos 1970), quanto à IMA (Ideias Mecânicas Avançadas).

Peggy Carter na bela arte de John Romita.
Peggy Carter na bela arte de John Romita.

A edição seguinte, Tales of Suspense 77, novamente por Romita e Kirby, o Capitão assiste a um velho documentário sobre a Resistência Francesa na II Guerra Guerra Mundial e relembra, outra vez, da misteriosa mulher que amou no conflito: uma agente da resistência  – que não tem o seu nome revelado. Só muito mais tarde, em Captain America 161 e 162, de 1973, seria revelado que essa garota seria Peggy Carter, mas isso é assunto para mais tarde.

A volta do Caveira Vermelha: capa de Tales of Supense 80. Arte de Jack Kirby.

Foi nesse ciclo de aventuras iniciais que Lee e Kirby definiram boa parte do universo específico do personagem, como as organizações terroristas HIDRA e IMA; e inúmeros vilões, como Modok, Baltroc e o Super-Adaptóide, além do introdução no presente do Caveira Vermelha, que se deu em Tales of Suspense 79.

Até então, o vilão só tinha aparecido em flashbacks ou nas histórias retroativas. Agora, era revelado que após ser soterrado no bubker, houve a liberação de uma gás experimental que deixou ele e dois capangas em animação suspensa. Apesar de repetir quase o mesmo artifício do Capitão América, a manobra permitiu que a rivalidade histórica dos dois permanecesse nos dias atuais.

O Caveira e o Cubo Cósmico.
O Caveira e o Cubo Cósmico.

Com isso, Lee e Kirby acrescentaram outro fantástico vilão ao Universo Marvel moderno. Sem mais servir ao nazismo, o Caveira Vermelha se dedica exclusivamente à morte, à destruição e à dominação mundial.

Na trama, o Caveira se alia à IMA e rouba um artefato que a organização construíra: o Cubo Cósmico, uma peça de poder infinito, capaz de alterar a realidade.

A batalha do Capitão com o Caveira Vermelha é uma ótima amostra do excelente trabalho de Lee e Kirby com o personagem: Kirby fornecendo uma arte dramática, cheia de ação épica e grande destruição (a batalha final simplesmente destrói uma ilha inteira!); enquanto Lee enche as páginas com as reflexões existencialistas do herói, se questionando sobre a desumanidade de seu inimigo e de seu papel incerto em um mundo que não é o seu. Clássico!

MODOK: tradicional vilão.
MODOK: tradicional vilão.

Lee e Kirby continuaram a desenvolver um universo próprio para o Capitão América, que mistura um pouco do clima de espionagem (que fazia sucesso nas aventuras de Nick Fury, Agent of SHIELD) com o heroísmo típico dos personagens mais famosos da Marvel, em tramas que envolviam a SHIELD (e a Agente 13, Sharon Carter) e as organizações IMA e HIDRA.

É a IMA quem cria MODOK (Mental Organism Designed Only for Kill), uma mistura de ciborgue, robô e inteligência artificial que se torna um dos mais clássicos vilões do Capitão América, que aparece em Tales of Suspense 93 e 94, de 1967. O vilão também teria uma longeva carreira enfrentando outros heróis, como Namor, Hulk, Homem de Ferro, Miss Marvel e vários outros.

Tales of suspense se torna Captain America, em 1968.

O sucesso das aventuras do Capitão fizeram, em 1968, com que a partir do número 100, a revista Tales of Suspense tenha mudado seu título para Captain America – mantendo a numeração – e trazendo apenas as aventuras do supersoldado. O Homem de Ferro ganhou também sua própria revista, a partir do número 01.

A rebatizada Captain America inicia sua carreira (já no número 100) com uma batalha do Capitão, Agente 13 e Pantera Negra contra o Barão Zemo, que todos pensavam ter morrido nas primeiras revistas dos Vingadores. De fato, o herói termina descobrindo que Zemo é um impostor, um dos criados do vilão original, que estava realmente morto.

Em seguida, mais um retorno do Caveira Vermelha, agora liderando o ataque do quarto Hibernante. É no meio dessa saga – que envolve os Exilados (velhos nazistas aliados do Caveira Vermelha) – que os leitores descobrem, pela primeira vez (!), que o real nome da Agente 13 é Sharon Carter, o que ocorre em Captain America 103.

Outra adesão importante, o vilão Dr. Faustus, um psiquiatra maligno, aparece pela primeira vez em Captain America 107. Este será outros dos mais tradicionais vilões típicos do Capitão.

Enquanto isso, nos Vingadores…

Os Vingadores típicos da fase de Roy Thomas. Arte de John Buscema.
Os Vingadores típicos da fase de Roy Thomas. Arte de John Buscema.

Enquanto via seu universo particular ser construído por Lee e Kirby em suas aventuras solo, o Capitão América continuava como um dos principais membros (e líder) dos Vingadores.

Stan Lee continuou escrevendo a revista The Avengers, com desenhos de Don Heck, até 1967, quando passou a batuta para o jovem Roy Thomas, que vinha treinando para ser seu sucessor. E pouco depois, a arte passou para o fabuloso John Buscema, um dos maiores ilustradores da história da Marvel.

A fase Thomas-Buscema é simplesmente uma das melhores dentre todas as que os Vingadores tiveram, com grandes feitos, como o surgimento do vilão Ultron e do herói Visão.

Infelizmente, essa fase coincide com o período em que Stan Lee (como Editor-Chefe) obriga Roy Thomas a diminuir a participação de Capitão América, Homem de Ferro e Thor (os três grandes) na equipe, para dar mais espaço aos coadjuvantes.

É por isso que nas histórias de 1968, em consequência à aventura de Captain America 100, o sentinela da liberdade indica o Pantera Negra como membro da equipe.

Ainda assim, o Capitão é o membro dos três grandes que mais participa das aventuras, vez por outra retornando para acompanhar as aventuras dos colegas.

Os detalhes da missão final, por Thomas e Buscema.
Os detalhes da missão final, por Thomas e Buscema.

É nesse contexto que o sentinela da liberdade vive duas importantes aventuras  com Vingadores para sua cronologia pessoal. Em Avengers 56, de 1968, Thomas e Buscema contam uma aventura em que o Capitão América usa uma máquina do tempo pertencente ao Dr. Destino para voltar ao dia de 1945 em que Bucky Barnes morreu e ele mesmo terminou congelado (onde ficaria por décadas até ser resgatado pelos Vingadores). 

Ao lado dos Vingadores (Pantera Negra, Gavião Arqueiro, Golias e Vespa), o Capitão América termina voltando no tempo e presenciando os eventos de um ataque da dupla ao castelo do Barão Zemo, que culminam, claro, na morte de Bucky. Entretanto, é um momento importante, já que é a primeira vez em que os acontecimentos que levaram à morte de Bucky são mostrados em detalhes.

Vale ressaltar que Roy Thomas era um fã incondicional da Era de Ouro e um profundo conhecedor dela. Por isso, tinha grande interesse em contar histórias sobre o período, o que lhe levou a ter significativa importância na montagem do passado do Capitão América para a cronologia moderna da Marvel.

Os Invasores são introduzidos na cronologia Marvel.
Os Invasores são introduzidos na cronologia Marvel.

A outra história, curiosamente, também envolve viagens no tempo e também acrescentou bastante à cronologia do Capitão América. Entre Avengers 69 e 71, de 1969, os Vingadores combatem Kang, o conquistador, o viajante no tempo que já se consolidava como um dos principais oponentes da equipe.

Na edição 71, é citado pela primeira vez a existência dos Invasores, o grupo de super-heróis da Marvel nos tempos da II Guerra Mundial, com Capitão América, Tocha Humana, Namor, Bucky e alguns outros.

Na verdade, é o mesmo Esquadrão Vitorioso criado por Bill Finger em 1946, mas agora colocado no contexto da guerra. De qualquer modo, a partir daqui, os Invasores passam a ser parte oficial do passado do Universo Marvel, algo que seria bastante explorado no futuro.

O Fim da Era Kirby

Em Captain America 109, já em 1969, Lee e Kirby resolvem recontar a origem do Capitão América (que tinha sido apresentada pela última vez em Tales of Suspense 63). Desta vez, é um conto mais detalhado, em que Lee e Kirby criam alguns elementos novos na trama, a mais importante delas é a presença dos Raios Vita, um misterioso tipo de raio radioativo, que soma-se ao Soro do Supersoldado propriamente dito para permitir a transformação do franzino Steve Rogers no ápice do organismo humano. Outro detalhe interessante é o nome do cientista responsável pelo experimento, que até então se chamava Dr. Reinstein (numa clara referência a Albert Einstein) e, agora, ganha o nome mais original de Dr. Abraham Erkskine, que passa a ser a alcunha oficial do cânone do personagem.

Infelizmente, este é o momento em que Jack Kirby começar a se afastar do personagem, muito ocupado com outros trabalhos na Marvel. Por isso, as artes passam cada vez mais frequentemente às mãos de nomes como Jim Steranko, Gene Colan e John Romita.

Com sua arte deslumbrante, Jim Steranko foi um substituto à altura de Jack Kirby. Aqui o herói combate agentes da Hydra.
A viagem alucinada de Steranko: marco histórico.

As edições com arte de Jim Steranko – Captain America 110, 111 e 113 – envolveram uma histórica batalha contra a HIDRA, que introduziu a vilã Madame HIDRA, mais tarde também conhecida como Víbora, como a nova líder da organização. A história também encerrava o arco em que o jovem Rick Jones – coadjuvante das aventuras do Hulk e também dos Vingadores – tentava assumir o papel de Bucky, o parceiro do herói. Inclusive, na história, o jovem é sequestrada pela organização terrorista, o que motiva sua desistência do “cargo”. A cena em que Jones é dopado e tem uma “viajem psicodélica” é um dos grandes marcos dos anos 1960 na arte fantástica de Steranko. Outro marco dessa história foi tentar devolver uma identidade secreta ao Capitão América, onde o herói dá entender que “Steve Rogers” é um embuste.

Esta aventura também traz a estreia da vilã Madame Hidra, mais tarde também conhecida como Víbora, que se torna uma das mais conhecidas e importantes vilãs do Universo Marvel, combatendo também vários outros personagens, inclusive os X-Men. É por causa disso que a vilã aparece no filme Wolverine – Imortal, de 2013.

A arte dinâmica de Jim Steranko.
A arte dinâmica de Jim Steranko.

Voltando à revista, um detalhe curioso é que, como o Capitão América é dado como morto na trama, a edição 112 serve como um tipo de interlúdio, no qual a imprensa relembra toda a história de Steve Rogers, desde a II Guerra Mundial até o presente. Esta edição é desenhada por Jack Kirby e é a maior retrospectiva que o personagem já havia tido. É um interessante complemento ao número 109, com Kirby, então, recontando sua origem e sua trajetória.

É um momento importante e simbólico, já que representam a despedida de Jack Kirby da revista Captain America e do personagem, por muitos anos. E a última vez que o desenhista trabalhou com Stan Lee no personagem. Kirby ainda continuaria na editora por pouco tempo, mas terminaria afastado da Marvel em 1970, indo para a concorrente DC Comics, desenhar o Superman e criar o Quarto Mundo e toda a saga dos Novos Deuses. Kirby só voltaria à Marvel cinco anos depois.

A estreia do Falcão, em 1969. Mais espaço para os negros nos quadrinhos. Arte de Gene Colan.
A estreia do Falcão, em 1969. Mais espaço para os negros nos quadrinhos. Arte de Gene Colan.

Stan Lee continuaria a escrever as aventuras de Steve Rogers por um tempo. A partir de Captain America 114 (que é desenhada por John Romita) dar-se início a mais uma saga envolvendo o Caveira Vermelha. Dessa vez, o vilão toma posse de uma nova versão do Cubo Cósmico, criado pela IMA, e troca de corpo com o Capitão América (na edição 115, com desenhos de John Buscema), para deixar o herói isolado na Ilha dos Exilados no corpo do vilão (na edição 116, já com desenhos de Gene Colan).

É na Ilha dos Exilados que o Capitão América conhece Sam Wilson, o Falcão, que se tornaria o primeiro super-herói afrodescendente dos quadrinhos, em Captain America 117, de 1969, nas mãos de Stan Lee e Gene Colan. A Marvel (leia-se Stan Lee) já havia sido pioneira em criar o primeiro super-herói negro – o Pantera Negra, em 1966 – mas o Falcão é um herói negro norteamericano (o Pantera Negra é africano).

O Falcão adota um uniforme inspirado pelo Capitão América e o ajuda a derrotar os Exilados e, finalmente, o Caveira Vermelha, em Captain America 119. A partir de então, o Falcão se torna um personagem recorrente na revista e chegará, inclusive, a ter seu nome incluído no título no futuro breve. O desenhista Gene Colan, por sua vez, torna-se o artista fixo da revista.

Anos 1970:

Captain America and the Falcon 134, de 1971: marco histórico. Arte da capa por Marie Severin.

O Capitão América adentra os anos 1970 por meio da fase de Stan Lee e Gene Colan, que infelizmente, não é uma das mais chamativas do herói. Havia certo cansaço nessas aventuras, em parte, talvez, por Lee estar muito ocupado com outras atividades na Marvel. São tramas com participações frequentes da SHIELD e de Nick Fury, além da IMA, claro.

O Falcão aparece em várias edições, mas é oficializado como parceiro de combate ao crime do Capitão América na edição 133. No número seguinte, Captain America 134, de 1971, acontece algo histórico: a revista muda oficialmente seu nome para Captain America & the Falcon, o que torna Sam Wilson o primeiro super-herói negro a ter seu nome como título de uma revista em quadrinhos! Esse seria o título oficial da revista até o número 222. Gene Colan encerra sua temporada de 21 edições em Captain America 137.

A bela arte de John Romita na capa de Captain America 145.

Os desenhos passaram a John Romita, na edição 138. Como era típico de Stan Lee, já que Romita era famoso por desenhar a revista do Homem-Aranha, que tal  colocar o Capitão América e Falcão contra o aracnídeo? Romita fez um trabalho sensacional no sentinela da liberdade, com seu traço elegante e bonito. Além disso, Romita era bem melhor versado no “modo Marvel”, ou seja, a técnica em que Lee apenas dava uma sinopse breve e o desenhista criava a partir disso para o roteirista depois acrescentar os diálogos. Talvez isso explique a melhora significativa da qualidade das revistas a partir da entrada de Romita. Também vale lembrar que esta é a época em que Steve Rogers adota uma identidade secreta como policial nas ruas de Nova York.

O novo uniforme do Falcão estreia na edição 144: criação de John Romita.
O novo uniforme do Falcão estreia na edição 144: criação de John Romita.

Romita também cria alguns personagens novos à revista, com destaque para Leila Taylor, que passa a ser a namorada do Falcão (na edição 139) e uma personagem recorrente nos próximos anos. Outra grande adesão de Romita é o redesenho do uniforme do Falcão, que ganha uma roupa mais “leve” nas cores branco e vermelho. O uniforme aparece, curiosamente, primeiro no novo logo da revista na edição 143 (outra criação de Romita), mas a estreia oficial da nova roupa é na Captain America 144, de 1971.

Porém, quando isso aconteceu, o próprio Stan Lee já tinha deixado a revista: seu último número foi Captain America 140, de 1971. É um momento importante, tendo em vista que era Lee quem escrevia o personagem desde 1964, e também quem trouxe o personagem de volta do limbo editorial. John Romita continuou na arte (e guiando a revista, verdade seja dita), enquanto Gary Friedrick assumiu os roteiros, escritor que cada vez aumentava sua importância na Marvel, já tendo trabalhado com vários personagens.

O grande marco dessa passagem foi outro grande confronto com a HIDRA, que se inicia na edição 144, num arco chamado HIDRA acima de tudo. Friedrick e Romita mostraram uma história onde há um novo líder da organização ao mesmo tempo em que a HIDRA se envolve com um misterioso milionário que vive recluso em Las Vegas. As cenas na qual não vemos esse “novo” vilão, apenas a cadeira em que está sentado e sua mão remetem diretamente aos filmes de James Bond. No final das contas, o recluso é revelado como sendo o Wilson Fisk, o Rei do Crime, vilão que surgira nas histórias do Homem-Aranha em 1967, e fora cocriado por Romita (junto a Stan Lee).

Caveira Vermelha e o novo Hibernante. Arte de John Romita.

A história mostra ainda o vilão descobrindo que o novo líder da HIDRA é ninguém menos do que seu próprio filho, Richard Fisk. Ele já havia aparecido em um arco de histórias do Homem-Aranha como sendo o Planejador, um vilão que tenta acabar com a carreira criminosa do Rei. Wilson Fisk fica abalado por ver seu filho envolvido com a HIDRA, porque o Caveira Vermelha se mostra como um agente das sombras. No fim, o ex-nazista ainda exibe um novo Hibernante. É um dos melhores arcos do Capitão América e se encerra na edição 147.

Este arco também marca a transição para a arte de Sal Buscema, que assume no número 145 e passaria vários anos na revista. Sal Buscema era um artista em ascensão, mas já havia passado pela revista dos Vingadores. Logo, se tornaria um dos principais desenhistas da Marvel, trabalhando longamente com Hulk e Homem-Aranha. Friedrick encerra sua passagem no número 148 e segue-se uma curta passagem sob o comando de Gerry Conway, que em seguida substituiria Stan Lee nas histórias do Homem-Aranha.

Uma Fase de Ouro: Steve Englehart

Captain America 153: a estreia de Steve Englehart e o arco do Capitão dos anos 1950. Arte de Sal Buscema.

Em Captain America 153, de 1972, a revista é assumida pelo escritor Steve Englehart, enquanto a arte continua com Sal Buscema. A dupla desenvolveria uma longa parceria que se estenderia até o número 186, em 1975. O primeiro arco da dupla resolveu um problema cronológico do personagem: como explicar as aventuras do Capitão nos anos 1950?

Baseado em uma ideia de Roy Thomas, à época Editor-Chefe da Marvel, Englehart criou uma história que mostra que nos anos 1950, um professor de história descobriu a fórmula do supersoldado e convenceu o governo a transformá-lo em um novo Capitão América. O jovem Jack Monroe é selecionado como novo Bucky e os dois são submetidos ao processo. Inicialmente dá certo, mas depois os dois ficam loucos e são confinados pelo Governo. Em Captain America 153, a dupla desperta e tem que ser combatida pelo verdadeiro Capitão e o Falcão, numa sequência de histórias (até a edição 156) que ficou conhecida como Herói ou Ameaça e que teve grande importância cronológica para o personagem. Outro grande clássico.

Na maior parte dos anos 1970, a arte clássica de Sal Buscema predominou.

Mais jovem que seus predecessores, Englehart adicionou elementos mais realistas às histórias, intimamente relacionadas aos anos 1970. Além disso, Englehart envolveu o personagem em uma “teoria da conspiração”, combatendo o Império Secreto, cujo líder, O Número 1, era ninguém menos do que o Presidente dos Estados Unidos (sem nome, mas desenhado com o rosto de Richard Nixon). Vale lembrar que a história é publicada exatamente na época do escândalo do Watergate, que provou que Nixon investigava adversários e o levou a sair da presidência. A chamada Saga do Império Secreto é um dos grandes marcos cronológicos do herói iniciando em Captain America 169 e se encerrou na edição 175, de 1974.

A trama tem grande importância histórica por reagir de modo quase automático à grande repercussão do Watergate. O Capitão América era o personagem ideal para explorar isso. É clássica o final da aventura, em que a perseguição ao Número 1 chega à Casa Branca e o herói vê o Presidente tirar a máscara e se suicidar. Embora não seja mostrado o rosto do presidente, a alusão a Richard Nixon como metáfora é muito forte.

O Confronto com o Número 1 do Império Secreto, por Englehart e Buscema.
O Confronto com o Número 1 do Império Secreto, por Englehart e Buscema.
O Falcão ganha suas asas.
O Falcão ganha suas asas.

Outra curiosidade da saga é o envolvimento de vários outros heróis. Em primeiro plano, temos Falcão e Pantera Negra – dois heróis negros – que serviam de espelho das tensões sociais dos EUA de meados dos anos 1970. Uma curiosidade quanto ao Falcão diz respeito ao fato de que foi durante A Saga do Império Secreto, que o herói finalmente ganhou suas asas artificiais que lhe permitem voar. Até então, o Falcão não voava como estamos acostumados a vê-lo nos dias de hoje. Isso mudou com a tecnologia criada pelo Pantera Negra, com o herói ganhando suas asas na edição 170.

Os X-Men ajudam o Capitão na edição 173.
Os X-Men ajudam o Capitão na edição 173.

Outra participação especial da saga foram os X-Men, que vale lembrar, na época, não tinham mais suas aventuras publicadas pela Marvel, por causa das baixas vendas. Demoraria ainda um ano para a equipe retornar às bancas (reformulada). Aqui, vemos a equipe original – inclusive, usando seus velhos uniformes em estilo fardinha – ajudando o Capitão.

Steve Rogers adota a identidade de Nômade: crítica à era Nixon.
Steve Rogers adota a identidade de Nômade: crítica à era Nixon.

Como desdobramento principal da Saga do Império Secreto, Steve Rogers ficou mais cínico em relação ao seu próprio patriotismo, ressaltando a luta por ideal e não por um governo. Isso se refletiu no fato do personagem abandonar temporariamente a identidade de Capitão América e tornou-se o Nômade, com outro uniforme, durante curto período.

A temporada de Englehart, uma das melhores do personagem em toda a sua história, prosseguiu até Captain America 186, de 1975.

Jack Kirby de Volta

Em 1975, após cinco anos na DC Comics, Jack Kirby voltou à Marvel causando grande estardalhaço. E como não podia deixar de ser, “O Rei” dos quadrinhos terminou por assumir a revista de sua maior criação: o Capitão América. Além disso, em um acordo totalmente fora dos padrões da época, Kirby não somente veio desenhar o título, mas também, escrevê-lo, arte-finalizá-lo e editá-lo, tudo sozinho!

Kirby ficaria dois anos à frente do título (entre as edições 193 e 214) e fez vários outros trabalhos, inclusive, uma sequência de um ano inteiro de capas para a revista Avengers (os Vingadores), na qual o Capitão América também aparecia.

O criador Jack Kirby volta ao personagem em 1975: histórias nervosas de uma América em convulsão.

A temporada de Kirby foi marcada por muitas tensões sociais, capitaneadas pelo personagem Falcão e o Harlem. Seu arco mais famoso é Madbomb, justamente o primeiro, iniciando em Captain America 193 e encerrando na edição 200, de 1976.

Tensão e raiva na arte de Kirby.
Tensão e raiva na arte de Kirby.

A trama é simplória, uma bomba que causa a loucura nas pessoas, mas vale cada centavo pela explosiva arte de Kirby, a raiva que pulula das páginas e aquela sensação de “o Harlem está pegando fogo!” que permeia a história. Outro aspecto interessante é que Kirby criou uma história utilizando praticamente apenas personagens novos, utilizando dos antigos apenas Capitão, Falcão e suas namoradas. No mais, uma série de personagens foram introduzidos e conduziam a história ao lado do quarteto protagonista.

Outro aspecto feliz é que, coincidentemente, Madbomb se encerrou na edição 200 casando exatamente com a comemoração dos 200 anos da Independência dos EUA, o que se tornou tema da história.

Armin Zola : mente brilhante em um corpo robótico.
Armin Zola : mente brilhante em um corpo robótico.

Foi um marco tão importante que a Marvel encomendou a Kirby uma edição especial do Capitão América – como um anual – com mais páginas para comemorar a data. Daí saiu As Batalhas do Bicentenário, lançada em julho de 1976, numa história “papo-cabeça” em que o herói viaja no tempo e participa de vários momentos cruciais das história do país.

E tudo isso era apenas o começo. Kirby continuou desenvolvendo suas histórias, inclusive, criando o vilão Armin Zola em Captain America 208, que rapidamente se tornou mais uma adesão clássica ao cânone do personagem.

Combate contra o Caveira Vermelha na arte de Kirby.
Combate contra o Caveira Vermelha na arte de Kirby.

A saga de Kirby se encerrou em Captain America 214, após uma sequência de histórias contra o Caveira Vermelha, em 1977.

Os Invasores

Os Invasores ganham suas próprias aventuras.
Os Invasores ganham suas próprias aventuras. Capa de John Romita.

Paralelamente à temporarada de Jack Kirby à frente da revista do herói, o Capitão América passou a participar de um terceiro título mensal (além dos Vingadores): Os Invasores ganharam uma revista própria em 1975!

O escritor e ex-editor-chefe Roy Thomas havia criado os Invasores nas aventuras dos Vingadores em 1969 (baseado por sua vez, no Esquadrão Vitorioso criado por Bill Finger em 1946). Desde então, os Invasores (a união do Capitão América, de Namor e do Tocha Humana original nos tempos da II Guerra Mundial) eram parte oficial da cronologia do personagem, embora não tivessem sido explorados em detalhes.

Contudo, Roy Thomas era apaixonado pela Era de Ouro e decidiu contar essas histórias, aproveitando que ainda era um dos Editores Assistentes da Marvel. Assim, Thomas editou e escreveu o projeto para uma revista própria dos Invasores. A equipe estreou em um título de teste: Giant-Size The Invaders Special 01, no verão de 1975, com roteiros de Thomas e desenhos de Frank Robbins. O modelo Giant-Size era um substituto às velhas edições anuais da Marvel e traziam revistas com um formato maior chamado magazine) e mais páginas.

Personagens mais famosos ganharam suas edições Giant-Size (a dos Vingadores era um título trimestral) enquanto novas iniciativas ganharam edições-teste (os X-Men voltaram a ser publicados nessa mesma iniciativa). A edição dos Invasores abriu caminho para sua própria revista: The Invaders 01 chegou às bancas em agosto de 1975 com a mesma equipe criativa.

O vilão Barão Sangue. Capa de John Romita.
O vilão Barão Sangue. Capa de John Romita.

As histórias de Thomas e Robbins mostravam Capitão América, Namor, Tocha Humana e os parceiros mirins Bucky e Toro (Centelha no Brasil) salvando a vida do Primeiro Ministro da Inglaterra, Winston Churchill, e este sugerindo que todos agissem em um grupo chamado de Invasores. Os heróis topam a iniciativa e passam a combater as forças do Eixo unidos, com uma base fixa na Grã-Bretanha.

Fica estabelecido, assim, que Steve Rogers se tornou o Capitão América no início do ano de 1941 e ingressou na Guerra após o Ataque de Pearl Habor pelos japoneses em dezembro daquele ano. Em algum ponto de 1942 ocorre o ataque a Churchill e a formação dos Invasores. Já se sabe também que o Capitão agirá com a equipe somente até abril de 1945, quando sofrerá o acidente que matará Bucky e o deixará congelado em animação suspensa até o presente, quando será encontrado pelos Vingadores.

Spitfire estreia na edição 12. Capa de Jack Kirby.
Spitfire estreia na edição 12. Capa de Jack Kirby.

As aventuras dos Invasores de Thomas e Robbins eram bastante divertidas e fizeram algum sucesso. Vale ressaltar a beleza das capas que quase nunca foram assinadas por Frank Robbins, mas por grandes nomes da Marvel, como Jack Kirby, John Romita e Gil Kane.

Na revista, Thomas aproveitou para usar não apenas os personagens titulares, mas brincar com toda a vasta gama de personagens da Marvel na época da Timely nos anos 1940, como o Patriota e o Destruidor (Destroyer, um dos primeiros sucessos de Stan Lee naquela década). Mas Thomas também introduziu muitos novos personagens. Destaque para Invaders 6, que dá início a um arco de histórias que introduzem o Lorde Montgomery Falsworth e sua filha Jacquelline. Descobrimos que o primeiro – já em idade ligeiramente avançada – foi um herói uniformizado na I Guerra Mundial, chamado Union Jack; e que um de seus inimigos era um vampiro chamado Barão Sangue. O vilão, claro, ainda está vivo e o grupo se une para detê-lo. Falsworth volta a ser o Union Jack brevemente, mas tem a perna esmagada na batalha e fica confinado a uma cadeira de rodas.

O segundo Union Jack.
O segundo Union Jack. Arte de Gil Kane.

Edições futuras fariam Jacquelline Falsworth sofrer uma transfusão de sangue do Tocha Humana (que é um ser artificial, lembrem) e, isso lhe confere poderes de voar, mover-se em alta velocidade e disparar bolas de fogo. Assim, ela assume a identidade de Spitfire, em Invaders 12, de 1977. Algum tempo depois, descobrimos que Jacqueline tem um irmão chamado Brian, que está lutando na guerra atrás das linhas inimigas, na Alemanha. Brian assume a identidade uniformizada de Destruidor e termina se encontrando com os Invasores. Por causa da situação de seu pai, Brian Falsworth termina assumindo a identidade de Union Jack (em Invaders 20) e seu amigo Roger Aubrey (o antigo Dyna-Mite) torna-se o novo Destroyer. [Desse modo, virando o personagem publicado pela Timely nos anos 1940].

Thomas e Robbins também criaram vários outros grupos de heróis, como a Legião da Liberdade (Liberty Legion), que tinha membros como Whizzer (Ciclone), Miss America e Patriota (em Invaders 5); e os Cruzados (The Crusaders), que tinha o Independente (Spirit of ’76), em Invaders 14. Também criaram os Kid Kommandos, em Invaders 28, um grupo de heróis juvenis liderados por Bucky e trazendo Centelha e uma nova versão da Golden Girl. Por isso, Bucky e Centelha abandonam os Invasores por um tempo.

What If... 04: E se os Invasores permanecessem unidos?
What If… 04: E se os Invasores permanecessem unidos?

Um fato curioso ocorreu quando do lançamento de uma história “alternativa” dos Invasores. Em 1977, a Marvel lançou a revista What If…?, na qual o alienígena O Vigia (que mora na Lua e tem como missão registrar todos os eventos da vida na Terra) narra eventos que transcorrem em universos paralelos ou realidades alternativas; por exemplo: O que aconteceria se o Homem-Aranha entrasse para o Quarteto Fantástico? O que aconteceria se os Vingadores não tivessem se formado? Era uma maneira de escritores e desenhistas brincarem com conceitos e até mesmo fazer alguns pequenos testes.

No verão daquele ano, saiu What If…? 04 com o seguinte título: “O Que Aconteceria se os Invasores permanecessem unidos após a Guerra?”. Os próprios Thomas e Robbins escreveram a aventura que imaginava a sequência de eventos seguidos após o desaparecimento do Capitão América e Bucky em 1945. Na trama, o Tocha Humana mata Adolf Hitler na tomada de Berlin e, em seguida, os Invasores são convocados para uma reunião de emergência, onde são comunicados do falecimento de seus amigos. Mas o Governo dos EUA acha que a morte da dupla irá “baixar a moral” dos aliados nos momentos finais e decisivos do conflito. Assim, criam um embuste: colocar substitutos!

Naslum e Davis assumem o manto.
Naslund e Davis assumem o manto.

O herói conhecido como Independente e um jogador de baseboll chamado Fred Davis se tornam os novos Capitão América e Bucky. Os Invasores aceitam a proposta e lutam o restante da Guerra, especialmente no Pacífico. Com o fim do conflito, o Presidente Truman sugere que permaneçam unidos como O Esquadrão Vitorioso (exatamente o grupo criado por Bill Finger em 1946, lembram?) e a equipe passa a combater o crime.

Porém, em 1946, o grupo encara um vilão chamado Adam II, outro ser humano artificial na mesma linha do Tocha Humana. O plano dele é matar e substituir por outro robô o candidato ao senado John F. Kennedy e com isso influenciar os rumos da política mundial. Os Invasores conseguem derrotar o vilão, mas à custa da vida do novo Capitão América. Participando da aventura, o Patriota assume o papel do terceiro Capitão América.

O conceito complexo criado por Roy Thomas causou uma boa impressão ao público e aos editores da Marvel, de modo que essa história terminou sendo classificada como canônica, ou seja, parte oficial da cronologia do Capitão América, apesar de publicada em uma revista até então destinada apenas a histórias fora da cronologia.

O Independente combate o Capitão América. Arte de Jack Kirby.
O Independente combate o Capitão América. Arte de Jack Kirby.

Assim, se convencionou que, em 1945, o Independente (William Naslund) e Fred Davis, os substituíram como os novos Capitão América e Bucky; até a morte do primeiro um ano depois e Jeff Mace (o Patriota) agiu como Capitão América até 1949, quando se aposentou. Desse modo, Naslund e Mace seriam o “Capitão América” das revistas da Timely na segunda metade dos anos 1940; enquanto o Grande Diretor seria a encarnação do herói em 1953 e 1954, resolvendo definitivamente o “problema” cronológico causado pela introdução do desaparecimento do herói em 1945.

O Patriota Jeff Mace. Arte de Jack Kirby.
O Patriota Jeff Mace. Arte de Jack Kirby.

Retornando aos Invasores, Thomas e Robbins comandaram a revista até o número 29, de 1978. Em seguida, a nova dupla Don Glut e Alan Kupperberg assumiu o título, mas a revista já perdia força e leitores. Thomas terminou retornando pouco depois, a partir da edição 32, passando a alternar com Glut os roteiros enquanto permanecia como editor da revista. Glut e Kupperberg ainda deram uma renovada na equipe, acrescentando Ciclone e Miss America aos Invasores a partir da edição 36 (seguindo, portanto, a nova cronologia pós-guerra), mas a queda nas vendas condenou a revista.

A bela capa da edição 17, por Gil Kane.
A bela capa da edição 17, por Gil Kane.

The Invaders teve sua última edição regular publicada em Invaders 40, de abril de 1979, deixando uma batalha contra o Super-Eixo (reunião de vários vilões do grupo) inacabada. Por isso, meses depois, em setembro, foi publicada a edição 41, finalizando a história e a revista definitivamente.

Como pode-se notar, as histórias dos Invasores acrescentaram bastante à cronologia do Capitão América, clarifincando os eventos dos tempos da II Guerra Mundial, que desde as velhas edições de Lee e Kirby em Tales of Suspense, mostravam seguir uma cronologia própria, independente das histórias originais da Timely nos anos 1940. A partir de então, personagens como Union Jack, Spitfire, Barão Sangue e os substitutos William Naslund e Jeff Mace tornaram-se parte fundamental do cânone do Capitão América, sempre retomados pelos escritores consequentes.

Uma Época em Baixa

De volta à revista Captain America, em 1977, após a saída de Kirby, Roy Thomas assumiu a revista por um curto período, com desenhos de George Tuska e capas de Gil Kane, em histórias que reorganizavam a cronologia do herói (incluindo os Invasores), resolvendo aspectos obscuros do passado do personagem. Seguiu-se, então, um período de grande variação criativa na revista, o que a faz perder leitores. Dentre os escritores que se destacaram até 1980, estavam Don Glut, Roger McKensie e Chris Claremont.

A morte de Sharon Carter. Por um tempo...
A morte de Sharon Carter. Por um tempo…

Foi uma época “de baixa” para o Capitão América enquanto personagem. Suas histórias também não foram tão grandiosas. Com uma única exceção! O grande marco dessa época foi a morte da Agente 13 da SHIELD, Sharon Carter, a namorada do herói, desde 1966!

Numa trama iniciada em Captain America 233, de 1979, com roteiro de Roger McKensie e desenhos de Sal Buscema, o Capitão se vê às voltas com o surgimento de uma organização neonazista chamada Força Nacional. A história é cheia de surpresas. Primeiramente, Sharon Carter sofre uma lavagem cerebral e se torna agente da FN. E pior, é morta por um raio desintegrador. O curioso é que o herói não presencia realmente o acontecimento e só tem a confirmação da morte de sua amada por meio de um videotape.

O Capitão assiste à morte de Sharon Carter.
O Capitão assiste à morte de Sharon Carter.

Enquanto isso, o herói termina descobrindo que o responsável pela FN é o Dr. Faustus, e outra surpresa, o Grande Diretor da FN é ninguém menos do que o Capitão América dos anos 1950, que foi solto e também sofreu lavagem cerebral do vilão. No fim das contas, o Grande Diretor chega a se arrepender de seus atos e comete suicídio no final.

Como todos sabem, mortes não duram muito nos quadrinhos e tanto Sharon Carter quanto o Grande Diretor seriam trazidos de volta no futuro. Ainda assim, o grande amor de Steve Rogers ficaria “fora do ar” por 16 anos!

Outra Fase Dourada: Roger Stern e John Byrne

Mecanus e a maravilhosa arte de John Byrne.
Mecanus e a maravilhosa arte de John Byrne.

Após um período de baixa, o Capitão América voltou ao sucesso em 1980 com a curta temporada do escritor Roger Stern e o escritor/desenhista John Byrne, iniciando em Captain America 247. A fase duraria apenas nove edições, mas foi extremamente marcante, principalmente porque a dupla deu uma vida social à Steve Rogers, reumanizando suas histórias. Deixando de ser agente da SHIELD e dos Vingadores em tempo integral, Rogers assume sua profissão como desenhista de histórias em quadrinhos (vejam só!) e estabelece sua residência no Brooklyn, distrito de Nova York marcado pela imigração e (talvez não coincidentemente) terra-natal de gente como Stan Lee e Jack Kirby. Assim, seu núcleo de vizinhos inclui negros, judeus e irlandeses, além de um novo interesse romântico na figura de Bernie Rosenthal, uma estudante de Direito judia.

Numa sequência eletrizante de histórias, um confronto com o ex-líder da HIDRA Barão von Strucker mostra que este era apenas um robô, criado pelo novo vilão Machinesmith (Mecanus, no Brasil), que por sua vez, lança o Homem-Dragão contra o herói. Em seguida, o Capitão América, precisa lidar com a dupla Mister Hyde e Baltroc.

Tudo isso enquanto vai conhecendo seus novos vizinhos e até se envolvendo com Bernie Rosenthal. A personagem seria a principal namorada do herói ao longo de boa parte dos anos 1980.

As histórias cheias de ação e personagens bem construídos se transformou em um dos melhores momentos do herói em sua longa trajetória.

Detalhe da capa de Captain America 250, de 1980: para presidente! Arte de John Byrne.

Na edição comemorativa de número 250, Stern e Byrne criaram a clássica história em que um partido nanico tenta convencer o Capitão América a ser candidato à presidente dos EUA, numa reflexão sobre as reais eleições daquele ano, em que o ex-ator Ronald Reagan derrotaria o candidato à reeleição Jimmy Carter, em mais uma guinada conservadora do país.

Na trama, contudo, após refletir bastante sobre quem é e o que deveria fazer, o herói percebe que seu papel não seria aquele, e que era mais útil em outro campo de batalha, recusando o convite. Ainda assim, foi uma história clássica que criou um conceito novo, várias vezes citado e retomado nos anos seguintes.

O discurso do herói ao recusar a candidatura, por Stern e Byrne.
O discurso do herói ao recusar a candidatura, por Stern e Byrne.
Contra o Barão Sangue: clássico de Stern e Byrne.

Contudo, o melhor ainda ficou para o final. O último arco da dupla trouxe a clássica aventura contra o Barão Sangue, vilão vampiro dos tempos da II Guerra Mundial, criado por Roy Thomas na revista dos Invasores (os heróis do tempo da guerra) nos anos 1970. Com isso, não apenas introduziu aqueles personagens no cânone oficial do Capitão América, como criou uma nova versão de Union Jack, o super-herói britânico.

Na trama, o herói volta à Inglaterra depois de tantos anos e se reencontra com Union Jack e Spitfire, descobrindo ambos bastante envelhecidos. Aliás, o Union Jack da história é o original, Lorde Fallsworth, já que seu filho Brian (aquele que realmente lutou nos Invasores) é revelado na trama como tendo falecido em um acidente de carro.

A família requer a ajuda do Capitão América, pois suspeita que o Barão Sangue está de volta. E estão certos!

O Capitão América dá o fim ao Barão Sangue. Drama gráfico de Byrne.
O Capitão América dá o fim ao Barão Sangue. Drama gráfico de Byrne.

A aventura com o Barão Sangue também é marcante pela cena em que o Capitão se vê obrigado a matar o vilão, mostrando que o herói pode chegar a esse ponto se necessário. Até então, as histórias do Capitão se esquivavam dessa possibilidade – mesmo ele sendo em essência um soldado que lutou na guerra  – mas Stern e Byrne contam isso de maneira leve e ligeiramente dramática. A partir de então, essa possibilidade passou a pautar alguns escritores.

A cena da morte, inclusive, é um grande momento da carreira editorial do herói, especialmente, pela beleza da arte de John Byrne, que retrata o drama e a hesitação do personagem.

A dupla Stern e Byrne recontam a origem do personagem em 1980.
A dupla Stern e Byrne recontam a origem do personagem em 1980.

A última edição desta fase foi a Captain America 255, comemorativa dos 40 anos de criação do Capitão América. Por isso, trata-se de um conto da origem do herói, recontada em detalhes por Stern e Byrne, seguido fielmente aquilo definido por Simon e Kirby em 1941, mas acrescentando contribuições posteriores de Lee e Kirby, principalmente aquelas de Captain America 109. A dupla ainda acrescenta a figura do General Phillips, que seria definitivamente incorporado ao cânone do herói como o responsável pelo Programa Supersoldado. Ver a origem do personagem na beleza plástica da arte de Byrne já é um grande negócio.

A dupla Stern-Bryne planejava, em seguida, um arco em três partes com o Caveira Vermelha, mas discussões com a esfera editorial da Marvel fizeram ambos sair da revista. Stern iria escrever o Homem-Aranha e faria um sucesso enorme na revista; enquanto Byrne continuava nos X-Men e no Quarteto Fantástico.

A Fase de J.M. DeMatteis

O novo Nômade combate o Constrictor.
O novo Nômade combate o Constrictor.

Com a saída da dupla, uma apareceu uma série de histórias “tapa-buraco”, enquanto se buscava uma nova equipe criativa; muito embora escritores de calibre como Chris Claremont e David Michelinie tenham produzido nesse período. Finalmente, em Captain America 261, de 1982, estreia a nova fase, comandada por J.M. DeMatteis (texto) e Mike Zeck (desenhos). Seria uma longa temporada, que duraria quase 40 edições.

J.M. DeMatteis retomou a bola alta do personagem em aventuras repletas de abordagens psicológicas e temas delicados, como envelhecimento/morte, perseguição de minorias étnicas (negros por meio do Falcão; judeus por meio de Bernie) e homossexualidade (por meio de Arnie Roth, um amigo de infância de Steve Rogers). DeMatteis terminaria expulso do título por discordâncias com os editores.

Antes disso, porém, criou novos vilões, como Ratus; resgatou alguns velhos, como o segundo Barão Zemo; e tornou Jack Monroe, o Bucky louco dos anos 1950 (das histórias de Englehart), curado de seu mau e virando amigo e breve parceiro de ação do Capitão América. Sem querer usar a velha identidade, Monroe assumiria a identidade de Nômade. Ele foi reintroduzido nas edições 281 e 282, numa aventura que envolveu os vilões Constrictor e Víbora. O desenhista Mike Zeck permaneceu até a edição 289, após algumas edições com arte de Ron Frenz e Herb Trimpe, Paul Neary se firma como o artista fixo.

Capa de Captain America 300, que encerra a fase dark e polêmica de DeMatteis.
Capa de Captain America 300, que encerra a fase dark e polêmica de DeMatteis.

A partir da edição 290, de 1984, DeMatteis iniciou um grande arco em que o Caveira Vermelha se vê envelhecendo rapidamente e prestes a morrer. Então, arma um grande plano final para derrotar o Capitão América, numa história que introduz personagens novos, como a Madame Noite e a filha do Caveira Vermelha, Synthia Schmitd, mais conhecida como Pecado.

O plano original de DeMatteis era fazer o Caveira Vermelha e o Capitão América morrerem em combate no número 300, colocando o herói indígena Corvo Negro (que apareceu na edição 292) para substituir Steve Rogers. A Marvel (na figura do polêmico Editor-Chefe Jim Shooter), claro, não concordou com essa ideia, o final da história foi modificado e DeMatteis deixou o título em protesto.

No fim, em Captain America 300, de 1984, o Caveira Vermelha termina morrendo de velhice e ficaria muitos anos afastado das histórias até ser trazido de volta.

Após sair da revista, DeMatteis escreveria grandes clássicos dark para a Marvel, como A Última Caçada de Kraven e A Criança Interior, ambos no Homem-Aranha, embora tenha ficado mais famoso como autor de histórias cômicas na fantástica fase da Liga da Justiça da DC Comics do final dos anos 1980.

Inicialmente, o substituto de DeMatteis foi Mike Carlin, que inclusive, assina a coautoria da edição 300, por causa das mudanças. Curiosamente, o final da saga só se dá mesmo na edição 301, assinada apenas por Carlin, quando o Capitão precisa enfrentar a fúria das asseclas do Caveira. Mas o escritor ficou apenas alguns números.

A Década de Mark Gruenwald

Flag-Smasher: discutindo patriotismo e ufanismo. Arte de Paul Neary.

A partir de Captain America 307, de 1985, o editor (desde 1980) da revista Captain America, Mark Gruenwald, assumiu os roteiros por dez anos ininterruptos. Na primeira fase, com desenhos de Paul Neary, investiu em temas mais políticos, mostrando que o Capitão América não era um alienado ufanista, mas alguém que buscava um ideal de liberdade, como ficou claro no confronto contra o Flag-Smasher (Apátrida, no Brasil), em Captain America 312. Gruenwald também discutiu novas formas de patriotismo – novamente reflexos do conservadorismo dos anos 1980 – por meio do personagem Super-Patriota: John Walker é um ex-militar que submetido a experimentos científicos se torna alguém superforte e passa a combater o que considera crimes contra o país. Os dois heróis entram em conflito, deixando claras as diferenças entre eles, entre Captain America 323 e 327, de 1986.

Super-Patriota e Capitão América: discutindo novas e velhas formas de patriotismo.

Num segundo momento, com Tom Morgan na arte, colocou o herói mais uma vez abandonando o uniforme: desta vez para não trabalhar para o Governo. Na trama que se inicia em Captain America 332, de 1987, o Governo dos EUA convoca Steve Rogers para voltar a servir o país como um agente especial. Argumentando que faz isso desde que acordara do gelo e sabendo que seria mandado para derrubar governos de países da América Latina e coisas do tipo, Rogers recusa. Então, a Comissão para Atividades Super-Humanas decide por tirar-lhe o direito de usar o uniforme e o escudo, que pertenceriam ao Governo. Ironicamente, o escolhido para substituí-lo como o novo Capitão América é ninguém menos do que o Super-Patriota.

Steve Rogers em seu uniforme negro em “Captain America 337” por Tom Morgan em homenagem à “Avengers 04”.

Sem poder agir sob sua identidade e com a de Nômade já usada por Jack Monroe, Steve Rogers adota um uniforme negro, passando-se a se chamar apenas Capitão, enquanto John Walker atua paralelamente como o novo Capitão América. A estreia do novo uniforme se dá em Captain America 337. em 1988.

Os desenhos são assumidos por Kieron Dwyer, enquanto Gruenwald explora uma fase relativamente longa traçando paralelos entre a trajetória do Capitão e do Capitão América, com este último descobrindo o pesado fardo que o nome e o uniforme lhe dão. Para piorar, John Walker vai se mostrando cada vez mais desequilibrado na medida em que suas ações são atrapalhadas e manipuladas por um misterioso homem que tem grande influência na Comissão de Atividades Super-Humanas.

O confronto entre Rogers e Walker em Captain America 300. Arte de Kieron Dwyer.

Esse misterioso vilão seria revelado com ninguém menos do que o velho Caveira Vermelha, em Captain America 350, que traz enfim o confronto entre um ensandecido John Walker e Steve Rogers. Só que agora o status do velho vilão é totalmente diferente: sua mente habita um clone do próprio Steve Rogers, num procedimento realizado pelo cientista Armin Zola – que é mostrado explicitamente em uma história secundária da mesma revista, com desenhos de John Byrne, num rápido retorno.

No fim, o Governo decide restituir Steve Rogers com o uniforme do Capitão América e desobrigá-lo de servi-lo diretamente. Histórias secundárias da revista, entretanto, mostram que enquanto John Walker é aparentemente morto em um atentado, ele é, na verdade, submetido a uma cirurgia plástica e lhe é dada uma nova identidade: Jack Daniels, que será o Agente Americano, um novo herói a serviço do Governo e que se tornará membro – e líder – dos Vingadores da Costa Oeste. O uniforme do novo herói é justamente o mesmo uniforme negro usado anteriormente por Rogers. Escritores do futuro iriam redimir o Agente Americano, como alguém truculento, mas bem intencionado.

Ossos Cruzados: Gruenwald e Dwyer criam um oponente físico para o herói.

Esta é a melhor fase de Gruenwald, com desenhos de Kieron Dwyer, prosseguindo com o surgimento de Ossos Cruzados, um oponente físico digno do herói, surgindo entre Captain America 359 e 361, sendo revelado como o braço direito do Caveira Vermelha.

Há tempos o Capitão América não tinha um grande oponente físico. O Caveira Vermelha deixou de ocupar esse posto desde que foi trazido de volta, assim, a introdução do Ossos Cruzados foi muito bem vinda. O visual do personagem é simples e eficaz, rendendo bons confrontos nas histórias desenhadas por Kieron Dwyer.

Cascavel: ex-criminosa se torna a namorada do herói.
Cascavel: ex-criminosa se torna a namorada do herói.

Depois, Ron Lim assumiu os desenhos em uma fase ainda boa, colocando o Capitão América e sua nova namorada, Rachel Leighton, a ex-vilã Cascavel (Diamondback, em inglês), em combate com uma gangue de criminosos chamada Esquadrão Serpente, num longo arco que começa em Captain America 369, de 1990.

O Esquadrão da Serpente.
O Esquadrão da Serpente.

As histórias lidavam com Cascavel ficando impressionada com a honra e nobreza do Capitão América ao ponto de decidir deixar a vida de crimes para tornar-se uma heroína. O Capitão abraça a causa dela, mas não é fácil, já que as ligações de Rachel com o Esquadrão da Serpente a colocam em um equilíbrio bastante delicado. Mark Gruenwald também fez um bom trabalho aprofundando sua personalidade, inclusive, criando um background de seu passado relacionado a Ossos Cruzados.

Descobrimos que o nome de Ossos Cruzados é Brock Rumlow e ele é um ex-amigo do irmão mais velho de Rachel, e também o assassino dele. Cascavel agora vive o dilema entre o desejo de matar Ossos Cruzados em vingança e não fazer isso em honra ao Capitão.

Capitão América contra o Mercenário.

Outro arco interessante foi aquele que começa em Captain America 372, em que o Capitão América, em meio a um confronto com o Mercenário (inimigo do Demolidor), é acidentalmente exposto a uma nova droga chamado Gelo, que termina contaminando todo o seu sangue. A única saída é fazer-lhe uma transfusão de sangue completa, mas isso iria lhe tirar o soro do supersoldado que lhe dá suas habilidades especiais. O herói concorda com o procedimento e passa um curto período agindo apenas como um homem bem treinado, mas prova a si mesmo ser capaz mesmo assim, inclusive, derrotando Ossos Cruzados em um confronto.

Paralelamente, vemos uma disputa entre o Caveira Vermelha e o Rei do Crime – num reencontro que remete aos anos 1970 – que é um momento muito interessante. Nas histórias seguintes, o próprio corpo do Capitão reproduz o soro do supersoldado, lhe devolvendo suas habilidades extrahumanas.

Anos 1990: O Efeito Muscular

A armadura: efeito muscular...
A armadura: efeito muscular…

No início dos anos 1990, os roteiros de Gruenwald começaram a mostrar cansaço e, rapidamente, a qualidade caiu. Também deve ser levado em consideração a grande intervenção do Departamento de Marketing na Redação, fazendo escritores escreverem histórias que não queriam. De qualquer modo, pouco se aproveita desse terceiro momento da fase de Gruenwald, que se inicia mais ou menos no momento em que Ron Lin deixou a revista, que passou a ser desenhada por Rik Levins primeiro e, depois, por Dave Hooper.

O ponto mais baixo dessa fase se inicia em Captain America 438, de 1995, quando em consequência das histórias acima relatadas, o herói descobre que seu organismo está sendo destruído pelo Soro do Supersoldado. Para não ficar totalmente paralisado, Steve Rogers solicita ao amigo Tony Stark que construa uma armadura como a do Homem de Ferro para que ele possa usar no combate ao crime.

Jack Flag e Free-Spirit.
Jack Flag e Free-Spirit.

O visual da armadura – criada por Dave Hooper – é horrendo marcando inegavelmente a entrada do Capitão América dentro do Efeito Muscular, a tendência dos anos 1990 de desenhos exagerados e com desprezo por anatomia. É ainda uma fase muito estranha do herói, que passa a ser auxiliado por dois jovens heróis assistentes: Jack Flag e Free-Spirit. O visual de ambos também não é nada memorável, parecendo com dois refugos da editora Image Comics, a lançadora maior da tendência.

A fase de Waid e Garney está disponível no Brasil no encadernado “Operação Renascimento”. Bom momento do personagem.

A Marvel convidou o escritor de sucesso Mark Waid e o desenhista Ron Garney para assumirem o título e dar-lhe novo fôlego. Deu certo e o primeiro arco da dupla, Operação Renascimento, em 1995, é um clássico contemporâneo do personagem.

O arco inicia em Captain America 444, com uma grande homenagem ao personagem, que inicia a história à beira da morte, ainda em consequência dos efeitos negativos do Soro do Supersoldado. Mas a SHIELD consegue curá-lo e, sem parar para respirar, o herói se lança em uma grande empreitada para impedir o Caveira Vermelha de se apossar do Cubo Cósmico.

Nessas histórias, Waid e Garney trouxeram Sharon Carter de volta, mostrando que sua morte havia sido um embuste. A dupla não retoma um romance, mas uma relação marcada por pequenos conflitos carregados de humor, conflitando a visão mais niilista e pragmática dela com o ativismo e ideologia dele. 

Com texto leve e divertido e bela arte, Operação Renascimento constituiu uma boa fase, e foi seguida por Herói Sem Pátria, que foi interrompida pela direção da Marvel, que queria o personagem disponível para uma grande empreitada comercial. O arco termina apressadamente na edição 454, marcando o fim do primeiro volume da revista Captain America (publicada desde 1968) e dando início a uma nova numeração.

Heróis Renascem

Para muitos, a fase de Loeb e Liefeld, em 1995, é o ponto mais baixo da carreira do personagem.

Após o boom de vendas do início dos anos 1990, a crise se instalou violentamente no mercado de quadrinhos pós-1995. Na Marvel, apenas as revistas do Homem-Aranha e dos X-Men satisfaziam o Departamento de Vendas (ainda assim, ambas em fases horríveis em termos criativos), de modo que a editora adotou uma das mais ousadas, radicais (e burras?) ações editoriais de todos os tempos: cancelou suas principais revistas de primeira linha (Captain America, Iron-Man, Fantastic Four e Avengers) e as relançou com novas equipes criativas e direcionamentos cronológicos. E não somente isso, os artífices da Image Comics – os desenhistas Jim Lee e Rob Liefeld – foram contratados para comandarem as novas versões.

A empreitada chamada Heróis Renascem partia do megaevento Massacre, na qual quase todos os heróis da Marvel morriam para doar suas forças vitais e derrotarem o vilão homônimo, que era uma combinação dos “lados negros” do Professor Charles Xavier e Magneto. (Isso, é tão ruim quanto parece…). Contudo, a “essência” dos heróis é transportada para um novo universo – o de Heróis Renascem – onde eles vivem novas aventuras, com novas origens e passado.

Lançado com estardalhaço, o novo Capitão América ficou a cargo do nefasto desenhista Rob Liefeld (alguém odiado na indústria dos quadrinhos), com roteiros coescritos por Jeph Loeb. A nova Captain America (vol 2) durou 12 edições, foi um fracasso de vendas e é simplesmente horrenda. A representação do Capitão América desproporcional em termos anatômicos de Liedfeld se tornou uma das coisas mais célebres e feias da história do personagem.

Retomada

O Capitão América na arte de John Cassaday.
O Capitão América na arte de John Cassaday.

Quase como um pedido de desculpas, a Marvel retomou a publicação do Capitão América em 1998 convidando Mark Waid e Ron Garney para continuar sua visão do personagem. Captain America (vol 3)  se inicia com o arco Poder e Glória, que questiona novamente a dedicação do personagem aos Estados Unidos enquanto país ou ideologia. Na trama, um desgarrado alienígena Skrull (que é transmorfo) assume uma posição de destaque na HIDRA e toma o lugar do Capitão América para desonrá-lo.

A trama é boa, mas não excelente, Garney logo deixou a revista, substituído por Andy Kubert.

Os primeiros anos da década 2000, contudo, não foram bons para o Capitão América, por causa do ufanismo pós-11 de setembro prejudicou as histórias. O escritor/desenhista Dan Jurgens e a dupla John Ney Rieber e John Cassaday foram os responsáveis por este momento.

A Fase Ed Brubaker

O arco O Soldado Invernal está disponível nas livrarias brasileiras. Ótima leitura!
O arco O Soldado Invernal está disponível nas livrarias brasileiras. Ótima leitura!

Essa fase desagradou o público, então, em 2005, a Marvel zerou a numeração da revista do Capitão América e colocou uma nova equipe: o roteirista Ed Brubaker e os desenhistas Steve Epting e Mike Perkins. Esta fase caminha junto com a série Novos Vingadores de Brian Michael Bendis (da qual o personagem também é importante – veja a série História Recente da Marvel Comics, publicada em sete capítulos aqui no HQRock).

Os roteiros fantásticos de Brubaker e a arte realista de Epting imprimiram fortes imagens nos leitores e o Capitão América voltou a ser um dos principais personagens da editora e (um feito maior ainda) a ser uma das revistas de maior sucesso da casa.

A fase de Brubaker é a principal influência para os filmes do Capitão América no cinema.
A fase de Brubaker é a principal influência para os filmes do Capitão América no cinema.

O primeiro arco de Brubaker e Epting foi Tempo Esgotado, entre Captain America (vol 4) 01 e 10, na qual somos apresentados ao ex-General soviético Alexander Lukin, que tem um misterioso vínculo passado com o Capitão América e arma um grande plano para se vingar, embora tenha a concorrência com o Caveira Vermelha. Mas a seu favor, Lukin tem uma arma secreta: o Soldado Invernal, que batiza o segundo arco da trama, a partir da edição 11.

Com o fim dos Vingadores (na saga Vingadores: A Queda), o Capitão América procura por um sentido na vida; enquanto continua a patrulhar as ruas do Brooklyn, onde mora. Ao mesmo tempo, dois vilões movem suas peças no tabuleiro e entram em choque entre si. As artimanhas de Alexsander Lukin envolvem usar o Soldado Invernal, um lendário operativo da União Soviética nos tempos da Guerra Fria, que agora está nos EUA e tem não somente o Caveira Vermelha como alvo, mas o próprio Capitão América.

O Soldado Invernal.
O Soldado Invernal.

identidade do Soldado Invernal irá surpreender o herói como nenhuma outra coisa! Durante a batalha, o Capitão América descobre que o Soldado Invernal é ninguém menos do que Bucky Barnes e Nick Fury e a Viúva Negra confirmam a identidade. Bucky sobrevivera ao acidente aéreo que pensavam ter tirado sua vida, embora tenha perdido o braço esquerdo. Os soviéticos encontraram o rapaz, substituíram seu braço por outro mecânico, fizeram uma lavagem celebral nele e o transformaram em um espião sem piedade, destinado a assassinar os inimigos da KGB e da União Soviética. Ganhou o nome Soldado Invernal porque era congelado entre as missões para que não envelhecesse, de modo que continuava tão jovem quanto o próprio Capitão América.

Ossos Cruzados e a IMA.
Ossos Cruzados e a IMA.

Agora, o sentinela da liberdade precisa encontrar uma maneira de ajudar um velho amigo, vítima de lavagem cerebral, ao mesmo tempo em que tem que parar a máquina de destruição de Lukin. Outro mérito de O Soldado Invernal é lançar um novo olhar sobre Bucky Barnes, o parceiro mirim do Capitão América nos tempos da II Guerra Mundial e dado como morto no fim do conflito no mesmo acidente que deixou Steve Rogers em animação suspensa por décadas. Bucky é mostrado como um operativo um pouco mais velho do que o habitual (não mais um menino/adolescente) dotado de grande habilidade física e frieza. Sempre carregando uma arma ou uma bomba, era a especialidade de Bucky realizar o trabalho sujo – assassinatos inclusos – que não deviam caber ao Capitão América, por causa de seu papel simbólico.

O Soldado Invernal – cujo lançamento em encadernado inclui Tempo Esgotado – foi um grande sucesso de público e crítica, dando início a melhor dentre todas as fases que o Capitão América já teve, nas habilidosas mãos de Ed Brubaker. Após esse primeiro círculo, o escritor continuou aprofundando os elementos de sua história, com a busca de redenção de Bucky Barnes – livre dos comandos hipnóticos e procurando desfazer parte do mal que causara – e o uso sempre competente do elenco de apoio, com Nick Fury, Sharon Carter, Viúva Negra, Falcão; e os vilões tradicionais, como o Caveira Vermelha (em usa nova encarnação dentro da cabeça de Alexander Lukin – algo bizarro e brilhante), Dr. Faustus e Armin Zola.

Guerra Civil

Guerra Civil: marco moderno do Universo Marvel.
Guerra Civil: marco moderno do Universo Marvel.

Em paralelo à fase de Ed Brubaker na revista do Capitão, corria as aventuras dos Novos Vingadores de Brian Michael Bendis, na qual o herói e o Homem de Ferro criavam uma nova versão da equipe de heróis, agora com membros incomuns, como Homem-Aranha, Wolverine e Luke Cage. Mas a harmonia do grupo é destruída na minissérie Guerra Civil, de Mark Millar e Steve McNiven.

Esta minissérie, além de ter sido um dos maiores sucessos da história recente da Marvel, foi também um importante marco divisor da cronologia da casa, dando a tônica dos anos seguintes do Universo Marvel. Além disso, serviu como uma bem-sacada crítica (nada velada) à política da Era Bush nos Estados Unidos.

Na trama, o grupo de heróis Novos Guerreiros causa, sem querer, a morte de 600 pessoas, a maioria crianças, o que leva o Congresso Americano a votar a Lei de Registro de Superhumanos, que obriga aos superseres revelar suas identidades e passarem a agir como encarregados do Governo. Tony Stark, o Homem de Ferro, é o Secretário de Defesa dos EUA e se torna o grande defensor da Lei; mas inesperadamente, uma facção de heróis liderada pelo Capitão América se ergue contra o Registro, por jugá-lo contra os Direitos Humanos. A batalha, então, se torna não contra um vilão, mas entre grupos de heróis que eram amigos até então, mas foram divididos pela política.

A facção do Capitão (que tem Wolverine e Luke Cage como aliados e ganha a adesão do Homem-Aranha em seguida) é perseguida pela facção do Homem de Ferro (que tem Reed Richards e Hank Pym como aliados, além da Miss Marvel). Capitão e seus amigos são transformados em foras da lei. Uma grande batalha é travada, mas o grupo do Homem de Ferro é vencedor.

Guerra Civil: ex-aliados como inimigos. Homem de Ferro vs Capitão América por Millar e McNiven.
Guerra Civil: ex-aliados como inimigos. Homem de Ferro vs Capitão América por Millar e McNiven.

É aí que começa a trama de A Morte do Sonho.Na histórica Captain America 25, de 2007, (ainda por Bribaker e Epting) Steve Rogers é preso e levado a julgamento na Suprema Corte e é baleado por Ossos Cruzados – o braço direito do Caveira Vermelha – nas escadarias do tribunal. O herói morre nos braços de Sharon Carter e o país entra em choque. A opinião pública – cuja boa parte reprovava a ação do herói na Guerra Civil – termina por reverenciar seu papel como herói. Ao mesmo tempo, todo o elenco secundário do personagem – Sharon, o Falcão, Bucky Barnes, Nick Fury e Tony Stark – precisam lidar com o fardo da ausência do maior de todos os heróis.

Capitão América é assassinado em "Captain America 25", de 2007.
Capitão América é assassinado em “Captain America 25”, de 2007.

A saga do Capitão América como personagem poderia terminar nesta aventura – e todos sabem que não terminou – e novamente Ed Brubaker conduz uma trama inteligente, cheia de mistério e suspense, com grandes revelações e reforçando não apenas os aspectos simbólicos do personagem, mas encontrando uma maneira de utilizar todo seu universo ficcional ao seu favor, trazendo personagens como Dr. Faustus e Armin Zola de volta, com muita propriedade. Além disso, em um ato de grande ousadia, Brubaker dá início a um longuíssimo arco que duraria três anos nos quais Steve Rogers permanecia morto e seu papel como Capitão América passa a ser ocupado por Bucky Barnes. A volta do original só se daria em 2010.

Bucky Barnes, o Capitão América

O novo Capitão América: Bucky Barnes.
O novo Capitão América: Bucky Barnes.

Ed Brubaker continua a saga – com Epting deixando os desenhos e dando lugar a Butch Guice e ao brasileiro Luke Ross – mostrando Bucky Barnes assumindo o papel de um novo Capitão América – com um novo uniforme criado pelo artista Alex Ross – lutando para impedir os planos de Alexander Lukin/Caveira Vermelha.

A boa arte de Luke Ross na revista.
A boa arte de Luke Ross na revista.

Brubaker teve a façanha de manter o público interessado em Bucky Barnes e a revista do Capitão América como uma das mais vendidas da Marvel, mesmo com a ausência do real protagonista. Barnes se torna uma figura importante no Universo Marvel, inclusive, ingressando os Novos Vingadores fora da lei (ainda perseguidos pelas autoridades após os eventos de Guerra Civil).

Somente em meio à saga Reinado Sombrio – quando o vilão Norman Osborn (o Duende Verde e Patriota de Ferro) torna-se a figura mais poderosa dos EUA – é que Steve Rogers é trazido de volta dos mortos, numa trama que revela que a arma que o “matou” lá atrás o deixou perdido no tempo. Resgatado, o Capitão original ajuda a derrotar Osborn, mas opta por manter Bucky Barnes como o Capitão América.

Os Vingadores Secretos (com o Supersoldado à frente) desenhados por Mike Deodato Jr.
Os Vingadores Secretos (com o Supersoldado à frente) desenhados por Mike Deodato Jr.

Steve Rogers assume uma outra identidade, o Supersoldado, tornando-se o novo Diretor da SHIELD e o responsável por todas as equipes de Vingadores (os principais, os Novos Vingadores e etc.). Nessa época, o escritor Ed Brubaker lança uma nova revista, The Secrets Avengers, com desenhos do brasileiro Mike Deodato Jr., na qual Rogers lidera uma equipe furtiva para missões altamente secretas. O título foi um enorme sucesso! Tão grande que ganhou até uma revista própria no Brasil: Capitão América e os Vingadores Secretos, sendo a primeira vez que o personagem batizava um título mensal desde o ano 2000 (antes, tinha suas histórias publicadas na revista Os Vingadores).

Steve Rogers de volta ao escudo

Uma das capas de Captain America 19: fim da Era Brubaker.
Uma das capas de Captain America 19: fim da Era Brubaker.

Somente em meio à saga  O Próprio Medo (Fear Itself) é que Steve Rogers voltou a ser o Capitão América, enquanto Bucky Barnes voltou a usar o nome de Soldado Invernal. Inclusive, o personagem ganhou uma revista própria, também comandada por Brubaker, que fez bastante sucesso.

Como destaque desse período, houve a morte de Peggy Carter, já em idade muito avançada.

Ed Brubaker abandonou a revista Captain America em 2012, após oito anos de um grande trabalho! A mudança ocorreu em meio à iniciativa Marvel Now, um reformulação editorial da editora. O Capitão passou a ter as aventuras comandadas por Rick Remender, com desenhos de John Romita Jr. (vindo da revista Avengers), numa série de aventuras cósmicas nas quais o personagem é transferido para uma outra dimensão. Vemos também novamente a morte de Sharon Carter, em Captain America (vol 7) 10, de 2013. Mais uma que deve ser provisória.

O uniforme dos anos 1940 no primeiro filme.
O uniforme dos anos 1940 no primeiro filme.

Nos Cinemas

Com o lançamento do Universo Marvel nos Cinemas, em 2008, com Homem de Ferro e O Incrível Hulk, todos esperavam a chegada do Capitão América. E o que não se sabia, inicialmente, era que a Marvel, por meio dos Marvel Studios, iria ter a audácia de reunir rapidamente seus principais heróis nos Vingadores.

O sentinela da liberdade ganhou sua adaptação cinematográfica em 2011, com o lançamento de Capitão América – O Primeiro Vingador, dirigido por Joe Johnson e estrelado por Chris Evans no papel do herói. Curiosamente, Evans já tinha uma vinculação forte com os personagens da Marvel, pois tinha vivido o Tocha Humana nos dois filmes do Quarteto Fantástico lançados pela 20th Century Fox, em 2005 e 2007.

O Caveira Vermelha no filme.
O Caveira Vermelha no filme.

Apesar do receio da “repetição”, o papel caiu como uma luva para Evans e o filme é uma das mais fieis adaptações dos quadrinhos para os cinemas. O roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely explora o fato de um jovem raquítico e idealista do Brooklyn se tornar a principal esperança na guerra contra a HIDRA e o Caveira Vermelha, vivido por Hugo Weaving. A origem do herói é contada em detalhes, reprisando os eventos criados e recontados por nomes como Joe Simon, Jack Kirby, Stan Lee, Roger Stern e John Byrne. E também como trunfo, mantém tudo na ambientação original: em meio à II Guerra Mundial, sendo, portanto, um filme de época.

Bucky Barnes...
Bucky Barnes…
...e Peggy Carter em O Primeiro Vingador.
…e Peggy Carter em O Primeiro Vingador.

A personagem Peggy Carter (vivida por Hayley Atwell) também está na trama e conquistou de imediato o coração dos fãs. Mas todo o elenco está ótimo, com Sebastian Stan (Bucky Barnes), Toby Jones (Armin Zola), Dominic Cooper (Howard Stark, o pai de Tony Stark), Tommy Lee Jones (general Phillips).

No filme, Johann Schmidt se torna o Caveira Vermelha com uma primeira versão do Soro do Supersoldado; e lidera a HIDRA, uma divisão nazista especial. Schmidt tem acesso ao Tesseract (o Cubo Cósmico dos quadrinhos), um velho artefato da mitologia nórdica – o que cria uma ligação direta com o filme Thor, lançado no mesmo ano – que o permite criar, junto ao cientista Armin Zola, toda uma série de armas novas extremamente potentes (o que por sua vez, remete ao velho Raio da Morte dos quadrinhos).

O filme mostra o Capitão América liderando o Comando Selvagem ao lado de Bucky Barnes, com apoio de Peggy Carter e do general Phillips, contra a HIDRA em uma caça ao Caveira Vermelha. Em uma ambientação mais realista, Bucky Barnes não é um herói uniformizado, mas um soldado comum, membro da divisão especial encarregada da missão. Ele também não é um adolescente, mas alguém da mesma idade de Steve Rogers, com os dois tendo sido amigos e vizinhos antes da transformação de Rogers no herói. Tal qual os quadrinhos originais, Bucky é tido como morto na guerra: porém, em vez de um acidente de avião, o jovem despenca de um trem em movimento e cai em um abismo.

Em sua missão final contra o Caveira Vermelha, o Capitão América, tal qual nos quadrinhos, também desaparece em missão e termina congelado, de onde é resgatado nos dias atuais por Nick Fury e a SHIELD.

Os Vingadores: batendo 1,5 bilhões em bilheteria.
Os Vingadores: terceira maior bilheteria da história.

É o gancho para Os Vingadores, o épico do Marvel Studios que reuniu Capitão América, Homem de Ferro, Thor e Hulk num mesmo filme, adicionando ainda, Viúva Negra e Gavião Arqueiro como membros da equipe e com participações de Nick Fury e Maria Hill por parte da SHIELD. Na trama, Loki (o meioirmão de Thor) vem à Terra para se apossar do Tesseract e usá-lo para abrir um portal dimensional que permita a invasão dos alienígenas Chitauri.

Em resposta à ameaça de Loki, Nick Fury e a SHIELD ativam os planos da Iniciativa Vingadores, reunindo os poderosos heróis. Mas a equipe logo percebe que a SHIELD está manipulando ações obscuras, usando a energia do Tesseract para produzir armas similares àquelas que a HIDRA usou na II Guerra Mundial. No final, o telespectador ainda descobre que quem está por trás dos Chitauri é ninguém menos do que Thanos, um dos maiores vilões da Marvel.

Detalhes do uniforme em Os Vingadores.
Detalhes do uniforme em Os Vingadores.

Os Vingadores é extremamente bem executado, comandado com mão firme do diretor e roteirista Joss Whedon. O público correspondeu: o longa é hoje a terceira maior bilheteria de todos os tempos!

No filme, o Capitão América é o líder nato da equipe, apresentado como um “homem fora do tempo” já que despertou 70 anos depois de sua época. É o herói que tem mais tempo de tela, apesar da presença marcante do superastro Robert Downey Jr. como o Homem de Ferro.

O uniforme do novo filme: baseado no Supersoldado dos quadrinhos.
O uniforme do novo filme: baseado no Supersoldado dos quadrinhos.

Em consequência à Os Vingadores, temos Capitão América 2 – O Soldado Invernal, o segundo filme solo do herói. Agora, agindo em missões secretas da SHIELD, o herói parece desencavar alguns segredos e depara-se com uma conspiração, ao mesmo tempo em que precisa enfrentar um vilão chamado Soldado Invernal que, para sua surpresa, é um fantasma de seu passado.

Em sua empreitada, Steve Rogers contará com a ajuda de sua colega vingadora Viúva Negra e com o Falcão, um militar que usa um par de asas mecânicas para voar.

O filme é um espetáculo de ação e explora de maneira magistral toda a habilidade do Capitão América em combate, além de criar todo aquele clima de “conspiração” ao redor do herói.

A grande consequência, além do retorno de Bucky Barnes como o Soldado Invernal é a queda da SHIELD, que é revelada como estando totalmente dominada pela HIDRA, que sobrevive como uma organização clandestina. Este último elemento deve ser central à trama de Vingadores – Era de Ultron, filme que estreia em 2015.

E já sabemos que o terceiro filme solo do personagem se chamará Capitão América – Guerra Civil e irá adaptar esta famosa história à telona.

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